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sábado, 10 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 220 *


Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN (1934 – 1996) Rio de Janeiro/RJ

Dia a dia vai se impondo
este conceito batata:
A terra é um mundo redondo
repleto de gente chata…
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Poema de
AMÁLIA PEITIGUARY
(João Francisco Coelho Cavalcanti – “João Barafunda”)
São Luiz do Quitunde/AL (1874 – 1938) Rio de Janeiro/RJ

Árvore antiga

Esta árvore que vês, já desfolhada,
Pobre, batida pelo tempo, outrora
Guardou muitos segredos e adorada
Foi, como aquela que acolá vigora.

E, sem receio, a ela a passarada
Que trina ao longe, que a despreza agora,
Seus ninhos confiou. Árvore, coitada,
És velha triste, ninguém mais te adora!

Meu coração também, outrora cheio
De sonhares gentis, alimentado
Por um constante e amoroso enleio,

Como tu vive triste desprezado,
E nele eu hoje tristemente leio
A mesma sina tua, o mesmo estado.
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Trova de 
AMARYLLIS SCHLOENBACH
São Paulo/SP

Na busca eterna da paz,
a humanidade se enterra;
seus próprios sonhos desfaz
na luta inglória da guerra!
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Poema de 
ROBERT FROST
São Francisco/EUA (1874 – 1963) Boston/EUA

Num cemitério em desuso

Os vivos vêm pisando a grama,
vêm ler no morro as inscrições;
o cemitério ainda os atrai;
os mortos é que não vêm mais.

 Os versos nele se repetem:
“Aqueles que hoje vivos vêm
a ler as pedras e se vão
mortos é que amanhã virão.”

Certas da morte as lousas rimam,
mas não sem deixar de notar
que nenhum morto já não vem.
Do que é que os homens medo têm?

 Seria fácil ser esperto
e lhes dizer: "Eles detestam
a morte, e já não entram nela."
Talvez caíssem na esparrela.
(Tradução: Renato Suttana)
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Trova de
MIFORI
(Maria Inês Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Meu passeio de bom dia
são estradas que ora faço,
combatendo a nostalgia
em cada lugar que passo.
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Poema de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Eu era feliz e não sabia

Nasceu o dia e o sol é tímido nesta hora...
Levantei tarde e vejo ali o velho mar
que se estende distante, universal, afora,
sem me deixar saber onde vai terminar...

Tem seus segredos que nem posso imaginar...
Talvez o pranto da Humanidade que chora
carrega triste e vai levando sem cessar,
como alguém que tem pressa, assim, de ir-se embora...

Mas é meu companheiro em horas de saudade,
quando as recordações preenchem minha existência
e me transportam à ditosa mocidade...

Tudo passou e agora enfrento com paciência,
o que restou, enfim, dessa felicidade
que havia em minhas mãos, de que eu não tinha ciência…
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890 - 1969, São Paulo/SP

Histórias de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar.
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Soneto de
SILVESTRE PÉRICLES DE GÓES MONTEIRO
São Luiz do Quitunde/AL (1896 — 1972) Rio de Janeiro/RJ

Nuvem de amor

Passaste como nuvem cor de rosa
no firmamento azul, em horas mansas.
Da graça, comovida e luminosa,
retrataste a doçura das lembranças.

E conduziste os sonhos meus, formosa,
e a centelha de afeto, em que descansas.
Talvez sejas feliz ou inditosa,
Tu, que levaste as minhas esperanças.

Fico-me só. Sozinho, e suave, e triste...
Mas, neste peito, há vibrações sadias
do que foi, e será, e agora existe...

Cardos e flores, com que o ser se junca,
resultam, pela vida, em harmonias,
se o amor, no coração, não morre nunca.
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Trova de
CAMPOS SALES
Lucélia/SP, 1940 – 2027, São Paulo/SP

“Boteco é a maior desgraça”,
grita o padre em tom agudo;
“Acabem com a cachaça”.
Grita o bebum: “Eu ajudo!”
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Poema de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR (1912 – 2004) Curitiba/PR

Infância

Aquelas tardes de Três Barras
Plenas de sol e de cigarras!

Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.

A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...

O cão travesso, de nome eslavo,
era um amigo, quase um escravo.

Merenda agreste:
Leite Ciroulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
"Mais bom dia, Vossa Senhoria"...
"Bom barqueiro! Bom barqueiro..."
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.

Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)

Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras!
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Trova de
DOMITILA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

O nosso amor escondido,
sem promessa de aliança,
tem o sabor proibido
da fruta da vizinhança!…
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Poema de
DAILOR VARELA
São Paulo/SP

Novos poemas de um velho poeta

Persegue-me
Um vazio imóvel
Tenho medo de me dissolver
Em tédio
O sobrenome
Traduz memórias
Que o homem leva pela vida
Inutilmente
Só há no nome:
O próprio homem.
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Haicai de
OLIVALDO JUNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Roseira crestada, 
Sem botões, nem folhas verdes: 
Floreira sem nada. 
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Poema de
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ

O Coração do Poeta

Todo poeta tem mil corações,
cada um com sua chave e seu segredo
onde acomoda as também mil paixões
que lhe inspiram os versos desde cedo.
Mesmo quando está com a casa cheia
mais um dos seus castelos de areia
constrói num cantinho do seu peito.
Um poeta é insaciável, é seu jeito
porque é preciso, pra fazer poesia,
que arda nele um fogo de paixão,
e dessas chamas sairão poemas
que, mesmo abordando muitos temas,
poucas palavras de amor resumirão.
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Trova de 
OLGA AGULHON
Maringá/PR

Faça chuva ou faça sol,
barro ou poeira na estrada,
se você for meu farol,
continuo a caminhada.
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domingo, 4 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 219 *

 

Amilton Maciel Monteiro
São José dos Campos/SP
AMOR À ROÇA

Idoso, já comendo de alpisteiro,
Sem condição alguma de voltar
À minha antiga faina de vaqueiro,
Eu passo o dia todo a meditar...

Mas não lamento estar o tempo inteiro
Deitado, sem poder me levantar,
Pois aproveito bem ainda o cheiro
Gostoso do curral que vem no ar...

Vem-me à lembrança o verde da campina
Bastante esbranquiçada de nelore,
Mal dissipava o sol toda a neblina...

E vou compondo versos, quanto possa...
Não quero que a saudade me estupore,
Com tanto amor que tenho pela roça!
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Cidinha Frigeri
Londrina/PR

Água pura e cristalina
no meu pote mergulhou…
E como luz que ilumina
minha sede então saciou.
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Antonio Manoel Abreu Sardenberg 
São Fidélis/RJ
RUMO DA VIDA

Tirei o traço na trena,
Toquei fogo na fornalha,
Saí de foco, de cena,
Rezei com fé a novena,
Dei flores pra namorada...

Afinei minha viola,
Recitei o meu poema
Confessei o meu dilema,
Pra vida eu nem dei bola.
Fugi cedo da escola
E o filme da minha vida
Projetei no meu cinema...

Arrumei as minhas tralhas,
Fiquei perdido na trilha,
Refugiei-me na ilha
Desse mundo de ilusão.
Doei pra você todinho
O meu pobre coração!
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Nemésio Prata
Fortaleza/CE

Perdido em pleno deserto,
procurei, com muito prumo,
encontrar o rumo certo;
achei..., e mudei de rumo!
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José Antonio Jacob 
Juiz de Fora/MG
ALMINHA

Desperto, pois que o sol já está lá fora,
E ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.

Que corre alegre, rodopia e trança
Entre o florado que a manhã decora,
Depois, como uma folha, vai embora
Seguindo a brisa que na tarde avança.

