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sábado, 9 de maio de 2026

Asas da Poesia * 185 *


Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Assim são meus dias em formatos cada vez mais curtos. 

“Eu disse que faria um poema à tua volta. Não voltaste. Escrevi essas linhas à tua espera”.
J. G. de Araújo Jorge (1914-1987)

Todas as manhãs ao acordar,
                             o sol opulento,
                             viril, ciumento...
                             Após escalar
                             e penetrar
em minha janela 
                             com o seu fulgor
                             e todo ardor,
                             vem despertar-me
                             e despregar-me
                             do calor do corpo dela...
                         
Para em meu lugar,
                             quieto ficar,
                             e poder desfrutar           
                             adormecendo e abraçado 
                                                 a ela!…
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Trova Humorística de
JAIME PINA DA SILVEIRA
São Paulo/SP

– Quando saiu … a maninha
foi com “mãinha” ou foi só?
– Sei não! Mas voltou “mãinha”,
quando chegou do forró!
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Poema de
LUIZ GAMA
(Luiz Gonzaga Pinto da Gama)
Salvador/BA (1830 – 1882) São Paulo/SP

Serei Conde, Marquês e Deputado

Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.

 A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara*.

 Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.

 Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”

 Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”

 Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
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* Malacara = é o termo utilizado para descrever cavalos que possuem uma mancha branca na face, estendendo-se da testa até o focinho ou peito
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Aldravia de
LUIZ CARLOS ABRITTA
Cataguases/MG, 1935 – 2021, Belo Horizonte/MG

sou
hedonista:
mínimo
esforço
máximo
prazer
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Soneto de
AFFONSO LOPES DE ALMEIDA
Rio de Janeiro/RJ, 1889 – 1953

Ascensão

Não será sempre esta melancolia,
este morno cansaço, esta torpeza...
A modorra enevoada da tristeza
há de esvair-se aos raios da alegria!

Hei de agitar a imóvel natureza,
ao vendaval da minha fantasia;
nas minhas mãos a estátua da beleza
deixará de ser muda e de ser fria!

Hei de subir ao píncaro do monte,
vencedor de procelas e escarcéus!
E lá, sozinho, ao centro do horizonte,

em manhã clara, e límpida, e sem véus,
o sol da glória há de dourar-me a fronte,
e eu hei de resplender subindo aos céus!
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Trova de
ZAÉ JÚNIOR 
(Zaé Mariano Carvalho de Nascimento Júnior)
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

Conquista é jogo de azar
e, no amor, jogo pesado;
querendo te conquistar,
eu é que fui conquistado!
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Poema de
CESARE PAVESE
Stefano Belbo/Itália (1908 – 1950) Turim/Itália

Figura de mulher

Tens rosto de pedra esculpida,
sangue de terra dura,
emergiste do mar.
Tudo acolhes e sondas,
e repeles de ti
como o oceano. Tens na alma
silêncio, tens palavras
tragadas. És turva.
A alva em ti é silêncio.

E pareces com as vozes
da terra - a pancada
do balde no poço,
o cântico do fogo,
um tombo de maçã,
as palavras resignadas
e escuras nas soleiras,
o grito do menino - as coisas
que não passam jamais.

Não mudas. És turva,
és a taberna fechada
com o chão de terra batida,
onde entrou certa vez
o garoto descalço
em que pensamos sempre.

Tu és a sala sombria
em que pensamos sempre
como no velho pátio
onde a aurora se abria.
(tradução: Martins Napoleão)
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TROVA POPULAR

Muito vence quem se vence
muito diz quem não diz tudo, 
porque ao discreto pertence
a tempo fazer-se mudo.
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Soneto de
AFONSO DE CARVALHO
(Affonso José de Carvalho)
São Bento do Sapucaí/SP, 1868 – 1952, São Paulo/SP

Lágrima de caveira

Eu vi uma caveira. Branca e fria,
em úmida caverna a sós ficara.
Não sei por qual motivo a sorte ignara
fizera-a triste, quando outrora ria.

Quanto mais a fitava, mais a via,
banhada em pranto com a terrível cara,
cheia de verme e areia, olhando para
o risonho espetáculo do dia.

