Maluco Beleza sabia que a conversa devia ser séria, pois a mãe, quando o chamava pelo nome e não pelo apelido, a coisa era pra valer. Encaminhou-se para ela, alisando a barba, pediu com jeitinho: “Me chama de Maluco Beleza, vai” e sentou-se no chão, colocando a cabeça no colo da dona Marieta, que não resistiu e lhe fez um cafuné.
Feito o carinho, ela passou a lhe explicar da necessidade de ele arranjar colocação numa empresa. Aquela situação de uma coisa aqui, outra lá, recebe, gasta, não tinha futuro. “Tu fica pra lá e pra cá, zanzando; quando aparece algum servicinho, tu faz e, depois, fica um tempão sem nada. O melhor é uma coisa contínua”, dizia a mãe.
Maluco Beleza assentiu e dona Marieta falou-lhe da vaga de garçom no restaurante, onde trabalhava o seu primo, que daria uma força, recomendando-o junto ao patrão.
Maluco Beleza, rapazinho obediente, concordou com a mãe, que aproveitou para lhe pedir que cuidasse do seu jeito de apelidar os outros. O garoto, como ninguém, tinha um vício incurável de colocar alcunha nas pessoas. Onde quer que estivesse, todos que cruzassem pelo seu caminho eram apelidados. Era Mosquito, Espetadinho, Queixo Duro, Pescocinho e, quando já tinha utilizado o apelido e não houvesse outro mais adequado, era Ratinho 3, Pelé 36, Clodovil 9, Xuxa 12. Muita gente já fora apelidada pelo Maluco Beleza (ele próprio se apelidou), mas essa mania o meteu em muitas enrascadas.
Começou o Maluco Beleza no restaurante e, no segundo dia, do cozinheiro ao dono, todos já tinham seus apelidos. Aos poucos, foi falando o de um para o outro e arranjou umas encrencas. A faxineira não gostou nada de ser chamada Sebosa e se queixou com o marido que foi tirar satisfação com o Maluco Beleza.
O fulano - que foi apelidado pelo Maluco Beleza de Touro Bravo, em pensamento, claro – chegou esbravejando e afim de partir para a briga. Conseguiram amenizar, com a promessa do Maluco Beleza de que iria parar com a história. Por sorte, o patrão não estava e o gerente ainda não sabia que já ganhara o apelido de Bolão 131. Repreendeu-o e ficou por isso mesmo.
Os pedidos do Maluco Beleza para a copa eram passados assim: “Espoleta, manda um filé à milanesa para o Cebolinha da mesa 34; Pelezinho, tira um chope para o Cabeça de Mola; um suco de abacaxi com gelo para a Xuxa 17; mais uma coca para o Pimentinha 3 da mesa 21."
O Maluco Beleza apelidava não só os seus clientes, mas também os dos outros. Olhava por todo o restaurante e, em um ou outro cliente, demorava um pouco mais o olhar, procurando o apelido mais apropriado. Levava umas encaradas de alguns e procurava disfarçar.
Mas, foi num dia em que o Maluco Beleza falou para o outro garçom: “O Gigante é meu, deixa que eu atendo”, que a coisa pegou feio. Foi um descuido; o cliente tinha um ouvido apurado. O Gigante pegou o Maluco Beleza pelo pescoço e levantou-o a um palmo do chão.
Concordo com o Maluco Beleza, o homem era um gigante mesmo. O proprietário interferiu, e o homem, cliente antigo, em consideração ao dono soltou e empurrou o Maluco Beleza que caiu de pernas para cima.
No chão, gesticulando, gritava: “Não esquenta, não, seu Testão, que eu arrebento ele na capoeira."
Levou um sopapo por conta do Testão, e o patrão, esquecido da sua posição, chamou o Gigante para ajudar a enxotá-lo do restaurante.
Lá fora, voz miúda, Maluco Beleza pedia ao outro garçom: “Me traz um copo d’água com açúcar, Pirilampo”.
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O escritor LAÉ DE SOUZA é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua vivo, ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infanto-juvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.
Fonte:
Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018.

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