sábado, 8 de agosto de 2026

Irmãos Grimm (O fuso, a lançadeira e a agulha)


Era uma vez uma jovem que havia perdido os pais quando muito criança. No fim da aldeia vivia sua madrinha, completamente só, e que ganhava a vida fiando, tecendo e cosendo. A boa velha tomou conta da criança abandonada, ensinando-a a trabalhar e a educou dentro dos princípios da religião. Quando a jovem contava quinze anos, a madrinha adoeceu. Chamando a afilhada para junto do seu leito. disse-lhe:

   - Filha querida, sinto que a morte se aproxima. Deixo-te esta casinha, onde estarás protegida do mau tempo, e também o fuso, a lançadeira e agulha e serás feliz!

    Depois fechou os olhos. Enquanto a conduziam à sepultura a menina seguiu o caixão, chorando amargamente e rendendo-lhe as últimas homenagens.

    Desde então a jovem passou a viver só, em sua pequena casa, fiando, tecendo e cosendo. Em tudo o que fazia pairava a bênção da velhinha. Dir-se-ia que o linho, depositado no quarto, se multiplicava e, quando tecia uma tela ou um tapete ou, então, costurava uma camisa, logo aparecia um comprador.

    Naquele tempos, o filho do rei andava à procura de uma noiva. Não desejavam que escolhesse uma moça pobre. E uma rica ele não queria.

    - Será minha esposa - dizia o príncipe - aquela que for a mais pobre e a mais rica ao mesmo tempo.

    Quando chegou à aldeia onde morava a nossa jovem, perguntou, como costumava fazer em toda parte, qual era a moça mais rica e qual a mais pobre do lugar. Primeiro lhe indicaram a mais rica e depois lhe disseram que a mais pobre era a jovem da casinha situada bem no fim da aldeia. 

A rica estava sentada em frente à porta, toda enfeitada e, ao aproximar-se o príncípe, levantou-se, saiu ao seu encontro e lhe fez uma reverência. 

Ele a olhou e, sem dizer palavra, prosseguiu seu caminho. Quando chegou à casa da pobre, esta não se encontrava na porta, mas em seu quartinho. O príncipe parou seu cavalo e, olhando pela janela iluminada pelos raios do sol, viu a jovem sentada à roca, fiando ativamente. 

Ela levantou os olhos e, ao perceber que o filho do rei a estava observando, tornou-se rubra e abaixou os olhos, continuando o trabalho. Não sei dizer se o ponto, desta vez, saiu parelho, mas o certo é que ela continuou fiando sem parar, até que o príncipe foi embora. Foi, então, à janela e, abrindo-a exclamou:

      - Faz tanto calor aqui dentro! - e o seguiu com o olhar até que as plumas brancas do seu chapéu desaparecessem na curva do caminho.

   Depois voltou a sentar-se à roca e recomeçou seu trabalho. De repente veio-lhe à memória um versinho que a velha costumava dizer enquanto fiava e pôs-se a cantarolar:

     - Fuso, fuso sai por aí
      E me traz o meu noivo aqui.

     E o que aconteceu? No mesmo instante o fuso lhe saltou da mão e saiu pela porta. E quando a moça, assombrada, levantou-se para ver o que havia sido dele, viu-o dançando, alegremente, pelo campo, deixando atrás de si um brilhante fio dourado. Pouco depois desapareceu de sua vista. Como não tivesse outro fuso, a jovem apanhou a lançadeira e se pôs a tecer.

    Enquanto isso, o fuso continuou saltando pela estrada, até que enfim alcançou o príncipe, justamente quando o fio terminava.

    - O que vejo?! - exclamou o jovem. - Sem dúvida este fuso quer levar-me a algum lugar.

   E, fazendo o cavalo dar meia volta, foi seguindo o fio de ouro.

     Nesse meio tempo, a jovem continuava seu trabalho, cantarolando:

                        Lançadeirinha, tece sem cessar
                        E traz aquele com quem vou casar.

   Em seguida, a  lançadeira, saltando-lhe da mão, saiu pela porta e, diante da soleira, começou a tecer um tapete tão lindo como ainda não vira igual. Em ambos os lados abriam-se rosas e lírios; ao centro se entrelaçavam ramos verdes onde saltavam lebres e coelhos; cervos lhe pousavam e aves multicores, tão naturais que só lhes faltava cantar. A lançadeira saltava de um lado para outro e parecia que tudo ia crescendo por si mesmo.

    Já que a lançadeira lhe havia fugido, a jovem sentou-se para costurar. enquanto manejava a agulha, cantarolava:

     - Agulhinha, tão fininha, minha cara,
      A casa para o noivo me prepara.

      E a agulha, desprendendo-se de seus dedos, começou a voar pela casa tão rápida como o raio. Parecia que  espíritos invisíveis trabalhavam e, em poucos momentos a mesa e os bancos ficaram atapetados com fazenda verde; as cadeiras forrada  de veludo e nas janelas apareceram cortinas de seda. Mal a agulha havia dado o último ponto, a moça viu, pela janela, as plumas  brancas do chapéu do príncipe; o jovem voltava, seguindo o fio dourado do fuso. apeou, passou por cima do tapete e entrou na casa. No interior da saleta viu a moça que, embora em seu vestido pobre, tinha tanto viço como a rosa no roseiral.

     - Tu és a mais pobre e, ao mesmo tempo, a mais rica, - disse-lhe ele. - Vem comigo. És a minha escolhida.

      Ela lhe estendeu a mão sem dizer palavra. O príncipe beijou-a e depois a fez montar na garupa do seu cavalo, levando-a para o palácio real. Lá foi celebrado o casamento, para alegria de todos. o fuso, a lançadeira e a agulha foram guardados na câmara do tesouro  e ali conservados com grande horarias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, JACOB LUDWING CARL GRIMM (1785-1863) e WILHELM CARL GRIMM (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fonte:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.

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