Por que chorava? Como então pudera
arrancar desse crânio funerário
essa lágrima, trêmula, sincera?

Foi então que notei... Uma goteira,
vindo do teto em líquido rosário,
abria em pranto os olhos da caveira... 
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Trova de
ILZA TOSTES
Mar de Espanha/MG

Nesta casa de sapê,
cobertinha de luar,
que pena não ter você
para comigo sonhar!
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Poema de
MÁRIO CESARINY
(Mário Cesariny de Vasconcelos)
Lisboa/Portugal, 1923 – 2006

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Graças te rendo...

Graças te rendo aqui, preciosa Senhora,
Que, num simples olhar de ternura, tiveste
O dom de me elevar, assim como o fizeste,
Entre os brasões do amor e as púrpuras d'aurora...

O dom de me fazer acreditar que veste
O humano coração, como acredito agora,
Não o lodo, porém, o linho; que se adora,
O linho que fulgura em pleno azul-celeste...

Sei que os votos que são trabalhados com arte
Hão de os deuses cumprir, ó luz maravilhosa:
— Sê, pois, bendita, sê bendita em toda parte!

Que onde fores pisar, que por onde tu fores:
A lama se transforme em pétalas de rosa,
As víboras em fruto, os espinhos em flores!
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Trova de
ILDEFONSO DE PAULA
Socorro/SP

Sendo tão linda, a dentista
fez uma escolha bem certa,
pois todo mundo que a avista
já fica de boca aberta...
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote:
Pobre titia, ao comprar 
uma vassoura, é indagada: 
- Será preciso embrulhar? 
ou já vai nela montada?
Amália Max 
Ponta Grossa/PR, 1929 – 2014

Glosa:
Pobre titia, ao comprar 
um presente pra sobrinha 
viu, na hora de pagar, 
não ter grana na caixinha! 

Vendo, a bruxa, no Bom Preço 
uma vassoura, é indagada: 
Vai "montar"? Está no preço! 
- Não, só estou dando uma olhada! 

Cuidado quando comprar 
uma vassoura... e ouvir: 
- Será preciso embrulhar? 
É gozação, não vá rir! 

No balcão, a mulher brega 
com a vassoura comprada 
ouviu um: é para entrega, 
ou já vai nela montada?
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Trova de
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA
São Mateus do Sul/PR, 1926  – 2021, Contenda/PR

Ao professor muito devo,
devo ao médico também.
Mas o livro é meu enlevo,
tudo que sei dele vem.
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Soneto de
ALCY RIBEIRO SOUTO MAIOR
Rio de Janeiro/RJ, 1920 - 2006

Núpcias

Num jarro esguio e rubro, a rosa pura,
esquecida de sua timidez,
sente do jarro o abraço de ternura
que envolve a sua angelical nudez.

Enquanto a noite espalha a formosura
que para os noivos, caprichosa, fez,
a rosa e o jarro entregam-se à ventura
do amor que vem pela primeira vez.

Quando surge, por fim, a madrugada,
a rosa, sobre a mesa, desfolhada,
recorda, ainda, o beijo nupcial.

E o jarro, desolado, rubro e esguio,
é, ante o espelho indiferente e frio,
uma lágrima rubra de cristal!
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Trova de
ANTONIO JURACI SIQUEIRA 
Belém/PR

Quanto mais a idade avança,
mais trovas de amor componho
para acender a esperança
no entardecer do meu sonho!...
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Tempo rei

Meus pés não encontram rastros no caminho
Minha rua não é mais cadinho de meus passos
Calçada nua que trocou paralelepípedo por asfalto
Na casa em que morei não há mais samambaias
Dando saias verdes ao alpendre que me recebia
Onde logo eu via o rosto redondo de minha mãe
A vida vai compondo gosto novo para as gerações
Porções de desgosto agora moram em mim
O tempo realmente é invencível rei
Tudo o que eu pensei um dia dominar ou saber
O tempo cuidou de me provar que nada sei! 
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Triverso de
ELIAKIN RUFINO
Boa Vista/RR

com um traço
o desenhista faz
o voo do pássaro.
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Poema de
ALICE RUIZ
Curitiba/PR

