A alvorada de domingo rompeu com o céu azul e a promessa de um silêncio celestial. Gervásio, setenta e dois anos de pura exaustão após uma semana infernal descarregando caixas no depósito do genro, acordou com um sorriso raro. Ele calçou os chinelos de feltro com a solenidade de um rei vestindo a coroa. Seu plano era milimetricamente sagrado: caminhar até a poltrona reclinável, ligar a televisão e vegetar até a noite. Sem conversas, sem esforço, sem humanidade.
Ele preparou o café, sentou-se na poltrona que já tinha o formato exato de suas nádegas e ligou o aparelho. Um documentário sobre a migração das tartarugas marinhas começava. Perfeito.
Dindom.
Gervásio congelou com a xícara a meio caminho da boca. O relógio marcava sete e quarenta da manhã. Ele respirou fundo, tentando convencer-se de que era o vento.
Dindom. Dindom.
Ele se levantou, arrastando os pés com o peso de uma bigorna. Ao abrir a porta, deu de cara com uma explosão de dentes brancos e energia juvenil. Era Cleiton, seu sobrinho de vinte anos.
— Tio Gervásio! Que bom que o senhor já tá acordado! Vim tomar um café com o senhor e usar o Wi-Fi, porque a internet lá de casa caiu e eu preciso baixar uns vídeos de dancinha. Que que tem de comer?
— Cleiton, meu filho… Eu estava assistindo às tartarugas. Elas andam devagar. Eu queria andar devagar também, hoje.
— Que tartaruga o que, tio! Olha essa batida aqui! — Cleiton entrou invadindo a sala, ligando o celular no volume máximo.
Gervásio fechou a porta, a veia da testa já pulsando de leve. Mal sentou-se novamente na poltrona.
TOC TOC TOC!
Desta vez bateram com força. Gervásio abriu a porta num solavanco. Era o Tio Onofre, um octogenário surdo como uma porta e com hálito de cachaça de alambique.
— Gervásio! — berrou Onofre. — Vim ver o jogo! Minha televisão pifou! Cadê a velha?
— A Odete foi viajar, Onofre! E o jogo é só às quatro da tarde! Agora são oito da manhã!
— Quem tá na cabana? — Onofre entrou, empurrando Gervásio com o ombro. — Ô Cleiton, me arruma um café!
Antes que Gervásio pudesse fechar a porta para conter o hospício, um vulto perfumado a alfazema barata surgiu no corredor do prédio. Era a prima Zulmira, trazendo três potes plásticos vazios de tamanhos variados.
— Gervásio, meu primo querido! Soube que a Odete viajou e vim te fazer companhia para você não morrer de solidão! Trouxe os potes para levar um pouco daquela sua rabada que sobrou de ontem. Nossa, que cheiro de mofo é esse aqui dentro? Abre essas janelas!
— Zulmira, não tem rabada. Eu comi tudo. E eu quero a solidão. Eu imploro pela solidão, pelo amor de Deus!
— Deixa de ser ranzinza! — Zulmira já entrava na cozinha, abrindo a geladeira. — Menino Cleiton, abaixa esse telefone! Onofre, tira o pé do sofá! Gervásio, o filtro de água tá com gosto de barro, tem que trocar o carvão!
Gervásio sentia o estômago queimar. O domingo de paz tinha se transformado em uma central de reclamações e caos doméstico. Ele tentou voltar para as tartarugas marinhas, mas Onofre já tinha pegado o controle remoto e sintonizado num programa de leilão de gado de corte.
— Olha que bezerro gordo, Gervásio! Esse dá uma ponta de peito boa! — gritava o velho.
Dindom. Dindom. Dindom.
A campainha agora parecia um código morse de tortura psicológica. Gervásio abriu a porta com os olhos arregalados, as mãos trêmulas. Era o primo Vanderlei, a esposa dele, as três filhas pequenas e um cachorro pinscher que tremia como se estivesse ligado na tomada de 220 volts.
— Primo! — exclamou Vanderlei, entrando sem pedir licença. — O almoço vai ser aqui hoje? A Zulmira mandou mensagem no grupo da família dizendo que você ia fazer um churrasco de comemoração!
— Comemoração de quê, Vanderlei?! — urrou Gervásio, a voz subindo dois oitavos.
— Sei lá, ela disse que você tava com saudade de ver o povo! Meninas, entrem, brinquem com o cachorro do tio!
