(tradução do romeno por José Feldman)
Era uma vez uma fila em um posto improvisado do outro lado da rua da Rodoviária Militares. Eu costumava ir com minha sogra para o interior, não sei mais por quê. Talvez para um frango, alguns legumes e um queijo com vinho. Em um espaço do tamanho de uma sala de um bloco comunista, várias pessoas se amontoaram e se amontoaram para de alguma forma alcançar quem as preparou e vendeu. A fila se alargou na calçada, em um ar de verão irrespirável e quente demais, ônibus, asfalto e chaminés de fábrica. Entre as moscas, você não podia jogar uma agulha, elas amassavam próximas, avançavam com os cotovelos, alcançavam o balcão por direções diferentes.
Nos anos 80, sair para a rua quando criança ou qualquer outra coisa comestível era um evento. Agradável de algum jeito, porque havia a chance de comer algo, completamente desagradável, porque você tinha que esperar horas. De vez em quando, a tristeza cinzenta de viver no sofá dava lugar à ansiedade. O que vi do outro lado da rua da rodoviária não era uma fileira de pessoas sentadas uma a uma ou duas a duas, a alguma distância, mesmo que fossem dois ou três centímetros, mas um palco onde a farsa da sobrevivência era encenada. Um dragão cheirando a carne queimada, entranhas podres e perfume barato, com dezenas de cabeças agitadas, perturbados pela necessidade iminente de devorar.
Nas bordas haviam mesas altas onde algumas pessoas felizes comiam, em pé, as pequenas com mostarda e as poucas fatias de pão branco, feitas de papelão quadrado. Fiquei impressionada com uma mulher morena, com cabelo tingido, branco na raiz, vestida com um vestido barato de verão com pipoca, sozinha em uma mesa. Eu olhava para ela, enquanto minha sogra continuava me incentivando a sentar na fila, ela tinha trabalho em algum lugar, ela viria depois; Ela ainda não tinha descoberto que eu não tinha o hábito de ficar em filas. Eu disse para ela ir embora porque eu veria o que eu estava fazendo.
Eu conhecia a estranha que comia devagar, com pausas, como quando você não quer que acabe rápido demais. Ela olhava ao redor, depois para a avenida, tentei encontrar o olhar dela, mas ela não parecia ver ninguém. Ela tinha olhos vermelhos, com algo febril neles, como um mendigo perseguido que não aceita seus estigmas, mas também não tem forças para esconder. Ela comia os pedaços de comida com o rosto decomposto, o que já é escandaloso desde o início. Não é apropriado. Você tem que estar alegre. Ou desistir. Só se algo quebrar por dentro, você não consegue mais. Você se perde fascinado pelo abismo da miséria. Depois de um tempo, ela limpou a caixa de mostarda com o último pedaço de pão.
Não era qualquer conhecida, perdido na multidão de rostos que passam por nossas vidas ao longo dos anos, difíceis de trazer à tona da memória, porque sua marca afetiva não é forte o suficiente. Ela tinha sido minha professora de história no ensino médio, só por um ano, mas não dava mais aula lá, eu não sabia o nome dela. As aulas dela não se pareciam com as dos outras professoras, eram, eu diria que hoje, normais. Trate-nos do mesmo jeito que trata as pessoas que precisam de você, converse com elas, com confiança e paciência. Ela não tinha nem o culto à autoridade, nem a vaidade da excelência.
Não consegui sair do meu lugar. O que ela teria feito em sua dor com o abraço de um estranho? E como você pode dizer a ela que não há ironia mais insuportável do que essa aula de história indesejada? À luz de uma tarde de verão, estridente, ao ritmo de trompas, não de rock and roll. Desmascarada, sem fingimento, sem esperança. Depois de terminar com os pedaços de comida, ela partiu na direção oposta, para um quarteirão sórdido de apartamentos no bairro, onde provavelmente ninguém a esperava. Minha sogra me encontrou em um banco, observando a fila de uma distância segura, pelo menos por um dia.
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DUMITRITA STOICA é formada pela Faculdade de Letras da Universidade de Bucareste, doutora em filologia com tese sobre o teatro poético de orientação moderna no início do século XX. Ela publicou livros didáticos para o ensino médio, materiais didáticos, artigos de opinião e ensaios em diversas revistas culturais. É autora de dois romances: "Nu me touche" (2011), e "Na beira do mundo" (2018). Publicou textos curtos em prosa na "Literomênia", na seção "Contos de Flash Fiction" (2017-2018). Em 2019, contribuiu para a antologia "Prof de Romeno. Uma antologia diferente de textos".
(Revista Literomania. Literatura feminina n. 140 (2019). Disponível em https://www.litero-mania.com/o-coada-la-mici/)

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