Ao menos você é escritor, não faltará histórias pra contar, disse ela enquanto tirava o automóvel da garagem. Aquelas palavras chegaram a meus ouvidos carregadas de ruídos, e ainda ressoam em minha mente. Deveria ter sido mais um encontro, de tantos outros, aquecidos por aquele transbordante sentimento, inexplicável ao tempo, senhor da razão, mas servo da paixão insana. Foi o último, interrompido pela filha que retornou mais cedo para casa, sem aviso. Ficou apenas o sabor do beijo, o último de nossas bocas. Depois da fuga pela porta da cozinha, com os cuidados de um agente da CIA ao fechar a porta do carro sem bater, percorreu-me o corpo a frieza de um ladrão, logo transferida para os suores a me denunciar. Desci do carro a duas quadras da sua casa, e permaneci parado no meio da rua, não acreditando nos fatos, com o olhar imóvel a acompanhar a imagem do veículo virando a esquina, na direção do colégio onde lecionava.
Nos conhecemos pelas redes sociais. Depois, uma conversa na biblioteca da faculdade. Meus olhos, na verdade, miraram os livros das prateleiras, fugindo da leitura daquele texto que jorrava pelas retinas que me fitavam. Vieram outros momentos, conversas por aplicativos, assuntos variados, um café no shopping, um encontro próximo à rodovia e o primeiro beijo para selar a clandestinidade. Iniciativa dela, sem direito a reação, senão entregar-me à boca que me buscava com sede. Seu sabor preencheu-me, não havia mais espaços em mim. Talvez esperasse, naquele dia, degustá-la. Mas voltei embriagado para casa.
As semanas que se seguiram, os meses que vieram, os dias vividos entre a primeira e última embriaguez, compõem hoje um tempo somente comparável a uma pausa musical. É como se a vida, naquele módulo, tivesse fugido para outra saudade, deixando-me livre para escrever um passado presente para sempre.
Vou me separar, ele saiu de casa, escreveu-me numa noite, sem se alongar. E tudo o que meu coração me disse, embevecido pelo amor que sequer havia cantarolado, se transfere para páginas e páginas de um manuscrito comestível, como se a existência da vida dependesse unicamente do pronunciamento das palavras surdas, servido na mesa do café. Confusão.
O que houve? Como assim? Por que? O que vai fazer? E nós? Perguntas que deveriam ter mastigadas, mascadas, engolidas sem ruminar. Ali, hoje sei, em cada ponto de interrogação está a curva da minha insensatez, que me fez perdê-la para sempre. Nossa condição de vida não nos permitia, naquele momento, a revogação dos sigilos. Mas foi neste segredo que ela buscou o colo por tantas vezes oferecido, agora ocupado pelo medo.
Naquela noite, quando retornava para meu veículo, estacionado próximo à casa, olhei para seu jardim, o portão de entrada, as luzes acesas, vida habitando a sala, e a sensação de nunca mais.
Hoje realizo seu pedido. Ao transcrever cicatrizes, sinto-me escritor e componho este texto para seus olhos, ainda que ela, neste momento, imite meu gesto e mire seu olhar em outro livro, de outra prateleira, outra biblioteca.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
GIUSEPPE CAONETTO é o nome artístico do poeta, escritor e editor José A. Cauneto, uma expressiva voz contemporânea da poesia e da difusão literária no estado do Paraná. Ele possui uma sólida produção voltada principalmente à poesia lírica, à tradição dos sonetos e à edição de novos autores por meio de seu próprio selo editorial. Nasceu em Tamboara/PR, em 1962, embora tenha o seu registro civil na vizinha cidade de Paranavaí. Viveu parte de sua adolescência na zona rural do estado de Mato Grosso do Sul, onde estudou em escola pública. Posteriormente, retornou para o Paraná e fixou residência definitiva no município de Paranavaí, onde atua ativamente na cena cultural. Construiu uma carreira de quase 37 anos na Justiça do Trabalho (TRT da 9ª Região), tendo ingressado em 1986. Aposentou-se em 2023. Ao longo desse período, exerceu cargos importantes de liderança, atuando como Diretor de Secretaria nas Varas do Trabalho de Jacarezinho (1994–2001) e de Paranavaí (2006–2015). É graduado em Letras (1989) e especialista em Língua Portuguesa (1992) pela Fafipa/Unespar. Também obteve o título de bacharel em Direito em 1997. No campo da escrita criativa, concluiu o Curso Livre de Formação de Escritores pela Metamorfose Cursos (2022).
A escrita despertou cedo em sua vida, por volta de 1976 na zona rural, inspirada por poemas contidos em livros didáticos. No entanto, sua produção poética adormeceu durante os anos em que priorizou a carreira e os estudos acadêmicos. O retorno definitivo à literatura aconteceu em 1999, impulsionado pelo surgimento da internet e a conexão com comunidades virtuais de escritores. Após sua aposentadoria em 2023, fundou a Doarte Edições, editora voltada à publicação e promoção de obras poéticas e literárias no circuito paranaense.
Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí (ALAP); membro do Centro de Letras do Paraná. Foi selecionado e integrou o Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE) em 2023, coordenado pela Casa das Rosas de São Paulo. Foi um dos autores premiados na categoria Poesia durante a 54ª edição do aclamado Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP) em 2019, um dos festivais literários mais tradicionais e longevos do sul do país.
Livros Publicados: Santo Rosário: um tesouro mariano (2010) — Obra voltada à tradição religiosa; Para que os olhos falem: poemas ternos (2012); Doarte (2016) — Livro de poemas que mais tarde inspiraria o nome de sua editora; Trilhas sazonais: versos liturgos (2020) — Livro em coautoria com a escritora Lilia Souza; O livro do amor: o amor diluído em trinta poemas (2023); Nasci em 62: sessenta e dois sonetos e um sonetilho (2024) — Obra em celebração à sua trajetória de vida, explorando a estrutura clássica dos sonetos; Tantum: apenas tanto (2025) — Reunião de poemas maduros escritos ao longo de uma década.
A contribuição de Caonetto reside na interiorização da produção literária e no fortalecimento do mercado editorial independente fora das grandes capitais brasileiras. Ao unir o rigor formal da poesia clássica — como visto na escrita de sonetos — a uma linguagem sensível sobre o cotidiano, o afeto e a passagem do tempo, ele ajuda a consolidar o norte e o noroeste do Paraná como polos produtores de cultura de alto nível. Além disso, por meio de palestras, rodas de conversa em universidades e da atuação na Doarte Edições, o escritor cumpre um papel fundamental de agente cultural, abrindo portas para novos poetas e estimulando o hábito da leitura nas novas gerações.
Fonte;
Biografia = Doarte, Site Giuseppe Caonetto, Ana Justra Federal, etc.
