segunda-feira, 24 de agosto de 2026

José Feldman (Instantes Mágicos)


O tempo é uma substância estranha. Temos relógios para medi-lo em partes iguais, mas o coração ignora os ponteiros. O instante que vivemos pode ser o que há de melhor. Alguns momentos são tão preciosos que desejamos que durem para sempre, toca exatamente nessa ferida aberta da nossa existência: a nossa eterna briga com a efemeridade.

Preparamos a vida inteira para os grandes palcos. Estudamos anos para uma carreira, planejamos meses para uma viagem, economizamos décadas para o futuro. Porém, quando olhamos para trás em um momento de silêncio, o que nos sustenta não são os grandes blocos de horas planejadas. São os fragmentos. O instante exato em que o sol bateu no rosto de quem amamos e rimos de uma bobagem qualquer. O segundo de silêncio compartilhado antes de um abraço de despedida. O estalar de dedos em que a solidão deu trégua e nos sentimos parte do universo.

Há uma contradição bonita e dolorosa na busca humana pelo "para sempre". Queremos eternizar o que é bom porque a beleza nos assusta com a sua brevidade. Se o instante precioso durasse para sempre, ele deixaria de ser instante. Viraria rotina. Perderia o brilho exato que só a urgência do fim consegue dar. A eternidade de um momento não está na sua duração cronológica, mas na profundidade da marca que ele deixa na alma. Um segundo de felicidade plena é mais vasto do que um ano inteiro de dias cinzentos e automáticos.

O perigo da nossa era moderna é que estamos esquecendo como habitar o instante. Estamos sempre um passo à frente, antecipando o próximo compromisso, ou um passo atrás, remoendo o que já passou. Quando o instante precioso acontece, muitas vezes tentamos sacá-lo do fluxo do tempo com a câmera de um celular, tentando congelar o que só deveria ser sentido. Ao tentar registrar o momento para guardá-lo no futuro, esquecemos de estar presentes nele agora.

Alguns instantes mereciam o infinito. Como não podemos parar o relógio, nos resta a dignidade de viver esses momentos com entrega absoluta. Se não podemos fazer o tempo parar, que saibamos pelo menos expandir o agora, mergulhando de cabeça em cada segundo precioso. Afinal, a eternidade não é o tempo que nunca acaba; é o instante que nunca esquecemos.
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