quinta-feira, 30 de julho de 2026

Hans Christian Andersen (A sopa de espeto) Parte 3, final


FALA A QUARTA RATINHA, ANTES DA TERCEIRA

- Dirigi-me imediatamente para uma grande capital, cujo nome não me ocorre agora: minha memória é péssima para nomes. Levaram-me da estação, entre alguns gêneros confiscados, para o tribunal. Dali escapei, e fui ter à casa do carcereiro. Falando ele dos presos, referiu-se especialmente a um, que tinha dito palavras imprudentes. Palavra puxa palavra; e atrás daquelas outras vieram, que foram ditas, escritas e relatadas.

" - Afinal - terminou ele - tudo isso não é mais que sopa de espeto; mas é uma sopa que lhe pode custar a cabeça!

" Aquilo despertou em mim um grande  interesse pelo prisioneiro, e, aproveitando a primeira oportunidade, fui ter à sua cela. Porque há sempre um buraco de rato atrás de cada porta fechada. Era um homem muito pálido; tinha a barba crescida e os olhos grandes e brilhantes. A lâmpada que ardia na cela deitava muito fumo, mas as paredes eram já tão enegrecidas, que a fuligem não podia aumentar aquele pretume. O prisioneiro matava o tempo traçando desenhos e versos em branco naquele fundo negro. Não os li, mas creio que ele se aborrecia na cela, porque me recebeu muito bem. Atraiu-me com migalhas, e assobios, e palavras amáveis. Mostrou-se muito contente com a minha companhia, e acabou por me inspirar confiança: tornamo-nos amigos. Repartia comigo seu pão e sua ração de água, tratava-me a queijo e salsicha, de sorte que eu tinha vida farta. 

“Devo dizer, contudo, que foi principalmente a sua boa companhia que me reteve. Consentia que eu lhe passeasse pelas mãos, pelos braços, entrasse dentro de suas mangas, e me escondesse na sua barba. Chamava-me sua amiguinha, e eu gostava realmente dele, pois a amizade é uma coisa que deve ser recíproca. Esqueci-me inteiramente da missão que me levara a correr o vasto mundo, e cheguei a esquecer o meu espeto, que deve estar ainda lá, cravado em uma fenda do chão. Queria ficar com o prisioneiro, porque, se me retirasse, o pobre ficaria sem um único amigo no mundo. E como isso não me parecia direito, fiquei. Fiquei, mas quem partiu foi ele. Estava muito triste a última vez que me falou. Deu-me o dobro do pão e do queijo costumado, e ao retirar-se atirou-me um beijo. Depois saiu e não mais voltou. Não sei o que foi feito dele.

 " Sopa de espeto, dissera o carcereiro, pois fui procurá-lo. Mas aquele não era homem em quem a gente se fie. Tomou-me nas mãos, com muita gentileza, sim, mas para me meter em uma gaiola giratória, máquina infernal, em que a gente corre, corre, sempre, e quanto mais corre menos avança. E, além de tudo, ainda fica sendo a risota de todo o mundo.

" A neta do carcereiro era uma menina encantadora; tinha o cabelo feito cachos de ouro, os olhos brilhantes de alegria, e uma boquinha risonha. Quando me viu naquela horrenda prisão, disso logo: " Coitadinho do ratinho" ! E torceu o trinco da gaiola. Saltei para o peitoril da janela, e dali para a goteira. Livre! Livre! Não pensava me mais nada, e até esqueci do objetivo da minha viagem.

"Já ia escurecendo. Instalei-me em uma velha torre de uma sentinela e de uma coruja. Não confiava em  nenhum deles, e menos ainda na coruja que no outro. É que as corujas  são como os gatos: tem o péssimo vício de comer ratos. Mas é verdade que a gente às vezes se engana; e foi o que me aconteceu, nesse caso; aquela coruja era uma senhora muito bondosa e muito instruída também. Sabia mais que o guarda, e tanto como eu mesma. Os filhos armavam um grande escarcéu por qualquer ninharia; então a mãe dizia: " Ora vejam lá se já vão fazer disto uma sopa de espeto!" E era tão extremosa com a ninhada, que nunca dizia palavras mais ásperas do que essas, nos seus ralhos.

