Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Carolina Ramos (Ao Embalo da Vida)


— Problemas!... Sim, só problemas!...

Enxugou o rosto com o lenço já úmido. O sol do meio dia vinha buscar água no fundo do seu ser.

Sentia-se sugado por força estranha que lhe roubava a calma. Não conseguia concentrar-se. Buscava soluções e elas se embaralhavam, a zombar da sua incapacidade. Tudo começara a passos miúdos, devagarinho. Ao embalo da vida.

De uma hora para outra, complicação geral!

Os negócios iam mal. O salário colocando coisas em prateleiras inacessíveis. Jogara na Bolsa... a Bolsa baixara como represa em tempo de seca! Por que não vendera as ações no tempo certo?! Sabe-se lá porque! Claro que, no fundo, apostara na sorte. Queria melhores cotações. Iam subir, sim... e aguardara. Quando começaram a desabar, confiara na recuperação. Agora, naufrágio à vista! Restava esperar. Esperava. Até quando? Essa a questão! Diabo! Diabo era o cerco das promissórias, cada vez mais apertado! Sempre honrara compromissos. No presente, sentia-se amarrado… - de pés, mãos e mente!

Andava nervoso, implicante... Aí a mola mestra do desentendimento com a mulher. Causa principal. Não justificativa.

Apressou o passo. O comércio fechava as portas. Sábado. Dia de descanso. Sábado azul, prometendo praia domingueira. Nem essa perspectiva o animava. Não fora almoçar em casa. A família deveria sentir-lhe a falta. Melhor! Talvez a ausência o valorizasse um pouco mais, jogando cinzas sobre a ranzinzice. Reconhecia exceder-se, de vez em quando. Mesmo assim, não dava o braço a torcer.

Andara demasiado. Sem destino, perdera-se no labirinto dos próprios conflitos. Começou a sentir cansaço. A sede. A fome. Os primeiros instrumentos de tortura inventados pela natureza e usados em qualquer época, sem serem ultrapassados.

A tarde morria. A brisa arrancou-lhe arrepios. Frio... um frio que vinha de dentro, Maior, bem maior que o de fora. O sol bocejava, perdera a agressividade, estendendo sobre a relva um manto de luz outonal, dourado e morno. Convidativo.

Recortou mentalmente um retalho de sol e embrulhou nele o coração carente e friorento. Sentiu-se melhor. A amostra tentou-o.

Sem ninguém por perto, entendeu-se na relva, deixando que o corpo rolasse sobre si mesmo, como se macio cobertor lhe envolvesse os braços enregelados. Parou, quando finda a inclinação. O azul parecia ainda rodopiar sobre ele. As pálpebras, pesadas, fecharam-se, pouco a pouco. A noite calma do sono antecipou-se àquela outra noite dona dos astros.

Quanto dormiu, nem soube. Não o despertou o cricrilar dos grilos, e, sim, a ponta da bota de um guarda em serviço.

— Ei, cara... vai curtir esse pileque noutro lugar... aqui a barra é pesada!

— Tudo bem, seu guarda. Não bebi, não... estava só descansando um pouco.

Vendo-o sóbrio, o guarda, afastou-se, desinteressado.

Testemunhas discretas da cena, as estrelas piscavam, marotas. A lua, por sua vez, escondeu o sorriso num cachecol de nuvens.

O homem ergueu-se, sacudindo as palhas e os gravetos presos às roupas, Descontraído, tomou o rumo de casa, chutando as pedras do caminho, e, com elas, os problemas que o atormentavam.

Pouco adiante, comprou uma rosa... salvo conduto para a paz.

Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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