Saudação da Saudade

minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
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Trova de
INOCÊNCIO CANDELÁRIA
Salesópolis/SP

Desejo, às vezes, fazer
certas coisas que não devo.
Mas penso no meu dever
e a fazê-las não me atrevo...
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Hino de 
FORTALEZA/ CE

Junto à sombra dos muros do forte
A pequena semente nasceu
Em redor, para a glória do Norte
A cidade sorrindo cresceu

No esplendor da manhã cristalina
Tens as bênçãos dos céus que são teus
E das ondas que o Sol ilumina
As jangadas te dizem adeus

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

O emplumado e virente coqueiro
Da alva luz do luar colhe a flor
A Iracema lembrando o guerreiro
De sua alma de virgem senhor

Canta o mar nas areias ardentes
Dos teus bravos eternas canções
Jangadeiros, caboclos valentes
Dos escravos partindo os grilhões

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

Ao calor do teu Sol ofuscante
Os meninos se tornam viris
A velhice se mostra pujante
As mulheres formosas, gentis

Nesta terra de luz e de vida
De estiagem por vezes hostil
Pela Mãe de Jesus protegida
Fortaleza, és a flor do Brasil

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

Onde quer que teus filhos estejam
Na pobreza ou riqueza sem par
Com amor e saudade desejam
Ao teu seio o mais breve voltar

Porque o verde do mar que retrata
O teu clima de eterno verão
E o luar nas areias de prata
Não se apagam no seu coração

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar
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Ode à Cidade do Sol
O Hino de Fortaleza é uma verdadeira ode à capital cearense, exaltando suas belezas naturais, sua história e o calor humano de seu povo. A letra inicia fazendo referência à origem da cidade, que nasceu ao redor do Forte Schoonenborch, construído pelos holandeses e posteriormente tomado pelos portugueses, que o rebatizaram como Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. A menção à 'pequena semente' que cresceu e se tornou uma cidade próspera é uma metáfora para o desenvolvimento e a força da capital do Ceará.
A canção prossegue destacando a relação harmoniosa entre a cidade e seus elementos naturais, como o mar e o sol, que são fontes de vida e inspiração para os fortalezenses. A imagem das jangadas se despedindo ao sol é uma homenagem aos pescadores, parte essencial da identidade cultural da cidade. A referência a Iracema, personagem do romance de José de Alencar, e ao 'emplumado e virente coqueiro' evoca a literatura e a paisagem local, reforçando a riqueza cultural de Fortaleza.
Por fim, o hino celebra o espírito resiliente e acolhedor dos habitantes, que, apesar das adversidades climáticas como a estiagem, mantêm a cidade vibrante e acolhedora. A proteção atribuída à 'Mãe de Jesus' reflete a fé e a religiosidade do povo. A canção conclui com um sentimento universal de saudade e amor pela cidade, que permanece no coração de seus filhos, independentemente de onde estejam. Fortaleza é apresentada como um lar que sempre será amado, uma 'flor do Brasil' que brilha sob o sol e o luar. 
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Poetrix de
ANA OLIVEIRA
Espinho/Portugal

tempero

enquanto cozinhava
ia chorando
– acabara o sal
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Soneto de
ALFREDO DE ASSIS
Riachão/MA, 1881 – 1977, Rio de Janeiro/R

Pranto e riso

No pranto da criança não diviso
mágoa nenhuma: é todo luz e encanto.
Tem, nuns restos de céu, de paraíso,
toda a doçura matinal de um canto.

Mas de um velho, num rápido sorriso,
mágoas profundas eu percebo, entanto.
No pranto da criança, há quase um riso;
no sorriso do velho, há quase um pranto.

Um velho ri: — é um por de sol que chora;
chora a criança: — é como se uma aurora
um chuveiro de pétalas abrisse.

E tem muito mais luz, mais esperança,
a lágrima nos olhos da criança
que o sorriso nos lábios da velhice.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Envergonhado e sem jeito,
meu coração sonhador
conserta o ninho desfeito
enquanto espera outro amor!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O macaco e o golfinho

Costumam os Malteses nos navios
Divertir-se com cães e com bugios:
Afundou-se um navio desta gente
Junto a Súnio, que é cabo pertencente
À terra ática: andava tudo a nado,
E um bugio também quase afogado.

