Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Renato Frata (Encontro com Anna Karenina)


O amor começa quando uma pessoa se sente só
e termina quando uma pessoa deseja estar só.
Leon Tolstoi


Pois foi assim que a conheci, num desses momentos em que o espírito da gente se esforça para encontrar alguém com quem possamos passar um tempo sem que o arrependimento venha à tardezinha. E nos martirize durante a noite toda, e na manhã seguinte e na outra…

Diria que o encontro foi casual, numa minúscula banca de revistas e livros velhos. Era tão pequena a banca que mal abrigava duas pessoas; e estávamos em quatro fuçando as prateleiras do sebo em busca de alguma obra que interessasse.

Minha mão roçou a dela quando buscamos, ao mesmo tempo, retirar da prateleira um exemplar antigo de Anna Karenina, onde Tolstoi denuncia o ambiente da época e realiza um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da Literatura, cuja trama gira em torno do caso extraconjugal da personagem que dá título à obra, uma aristocrata da Rússia Czarista que, a despeito de parecer ter tudo (beleza, riqueza, popularidade e um filho amado), sente-se vazia até encontrar o impetuoso oficial Conde Vronski... - Bom, melhor mesmo é ler o livro.

Mas voltemos ao roçar de mãos, o que faz lembrar que o tato é um dos melhores dos cinco sentidos, se não for o mais agradável deles. O contato de nossos dedos foi instantâneo, a ponto dela recolher a mão enquanto olhava para mim e eu recolher a minha enquanto olhava para ela. A troca de sorrisos foi espontânea e ao mesmo tempo inibitória,

- Desculpe - falei.

- Desculpe - falou ela.

Ambos ao mesmo tempo. Novo sorriso, até que quebrei o gelo:

- Já leu "Anna Karenina"?

- Não, - respondeu - mas sei que Tolstoi foi um dos maiores romancistas da Rússia no século XIX.

- Sim - concordei. Um dos melhores, Na verdade procuro "Guerra e Paz”. Por acaso viu-o por ai?

~ Não, mas interessei-me pelo Anna e com a possibilidade de lê-lo. Amo tudo de Tolstoi...

Então ela retirou da bolsa um papel dobrado e o estendeu: - São citações, frases dele, lindas, que sempre trago para as horas de lazer e para as de penar. Analisá-las e tentar compreendê-las me dá força. É, acho que é isso. - Concluiu.

Desdobrei a folha e li:

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.

Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.

Enquanto houver matadouros, haverão campos de guerra.

Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.

Em vão, centenas de milhares de homens, amontoados num pequeno espaço, se esforçavam por desfigurar a terra em que viviam. Em vão, a cobriam de pedras para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumaça; em vão escorraçavam os animais e os pássaros - Em vão... porque até na cidade, a primavera é primavera. (em "Ressurreição").

O homem pode viver 200 anos na cidade sem perceber que já está morto há muito tempo (em "Sonata a Kreutzer").

A felicidade é estar com a natureza, ver a natureza e conversar com ela. (em "Os Cossacos").


Ao terminar a leitura e tentar devolver o papel, ela havia se retirado,

Comprei o "Anna Karenina" e voltei. Sozinho.

Fonte:
Livro enviado pelo autor.
Renato Benvindo Prata. Azarinho e o caga-fogo. Paranavaí/PR: Ed. Gráf. Paranavaí, 2014.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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