Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 7 de outubro de 2018

J. G. de Araújo Jorge (Bazar de Ritmos) I


A PAINEIRA E O POENTE 

Vai desmaiando a tarde ao longe, muito em calma,
atrás de uma paineira enfeitada e florida...
Esse poente é o meu Ser... a paineira, a minha alma,
e o quadro, uma visão do fim da minha vida...

Imagino esse fim: - "os anos desfolhados   
e as folhas na lembrança em turbilhão rolando. . .   
- curvado, olhos sem luz, sozinho, vou passando
entre vagos perfis, distantes e apagados. . . "

"Silêncio... Solidão... Saudades ao redor...
No horizonte uma cruz, ponto final da estrada.
E eu passando sozinho a murmurar de cor   
um verso derradeiro à minha alma cansada... "

"Nem um olhar sequer... No entanto, em minha vida
quantas mulheres tive ao meu lado e em meus braços. . .
- mas nenhuma, sincera, soube ser querida,   
e é por isso que escuto apenas os meus passos. . . "

"Passaram uma a uma...    E afinal como flores
deixei-as para trás nas estações de outrora...
Nesse tempo o meu peito era um buquê de amores,
meus olhos tinham luz...minha alma era sonora... "

"Nesse tempo eu sabia amar e fazer versos...
Quantos sonhos sonhei... Quantos lindos desejos...
E os poemas que compus e que deixei dispersos
eram feitos de amor... e pontuados de beijos..."

Eis como vejo tudo: - "o meu vulto curvado,
a cabeça branquinha assim como o algodão...
Para trás, uma estrada imensa: - o meu passado...
Para a frente, mais nada: - uma cruz sobre o chão..."

A minha alma, no entanto, enfeitada há de estar,
florindo de lembranças e recordações,
e os seus ninhos de amor há de sempre ostentar
vazios, relembrando o tempo das canções...

E arrastando os meus pés, caminharei sorrindo,
findando esse destino errante e sonhador
e o meu poente há de ser, como esse dia lindo
morrendo por trás de uma paineira em flor!…

CARTA A UM AMOR DO PASSADO

Vou fazer este verso e o entregar. ao correio;
ele é a carta que escrevo a um amor do passado.
- Endereço não tem - e o meu maior receio
é que não chegue nunca e se perca no meio
da viagem, sem achar a quem foi destinado...

Escrevo-o muito embora - é que hoje necessito
recordar tempos bons quando eu era feliz,
- e ao pensamento vem enquanto assim medito,
um passado distante intérmino e infinito
que guardei para mim nas memórias que fiz...

Vou tentar, meu amor... (perdoa-me se ainda
quero chamar assim ao que não volta mais...)
- vou tentar revolver uma lembrança linda
que em meu peito não morre e em minha alma não finda
e ao meu viver de agora um sorriso me traz...

Não te lembras, bem sei... - não importa, no entanto,
tão feliz hás de ser que hás de julgar-me um tolo...
- mas eu que vivo sempre a amargar o meu pranto
que fiz da minha vida um grande desencanto
encontro na lembrança dele algum consolo...

Mas, não... não devo mais procurar o romance
onde este amor ficou como uma flor sem vida...
Que a minha alma sozinha e plácida descanse
e guarde a flor que lembra uma indecisa nuance
- antes que ela desfolhe essa ilusão querida...

Não devo revolver cinzas quase apagadas
nem uma brasa extinta ao meu sopro atiçar...
Depois... a minha vida e a tua, hoje afastadas,
jamais hão de se unir: são folhas desgarradas
que nunca ao mesmo ramo hão de poder tornar...

Perdoa-me portanto esta carta, se acaso
algum dia ela for parar em tuas mãos...
Ninguém sabe quem és... e assim, não faças caso,
ela é o raio de luz de uma ilusão no ocaso
e o sepulcro final dos meus desejos vãos...

DERRADEIRA INSPIRAÇÃO

Este é o último verso onde talvez
a tua imagem seja percebida,
- o instante derradeiro em que te vês
a inspirar o meu verso e a minha vida...

Guarda-o depois das linhas que tu lês
morrerás... e hás de ser sempre esquecida...
- não tornarei sequer uma só vez
a falar na lembrança mais querida...

Este é o último adeus que ainda te dou,
- termina aqui a imensa trajetória
que o teu destino sobre o meu traçou...

Daqui por diante... avançarei sozinho,
e nunca mais te encontrarás na história
dos versos que fizer em meu caminho!

SONHADORES

Há um cigarro a sonhar sobre o cinzeiro...
E eu vejo fugir seus sonhos
nas finas fitas azuis
da fumaça a subir pelo ar brincando...

Há um cigarro a sonhar - e ao vento que entra
pela janela aberta,
brilha um fogo em sua alma, e ele se acende
à proporção que em cinzas vai ficando...

Noutro cinzeiro eu sou como o cigarro abandonado
junto a uma janela aberta para o mundo,
sonhando fumaça azul que sobe no ar...
E o meu grande prazer... é, ao vento do destino,
que entra na minha vida,
- sentir essa volúpia que a minha alma sente
de se ir assim queimando, aos poucos... lentamente,
a sonhar... a sonhar...

MÚSICA
    
Silêncio... Solidão... - sinto pelo ar que existe
em surdina, no céu, tempestuoso e cinzento,
- um ritmo... um compasso... um solo muito lento...
de uma obra de Chopin... nervosamente triste...

Repentinos clarões !... Lá pelo espaço se ouvem
entre a voz dos trovões e os sons das ventanias,
os brados de aflição... de estranhas sinfonias
lembrando a orquestração da "nona" de Beethoven...

Há música nos céus... Há música em minha alma...
Ficou na natureza um Liszt interpretando
a rapsódia de amor que enche a noite de calma...

Já não há no infinito as tormentas e o caos...
- O azul, traz de Mozart o tom sereno e brando,
e o arvoredo cicia as músicas de Strauss !…

PAISAGEM DO SILÊNCIO

Tenho a janela para os céus aberta,
e entre a renda dos ramos da mangueira,
- timidamente a luz do luar se esgueira
e anda na sombra, vagamente, incerta.

A noite está de estrelas recoberta
e a "via-láctea..." a esparramar-se, inteira,
- parece uma florida trepadeira
abrindo os astros na amplidão deserta...

Sob a sombra das árvores, - no chão,
as rodelas de luz, tremeluzindo,
lembram moedas de prata em profusão...

É profundo o silêncio... tudo em calma...
Chego a ter a impressão de estar ouvindo
o rumor dos meus sonhos na minha alma!…

PRISIONEIRO

Nunca tive ninguém para entender
o meu chorar... o sofrimento meu...
Alguém que suavizasse o meu viver
onde um resto de vida se perdeu...

Ninguém pôde jamais me compreender,
porque a minha alma estranha já nasceu...
Vivo sozinho dentro do meu Ser
no cárcere infinito do meu "eu"!. . .

Adoro esse Universo em que me abismo
quando encontro ao meu lado a solidão
na mesma cela onde a sofrer eu cismo...

Sou desse mundo à parte, prisioneiro!
E a prisão onde vivo, é urna prisão
em que o preso é o seu próprio carcereiro!...

Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Bazar de Ritmos. 1a. ed. RJ. 1935.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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