HELENA KOLODY
(Cruz Machado/PR, 1912 – 2004, Curitiba/PR)
Flecha de sol
A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
Consolo na praia
Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
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Trova de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN
Se há defeito em quem amas,
não te lamentes, nem grites,
que amor à frente da sombra
é sempre luz sem limites.
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Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR
Gema de amor
"O seu fruto é doce à minha boca." (Ct. 2.3)
Cálida gema, feita de amor,
Quero sentir todo o seu sabor;
Vou dar-lhe beijos apaixonados,
E você, seus lábios abrasados.
Você é doce - feita de mel,
Real geleia - pedaço do céu;
Quanta delícia no saborear,
Que bom se o tempo não mais passar!
Você está trêmula de emoção,
Sinto o pulsar do seu coração...
Perdi o controle, perdi meu senso
Por este amor de prazer imenso.
O que acontece? - Você suspira!
O que é isso? - Você delira!
Eu estou suando - quanto calor!
Estou feliz... Obrigado, amor!
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Trova Popular de
AUTOR ANÔNIMO
Se suspiro fosse bala
como estaria meu peito!
Estava todo varado,
morena, por teu respeito.
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Soneto de
BENEDITA DE MELLO
Vicência/PE, 1906 – 1991, Rio de Janeiro/RJ
Despojos
Vai-se partindo aos poucos, laço a laço,
Aquele nosso grande amor de outrora.
Ontem foi um desgosto, hoje embaraço.
Amanhã vai-se uma ilusão embora.
Mais uma falsidade revigora
Em minha alma essa dor, esse cansaço.
O próprio ciúme, com um sopro escasso,
Está fadado a perecer agora.
Nada mais acharás, quando voltares,
Que o fundo sono desse amor acorde:
Nem desejos, nem sonhos, nem pesares...
E embora em ti de novo o amor transborde,
Sentirei nos meus lábios, se os beijares,
O sabor da perfídia que me morde.
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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Já escalei morros medonhos,
caminhando passo a passo.
Mas nunca pude em meus sonhos
escalar nuvens no espaço!
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Poema de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG
Olhos perdidos
na neblina do tempo
buscando entender
contornos indecifráveis
que se perdem à distância.
Tentativas vãs
para a ultrapassagem
de fronteiras invisíveis
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Trova de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP
Quando me entrego ao passado,
sinto-o tão perto e envolvente,
que – esquecido e enevoado –
longe de fato... é o presente.
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Soneto de
LINO VITTI
Piracicaba/SP, 1920 – 2016
A uma página poética
(à poetisa Maria Cecília Bonachella)
Nesta página, sonham os poetas,
sonha também a lira das poetisas.
É um céuzinho diria, onde os estetas
jogam estrelas a suar camisas.
Aqui valem tão só líricas metas,
temos brilhos de sol, frescor de brisas...
Coisas transcendentais, vozes secretas,
o encantado, o feliz, santas divisas.
É cascata jorrando belas rimas,
frondosa e florescida árvore linda,
mais linda quando dela te aproximas.
Este caminho é grande, nunca finda...
Guarda o olor capitoso das vindimas
país de amor com que o "Jornal" nos brinda.
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ
Hoje tratam de "Excelência"
quem deixa o povo com fome.
Ou no mundo há só demência,
ou ladrão mudou de nome!...
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/Portugal
A noite não tem de ser escura, triste e fria,
A noite pode ter calor,
Um abraço, uma flor
Ofereço-te o meu coração
numa noite de outono
que se transforma em verão
A noite pode ser amena
quente ou serena
depende de como me sentes.
Como me vives!
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Trova de
ARI SANTOS CAMPOS
Balneário Camboriú/SC
Não sei mais o que fazer:
meu salário é um engano...
- Tenho medo de viver
numa tenda de cigano.
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Soneto de
J.G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ
A dor maior
Não quis julgar-te fútil nem banal
e chamei-te de criança tão-somente,
- reconheço, no entanto, infelizmente,
que, porque te quis bem, julguei-te mal.
Pensei até, (e o fiz ingenuamente...)
ter encontrado a companheira ideal...
Quis julgar-te das outras diferente,
e és como as outras todas afinal...
Hoje, uma dor estranha me consome
e um sentimento a que não sei dar nome
faz-me sofrer, se lembro o amor perdido...
A dor maior... A maior dor, no entanto,
vem de pensar de Ter-te amado tanto
sem que ao menos tivesses merecido!...
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Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ
Da velha fonte no lago,
à luz do mesmo luar,
retorno...e nos olhos trago
as águas que fui buscar!
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Soneto de
VINICIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980
Soneto a Katherine Mansfield
O teu perfume, amada – em tuas cartas
Renasce, azul... – são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.
Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.
Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto! ... e a primavera
Vem já tão próxima! ... (Nunca te apartas
Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
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Trova de
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/RS
Dizem que eu sonho em excesso...
Mas insisto em voos altos!
E as pedras nas quais tropeço
impulsionam novos saltos!!!
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Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989
Amigo
Inimigo
Nada tive com o mar
Nem ele comigo
Fui homem de seco
Hoje posto a secar
Neste beco
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Trova de
NILTON MANOEL
Ribeirão Preto/SP, 1945 – 2024
O bico do beija-flor
tem o condão do mistério;
é a natureza do amor,
ampliando da flora o império
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS
O límpido cristal
Que límpido o cristal de abril!... Um grito
não vai como os da noite — para os extramundos...
Todas as vozes, todas as palavras ditas — cigarras presas
dentro do globo azul — vão em redor do mundo
e a ninguém é preciso entender o que elas dizem;
basta aquele bordoneio profundo
que vibra com o peito de cada um...
palavras felizes de se encontrarem uma com a outra
nas solidões do mundo!
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Trova de
JOÃO OSVALDO SOARES (VAVAL)
Fortaleza/CE
Caro amigo, meu irmão,
é bem longe o nosso céu,
cuidado com sua mão
senão vai pro "beleléu".
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR
Língua
Língua de anjo
língua de homem
língua de bicho
língua que já não é língua
língua que me língua
espalhando prazer.
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