sábado, 22 de agosto de 2026

Laé de Souza (O grande diretor de teatro)


Faz tempo que não vejo o Ariolando. Pelos idos de 75, fizemos teatro juntos. Ator de pouca expressão, mas metido a diretor, palpitava em tudo quanto era peça que ensaiávamos. Meticuloso ao extremo. Em nosso grupo fazia sempre pequenas pontas, mas esnobava-se para os amigos, dizendo que sua participação era diminuta por sua própria imposição, vez que era mais necessário de fora, ajudando o diretor com opiniões e sugestões.

Aliás, gabava-se que o diretor era figurativo, já que na verdade era ele, Ariolando, quem dirigia o grupo. Afirmava que a sua participação, em cena, era mais para servir de calço a algum ator inexperiente, que sentia firmeza ao contracenar com alguém da categoria dele. Para um diretor, ter Ariolando como ator não era fácil e eu fui testemunha de muitos que perderam a cabeça entregando seus cargos.

Mas, enfim, num memorável dia, Ariolando reuniu todo o grupo e disse que, por falta de reconhecimento ao seu grande talento e, por prevalecerem ideias de incompetentes, renunciava e afastava-se de vez do grupo de teatro, desejando que fosse encontrado, para substituí-lo, alguém com pelo menos metade do seu gabarito.

Casou-se com a Dirolinda, que também teve uma passagem rápida pelo grupo, adquiriu o gosto por espetáculos. Eram sempre vistos nos teatros. Ela divertindo-se a valer, e ele sempre sisudo e observador. Quando questionado por ela sobre o texto, ele perguntava: “Que texto?” Desconcertada, ela complementava: “O enredo.” Ao que Ariolando caía de pau: “Com uma performance absurdamente fora do contexto, alguém do meu nível vai se ligar em enredo, mulher? Como se pode entender um desenrolar de cenas com uma direção estapafúrdia dessas? No meu tempo... Você nunca me viu dirigindo porque quando entrou, eu já estava saindo... Aliás, pelo seu teste, por mim nem teria entrado... Chamar esse pessoal de atores e aplaudir uma direção dessas é fazer Stanislavski mexer-se no caixão.

Diretor pior que esse, nunca vi em toda minha vida. Aquela cruzada de pernas, quando o homem sentou-se, tinha de demorar mais dois segundos; tinham de bater mais uma vez na porta, antes que ela fosse aberta; naquele cumprimento, tinha de apertar mais a mão e dar um pequeno balanço; quando o rapaz se dirigiu à janela, tinha de dar um tropeção para embelezar mais a cena e torná-la mais real; na cena da despedida, ao invés daquela luz branda, teria de ser forte e localizada no rosto da atriz, para que se percebesse a sua expressão. Ou, talvez, aí o diretor tenha sido bom, escondendo o despreparo de sua atriz, que só foi percebido por um expert como eu. Aquela cena de dirigir-se para a corda, demorou. Fração de segundos, é verdade, mas fugiu das boas técnicas.

Aquela personagem de cacoete, tinha de balançar um pouco mais a cabeça; na hora do adeus, a boca do ator tinha de se afunilar e ele estar virado para a lateral direita em direção à plateia. Como você queria que eu me ligasse em enredo, quando aconteciam erros crassos de direção, Dirolinda? Eu, como diretor desse elenco, não passaria ninguém como ator, porque eu conheço de longe quem interpreta com perfeição.”

Dirolinda só assentia com a cabeça.

Num belo dia, ao chegar em casa, Ariolando encontrou um bilhete da Dirolinda: 

“Ariolando, se você é um diretor tão bom, se conhece uma atriz de longe, por que não me reconheceu quando, ao teu lado, fingi o tempo todo te amar? Ou fui uma boa atriz? Adeus.”
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(Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018)

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