quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 210 *

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Haicai de
HELENA KOLODY
(Cruz Machado/PR, 1912 – 2004, Curitiba/PR)

Flecha de sol

A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Consolo na praia

Vamos, não chores… 
A infância está perdida. 
A mocidade está perdida. 
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou. 
O segundo amor passou. 
O terceiro amor passou. 
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo. 
Não tentaste qualquer viagem. 
Não possuis casa, navio, terra. 
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras, 
em voz mansa, te golpearam. 
Nunca, nunca cicatrizam. 
Mas, e o humor?

A injustiça não se resolve. 
À sombra do mundo errado 
murmuraste um protesto tímido. 
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas. 
Estás nu na areia, no vento… 
Dorme, meu filho.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN

Se há defeito em quem amas, 
não te lamentes, nem grites, 
que amor à frente da sombra 
é sempre luz sem limites.
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Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Gema de amor

"O seu fruto é doce à minha boca." (Ct. 2.3)

Cálida gema, feita de amor,
Quero sentir todo o seu sabor;
Vou dar-lhe beijos apaixonados,
E você, seus lábios abrasados.

Você é doce - feita de mel,
Real geleia - pedaço do céu;
Quanta delícia no saborear,
Que bom se o tempo não mais passar!

Você está trêmula de emoção,
Sinto o pulsar do seu coração...
Perdi o controle, perdi meu senso
Por este amor de prazer imenso.

O que acontece? - Você suspira!
O que é isso? - Você delira!
Eu estou suando - quanto calor!
Estou feliz... Obrigado, amor!
= = = = = = = = = = = = = = = = = =

Trova Popular de
AUTOR ANÔNIMO

Se suspiro fosse bala
como estaria meu peito!
Estava todo varado,
morena, por teu respeito.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
BENEDITA DE MELLO
Vicência/PE, 1906 – 1991, Rio de Janeiro/RJ

Despojos

Vai-se partindo aos poucos, laço a laço,
Aquele nosso grande amor de outrora.
Ontem foi um desgosto, hoje embaraço.
Amanhã vai-se uma ilusão embora.

Mais uma falsidade revigora
Em minha alma essa dor, esse cansaço.
O próprio ciúme, com um sopro escasso,
Está fadado a perecer agora.

Nada mais acharás, quando voltares,
Que o fundo sono desse amor acorde:
Nem desejos, nem sonhos, nem pesares...

E embora em ti de novo o amor transborde,
Sentirei nos meus lábios, se os beijares,
O sabor da perfídia que me morde.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Já escalei morros medonhos,
caminhando passo a passo.
Mas nunca pude em meus sonhos
escalar nuvens no espaço!
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Poema de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Olhos perdidos
na neblina do tempo
buscando entender
contornos indecifráveis
que se perdem à distância.
Tentativas vãs
para a ultrapassagem
de fronteiras invisíveis
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Trova de
DOROTHY JANSSON MORETTI 
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Quando me entrego ao passado,
sinto-o tão perto e envolvente,
que – esquecido e enevoado –
longe de fato... é o presente.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
LINO VITTI
Piracicaba/SP, 1920 – 2016

A uma página poética

(à poetisa Maria Cecília Bonachella)

Nesta página, sonham os poetas,
sonha também a lira das poetisas.
É um céuzinho diria, onde os estetas
jogam estrelas a suar camisas.

Aqui valem tão só líricas metas,
temos brilhos de sol, frescor de brisas...
Coisas transcendentais, vozes secretas,
o encantado, o feliz, santas divisas.

É cascata jorrando belas rimas,
frondosa e florescida árvore linda,
mais linda quando dela te aproximas.

Este caminho é grande, nunca finda...
Guarda o olor capitoso das vindimas
país de amor com que o "Jornal" nos brinda.
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ


Hoje tratam de "Excelência"
quem deixa o povo com fome.
Ou no mundo há só demência,
ou ladrão mudou de nome!...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/Portugal

A noite não tem de ser escura, triste e fria,
A noite pode ter calor,
Um abraço, uma flor

Ofereço-te o meu coração
numa noite de outono
que se transforma em verão

A noite pode ser amena
quente ou serena
depende de como me sentes.
Como me vives!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ARI SANTOS CAMPOS
Balneário Camboriú/SC

Não sei mais o que fazer:
meu salário é um engano...
- Tenho medo de viver
numa tenda de cigano.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
J.G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

A dor maior

Não quis julgar-te fútil nem banal
e chamei-te de criança tão-somente,
- reconheço, no entanto, infelizmente,
que, porque te quis bem, julguei-te mal.

Pensei até, (e o fiz ingenuamente...)
ter encontrado a companheira ideal...
Quis julgar-te das outras diferente,
e és como as outras todas afinal...

Hoje, uma dor estranha me consome
e um sentimento a que não sei dar nome
faz-me sofrer, se lembro o amor perdido...

A dor maior... A maior dor, no entanto,
vem de pensar de Ter-te amado tanto
sem que ao menos tivesses merecido!...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ

Da velha fonte no lago,
à luz do mesmo luar,
retorno...e nos olhos trago
as águas que fui buscar!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
VINICIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980

Soneto a Katherine Mansfield

O teu perfume, amada – em tuas cartas
Renasce, azul... – são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto! ... e a primavera
Vem já tão próxima! ... (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Dizem que eu sonho em excesso...
Mas insisto em voos altos!
E as pedras nas quais tropeço
impulsionam novos saltos!!!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989

Amigo
Inimigo
Nada tive com o mar 
Nem ele comigo 
Fui homem de seco 
Hoje posto a secar 
Neste beco
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
NILTON MANOEL
Ribeirão Preto/SP, 1945 – 2024

O bico do beija-flor
tem o condão do mistério;
é a natureza do amor,
ampliando da flora o império
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

O límpido cristal

Que límpido o cristal de abril!... Um grito 
não vai como os da noite — para os extramundos... 
Todas as vozes, todas as palavras ditas — cigarras presas 
dentro do globo azul — vão em redor do mundo
e a ninguém é preciso entender o que elas dizem;
basta aquele bordoneio profundo
que vibra com o peito de cada um...
palavras felizes de se encontrarem uma com a outra 
nas solidões do mundo!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
JOÃO OSVALDO SOARES (VAVAL)
Fortaleza/CE

Caro amigo, meu irmão,
é bem longe o nosso céu,
cuidado com sua mão
senão vai pro "beleléu".
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Língua

Língua de anjo
língua de homem
língua de bicho
língua que já não é língua
língua que me língua
espalhando prazer.
= = = = = = = = = = = = = = 

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