domingo, 2 de agosto de 2026

Luís Fernando Veríssimo (Atitude suspeita)


Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso "em atitude suspeita". É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida  e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.  

- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?  

- Suspeita.  

- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que  ele alega?

- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra  a prisão.

- Hmm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria  medo de vir dar explicações.

- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!  

- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.

- Mas eu só estava esperando o ônibus!  

- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a  nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o  próximo é que era o dele? A gente vê cada uma...

- Não senhor, delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias  para ir pra casa! Sou inocente!

- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?

- Fugir, como?  

- Fugir no ônibus. Quando foi preso.  

- Mas eu não tentava fugir. Era o meu ônibus, o que eu  tomo sempre!

- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é  criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus,  em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes  da lei ao seu lado. Tentou fugir e...

- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.  

- Ah, uma confissão!  

- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O  senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude  suspeita?

- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

- Delegado...  

- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês  querem que o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...

- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta  atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar  em atitude suspeita, é um pouco...

- Um pouco? Um pouco?  

- Suspeita.
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LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fonte:
Luís Fernando Veríssimo. O gigolô das palavras. Publicado originalmente em 1987.

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