- Nasci na biblioteca de um palácio - começou ela. - Eu e meus parentes não conhecemos o luxo de entrar em uma sala de jantar, e menos ainda em uma despensa. Só vi uma cozinha uma única vez, nesta viagem que fiz, e agora vejo esta. É certo que na biblioteca sofremos muitas privações, e até fome passávamos de vez em quando, mas também adquirimos muitos conhecimentos. A notícia da recompensa real, oferecida a quem fizesse a sopa de espeto, chegou até lá. Minha avó foi logo examinar um manuscrito; ela não sabia ler, é claro, mas ouvira alguém ler nele esta passagem: "Um poeta é capaz de fazer sopa até de um espeto".
" Perguntou-me se eu sabia fazer versos. Disse-lhe que era completamente ignorante nesse assunto; mas a avó insistiu, dizendo que eu devia procurar os meios de ficar poetisa. Perguntei-lhe como havia de consegui-lo, pois era tão difícil, para mim aprender a ser poetisa como a fazer a sopa. Mas minha avó tinha ouvido ler muitos livros, e explicou-me que três coisas eram imprescindíveis: inteligência, imaginação e sentimento. E terminou assim: " Se conseguires meter essas três coisas no bestunto, serás poetisa, e então essa história de sopa de espeto te virá naturalmente, por si mesma.
" E assim foi que saí a correr mundo, para ser poetisa. E dirigi-me para o lado do oeste.
" Sabia que dos três requisitos a inteligência era considerada como o mais importante. Sim, mas onde encontrá-la? "Dirige-te à formiga e aprenderás sabedoria" - disse o grande rei dos judeus. Aprendera isso na biblioteca. E não descansei enquanto não vi um grande formigueiro. Ali chegada, parei à espreita, para me apoderar da sabedoria..
"Constituem as formigas uma raça muito respeitável. Compreendem as coisas sem dificuldade nenhuma. Resolvem tudo com precisão matemática - e todas as questões ficam bem esclarecidas." Trabalhar e pôr ovos - dizem elas - é cuidar da vida presente e preparar o futuro". E o que dizem, executam. Dividem-se em categorias, conforme a aptidão de cada uma para trabalhos delicados ou grosseiros. São todas numeradas, de acordo com a importância na comunidade, e a rainha tem um número um. Só o que a rainha pensa é sensato, pois que resume em si toda a sabedoria - e era muito importante para mim aprender com ela. Mas a rainha falava com tamanha profundidade e acerto, que a mim me parecia tolice tudo quanto dizia.
" Declarava, por exemplo, que o seu formigueiro era a coisa mais elevada do mundo - e , no entanto, ali perto havia uma árvore evidentemente mais alta. E tão mais alta que não era possível negá-lo - por consequência isso jamais se mencionava. Ora, um dia, já ao escurecer, uma formiga extraviou-se e subiu ainda assim aonde nenhuma outra chegara jamais. Quando voltou e contou que descobrira uma coisa mais alta do que o próprio formigueiro, as outras formigas consideraram essas palavra como insultuosas, e ela foi amordaçada e condenada a prisão perpétua. Alguns dias depois outra formiga subiu à mesma árvore e fez a mesma descoberta; mas essa falou do caso com muitas reticências prudentes, com certo receio mesmo. Era, além disso, uma formiga da aristocracia - uma das que se encarregavam de tarefas limpas. Deram-lhe, pois inteiro crédito, e quando ela morreu erigiram-lhe um monumento de casca de ovo, em sinal de admiração, e de apreço ao seu amor pela ciência.
" Vi muitas vezes as formigas andando daqui para ali com seus ovos ás costas. Uma delas um dia deixou cair o que levava, e, por mais esforços que fizesse, não conseguia erguê-lo de novo. Acudiram então duas outras; mas quando viram que iam quase deixando cair os seus fardos naquela tentativa, desistiram de lhe prestar auxílio, porque a caridade bem entendida começa por casa. A rainha declarou que ambas, neste caso, tinham dado prova não só de coração, como de inteligência.
" - Essas duas virtudes - explicou ela - colocam as formigas acima de todos os outros seres racionais. Mas a inteligência é e será sempre o mais importante atributo, e eu o possuo em maior grau que qualquer outra criatura.
"Ao dizer isso, ergueu-se sobre as patas traseiras, para que todos vissem bem que era a rainha que estava falando. Sim, eu vi bem quem era ela e estirei a língua: comi-a. "Dirige-te à formiga e aprenderás a sabedoria". Pois bem: eu já tinha engolido a rainha.
"Aproximei-me então da árvore que já me referi. Era um carvalho de tronco enorme e copa vastíssima e frondosa. sabia que ali devia albergar-se um desses espíritos viventes a que chamam dríades, que nascem com a árvore e com ela morrem. Ouvira dizer isso na biblioteca, e agora via diante de mim uma árvore dessas, com um desses espíritos. A ninfa estremeceu, apavorada, ao ver-me tão perto, porque, como outras mulheres tem um medo pavoroso de ratos. Contudo o seu receio tinha mais fundamento, pois sabia que eu podia roer a casca da árvore de que dependia sua vida. Falei-lhe em tom cordial e palavras amistosas, e disse-lhe que nada a tinha a recear.
