Chego em casa quase à meia-noite, cansada, chateada, carente de empatia e duvidando do correto, do combinado e do justo. Com esse ânimo, espero por ele, que chega em seguida, precisamente, às 00h06. Sem bater, vai se aproximando. Vem com terno de linho e guarda-chuva. Na bagagem, traz a saudade da maresia, dos dias despreocupados à beira-mar, dos sorvetes deliciosos, da agitação, das atividades ao ar livre. Traz também novidades repetidas.
O tio solteirão, como apelidou Quintana, me avisa que, a partir de agora, os dias ficarão mais frescos e mais curtos. Nem tão quentes, nem tão frios. Nem alegres, nem tristes. Durante sua estadia de três meses, me diz que haverá dias em que poderemos andar descalços, ao sol; outros mais sisudos, nublados, cobertos de nevoeiro. Haverá noites, que vão pedir aconchego, um chá; noutras, vamos abrir janelas, sair à rua, beber um chopp no barzinho.
Ele me conta, que a medicina chinesa considera cinco elementos: terra, fogo, água, madeira e metal. E é a energia do metal que se estende sobre nós, a partir de agora, como roupa secando ao vento. Explica que ingressamos numa fase de introspecção, chamando para um olhar demorado para dentro da alma e do coração. É necessário viver esse período de transição, com serenidade e brandura. Precisamos confiar nas mudanças, aceitar com calma os desafios, acolher com delicadeza as transformações que ocorrem nas nossas vidas, no trabalho, nos relacionamentos.
É momento de voltarmo-nos para o interior, refletir, perdoar, compreender. Cuidar de nós mesmos, mesmo que esse cuidado implique não atender as exigências dos outros. E está tudo bem! É possível amar as pessoas, mesmo tendo que dizer não; não dou conta; não posso. É tempo de armazenar energias, organizar-se, respirar fundo, acatar os silêncios. Tudo é transição.
Como as folhas se desprendem é necessário desapegar-se do que magoa, irrita, do que não deu certo – me lembra ele, com calma e paciência. Libertar-se nem sempre é fácil; é doído. Mas, necessário.
Além disso, concordo com ele que é tempo de colheita. No campo e no cotidiano. Que possamos colher laranjas e tangerinas doces e coloridas de sol; ramalhetes de crisântemos e beleza; feixes de ternura; cestas de abraços, afetos e sorrisos; frascos de gratidão; tarros de esperança. Numa verdadeira festa animada, com amigos e pessoas que nos fazem bem, em qualquer estação.
À medida que se achega, vai cantarolando a canção da Ana Carolina: “ Nas ruas de outono/ os meus passos vão ficar/ e todo abandono que eu sentia vai passar/ As folhas pelo chão/ que um dia o vento vai levar/Meus olhos só verão que tudo poderá mudar”. Me deixo envolver. Quero percorrer essas ruas...
Discordo do Quintana, ele não é o tio solteirão. Carrancudo, melancólico e instável. Ele é o amigo italiano: Autunno. Elegante, charmoso, que convida à tranquilidade, à boa conversa, à leituras mais serenas de nós mesmos e do mundo. Com a luminosidade amarelada, nos leva a encarar a vida com leveza.
Com sensação de sossego, vou dormir. Logo será outro dia. O primeiro dia de outono.
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A escritora e advogada MIRIANE MARIA WILLERS possui uma trajetória ativa no cenário intelectual, jurídico e literário do Sul do Brasil. Tem forte ligação com a região das Missões, no Rio Grande do Sul, residindo e atuando em cidades como Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Atua como Advogada Municipal na Procuradoria-Geral do Município de Santo Ângelo. Professora universitária no curso de Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) — Campus de São Luiz Gonzaga, lecionando disciplinas como Direitos Humanos, Direito Administrativo e Tributário. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais, Especialista em Direito Civil e Processual Civil, além de Mestra em Direito pela URI. Integra grupos de pesquisa voltados aos Direitos Humanos, Cidadania e a relação entre Literatura/Cinema e o Direito.
Transita entre a escrita técnica-jurídica, a prosa e a poesia, publicando em jornais, revistas e coletâneas. Aperfeiçoou sua escrita participando do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos e das dinâmicas da Oficina Santa Sede. Integrou a Associação São-Luizense de Autores (ASAS). Premiada em concursos literários regionais, tendo textos selecionados para coletâneas oficiais. Seus textos literários (contos e crônicas) e artigos acadêmicos foram publicados em diversas obras coletivas: Apesar de Nós (Coletânea de crônicas, 2024); Crônicas de Inverno (E-book de crônicas, 2023); Coletânea do 4º Concurso de Contos de Santo Ângelo (2018); Minicontos Coloridos (2015); Capítulos de livros e artigos jurídicos focados em direitos das mulheres, cidadania e inclusão social (ex: "A mulher no constitucionalismo brasileiro: marcha pelo direito a ter direitos").
A relevância do trabalho de Miriane Willers reside na intersecção humanista entre o Direito e a Literatura. Suas crônicas e contos abordam com sensibilidade as miudezas do cotidiano, memórias, o envelhecimento e o papel social da mulher. Ao usar a literatura como ferramenta de reflexão e denúncia social, ela humaniza o discurso jurídico e enriquece a produção cultural contemporânea do interior do Rio Grande do Sul.
Fontes:
https://www.mirianewillers.com.br/index.php?pgn=texto&idtexto=1674
Biografia = Escavador, Editora Ilustração, Site Miriane Willers, Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito.

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