Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 17 de agosto de 2019

Cecy Barbosa Campos (Quebra de Rotina)


Elegante e simpático, com postura discreta, marcava sua presença onde quer que estivesse.

Brincalhão, sem ser espalhafatoso, tinha sempre uma palavra gentil para todos. Fazia amigos rapidamente e, com a palavra fácil, era um interessante conversador e parecia conhecer qualquer assunto que fosse abordado. Acrescentava pormenores desconhecidos e curiosos sem nunca parecer pretensioso.

As mulheres honestas suspiravam por ele. As não tão honestas chegavam a ter fantasias eróticas a seu respeito, e as mais ousadas investiam claramente, usando todas as armas da sedução, tentando conquistá-lo. Entretanto, era tudo inútil, e ele permanecia inabalável, mostrando-se um exemplo de fidelidade conjugal.

Em relação aos amigos, nada podia ser dito contra ele. Pelo contrário, leal e solidário, era aquele com quem todos podiam contar. O mesmo no trabalho: correto e responsável, era admirado pelos chefes e pelos colegas, parecendo incorruptível.

Casado com a mesma mulher há quatorze anos, Reginaldo e Matilde eram o exemplo do casal perfeito. Levavam uma vida confortável e tranquila num condomínio classe média alta e tinham dois lindos filhos.

Na verdade, Matilde, às vezes, achava que aquela tranquilidade e segurança eram um tanto monótonas, e ansiava por algo diferente que acontecesse no seu dia-a-dia. As vinte e quatro horas do casal eram sempre iguais e aconteciam na mesma sequência. O marido levantava-se bem cedo, para dar uma caminhada, tendo o maior cuidado para não acordar a mulher que gostava de dormir até mais tarde. Na volta, tomava o seu banho - não no banheiro da suíte, para evitar o barulho. Vestia-se no estilo esporte-chique que era o seu preferido e, antes de sair, ainda tomava um breve café matinal com a esposa que acordava a tempo de obedecer a este ritual.

Não se encontravam no intervalo do almoço. O marido preferia comer no restaurante da firma que, com alimentação balanceada, facilitaria o controle do peso ou eventual tentação de ingerir calorias a mais, garantindo sempre a sua perfeita saúde.

Matilde sabia exatamente a que horas o marido chegaria a casa após o trabalho, e a harmoniosa reunião familiar prosseguiria após o jantar com um passeio pelo condomínio, um papo com os vizinhos e as brincadeiras com as crianças.

Um dia, Reginaldo não voltou. Foi numa terça-feira normal, com a caminhada, o café da manhã e o beijo usual. Matilde descera com ele no elevador, conversaram sobre assuntos triviais e, enquanto ela se encaminhava para o salão de ginástica, ainda viu o marido sair com o carro, depois de, gentilmente, abanar a mão para o porteiro.

Tudo isso ela explicou quando as investigações sobre o desaparecimento de Reginaldo começaram.

A principio, quando percebeu o atraso do marido para o jantar, ela nem se incomodou. Achou até interessante acontecer algo fora da rotina. Entretanto, à medida que as horas passavam, começou a se preocupar com a demora do marido. Telefonou para os amigos e para os colegas de trabalho de Reginaldo. Ou não o tinham visto ou haviam se despedido dele ao final do expediente. - Não, não sabiam de nada, Reginaldo não mencionara se iria a algum lugar, nem demonstrara nenhuma preocupação.

Nada diferente, tudo igual, como sempre.

O trabalho da polícia foi inútil. Nenhuma pista do paradeiro de Reginaldo. Nem do carro. Os anos se passaram, as crianças cresceram e, depois da grande trabalheira que dá ter um marido desaparecido, Matilde organizou sua nova vida e, de vez em quando, relembrava com saudade o tédio que sentia durante o seu período de casada, por nunca lhe acontecer nada diferente.

As suspeitas da Polícia foram de que Reginaldo teria sido vítima de bandidos que desapareceram com o corpo e com o carro. Assim, o caso foi arquivado, e como nada foi comprovado, Matilde nem podia se considerar viúva, isto, até o dia em que, folheando um jornal de outra cidade, enquanto aguardava a sua vez de ser atendida pelo dentista, lê, no obituário, a notícia da morte de Reginaldo Lemos, cinquenta anos, de insuficiência respiratória.

Fonte:
Livro enviado pela autora.
Cecy Barbosa Campos. Recortes de Vida. Varginha/MG: Ed. Alba, 2009.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to