Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Arthur de Azevedo (Dez por Cento)


Naquela noite o Gama e o Carvalho, dois famosos banqueiros de roleta, inauguravam a sua casa de jogo no Rocio, que naquele tempo não era ainda a Praça Tiradentes.

Os dois sócios não se furtaram a despesas; o antro estava mobiliado e alcatifado com certo luxo; os móveis eram do Moreira Santos.

Na sala de frente, em cujas paredes se ostentavam dois suntuosos espelhos e quatro enormes gravuras de Jazet (Jean Pierre Marie Jazet, 1788-1871, pintor francês), ricamente emolduradas, havia um magnífico bilhar.

Na sala de jantar, a mesa, posta para um banquete, agradava aos olhos, pela risonha promiscuidade das flores, dos frutos, das porcelanas e dos cristais.

A roleta ficava ao fundo, num vasto compartimento que tinha sido dormitório nos bons tempos em que a casa era habitada por uma família patriarcal e honesta.

* * *

Às nove horas o Carvalho dava à bola com a serenidade olímpica de um veterano encanecido (envelhecido) naquelas campanhas.

Não só todos os lugares estavam ocupados, como havia muitos indivíduos de pé, uns em volta da banca, debruçados, enchendo de fichas policromas o pano verde, outros afastados, assistindo de longe à batalha, esperando o palpite.

De todos os jogadores o mais calmo era o Coronel Mascarenhas.

Sentado à extremidade da banca, a luneta bifurcada no nariz, olhando com tranquilidade, ora para as soberbas paradas que fazia, ora para o banqueiro, sem que nada mais lhe distraísse a atenção, ele apontava exclusivamente nos seis últimos números do pano: 31, 32, 33, 34, 35 e 36.

* * *

Esse homem que, havia cinco anos, a fatalidade afastara da sua bela fazenda de Cantagalo, e conduzira a uma casa de jogo da Rua da Constituição, estava completamente subjugado pelos tentáculos do vicio.

Todos os seus teres e haveres tinham, pouco a pouco, desaparecido naquele medonho sorvedouro: terras, casas, apólices, tudo perdeu, inclusive mulher e filhos, que se apartaram dele, salvando uns tristes vestígios da fortuna de outrora.

Mascarenhas não tinha agora outra ocupação nem outra preocupação que não fosse o jogo. Dormia numa casa de pensão até às duas horas da tarde, e dessa hora em diante deixava-se absorver pelo vício até de madrugada, jantando e ceando fartamente nas casas onde jogava.

Dantes era um parceiro arrogante, muito orgulhoso da sua propriedade agrícola, afrontando a sorte com um garbo e uma sobranceria que todos admiravam; depois de arruinado, tornara-se uma criatura humilde, joão-ninguém vencido pela adversidade, tolerado pelos banqueiros apenas em atenção ao seu passado de perdulário. Era mal visto pelos jogadores felizes, que o consideravam “cabuloso”; vivia de expedientes, frequentando muitas vezes as casas de jogo apenas para alimentar-se, aproveitando as “aragens” para tentar reaver a sua posição e o seu dinheiro.

* * *

Na véspera da inauguração do “clube” (chamavam-lhe clube) do Gama e do Carvalho, o Coronel Mascarenhas tivera, sem dúvida, uma dessas “aragens”: dez vezes comprou cem fichas de dez tostões, e dez vezes, coitado! a bola rodou sem cair em nenhum dos seis números em que ele apontava. O rateio do banqueiro levou-lhe um conto de réis.

Depois de perdido o último vintém, o desgraçado passeou pelos circunstantes um olhar que solicitava um pouco de piedade, mas ninguém deu por isso. Dirigiu-se então ao Carvalho, que continuava a dar à bola, imperturbavelmente, e disse-lhe em voz alta:

– Faz favor de me dar os vinte por cento?

– Quais vinte por cento? perguntou o banqueiro, arregalando os olhos. É boa! Os vinte por cento a que têm direito os pontos sobre as quantias que perdem.

– Direito?!

– Direito, sim, senhor! É uma concessão que fazem hoje todas as casas de jogo!

– Todas, menos esta!

– Não me diga isso!

– Digo, sim senhor! A casa não preveniu a ninguém que faria semelhante concessão!

– Não preveniu, mas estava subentendido, porque não há hoje banqueiro de roleta que não dê os vinte por cento…

– Há, sim, senhor, e esse banqueiro sou eu!

– Nesse caso devia ter-me avisado que os não dava, porque tão tolo não seria eu que, gozando dessa vantagem na casa do Jojoca, na do Quincas e na do Machado, viesse jogar aqui!

– O que disse está dito! Não dou os vinte por cento!

– Mas atenda.

Entretanto, os outros pontos começavam a impacientar-se; o gordo Comendador Fraga, que jogava muito, com uma felicidade assombrosa, e suava por todos os poros, gritou brutalmente:

– Ô Carvalho! dê os tais vinte por cento a esse homem, e ele que nos favoreça com a sua ausência!

– E insuportável! bradou outro ponto. Quem não pode perder não joga!

Um vencido, que assistia de parte, ao jogo, depois de ter colocado, muito dobradinha, em cima do 17, uma velha nota de quinhentos réis, a derradeira, observou:

– Perdi tudo quanto trazia e não exigi porcentagem…

Mas o Coronel Mascarenhas insistia, lamuriento, com lágrimas na voz, desfiando o longo rosário das suas misérias, humilhando-se, ameaçando suicidar-se, e, afinal, chorando, chorando, como uma criança.