"Segurou-me então nas mãos delicadas, e, quando a inteirei do motivo de minha viagem pelo vasto mundo, disse-me que talvez naquela mesma noite me fosse dado encontrar uma ou duas das virtudes que procurava com tanto empenho. Contou-me que Fantásio era um de seus bons amigos, belo como o deus do amor, e que muitas vezes vinha repousar na copa da árvore, cujos galhos ciciava, então mais suavemente sobre as suas cabeças. Chamavam-lhe a sua dríade, e à árvore também chamava sua, porque queria bem aquele esplêndido carvalho. Gostava de suas riquezas, que desciam tão profundamente, tão firmemente, terra dentro: e do tronco que se erguia tão alto que podia sentir a neve que cai, e o vento que sopra, e o sol ardente, como devem se sentidos - em toda a sua plenitude.
" - Sim - continuou a dríade - os passarinhos que pousam na copa contam coisas de terras distantes. E a cegonha que fez ninho no único galho seco, dando assim à árvore um caráter pitoresco, fala-me da terra das pirâmides. Fantásio gosta de ouvir tudo isso, mas ainda não lhe basta, e eu tenho de lhe contar a minha vida na floresta, desde o tempo em que eu era pequenina, e a árvore tão delgadinha que uma urtiga bastava para lhe dar sombra - até os dias de agora, em que o carvalho alcançou esta robustez e força. Senta-te debaixo daquela moita de tomilho, e presta atenção. Quando arrancar uma pena, uma peninha pequenina. Apanha-a. Um poeta não pode receber maior dom. E é isso justamente que precisas.
" Quando veio o Fantásio a pena lhe foi arrancada, e eu apanhei. mergulhei-a na água, para amolecê-la. Pois assim mesmo não me custou pouco engoli-la! Mas afinal conseguiu mordiscá-la e roê-la. Não! não á nada fácil a gente ficar poetisa, tendo de se empanturrar com tanta coisa!
" Tinha eu pois agora inteligência e imaginação cá dentro; por elas soube que a terceira virtude se encontrava na biblioteca. Porque um grande homem disse e escreveu que há romances no mundo que tem o único propósito de aliviar as pessoas de suas lágrima supérfluas. Romances que fazem o papel de esponjas -absorvem as emoções. Vieram-me à memória alguns que vira, e que sempre me pareceram especialmente apetitosos de tão velhos, e tão manuseados, e estavam completamente engordurados. Deviam ter absolvido quantidade incalculável de lágrimas! Voltei à biblioteca e devorei uma novela inteira - quero dizer, aquela parte macia e substancial: a casaca, isto é, a encadernação, não comi. Digerida aquela novela, e mais outra que também engoli, senti uma agitação interior. Devorei ainda terceira novela, e então...sim! Era poetisa! Foi o que disse comigo mesma, e o que repeti a quem me quis ouvir. Tinha enxaqueca, sentia dores no estômago...nem me lembro mais de quanta dores diferentes senti então.
" Fiquei-me a pensar em todas as histórias que a gente pode fazer para aplicar a um espeto. Vieram-me à lembrança muitas espécies da varas - que afinal o espeto não passa de uma vara, seja de pau ou de ferro. Que magnífica inteligência do homem que engoliu um espeto. Daquele outro que tirava da boca uma varetinha branca e ficavam logo invisíveis - ele e a vareta. Lembrei-me também das varetas de guarda-sol; das espingardas; e também nos pergaminhos de sapateiro, que são, por sinal, de pau. E afinal me lembrei de que " em casa de ferreiro o espeto é de pau". Todas as minhas ideias iam sempre acabar num espeto. É que quando a gente é poetisa - como eu sou, porque trabalhei como louca para consegui-lo - pode virar tudo isso em assuntos de poemas. E assim cada dia poderei distrair Vossa Majestade com um espeto diferente, isto é, com uma história diferente. Sim - esta é a minha sopa".
- Vamos ouvir o que diz a terceira - ordenou o rei.
Ouviu-se então um ruído, vindo da porta da cozinha.
- Cuic, cuic!
E a quarta ratinha - aquela que era dada por morta - entrou como uma flecha, chiando, e deitou ao chão o espeto coberto de crepe. Correra a noite e dia, e quando viu que se arriscava a chegar tarde, viajou até num trem de carga. Mesmo assim, quase que não chegou a tempo. Abriu caminho aos encontrões, e apresentou-se, sem muita esperança de ser bem sucedida. Perdera o espeto, mas a língua não perdera, pois tomou imediatamente a palavra, como se todos estivessem ali somente para ouvi-la - e ela e a mais ninguém - e como se nada mais tivesse importância na vida. Falou imediatamente, e disse tudo o que tinha para dizer. Tão repentina, fora a sua aparição, que ninguém teve tempo de detê-la, para que esperasse sua vez.
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Biografia do autor na parte 3, final
Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. Disponível em Domínio Público

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