quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Nilto Maciel (O Sonho Impossível de Pã)

Doido fauno senil, quebrando as finas 
Lianas que se erguem no cipoal em que erro, 
O ar farejo com sôfregas narinas,
Percebo indícios duma ninfa, e berro...
(Humberto de Campos)

Ela mais parecia saída dos bosques da mitologia, juvenilmente bela como as ninfas, os olhos mais cândidos do mundo. E ele, vendo-a todo dia, nada mais fazia que sonhar. Erguia castelos de areia, fundava cidades, viajava pelo cosmos. Ela se chamava Quésia, ele Arion.

E viveram infelizes para sempre.
                                                 ***

  Um dia, antes da eternidade chegar, Arion se dispôs a contar todos os seus sonhos a Quésia. Queria ser eterno. Ansiava viver eternamente junto a ela. Desejava, ao menos, um minuto dessa eternidade nos braços dela.

Quésia riu. Não acreditava numa só palavra de Arion. Tudo engodo de homem. Pura sedução maliciosa. Quando muito, sonho de poeta.

Além do mais — brincou — não era exatamente mulher, mas uma ninfa. Logo, nenhum homem poderia jamais alcançá-la.

Brincadeira por brincadeira, Arion se disse um fauno. Sim, também não se sentia exatamente um homem. Logo, só o destino o separava dela.

 A conversa fez-se amena e culta. Falaram de mitologia grega. Que nome ela gostaria de ter, se fosse ninfa? Talvez Galatéia, a cavalgar cavalos-marinhos entre as ondas do mar. Quem sabe Aretusa, para rimar com musa. E por que não Climene, a bordar constantemente? E ele, que fauno desejaria ser?

De noite, Arion teve um sonho esquisito. Era Pã, o fauno da Arcádia, pernas e pés de bode, peludo e de chifres, tendo o resto do corpo a forma humana. Um bicho horrível, com certeza. No entanto de coração apaixonado. E o objeto de sua desmedida paixão chamava-se Quésia, a mulher dos olhos mais cândidos da Terra.

Um dia, no meio da eternidade de suas vidas, Pã encontrava Quésia perdida no bosque. Queria ser humano e mortal, contanto que tivesse o prazer de a ter em seus braços. Por um minuto sequer.

A jovem se zangava. O fauno só podia ter enlouquecido. Ora, um fauno jamais poderia amar uma mulher. Fosse procurar suas ninfas. E, mais zangada ainda: buscasse as fêmeas de sua espécie, se existissem.

E desaparecia entre as árvores, deixando o pobre Pã tristonho e só.

Arion acordou assustado, olhou para as pernas e os pés, e levou as mãos à cabeça. Não, não era um fauno. Permanecia tão humano quanto antes. De qualquer forma, o sonho não deixara de ser interessante. Devia até contá-lo a Quésia. Falariam de novo de mitologia grega. Pretexto para revê-la. E telefonou para ela.

Quésia não se encontrava. Fora embora. Para a Índia. E nunca mais voltaria. O motivo? Não suportava mais a presença de um tal Arion. Não queria vê-lo nem em sonho — informou a voz no telefone.

Tudo engodo. Quésia nunca viajou à Índia e naquele dia riu como nunca.

Arion pensou, pensou, e terminou conformado. Ora, ela tinha razão de sobra para agir assim: tão jovem e bela, como poderia querer um homem tão defeituoso? E seu pior defeito era viver sonhando. Não a procurou mais, certo de que só lhe restava erguer castelos de areia, fundar cidades e viajar pelo cosmos. E, dia e noite, continuou a sonhar histórias mitológicas, em que era Pã, o fauno apaixonado por Quésia, a dos olhos cândidos de ninfa.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

[Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.]

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