Eram tempos de efervescência nos Campos de Cima da Serra. A madeira, especialmente o pinheiro, fazia pulsar as serras de corte, movimentar os caminhões transportando tábuas, e enchia a guaiaca dos donos de dezenas de serrarias na região.
Na Fazenda do Matemático as manhãs de inverno eram geladas mesmo com sol. Geadas cobriam de branco os campos, as canhadas, os campitos ralos onde os pinheiros reinavam altaneiros. E eram costumeiras as nevascas naqueles julhos.
Por estes caminhos Manuel passava todos os dias em busca do ouro verde para as serrarias. Mas no final daquela tarde o chefe da madeireira lhe ordenou a levar carga de tábuas para um depósito a mais de uma centena de quilômetros na manhã seguinte.
E assim o fez, mas havia a demora com as estradas ruins daqueles tempos. Anoiteceu. Manuel teve que dormir fora do hotel que abrigava dezenas de operários da empresa.
No dia seguinte chegou para o almoço na serraria. Foi logo em busca da companheira, sua Maria, que trabalhava na cozinha do hotel.
Cadê a Maria, indagou?! Ela foi embora sem dizer para onde. O mundo ruiu sobre Manuel. Retornou ao trabalho pela tarde.
De manhã pulou cedo da cama, tomou o café e saiu para a rua. Eis que olhou para o chão e viu um daqueles grandes, imensos estercos de vaca com marca de um pé, de um passo humano. E reconheceu - é da Maria!
Juntou a peça e levou para o seu quarto no hotel. E por um bom tempo lamentava: só sobrou o rastro da Maria!
Passaram-se dias, meses empurrando o tempo, quando numa tarde quente de janeiro, Manuel volta do trabalho, chega ao hotel e vê Maria ao lado dum gurizinho de talvez dois anos. Não se conteve. Abraçaram-se, beijaram-se como dantes o faziam.
Na manhã seguinte a notícia estava em todas as bocas - a Maria voltou para o Manuel. Passado o almoço um curioso de plantão perguntou a ele:
- Então, mano, recolheste de volta a Maria com o gurizinho?
- Por que não?! Quem recolhe a vaca também recolhe o terneiro.
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O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.
(Texto enviado pelo autor)

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