" Esses modos me tranquilizaram a tal ponto, que da fresta onde me ocultara lhe dirigi um cumprimento " Cuic, cuic!" Agradou-lhe essa prova de confiança, e prometeu tomar-me sob a sua proteção: não permitiria que animal algum me fizesse mal, e me pouparia alguma coisa para o inverno, tempo em que escasseiam os mantimentos.

'Era dama entendida em tudo. Disse-me que o guarda não sabia mais nada senão tocar a buzina que lhe pendia do cinturão. Mas que estava tão cheio de si com aquela habilidade, que se julgava uma coruja de torre. É rematou, dizendo:

'"- Quer dar-se muita importância, mas não tem nenhuma, é o que é. Aquilo não passa de sopa de espeto.
                                           
" Pedi-lhe, então que me desse a receita dessa sopa, e ela me explicou:

" - Sopa de espeto é uma expressão que os humanos usam, como " água de barrela", e outras muitas. Cada um lhe dá a interpretação que bem entende. Cada um imagina também que a sua é a melhor, a exata; mas no fundo essa locução nada significa.

" - Nada? - guinchei eu. - Que pena! Nem sempre a verdade é agradável, não! Mas " a verdade acima de tudo!"

" Ora, a velha coruja também era dessa opinião. E, pensando no caso, vi claramente que se eu voltasse trazendo aquilo que " está acima de tudo", traria alguma coisa muito melhor do que sopa de espeto. Dei-me pressa pois, em voltar, para chegar aqui a tempo, trazendo a melhor de todas as coisas, alguma coisa que está acima de tudo o mais, e que é a verdade. Nós, os ratos, somos uma raça muito ilustrada, e o nosso rei é o mais ilustrado de todos nós. Ele é capaz de me fazer rainha, por amor da verdade".

Mas nesse momento a ratinha que ainda não tinha dito o que sabia, brandou:

- Tua verdade é mentira! Eu sei preparar a sopa e vou prová-lo!"
 
A PREPARAÇÃO DA SOPA
                                                    
   - Pois eu cá não andei viajando - informou a terceira ratinha. - Fiquei em casa, que era o que mais convinha. Não havia necessidade de viajar, visto que temos aqui tudo quanto é preciso. Portanto, fiquei aqui mesmo. Não fui aprender o que sei de criaturas fabulosas, nem as engoli; tão pouco não pedi lições à coruja. Descobri tudo em minhas próprias meditações. Vamos ! Ponham sobre o fogão um caldeirão bem cheio d'água... Isso! Agora, mais lenha!  Aticem o fogo, até que a água ferva...É preciso que esteja fervendo! Agora - o espeto para dentro do caldeirão! Pronto! E agora - quer o nosso rei de ter a bondade de se dignar meter a cauda na água fervendo, e agitá-la com toda a força? Quanto mais agitar o rabo, mais saborosa ficará a sopa. Não se gasta nada... não é preciso mais ingrediente algum: é só mexer, e mexer.

- E não pode essa sopa ser mexida por outra pessoa? - indagou o rei.

- Não: só o rabo do rei tem a virtude de dar o toque necessário.

Fervia a água em borbotões. O rei dos ratos foi-se chegando para o tacho, com muito medo, porque aquilo lhe parecia perigoso; estendeu o rabo, como fazem os ratos na queijeira, para desnatar uma tigela de leite, lambendo depois com delícia a nata que ficou pegada á cauda. Mas assim que sentiu o arder do bafo, deu um salto e foi parar longe. E declarou:

- É claro que serás a rainha. Quanto á sopa... pode ficar para oferecemos aos convivas nas nossas bodas de ouro. Assim meus vassalos terão um prazer duradouro, com essa expectativa.

E o casamento celebrou-se, no mesmo dia.
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HANS CHRISTIAN ANDERSEN foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. Disponível em Domínio Público

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