segunda-feira, 13 de julho de 2026

Coelho Neto (Selemnus)


Pela esmeralda das campinas úmidas, soprando a avena suave, o meigo pastor Selemnus passeava o seu rebanho de ovelhas e de cabras.

Argyra, ninfa dos cabelos de ouro, mal o descobria, sentado entre os ramais de mirto verde, deixava a espuma jônica e, célere, a sorrir, saltando pelas pontas dos penedos, vinha cair nos braços desejados.

Os hirsutos tritões glaucos, de ciúme, punham-se a soprar nos búzios torsos, arrepelavam o mar espadanando vagalhões medonhos para ver se os amantes assustavam-se; os dois, porém, unidos peito a peito, mal o sussurro dos lábios percebiam.

As náiades, à noite, à sabida da lua, apareciam em bando à flor das vagas, cantando para tentar o namorado e Selemnus pensava unicamente na bela ninfa dos cabelos de ouro.

Um dia, Argyra descobriu rugas no rosto do pastor e fios brancos na cabeleira escura. Riu de cima da penha e, sem beijá-lo, de novo mergulhou no mar inquieto.

Selemnus debalde foi à praia vê-la, chorou debalde; à toda onda que subia à areia confiava um segredo para Argyra. E a ninfa, cavalgando o dorso verde e altivo de uma vaga, fez-se ao largo, rindo do pastor desventurado.

Dias e noites, entre as penedias, Selemnus soluçou pedindo a morte até que os deuses se compadeceram.

Vênus, porém, a deusa protetora dos amores, para tornar eterna a triste história, transformou o pastor em rio — mas, apesar de transformado, o amante não esqueceu a pérfida e, fugindo por entre os salgueirais, o nome Argyra soluçava sempre.

Foi preciso que a deusa o socorresse dando-lhe como remédio o esquecimento.

E nunca mais Selemnus suspirou sentido — pôs-se a correr silenciosamente através das pradarias de esmeralda— matando a sede às brancas ovelhinhas.

As vítimas do amor, os desgraçados, quando a paixão minava-lhes a vida, para esquecerem a causa dos tormentos, mergulhavam nas águas de Selemnus. E os que levavam nomes dentro da alma nem saudade traziam de tais nomes.

Eu vivia feliz pastoreando as minhas ilusões — sem martírios, sem mágoas, sem desgostos. Apareceste e tudo esqueci porque teu amor encheu-me o coração. A minha vida vinha de teus olhos, o teu prazer o meu prazer criava e nunca descobri pranto em teus olhos sem que nos meus não visses mais copioso. Deixaste-me sem luz.

Meu coração morreu e transformou-se em lutuoso rio de agonias. Corre pelo meu rosto, como por um vale, esse fio de lágrimas ardentes — é o meu amor, é toda a minha vida que se esvai nesse pranto.

Falta-me o esquecimento! Falta-me o esquecimento!

Mas para isso é preciso que o meu coração desmanche-se e que eu fique sem a saudade que, no correr das lágrimas, balbucia para a minha alma debruçada sobre o meu coração, o teu nome, como Selemnus, o rio namorado, dizia aos salgueirais o doce nome da formosa Argyra.
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HENRIQUE MAXIMIANO COELHO NETO nasceu em Caxias/MA, em 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934 (70 anos). Conhecido como o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", ele foi um dos intelectuais mais lidos, influentes e prolíficos de sua época. Viveu a primeira infância no Maranhão. Mudou-se com a família em 1870 para o Rio de Janeiro, a Capital Federal na época. Morou nela na maior parte da vida, onde estudou e consolidou sua trajetória profissional. Residiu temporariamente em São Paulo e Recife durante a juventude para cursar as faculdades de Direito. Lecionou História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes. Também ensinou Literatura no Colégio Pedro II e História do Teatro na Escola de Arte Dramática. Exerceu cargos na administração pública, incluindo o de secretário de Governo do Estado do Rio de Janeiro. Foi eleito deputado federal pelo estado do Maranhão por três legislaturas. Atuou intensamente na imprensa carioca. Escreveu crônicas e artigos de opinião para veículos como a Gazeta da Tarde e A Notícia.
Iniciou a carreira engajado nas causas sociais, lutando ativamente pelo fim da escravidão ao lado de amigos como Olavo Bilac. Transitou por múltiplas correntes da época, misturando elementos do Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo, situando-se no que a crítica classifica como Pré-Modernismo. Foi um verdadeiro fenômeno de público no Brasil e em Portugal no início do século XX. Chegou a rivalizar com Machado de Assis em número de leitores. Foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou cadeira e exerceu a presidência no ano de 1926. Foi homenageado e consagrado como patrono na Academia Maranhense de Letras. Em sua época, o maior reconhecimento era dado pelo público e por títulos honoríficos. Recebeu o título informal, porém oficializado pelos intelectuais, de "Príncipe dos Prosadores". Em 1933, alcançou o marco histórico de ser o primeiro escritor brasileiro oficialmente indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. O autor teve uma produção monumental, publicando cerca de 130 livros e centenas de contos e crônicas, sendo entre muitos: A Capital Federal (1893); Miragem (1895); Sertão (1896); O Morto (1898); Turbilhão (1906); Rei Negro (1914), etc.
Coelho Neto foi o pilar da literatura institucional da República Velha. Sua importância reside em sua riqueza vocabular insuperável e na capacidade de documentar a transição social do Brasil imperial para o republicano. Ele também entrou para a história cultural por ter cunhado a expressão "Cidade Maravilhosa" para se referir ao Rio de Janeiro. Embora tenha sofrido forte rejeição dos modernistas na Semana de Arte de 1922, que criticavam seu estilo rebuscado e acadêmico, sua vasta produção é fundamental para compreender o gosto estético e a transição cultural brasileira do início do século XX.

Fontes:
Coelho Neto. Rapsódias. Publicado originalmente em 1891. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Universidade Federal do Maranhão, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Ebiografia, Nossos Vizinhos Ilustres, etc.