Antes de darmos início ao nosso conto, precisamos conhecer o encanto e o perigo que habitam as florestas romenas. As Iele são criaturas místicas do folclore local, frequentemente descritas como fadas ou ninfas da natureza de beleza hipnotizante. Elas vestem longas túnicas brancas e transparentes, possuem cabelos longos e voam pelo ar durante a noite. As Iele se reúnem em clareiras isoladas para dançar sob o luar. Elas não são puramente más, mas são implacáveis: punem severamente qualquer pessoa que quebre promessas, que trabalhe nos dias de seus festivais sagrados ou que ouse espionar sua dança mística, deixando esses infelizes loucos, paralisados ou mudos.
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A lua de verão brilhava no topo do céu, iluminando a floresta densa que cercava Valea. Era a noite de Rusalii, um período sagrado em que ninguém na aldeia ousava trabalhar ou andar pelas matas, em respeito às Iele. Todos sabiam do aviso de Moșneagul: "A terra descansa para que as damas da floresta possam dançar. Quem quebrar o resguardo, pagará com o próprio corpo".
Contudo, um jovem flautista chamado Matei, movido pela arrogância e pelo desejo de compor a música mais bela do mundo, ignorou o voto de silêncio e respeito daquela noite. Ele acreditava que se pudesse ouvir o canto das ninfas, se tornaria o maior músico de toda a Romênia. Com sua flauta de madeira presa à cintura, Matei esgueirou-se por entre os arbustos, ignorando o amuleto de folhas de absinto que o velho Moșneagul distribuíra para proteção.
Não demorou para que um som celestial ecoasse pelo ar. Era uma melodia suave, feita de vozes harmoniosas que pareciam flutuar como o vento. Atraído pelo transe, Matei seguiu o som até uma clareira circular, onde a grama era perfeitamente pisada.
Lá estavam elas. Sete jovens de beleza indescritível, com longos cabelos loiros que brilhavam como fios de ouro sob o luar. Elas flutuavam em uma dança frenética e graciosa, sem tocar os pés no chão. O ar ao redor delas o perfume de flores silvestres e magia pura.
Fascinado, Matei esqueceu-se de todo o perigo. Ele deu um passo à frente, revelando-se, e levou a flauta aos lábios para acompanhar o ritmo divino.
No mesmo instante, a música das Iele cessou. O silêncio que se seguiu foi sepulcral. As fadas viraram-se em uníssono para o rapaz. Seus rostos, antes angelicais, tornaram-se frios e severos como o mármore.
— Quem ousa quebrar o voto de resguardo de nossa noite? — ecoou uma voz que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo.
— Eu só queria tocar com vocês! — gaguejou Matei, percebendo o erro tarde demais.
As Iele sorriram, mas não havia calor em seus olhares. Elas começaram a flutuar ao redor de Matei, fechando o círculo. Seus movimentos tornaram-se rápidos como um turbilhão. O jovem tentou correr, mas suas pernas não respondiam; ele tentou gritar por socorro, mas sua voz sumira. A energia da dança começou a sugar suas forças, e uma queimação terrível tomou conta de seus membros, paralisando-o.
Quando o pior parecia inevitável, o som forte de um chocalho de gado e o cheiro forte de absinto amassado invadiram a clareira. Moșneagul surgiu por entre as árvores, segurando um ramo da erva sagrada em uma mão e batendo seu cajado no chão com a outra.
— Nobres damas da floresta! — clamou o Moșneagul, curvando a cabeça em sinal de profundo respeito, sem olhar diretamente para os rostos das ninfas. — Eu peço clemência por este jovem tolo que não conhece o peso de um voto. Aceitem o absinto e o alho como oferenda de paz de nossa aldeia, e permitam-me levar o desgarrado.
As Iele pararam o turbilhão. Elas olharam para o velho sábio e reconheceram nele o guardião das antigas alianças, alguém que sempre respeitara as leis da natureza.
— Ele quebrou o pacto, Moșneagul — sibilou a líder das fadas. — Ele buscou nossa música por vaidade. Ele pagará o preço.
— Que o castigo seja uma lição, e não a sua ruína — suplicou Moșneagul, mantendo a serenidade.
A criatura tocou levemente os lábios de Matei com a ponta de um dedo gelado. O círculo se desfez e, num piscar de olhos, as Iele desapareceram no ar, deixando apenas o som de risadas distantes e o orvalho da madrugada.
Matei caiu ao chão, tremendo. Ele estava vivo, mas quando tentou falar com o Moșneagul, nenhum som saiu de sua boca. Seus dedos, outrora ágeis na flauta, estavam rígidos e dormentes. Moșneagul o ajudou a se levantar com um olhar de profunda tristeza.
— Você buscou a beleza quebrando a promessa de respeito, Matei — disse o velho sábio, enquanto o guiava de volta para a aldeia. — As Iele pouparam sua vida em respeito aos nossos antepassados, mas levaram sua voz e sua música para que você aprenda a ouvir antes de querer ser ouvido.
Moral:
O talento e a ambição perdem todo o valor quando pisam no respeito e na quebra de votos sagrados. As tradições e os limites impostos pela sabedoria antiga não existem para limitar nossa liberdade, mas para nos proteger de forças que estão muito além da nossa capacidade de controle. Quem desonra um compromisso com a vida ou com a natureza acaba silenciado pelas consequências de seus próprios atos.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia.
Resumo biográfico pode ser encontrado no link
Fonte:
Texto enviado pelo autor.

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