Um golfinho que o viu em tanto dano,
Parecendo-lhe ser vivente humano,
As costas lhe oferece; vem por cima
Das ondas, com o fim de que o redima.

Defronte do Pireu, que é estaleiro
De Atenas, perguntou ao companheiro
Se era desta cidade. — Respondia
Que sim, e da mais alta fidalguia.

«Conheces o Pireu?» lhe perguntava.
O macaco, cuidando que falava
De algum homem, dizia: «É um amigo
Que estreita confiança tem comigo.»

O golfinho ficou tão iracundo
Da mentira, que o pôs logo no fundo.

O golfinho foi muito rigoroso
Em dar ao mentiroso tão mau trato;
Porém todo o sujeito que é sensato,
Deve apartar de si o mentiroso.

O tratá-lo sempre é muito danoso;
Por isso haja cautela, haja recato;
Porque quando me faz muito barato,
Ou me deixa enganado, ou enganoso.

Se me deixa enganado, fico tido
Por néscio; e de tal modo enganaria,
Que eu fique, além de pobre, escarnecido
Se, pegando-me a sua epidemia,
Me deixou enganoso, estou perdido;
Que de um que mente bem ninguém se fia.
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sábado, 2 de maio de 2026

Asas da Poesia * 184 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Terra Prometida

O sol caiu em minha mão,
uma profecia sinistra
alimentando o fogo eterno
da vida.

As rosas despertam,
o vento carrega seu perfume.

Um trem se perde na distância
da imperfeita geografia.

Os migrantes
nos tetos dos vagões
como uma procissão de alebrijes*,
passageiros de palavras fugazes
domando seus monstros interiores.

Rumo à terra prometida,
onde a dor, a pobreza e
a tristeza são esquecidas.

Onde eles amassarão o pão
com suas lágrimas.
(tradução do espanhol por JFeldman)
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* Alebrijes = são esculturas artesanais mexicanas, vibrantes e surreais, que combinam partes de diferentes animais (reais ou imaginários) em uma única criatura. Criados por Pedro Linares representam a fusão entre o mundo real e o espiritual, servindo como guias espirituais ou protetores, especialmente populares no Dia dos Mortos.
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Trova Humorística de
DOMITILLA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

O marido agonizante,
insistindo quer saber:
– Fui traído? – e ela, hesitante:
– E se você não morrer?…
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Poema de
TERESINKA PEREIRA
Ohio/EUA

Carta

Uma folha de papel
faz milagres de emoções!
Uma letra, que como voz,
vem de longe com segredos,
confessando o seu pensar...
A carta se abre
como flor da tarde
na palma da minha mão.
A lembrança de quem escreveu
se faz estrela-guia
e vem com o carinho
da querida pessoa amiga
que na carta mandou
o melhor de seus sonhos.
Viva a amizade de quem
ainda sabe escrever cartas!
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Aldravia de
GORETH DE FREITAS
Ipatinga/MG

O
trem
leva
e
traz
poesia
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Soneto de
JOÃO JUSTINIANO DA FONSECA
Rodelas/BA

A beleza da vida

A beleza da vida está na própria vida,
nas flores do jardim, no fruto do pomar.
No amanhecer do dia, o sol vindo do mar,
ou da várzea, da serra – eterno na subida.

A beleza da vida está no conjugar
os rios, a floresta, e a comprida avenida…
Pista e velocidade, os pneus a rolar!
Ou, no espinho e na rosa? Ou na idade vivida?

A beleza da vida – o homem no trabalho,
no campo ou na cidade. A enxada. A pena. O malho.
Mover de sonho e fé, de luz, de cabedais.

A beleza da vida – o todo na impulsão
de tudo que se move. O amor, o coração…
O destino da paz, a paz. A íntima paz!
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Poema de
FÁTIMA MALDONADO
Santo Amaro Sousel/Portugal

Um Fado

Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas,
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras. 
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TROVA POPULAR

Esta noite dormi fora,
na porta do meu amor;
deu vento na roseira
me cobriu todo de flor.
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Sol

Hoje estás escondido. Olhando para fora,
em meio à névoa densa, em vão eu te procuro.
Que falta fazes quando, ao se esboçar a aurora,
vejo o céu carrancudo e tão cinzento e escuro!