* * *

Escusado é dizer que ninguém se sensibilizou com isso; mas o Carvalho, querendo ver-se livre do importuno, foi consultar o Gama, que jogava bilhar, na sala da frente e voltou com a seguinte decisão:

– Sr. Coronel, a casa não se comprometeu a fazer concessões de espécie alguma aos jogadores infelizes; entretanto, para se ver livre do senhor, resolveu dar-lhe, não vinte, ruas dez por cento, sob a condição de que o senhor nunca mais há de jogar aqui.

– Vá lá, murmurou o desgraçado; aceito.

– Aqui tem cem mil-réis.

O coronel apanhou no voo a nota que o Carvalho atirou com o firme propósito de lhe bater com ela no rosto, amarrou-a nas mãos, guardou-a na algibeira do colete, ergueu-se lentamente, e saiu, dizendo: – Seja tudo por amor de Deus! Meus senhores, muito boas noites!

Acompanharam-no risos sardônicos e ditérios (falatórios) ofensivos, como: – Ora graças! – Que tipo! – Não tem vergonha! – Quem não chora não mama! etc.

* * *

Uma hora depois, terminada a banca, estavam todos à mesa, fazendo honra à opípara (lauta) ceia com que os regalavam os donos do estabelecimento, quando entrou, como um foguete, o Costinha, tipo que passava as noites percorrendo aquelas casas, uma por uma, para contar aqui, o que se passava acolá.

– Querem saber uma grande novidade? perguntou o recém-chegado.

– Qual? interrogaram todos em coro.

– Eu estava em casa do Jojoca quando lá apareceu o Coronel Mascarenhas, que ia correndo de cá.

– E então? perguntou o Carvalho, que presidia o banquete.

– Ele contou a história dos cem mil-réis…

– Canalha! Sem vergonha! Malandro! Miserável! etc., vociferaram todos os convivas.

– E ainda foi gabar-se aquele cínico! obtemperou o Comendador Fraga.

– Ouçam o resto! bradou o Costinha. Ele tirou da algibeira a nota amarrotada, comprou cinquenta fichas e jogou-as todas no “esguicho” do 31 ao 36. Saiu o 31.

– Ah!

– Dobrou a parada e jogou em pleno em todos os seis números, carregando no 34. Repetiu o 34!

– Oh!

– Na parada seguinte deu o 32, depois veio mais uma vez o 34, para encurtar razões: em dez ou doze bolas o coronel deu um tiro de quarenta contos! O Jojoca está furioso!

* * *

– Quarenta contos! quarenta contos!…

Os jogadores estavam atônitos. Alguns se ergueram, outros cruzaram os talheres, todos se entreolharam. Houve um momento de silêncio glacial.

– Sim, o coronel não é peco… sabe jogar… quando ganha, atira-se, e faz
muito bem, disse o Carvalho.

– Decerto, concordaram alguns.

– E ele acaba de provar, replicou o gordo Comendador Fraga, que não deixava de ter razão exigindo a porcentagem.

– Sim, concluiu outro; a porcentagem é muitas vezes a salvação do ponto. Vejam como os dez por cento grelaram (germinaram, brotaram)!

– E o que nos pareceu uma canalhice…

– Era um ato inteligente, isso era, e a prova aí está que com os cem mil-réis levantou quarenta contos.

– A sorte foi justa, ponderou o Gama, o Coronel Mascarenhas perdeu à roleta tudo quanto possuía.

– Era um fazendeiro importante.

– Muito boa pessoa…

– E honesto; nunca jogou senão o que era seu.

* * *

Todos os comensais se desfaziam em louvores ao Coronel Mascarenhas, quando este assomou à porta da sala.

O Carvalho e o Gama ergueram-se de um salto e foram ao encontro dele para apertar-lhe a mão e abraçá-lo. Alguns dos circunstantes fizeram o mesmo, e o ex-fazendeiro foi alvo de uma verdadeira ovação. Entretanto, conservava-se calado.

– Venha cear, coronel! A canja está deliciosa! disse o Carvalho.

– Perdão, respondeu Mascarenhas, com toda a simplicidade; eu fui expulso desta casa, e aqui não tornaria a pôr os pés, se a sorte não me favorecesse, proporcionando-me ocasião de restituir dez por cento a que não tinha direito, e que me atiraram como uma esmola infame…

Estas palavras foram acolhidas com mil protestos e desculpas, mas o Coronel Mascarenhas, que recuperara a sua antiga arrogância, a nada atendeu, e atirou à cara do Carvalho a mesma nota amarrotada com que saíra.

Alguns dias depois o pobre homem aparecia inopinadamente à mulher e aos filhos, dizendo-lhes:

– Passei ultimamente por tamanha vergonha, e ao mesmo tempo tive uma felicidade tão inaudita, que os dois fatos se combinaram para salvar-me, evitando que eu descesse ainda mais abaixo.

“Trago o preciso para começar de novo a trabalhar, e trabalharei, se vocês me perdoarem.”

Perdoado, o Coronel Mascarenhas, se bem o disse, melhor o fez. Hoje não joga nem mesmo a bisca em família.

O jogo passa por ser um vício incurável, mas afianço ao leitor que esse final é verdadeiro. Lá disse o outro que a verdade nem sempre é verossímil.

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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