quinta-feira, 20 de agosto de 2026

José Feldman (O Ofício das Águas)


Sentar-se à beira do cais da própria existência é dar-se conta de uma verdade náutica: a alma humana é uma embarcação que nunca atraca por completo. Conduzir os dias é aceitar, queiramos ou não, o ofício da navegação interna. Somos todos barqueiros de nós mesmos, empurrando as tábuas da nossa consciência sobre as águas profundas, escuras e incertas do tempo. O detalhe mais agudo dessa condição não é o peso dos remos, mas a natureza mutável da carga que escolhemos carregar. Navegamos, afinal, com sonhos sem destino. Há quem passe a existência inteira desenhando mapas perfeitos, portos seguros e rotas milimetricamente calculadas na areia. Tolice. O destino é uma ficção que inventamos para aplacar o medo do horizonte aberto. O verdadeiro mar da vida não aceita coordenadas fixas; ele se move, mexe-se sob o casco e nos obriga a flutuar no imprevisto.

Essa travessia, contudo, não começa no momento em que seguramos os remos pela primeira vez, mas muito antes, no primeiro recuo da maré humana. A verdade mais visceral da nossa biografia é que a primeira despedida no ventre da mãe começa. O nascimento é o nosso primeiro exílio, o instante zero em que fomos expulsos amorosamente de um porto perfeito para que pudéssemos aprender o alfabeto da distância. O parto é o primeiro "Adeus, filho. Vive a vida", um sussurro biológico que decreta: para ser é preciso partir. Fomos lançados ao mar aberto com o cordão cortado, restando-nos apenas a memória celular daquele aconchego original. É essa perda inaugural que inaugura, também, o nosso direito de flutuar. Nascemos despedidos, e passar pelos dias é aprender a honrar essa partida, navegando em direção ao amanhã sem a exigência de promessas de retorno, pois o amor maduro sabe que os filhos pertencem ao vento, não ao cais.

Uma vez na correnteza, o barqueiro descobre que a tripulação da sua mente divide-se estritamente em duas categorias que disputam o espaço do convés. O sonho bom é o passageiro legítimo, aquele que entra pela rampa principal trazendo a luz do sol e a calmaria de uma meta alcançada; ele justifica o suor gasto nos remos. Mas nenhum barco cruza o oceano da existência carregando apenas quem foi convidado. Nas frestas do porão, no escuro onde os olhos não querem ver, esconde-se o sonho mau: o clandestino. Ele é o medo do fracasso, a culpa por um erro antigo, a ansiedade pelo amanhã. O barqueiro inexperiente tenta caçar o clandestino, desorientado pelo pânico. Mas a sabedoria do navegador maduro reside em compreender que o sonho mau também faz parte da viagem. Ele confere lastro à embarcação. Um barco feito apenas de passageiros sorridentes flutua na ilusão da superfície; carece da gravidade que nos sintoniza com a realidade do mar.

É no auge dessa navegação, no confronto diário entre o passageiro e o clandestino, que a vida exige de nós uma escolha de vestimentas. O mundo, em sua crueza e pressa, costuma nos empurrar para os conflitos cotidianos, vestindo-nos com os farrapos da guerra. Andamos armados de cinismo, indiferença e reatividades baratas. Usamos essas armaduras pesadas para nos proteger do toque, esquecendo que elas também impedem o abraço. A grande virada filosófica da jornada ocorre quando o barqueiro percebe o Bem que o amor encerra e decide mudar de pele. Quem veste o manto da paz, despe os farrapos da guerra. Não há espaço para sobreposições: a paz não cabe por cima do metal pontiagudo da discórdia. É preciso ter a coragem de desarmar-se unilateralmente, deixando cair no assoalho do barco o orgulho de ter sempre razão e a necessidade neurótica de revide. O manto da paz é leve, feito do tecido sutil da tolerância, permitindo que os braços fiquem livres para segurar os remos com mais leveza e precisão.

Mesmo sob o manto da paz, o mar cobra o seu preço em mistério e recolhimento. Há noites em que a calmaria é tamanha que o barqueiro adormece ao relento e, no território livre da mente, reencontra rostos esquecidos, portos perdidos e tempos felizes. “No sonho estavas sorrindo”, nota o poeta, despertando logo em seguida com o peito apertado. “Mesmo assim fiquei tristonho”, confessa a alma lúcida ao perceber o império da vigília retomar o quarto. A pergunta que ecoa na madrugada é quase um protesto contra a própria condição humana: “de que vale um sonho lindo, se dura apenas um sonho?” Julgamos, na nossa arrogância cronológica, que o valor das coisas habita a sua duração. Queremos que o sorriso sonhado seja eterno. Mas o valor do sonho lindo está justamente na sua impermanência. Ele não é uma habitação permanente, mas um vislumbre; um espelho retrovisor que nos mostra a pureza de um sentimento que a poeira dos dias acordados teima em soterrar. O sonho lindo dura apenas um instante, mas o eco daquele sorriso permanece nas frestas do nosso dia, servindo como bússola para que tentemos reconstruir, no chão difícil da realidade, a alegria que o sono nos deu de graça.

Ao entardecer, quando as águas se aquietam e o horizonte parece se fundir com o céu, o barqueiro recolhe os remos e abre o seu livro de lembranças, ainda sem conclusão. Viver é rascunhar capítulos em tempo real, corrigindo parágrafos com as mãos trêmulas da experiência. Ao folhear as primeiras páginas da sua história, o navegante sorri ao descobrir o artifício do tempo: saudade é a esperança que faz parte da introdução. Descobre-se, enfim, que a saudade não é o resíduo do passado que morreu, mas o eco da esperança que tínhamos quando a jornada começou. Não choramos pelo que foi; choramos pelo futuro que havíamos projetado naquelas manhãs antigas. A introdução do livro foi escrita com a tinta fresca da expectativa, e se hoje ela se transformou em saudade, é porque fomos corajosos o suficiente para começar a história com entusiasmo.

O livro continua aberto, com páginas em branco prontas para o dia de amanhã. O barqueiro olha para trás e saúda o ventre de onde partiu; olha para o convés e pacifica o conflito entre o passageiro e o clandestino; ajusta o manto da paz sobre os ombros e guarda o sorriso do sonho efêmero como quem guarda um amuleto contra a tempestade. Com a caneta em uma das mãos e o remo na outra, ele compreende que a beleza da navegação humana não está em ter um porão perfeitamente limpo ou um mapa definitivo, mas na capacidade de manter o rumo no mar sem destino. A história ainda está sendo escrita, e cada novo parágrafo é uma chance de reinventar o que a esperança começou.
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Texto tendo por base a trova de Aparício Fernandes 
(Acari/RN , 1934 - 1996, Rio de Janeiro/RJ)
No sonho estavas sorrindo, 
mesmo assim fiquei tristonho: 
- de que vale um sonho lindo, 
se dura apenas um sonho?
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