Joaquim, que não era bom na escola, que não era o craque nas peladas da rua, que tinha horror só de pensar que talvez um dia terminasse como seu pai, um reles ajudante de pedreiro, desde cedo fora embalado por sonhos grandiosos. De tão grandiosos, seu rosto, nem bonito nem feio, sempre carregava aquele sorriso deveras cativante, que encantava a todos, até mesmo a ranzinza Gertrudes, que resmungava inclusive da própria rabugice.
Sem qualquer talento aparente, Joaquim se deparou com aquele que supera todos os outros: a arte de enganar. Dessa forma, passou a aplicar pequenos golpes aqui, outros pouco mais elaborados ali, até que quase foi pego no flagra acolá, quando tentou tirar uma grana justamente da Gertrudes. Não que ela tenha percebido ou, se percebeu, pareceu não se importar, já que Joaquim lhe fazia a vez de benquisto nas noites solitárias. Todavia, Danilo, irmão de sangue da dita cuja, percebeu a intenção do moleque e, certo dia, o chamou para uma conversa no canto.
Pastor de igreja, Danilo vivia viajando em seu velho Fusca pelas pequenas cidades da região, onde professava a mais santa palavra para as pobres almas perdidas. Entretanto, ao invés de reprimendas, Joaquim só ouviu elogios. Sim, isso mesmo! Efusiva admiração!
– Você tem um dom, meu filho! E, por isso, você precisa agradecer ao Nosso Senhor Jesus Cristo!
Joaquim, que a princípio não entendeu aquelas palavras, nem por isso deixou de apreciá-las. Afinal, ele tinha um dom, e esse havia sido um presente do próprio Jesus Cristo! Nada de mexer com tijolos e cimento! Sua vida seria bem diferente daquela sofrida diariamente pelo seu pai, que precisava labutar em eterna humilhação para conseguir o mínimo para não morrer de fome.
O pastor Danilo passou a dedicar parte do seu tempo a ensinar as artimanhas do ofício a seu novo pupilo, que demonstrou um talento bem acima do esperado. Desse modo, logo nas semanas seguintes, lá estava o Joaquim, agora renomeado Pastor Richard, acompanhando o seu mestre.
As viagens prosseguiram, alcançaram cidades mais distantes, os fiéis se multiplicaram. E, logo que principiou o segundo ano de tanta correria, lá estava aquele agora homem feito, que há pouco esquentava os solitários lençóis da Gertrudes, sentado no banco de trás, enquanto o seu motorista particular conduzia aquele luxuoso automóvel pelas estradas. Tudo fruto daquele dom vindo diretamente lá de cima!
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O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.
(Blog do Menino Dudu. 30.09.2022)
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/09/o-dom-de-joaquim.html

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