terça-feira, 14 de julho de 2026

José Feldman (O Mistério das Lágrimas)


Dona Marli estava na sua cozinha, avental xadrez sujo de farinha, faca afiada na mão e uma montanha de legumes na pia. A salada de domingo ia ser grande: alface, tomate, pepino, pimentão, cebola, azeitonas… — porque “não tem salada que preste sem bastante ingredientes”, como ela mesma dizia.
 
Começou a picar. Tchac, tchac, tchac. E logo seus olhos começaram a arder, a escorrer, mas ela nem ligou: “é assim mesmo, coisa normal”, pensou, enxugando o rosto na manga do avental.
 
A primeira a chegar foi sua vizinha Dona Roseli, que entrou sem bater, como sempre:

— Bom dia, Marli! Vim contar que… — parou de repente, olhou para o nada, e de repente seus olhos se encheram d’água. A voz ficou toda embargada: — Ah, não sei… a vida é tão… tão bonita, né? E tão… tão triste também! — e começou a chorar alto, sem motivo aparente.
 
Dona Marli ficou surpresa:

— Mas Roseli, o que houve? Você brigou com o marido? Perdeu o cachorro?

— Não sei! — soluçou a vizinha. — De repente deu uma vontade de chorar que não passa!
 
No mesmo instante entrou o sobrinho dela, Eli, que veio pedir uma receita:

— Tia, você sabe fazer aquele bolo de cenoura… — ele também parou, respirou fundo, e os olhos dele viraram dois rios. — Nossa… sinto tanta saudade da minha infância… e da vovó… e até do meu professor de matemática que eu odiava! — e se juntou à vizinha, chorando de ombro caído.
 
Depois veio o padeiro do bairro, que entregava o pão:

— Bom dia, Dona Marli, aqui está o seu pedido… — e também caiu no pranto, apoiado na porta: — Desculpa, senhora… mas hoje eu acordei pensando que devia tratar melhor a minha sogra… e que a vida passa muito rápido!
 
Em pouco tempo a cozinha estava cheia: a costureira, o carteiro, até o padre que passava por ali e resolveu dar um oi — todos choravam, uns abraçados, outros com lenços, uns dizendo que iam mudar de vida, outros pedindo perdão por erros antigos. Ninguém entendia nada. Falavam em energia ruim, em saudade coletiva, até em maldição!
 
Dona Marli parou por um instante, limpou os olhos mais uma vez, olhou para a pilha de cascas de cebola que crescia no canto da pia, e soltou uma gargalhada tão forte que todos pararam de chorar de susto.
 
— Mas vocês são uns bobos mesmo! — disse ela, apontando para os legumes. — Não é maldição, não é saudade, não é nada disso! Eu é que estou descascando e picando quase vinte cebolas para a salada! O cheiro delas é que está fazendo todo mundo chorar!
 
Os olhares foram se voltando para a pia. A montanha de cascas parecia ainda maior agora. E um a um, eles foram passando da confusão para a vergonha, e da vergonha para a risada.
 
— Ah, então é por isso! — disse o padre, enxugando as lágrimas. — Já estava pensando em fazer missão de três dias para limpar a alma do bairro!

— E eu já ia ligar para o padre para benzer a cozinha! — completou Dona Roseli.
 
E assim, entre risadas e ainda com os olhos um pouco úmidos, todos ajudaram a terminar a salada. E na hora de servir, ninguém reclamou nem um pouco da cebola — afinal, ela já tinha dado emoção de sobra para aquele domingo.
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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

(Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.)