A vida urbana é um imenso tabuleiro de xadrez onde o cidadão comum joga sempre com as pedras sem o rei. Como um observador profissional das miudezas da existência — cargo que exerço voluntariamente da minha janela no quarto andar ou de uma mesa de café estrategicamente posicionada na calçada —, cheguei à conclusão de que o otimismo é apenas uma falta grave de informação. E nada sintetiza melhor a trágica comédia humana do que a relação de um homem com o seu guarda-chuva.
Era uma terça-feira de céu cor de chumbo derretido. O ar pesava como uma cobrança de IPTU atrasada. Da minha mesa, avistei o nosso protagonista. Ele vestia um terno cinza-grafite impecável, sapatos que refletiam a luz frouxa dos postes e carregava, com a dignidade de um lorde britânico, um guarda-chuva imponente. Não era um desses modelinhos portáteis e vagabundos de camelô, que quebram com o sopro de uma criança asmática. Era um exemplar de cabo de madeira envernizada, tecido impermeável duplo e hastes de aço que pareciam projetadas pela NASA para resistir a furacões de categoria cinco. Um monumento à prevenção.
O homem caminhava com o peito estufado de quem triunfou sobre a meteorologia. Ele olhava para os lados, contemplando os reles mortais desprotegidos com uma indisfarçável ponta de superioridade intelectual. "Vocês vão se molhar", dizia o seu andar arrogante, "mas eu previ o apocalipse".
Foi então que o universo, que tem um senso de humor peculiar e refinadamente cruel, decidiu agir.
Primeiro ato: as nuvens finalmente desabaram. Mas não foi uma chuva comum. Foi um dilúvio bíblico concentrado, daqueles que transformam bueiros em fontes termais e asfalto em corredeiras. O homem, com a precisão de um espadachim, sacou seu portentoso guarda-chuva e o abriu com um estalo seco e triunfal. Ele estava seguro. O terno continuava seco. A dignidade permanecia intacta. Ele sorriu, um meio-sorriso amargo de quem sabe que a prudência é a única virtude que resta na metrópole.
Segundo ato: o vento mudou de ideia. Na selva de concreto, o vento não sopra em linha reta; ele faz curvas, ganha velocidade entre os prédios e cria mini-tufões geométricos. Uma rajada súbita, vinda de baixo para cima — violando todas as leis da física e do bom senso, atingiu o guarda-chuva por dentro.
O que se seguiu foi uma dança grotesca. O objeto imponente virou instantaneamente do avesso, transformando-se em uma bacia de pano inútil, apontando para o céu como um receptor de parabólica quebrado. O homem foi arrastado dois passos para trás. Sua expressão de lorde britânico desmoronou, substituída pelo pânico de quem vê o próprio escudo de armas se rebelar contra o mestre.
A partir dali, a melancolia da cena atingiu níveis poéticos. Ele tentou, com as duas mãos e o uso do próprio joelho, desvirar o monstro de metal. Enquanto lutava contra o nylon rebelde, a água da chuva acumulada na calha do prédio ao lado caiu de uma vez só, bem no seu terno cinza. Em menos de trinta segundos, o homem mais preparado da cidade estava mais ensopado do que os pedestres que corriam sem lenço e sem documento. Seus sapatos caros agora emitiam um som de esponja velha a cada passo: flesch, flesch, flesch.
A maior tragédia da vida urbana não é a falta de sorte; é o esforço monumental que fazemos para tentar manter o controle sobre o caos. Aquele homem gastou dinheiro, carregou peso o dia todo e alimentou o orgulho de estar protegido, apenas para que a natureza provasse que um pedaço de pano e algumas hastes de ferro são totalmente irrelevantes diante do mau humor do cosmos.
O desfecho foi de uma beleza plástica irretocável. Percebendo a derrota completa, o homem parou de lutar. Aceitou o batismo forçado da cidade. Com os cabelos colados na testa e a água escorrendo pelo paletó arruinado, ele caminhou até a lixeira mais próxima e, sem olhar para trás, depositou o cadáver retorcido do seu guarda-chuva de luxo. Continuou seu caminho andando devagar, sob o temporal, agora liberto da ilusão da segurança.
Olhei para o fundo da minha xícara de café, pensando que todos nós somos, de alguma forma, aquele homem. Passamos a vida carregando proteções pesadas, planejando defesas contra o futuro, orgulhosos da nossa suposta esperteza, até que a vida vira o nosso guarda-chuva do avesso e nos obriga a caminhar encharcados até o próximo compromisso.
Paguei a conta, abri a minha modesta jaqueta de plástico e saí para a chuva, rindo baixinho da nossa comovente e ridícula fragilidade.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras
