sábado, 8 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 211 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Haicai de
ZEKAN FERNANDES
São Paulo/SP

Fiel espantalho
Ainda guarda a plantação
Depois da colheita.
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Soneto de 
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG

Tributo a Severino Silveira de Sousa 

COMO o orvalho emergindo da aurora,
Quando o sol o dissolve na vegetação,
Espalhando pingos de ouro pelo chão,
Para vicejar a relva nativa e a flora;

Assim se expandem pelo mundo afora,
Quem sempre extrai da alma e coração,
Nobre sentimento e real dedicação:
-Tudo de bom que de seu âmago aflora... 

No livro da vida, um soneto perfeito!
Rendo-me, aqui, com todo meu respeito,
Ao colega gaúcho, exímio trovador: 

-Poeta Severino Silveira de Sousa!...
Pássaro cantor!... No galho onde pousa,
Com sua lira faz - "caramanchéis de amor!..." 
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Trova de
RODOLPHO ABBUD
Nova Friburgo/RJ, 1926 – 2013

A mulher do sapateiro
que vive ao som do martelo,
bate sola o ano inteiro,
pondo o esposo no chinelo! 
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Soneto de
WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon/Grã-Bretanha, 1564 – 1616

Soneto 2

Passados quarenta invernos sobre a tua fronte,
Após cavarem fundos sulcos nos vergéis de tua beleza,
O vigor de tua orgulhosa juventude, hoje tão admirada,
Será um esmaecido ramo sem nenhum valor.

Então, ao te perguntarem onde está o teu encanto,
Onde está a riqueza de teus luxuriosos dias,
Respondes, com olhos fundos,
Que não passaram de vergonha e descabidos elogios.

Que louvores mereciam o uso de teus dotes,
Se pudesses responder: “Este belo filho meu
Me vingará, e justificará todos os meus atos”,
E provará ter herdado de ti toda a formosura.

Isto farás de novo quando fores mais velha,
E o sangue te aquecer quando te sentires fria.
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Haicai de
NEIDE ROCHA PORTUGAL
Bandeirantes/PR

Desses livros velhos
eu sei bem a idade deles—
das traças, não sei.
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Soneto de
AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO, 1925– 2002, Rio de Janeiro/RJ+

Sonetos Elementares: XIII

Nada há de mais num túmulo sem flores
perdido numa estrada. Mas em nós
existem solidões, almas que sobram
de um sonho já sepulto ou de silêncios.

Vai comigo o silêncio enquanto fujo
das multidões, das ruas e do amor
que poderia ser – e no silêncio
as tristezas e os risos vão comigo.

Mas que desejo é este que me impele
para as sombras e os ermos, onde, lúcida,
vem sempre me acolher minha presença?

Ontem o rio estava quieto, hoje corre
impetuoso. Eu olho e nada estranho:
muito de mim eu vejo nessas águas.
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Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

"Esta peixada está quente!"
reclamava o Zé Maria;
e o dono do bar: "Ó xente,
'se qué', tem pexera fria!”
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Poema de
JOSÉ CRAVEIRINHA
Maputo/Moçambique, 1922 – 2003, Johannesburgo/África do Sul 

A nossa casa

Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.

Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Clássica arquitetura retangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e' morar no bairro de Lhanguene.

Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.

Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.
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Trova de
MARIA TEREZA NORONHA 
São Paulo/SP

O livro, a cerveja ao lado,
o rádio, o abajur antigo...
Eu deixo tudo arrumado,
fingindo que estás comigo.
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Poema de
HENRIQUE ABRANCHES 
Lisboa/Portugal, 1932 – 2004, África do Sul 

Ao Bater da Chuva

A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem, 
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces,
a chuva bate o capim molhado,
e soa...
A humanidade é fria.
                                                                              
As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de proteção!
A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...
                                                                          
E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...
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Aldravia de 
EDIR MEIRELLES
Rio de Janeiro/RJ

emocionado
em
silêncio
pela
palavra
apunhalado
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Um Poema de
ANTONIO OLINTO
(Antonio Olyntho Marques da Rocha)
Ubá/MG, 1919 – 2009

Noturno

Os rios da noite passam pelos desvãos do homem,
por todos os pedaços vazios da memória,
pelos olhos secos de tanta sombra.

É uma presença física
de palavras batidas de vida,
de silêncio oscilante da iminência do grito.

As árvores estão sós - o vento é morto
é preciso um avançar exato do gestos
para captar a vida sob as horas imóveis.

Um piano aberto na areia,
diante do mar e das pedras.
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Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Muito suor foi preciso,
mas minha audácia venceu:
- finalmente, o chão que eu piso
tem dono... e o dono sou eu!!! 
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
FRANCISCO NEVES MACEDO
Natal/RN, 1948 – 2012

Cruviana* Sertaneja

Ah cruviana...
Descobri-a numa noite da minha adolescência
no alpendre da casa grande de Coroas Limpas
na minha Santana do Matos.
Tremia feito "vara verde"
Não, não era o frio!
Era o medo de não saber se tu cruviana,
Seria uma onça  ou uma alma penada.
E pela manhã fui dicionariZar o meu medo...
Beleza!
A grande descoberta!

Chega em tornado, 
acordam os trabalhadores das fazendas 
e os envia fora para o trabalho. ...
Meu Deus, que alivio!
E o alpendre da velha casa de Coroas Limpas,
ganhava um "dormidor"
para curtir a cruviana 
de cada emadrugadecer!
= = = = = = = = = = = = = =  
*Cruviana = É a Deusa do vento, a mulher do alvorecer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
JOSÉ XAVIER BORGES JÚNIOR
São Paulo/SP

Hoje trago na lembrança
uma dor que sobrevive
num fiapo de esperança
pelo amor que nunca tive
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Poema de 
DULCE AURIEMO
São Paulo/SP

O Castelinho 

Existe um lugar...você vai conhecer 
E quando chegar... pode entrar sem bater... 
A porta aberta vai sempre encontrar 
No alto da torre um sininho a tocar... 

No meu coração... bem guardado em mim... 
Aonde o amor... não tem fim, não tem fim... 
Tem um Castelinho pra gente brincar 
Já fiz seu cantinho você vai gostar... 

Tem água de coco, pãozinho de mel 
Pipoca, paçoca, sorvete e pastel... 
Brinquedo, livrinho, fantoche, massinha 
Balão colorido... herói de estorinha... 

Tem fonte, laguinho, jardim pra correr 
Passagem secreta pra gente esconder 
Tem ponte, riozinho, patinho a nadar... 
Até carruagem... que vai passear... 

As sete notinhas eu vou ensinar 
E tantas canções vamos juntos cantar...
As sete notinhas eu vou ensinar 
E tantas canções vamos juntos cantar...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ORLANDO WOCZIKOSKY
Curitiba/PR, 1927 – 2019

É nobre quem não exalta
vitória já conquistada,
pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
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Poema de 
CARMEN LÚCIA HUSSEIN
Taubaté/SP

Apenas

Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
As suas palavras
E boas atitudes
Para eu ser feliz
Ter esperança na vida
E energia para prosseguir
Amenizar a saudade
E dar rumo
E norte ao meu existir
Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
De momentos breves de felicidade
Para eu ser feliz!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
AUTOR ANÔNIMO

Já fui  alegre e contente,
hoje não sou mais ninguém.
Já fui consolo dos tristes,
hoje sou triste também.
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Poema de
EDGAR ALLAN POE
Boston/EUA, 1809 – 1849, Washington/EUA

Annabel Lee 

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar. 

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar. 

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar. 

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar. 

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar. 

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
= = = = = = = = = = = = = =  

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