Antes de iniciarmos a nossa jornada, é preciso conhecer o maior herói das lendas romenas: Făt-Frumos (cujo nome significa "Belo Menino" ou "Príncipe Encantado") é o herói arquetípico por excelência do folclore da Romênia. Nascido muitas vezes de forma milagrosa — como de uma lágrima derramada pela Virgem Maria —, ele cresce em poucos dias o que um homem normal levaria anos para crescer. Destemido, puro de coração e dotado de uma força sobre-humana, Făt-Frumos cavalga um cavalo alado mágico (Calul Năzdrăvan) que se alimenta de brasas vivas. Ele é o eterno defensor da justiça, cuja missão é combater os monstros devoradores de homens, como os dragões (Zmei) e as bruxas da floresta.
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O sol mal havia nascido quando os cascos de fogo de uma montaria mística tocaram o solo de Valea Verde. Făt-Frumos desembarcou de seu cavalo alado, com sua armadura de prata brilhando sob a luz da manhã e uma espada dourada presa à cintura. O príncipe herói não vinha em busca de glória pessoal, mas sim para atender ao clamor de socorro que ecoava pelas montanhas. O terrível Zmeu (dragão) do Vento Negro havia roubado a colheita sagrada da região, condenando o povo à fome antes do inverno.
No centro da aldeia, Moșneagul já o esperava, apoiado em seu velho cajado. O sábio ancião olhou para o jovem guerreiro e sorriu, reconhecendo a pureza em seu olhar, mas também a impetuosidade típica dos heróis.
— Seja bem-vindo, Făt-Frumos — saudou o Moșneagul. — Sua espada é formidável, mas o Vento Negro não pode ser cortado pelo aço comum. Para derrotá-lo, você precisará de mais do que força; precisará honrar o solo que pisa.
— Sábio Moșneagul, minha força nunca falhou e meu cavalo corre mais rápido que o próprio tempo — respondeu o príncipe com confiança. — Diga-me onde fica o covil da fera e trarei a justiça de volta a este vale.
Moșneagul assentiu lentamente e entregou ao herói três objetos simples: um punhado de terra da colina sagrada amarrado em um lenço, uma garrafa com água pura da fonte dos Cárpatos e um pedaço de pão de trigo amanhecido.
— Quando o monstro parecer invencível, lembre-se: a força de um herói não vem de seus braços, mas da terra que ele defende. Use esses presentes com sabedoria e respeito às nossas origens — aconselhou o velho.
Făt-Frumos guardou os itens, montou em seu cavalo e partiu em direção às Cavernas Sombrias da Montanha Alta. Ao chegar lá, o céu escureceu e um redemoinho de fumaça preta emergiu das profundezas. Era o Zmeu, uma criatura gigantesca com escamas de pedra e hálito de tempestade.
— Quem ousa me desafiar? — urrou o monstro, lançando lufadas de ar cortantes que rachavam as rochas.
— Sou Făt-Frumos, e vim libertar a vida que você roubou deste povo! — gritou o herói, avançando com sua espada.
A batalha foi feroz. Făt-Frumos desferiu golpes precisos, mas cada vez que cortava o vento, a criatura se regenerava, tornando-se ainda mais violenta. O cansaço começou a abater o príncipe, e o Zmeu, rindo com escárnio, lançou uma rajada que derrubou o herói de seu cavalo, prendendo-o contra a parede de pedra. A espada de prata voou longe.
Prestes a ser esmagado, Făt-Frumos lembrou-se das palavras de Moșneagul. Ele enfiou a mão no bolso e retirou o lenço com a terra da aldeia, jogando-a aos pés do monstro. No mesmo instante, o solo sob o Zmeu tremeu, e raízes profundas emergiram da rocha, agarrando as patas da criatura. Em seguida, o herói derramou a água da fonte sobre as raízes, fazendo-as crescer com uma força indestrutível que paralisou o monstro.
Por fim, Făt-Frumos pegou o pedaço de pão amanhecido — o símbolo do trabalho e da partilha do povo — e o colocou sobre o peito de pedra do Zmeu. Uma luz dourada e avassaladora brotou do alimento, representando a energia acumulada de gerações de camponeses honestos.
A fera vnão aguentou o peso daquela pureza ancestral; ele rugiu uma última vez e desfez-se em uma brisa suave de primavera, libertando os grãos roubados que voltaram voando para os celeiros de Valea Verde.
Făt-Frumos recuperou sua espada e montou seu cavalo, retornando à aldeia sob os aplausos do povo. Ele aproximou-se de Moșneagul e curvou-se diante do velho sábio.
— Você tinha razão, Moșneagul — disse o herói com humildade. — Minha espada apenas iniciou a luta, mas foi a força da terra e o respeito aos que nela trabalham que venceram o mal.
O velho sorriu e colocou a mão no ombro do príncipe.
— Vá em paz, Făt-Frumos. Enquanto houver heróis que escutam a sabedoria da terra, a escuridão nunca vencerá.
Moral:
A verdadeira força e o heroísmo não residem apenas no poder físico ou nas armas que carregamos, mas na profundidade de nossas conexões com nossas origens, nossa comunidade e os valores que defendemos. A arrogância cai diante das tempestades, mas a humildade combinada com o respeito às tradições é capaz de imobilizar até o mais terrível dos inimigos.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia.
Resumo biográfico pode ser encontrado no link
(Texto enviado pelo autor)

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