— Eu não tenho cachorro! — Gervásio gritou.
— Agora tem, o bicho adora correr! Solta ele, meninas!
O pinscher foi solto e imediatamente começou a morder o calcanhar do Tio Onofre, que não sentia nada por causa da má circulação, mas chutava o ar achando que era uma mosca varejeira. As três meninas começaram a correr ao redor da mesa de centro, gritando e derrubando os porta-copos que Gervásio tinha alinhado simetricamente.
— Cleiton! — berrou Zulmira da cozinha. — Vai lá no mercado comprar duas caixas de cerveja e três quilos de asa de frango! Seu tio Gervásio vai pagar!
— Eu não vou pagar nada! — Gervásio esgoelou-se, subindo num banco de madeira para tentar ser ouvido acima do clamor popular que se instalara em sua sala de estar. — Saiam da minha casa! Todos vocês! Eu trabalhei setenta horas esta semana! Eu só queria ver minha TV em paz!
Ninguém ouviu. Vanderlei já estava na varanda tentando improvisar uma churrasqueira com uma lata de tinta velha que achara na área de serviço. O pinscher agora roía o fio do abajur de Gervásio. Cleiton dançava com Zulmira na cozinha enquanto ela batia panela para acompanhar o ritmo da música do celular.
O estopim da sanidade de Gervásio estourou. Uma calma fria, perigosa e psicótica tomou conta de suas feições. Ele desceu do banco devagar. Caminhou até o corredor. Entrou no quarto de despejo. Voltou segurando uma antiga buzina de ar comprimido, daquelas usadas em estádios de futebol na década de oitenta.
Ele se posicionou no centro da sala, respirou fundo e apertou o gatilho da buzina.
FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
O som ensurdecedor ecoou pelas paredes do apartamento, fazendo os vidros vibrarem. As meninas pararam de correr e começaram a chorar. O pinscher se apavorou. Onofre achou que a guerra civil tinha começado e se jogou atrás do sofá. Cleiton derrubou o telefone. Zulmira quase cortou o dedo com a faca de cortar cebola.
Gervásio soltou o botão. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo zumbido nos ouvidos de doze pessoas.
— Escutem aqui, seus parasitas de folga — disse Gervásio, a voz baixa, mansa e aterrorizante. — Se em trinta segundos eu vir um único rastro de colônia barata, uma única dancinha de internet ou um único par de brincos nesta sala, eu vou trancar a porta e ligar o gás da cozinha com todo mundo dentro.
Vanderlei olhou para a esposa. Zulmira olhou para os potes plásticos vazios. Cleiton guardou o celular no bolso com movimentos lentos, com medo de ativar o idoso.
— O almoço… foi cancelado? — perguntou Vanderlei, a voz trêmula.
Gervásio apenas ergueu a buzina novamente, o dedo indicador posicionado no gatilho.
A debandada foi um espetáculo de agilidade humana. Em menos de quinze segundos, a sala estava vazia. Zulmira esqueceu os potes. Vanderlei esqueceu a lata de tinta. Onofre foi arrastado pelo colarinho por Cleiton, ainda achando que estava sob ataque aéreo. A porta da frente bateu com força.
Gervásio caminhou até a porta. Passou a chave. Deu três voltas. Passou a tranca de segurança. Colocou um cabo de vassoura embaixo da maçaneta. Cortou o fio da campainha.
Voltou para a sala, recolheu o pinscher do chão, que agora acordava e o olhava com profundo respeito e submissão, e sentou-se na poltrona. Colocou o cachorrinho no colo. Ligou a televisão. Para seu desespero, o que estava assistindo já tinha acabado faz tempo.
O domingo estava quase acabando, o silêncio era absoluto e a paz, finalmente, tinha sido conquistada na base do terror familiar.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra (SP), Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011.
Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito máximo “Euclides da Cunha” na Academia de Letras Brasil-Suíça, em Berna/Suíça; título máximo das Letras na Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Pertence também à Ordem dos Cavaleiros Templários, Ordem Sagrada do Templo e do Graal, Ordo Equitum Calami et Calicis, Casa do Poeta “Lampião de Gaz”, União Hispano-Americana de Escritores, Sociedade Poetas Del Mundo.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores:
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos;
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor;
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
(José Feldman. Pergola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026)

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