És tu que trazes vida, a ausência eu te censuro.
Sem ti sofre a semente a emergir para a flora,
falta a luz dos teus raios ao trigo maduro,
esmaecem os tons quando te vais embora.

De repente, através de uma nesga apareces…
Com que força vital a alma da gente aqueces
e afastas tão depressa as nuvens de tristeza!

És dono do universo, a nada te comparas;
e ao sentir teu calor reconfortando as searas,
feliz volta a sorrir, de novo, a Natureza!
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Poema de
PAULO LEMINSKI 
Curitiba/PR, 1944 - 1989

O Que Passou, Passou

Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a crônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
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Haicai de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Mais além, a mata 
e um azulão na gaiola, 
cabisbaixo, mudo…
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Soneto de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Soneto sonhado

    Meu tudo, minha amada e minha amiga,
    Eis, compendiada toda num soneto,
    A minha profissão de fé e afeto,
    Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.

    O que n'alma guardei de muita antiga
    Experiência foi pena e ansiar inquieto.
    Gosto pouco do amor ideal objeto
    Só, e do amor só carnal não gosto miga.

    O que há melhor no amor é a iluminância.
    Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
    De onde? Dos céus?... Dos longes da distância?...

    Não te prometo os estos*, a alegria,
    A assunção... Mas em toda circunstância
    Ser-te-ei sincero como a luz do dia.
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* Estos = ardores, paixões
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Trova de
OEFE SOUZA
(Othoniel Fabelino de Souza)
Ribeirão Preto/SP

Eu tenho muita saudade
do tempo em que eras só minha.
Mas, é que sofro em verdade,
por te ver, também sozinha…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Glosa de
GILSON FAUSTINO MAIA
Petrópolis/RJ

Chuva

MOTE:
Desde os tempos de Noé
O mundo pôs-se a saber
Que a manga só cai do pé
Porque não sabe descer.
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

GLOSA:
Desde os tempos de Noé
que, de medo, morre o mundo.
Talvez por falta de fé,
esse pavor é profundo.

Hoje existe a previsão,
o mundo pôs-se a saber,
com grande antecipação,
o dia em que vai chover.

Como filhos de Javé,
devemos acreditar
que a manga só cai do pé
quando Ele determinar.

Veja: o vapor ao subir
faz a chuva acontecer,
liquefaz-se pra cair,
porque não sabe descer.
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Trova de
MESSIAS DA ROCHA
Juiz de Fora/MG

No rastro dos desenganos,
registrei bem na memória,
que os erros mudam os planos
mas jamais mudam a história.
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Soneto de
ADELMAR TAVARES
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

Soneto

No teu palácio de vitrais preciosos,
espelhos altos, e tapeçarias,
tu, milionário, entre cortesanias,
vives os teus momentos caprichosos.

Braços vendidos e mentidos gozos,
de amores fáceis, enches os teus dias.
Mas, passada a delícia das orgias,
vês, protestos e beijos, mentirosos.

E ah! quantas vezes, solteirão, cansado,
invejarás o "guardador de gado"
que pelo escurecer, sem falsos brilhos,

volta para a cabana, e alegre janta,
cachimba um pouco, afina a viola, e canta
para o amor da mulher, e o amor dos filhos...
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Trova de
JACY PACHECO 
Duas Barras/RJ, 1910 – 1989, Niterói/RJ

Quando te vejo, Teresa,
tão bonita e jovial,
eu considero a tristeza
mais um pecado mortal!
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Parolagem da vida 

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
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Triverso de
CARLOS SEABRA
São Paulo/SP

ave calada — 
ninho em silêncio 
na madrugada 
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Trova de
ADILSON DE PAULA 
Joaquim Távora/PR

Pôr do sol, campos desertos,
e o pinheiro então parece
estar de braços abertos
a sussurrar uma prece ...
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Hino de 
ITARARÉ/ SP

Itararé das campinas
e mil recantos amados 
das verdejantes colinas  
e dos vales ondulados...

Das araucárias e pinus,
envolvidos na fragrância, 
os ventos te cantam hinos, 
ó terra de nossa infância!

Do Rio Verde e Caiçara, 
da Gruta das Andorinhas, 
quem dera eu te alcançara 
nessa trilha que caminhas!

Das araucárias e pinus 
envolvidos na fragrância, 
os ventos te cantam hinos 
ó terra de nossa infância!

De tua gente expansiva  
brilhantes realizações 
 te fazem sempre mais viva 
 junto aos nossos corações!

Das araucárias e pinus 
envolvidos na fragrância,
os ventos te cantam hinos, 
ó terra de nossa infância!
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Itararé: Uma Ode à Terra Natal
O 'Hino de Itararé - SP' é uma celebração poética da cidade de Itararé, localizada no estado de São Paulo. A letra exalta as belezas naturais e a riqueza cultural da região, destacando elementos como as campinas, colinas, vales, araucárias e pinus. Esses elementos são apresentados de forma a evocar um sentimento de nostalgia e pertencimento, especialmente para aqueles que cresceram na cidade.

A música também faz referência ao rio Verde e à gruta das Andorinhas, locais emblemáticos que contribuem para a identidade local. A menção a esses pontos geográficos não é apenas descritiva, mas também simbólica, representando a conexão profunda entre os habitantes e sua terra natal. A repetição da frase 'terra de nossa infância' reforça essa ligação emocional, sugerindo que as memórias e experiências vividas em Itararé são fundamentais para a formação da identidade de seus moradores.

Além das belezas naturais, o hino destaca as realizações da 'gente expansiva' de Itararé, sugerindo um povo trabalhador e orgulhoso de suas conquistas. A letra transmite um sentimento de orgulho e amor pela cidade, celebrando tanto o passado quanto o presente. A música, portanto, serve como um lembrete constante da importância de valorizar e preservar a cultura e as tradições locais, mantendo viva a memória coletiva da comunidade.
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Poetrix de
GOULART GOMES
Salvador/BA

Horroris Causa

engenheiro de obras prontas 
advogado de causas perdidas 
doutor em letras vencidas
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Soneto de
ABADE DE JAZENTE
(Paulino António Cabral)
Quinta do Reguengo/Amarante/Portugal, 1719 – 1789, Jazente/Portugal

Amor é um arder que se não sente

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ao notar a Lua cheia, 
surpreso o Sol resmungou: 
– Se um mês atrás eras meia, 
quem foi que te engravidou?... 
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Júpiter e o fazendeiro

Jove*, outrora, arrendou certas fazendas.
Deitou Mercúrio o bando: acodem gentes:
Uns dão tanto; outros põem-se ali à escuta.
Não faltou regateio.

Punha-lhe um defeito, que era de ruim lavra
A terra; outro senão lhe punha ess’outro.
Enquanto assim os lanços bandeavam,
Vem um mais abelhudo,
Não de mais siso — e os lanços todos cobre;
Contanto que lhe Júpiter prometa
Dar-lhe o governo do ar, e as sazões dar-lhe
A seu sabor e alvitre.
Dar-lhe calma quando ele a desejasse,
Dar frio, dar bom tempo, dar norteas,
Chuvas, secura. — A tudo anui  Jove.
Passa em forma o contrato.
Eis o biltre chapado rei dos ares,
Que venta, chove, e que se engenha um clima,
De que algum dos vizinhos mais não prova
Que os que moram na América.
Nem por isso pior se acharam: foi-lhes
Esse ano de ampla ceifa, ampla vindima,
E mui fraca a colheita do abelhudo.
Assim, no ano seguinte,
Muda o teor dos céus. Mas melhor fruto
Lhe não dá a terra; a dos vizinhos rende,
Frutifica. — Então é, que ele confessa
Quanto imprudente obrara.
Como brando senhor, se há Jove com ele.
Que convém que infiramos deste conto?
Que, melhor do que nós, a Providência
Sabe o que nos compete
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Jove é um dos nomes dados ao deus romano Júpiter
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