Não se descuide minha alminha boa
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina e o tempo voa!...

E, antes que o dia, ao alto, se deforme,
Ela retorna dócil, meiga e leve,
E acomoda-se, no meu colo, e dorme...
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Miguel Malty
Brasília/DF

Clarão de cristais: 
Das brumas emerge a terra 
Na luz da alvorada. 
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Cora Coralina
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás/GO, 1889 – 1985, Goiânia/GO
VELHO

Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.

Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.

A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.

Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.
= = = = = = = = = = = = = =  

Ana Maria do Nascimento
Araçoiaba/CE

Ao surgir um trovador,
na minha estrada sem fim
o néctar de um pleno amor
pude descobrir em mim!
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Carlos Drummond de Andrade
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
LAGOA

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa... 
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Esmeraldo Siqueira
Pedro Velho/RN

Crer no amor é crer na vida,
saber amar é viver.
Quem descrê do amor duvida
da própria razão de ser.
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Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
SE UM DIA...

- Se um dia me disseres... se o disseres!
“Amo-te! Apesar dos teus defeitos!”
Serás a maior, mais falsa das mulheres,
dentre outras tantas. Sem quaisquer conceitos!
Dirás apenas que ... ”Por que me queres,
pois nenhuma de nós pensa em “direitos”?
Eis que somos apenas teus talheres,
das tuas refeições e teus confeitos!
Tenho o direito de dizer: Sou tua!
Enquanto vives tu, vives na rua,
e te queres achar seres meu dono!
Que mãe eu tive – se algum dia a tive?
Não a conheço e se tampouco vive.
...A quem pertenço – enfim - neste abandono?
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Guilherme de Almeida 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP
CARIDADE

Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.
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Miguel Russowsky
Santa Maria/RS ,1923 – 2009, Joaçaba/SC
SOLIDÃO

Depois que o amor passou... fez-se o vazio
e o desespero armou a sua tenda,
num leito triste abandonado e frio,
que nem a própria insônia recomenda.

Ficaram três promessas em contenda,
semi murchas e tortas , num desvio.
As ilusões gentis, em minha agenda,
entraram em completo desvario.

Sobrou a solidão que está comigo.
Sou bom anfitrião e dei-lhe abrigo,
pois prefere pessoas com idade.

A solidão é muito inteligente,
vive plantando, a sós, uma semente,
que nasce sob a forma de saudade.
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Fabrício Avelino
Barbacena/MG

linha
reta
rotas
tortas
letras
alteradas
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Professor Garcia
Caicó/RN
SENTIMENTOS

Quando o dia se apressa e vai embora,
num silêncio que fere e que angustia,
a tristeza me invade e me devora,
nas horas sepulcrais, do fim do dia.

Como quem diz adeus e triste chora,
vai-se o sol delirando de agonia,
e a cortina da noite, Deus decora,
com luz tênue, de vã melancolia.

Distante, bem distante, muito além,
a tristeza me acena, como quem
se despede de alguém, que já morreu,

foi apenas a luz de um dia lindo,
que cansada, acenou quase dormindo
e nos braços da noite adormeceu!
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Ari de Santos Campos
Balneário Camboriú/SC

Areias soltas no chão, 
rolam pra lá e pra cá... 
Eu sou apenas um grão 
que só vive a Deus dará.
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Fernando Pessoa
Lisboa/ Portugal, 1888 - 1935
DORME

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 218 *

Imagem = IA Microsoft Bing

A. A. de Assis 
Maringá/PR

TROVAS SOLTAS

Mesmo soltas e espalhadas,
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!

Curvada ao peso da idade,
a vovó, serena e bela,
distrai o tempo e a saudade
entre o novelo e a novela...

Xô inverno... vá-se o frio...
volte depressa o calor...
que as rosas já estão no cio,
à espera do beija-flor!
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Amilton Maciel Monteiro
São José dos Campos/SP
PARTE DE NÓS

Criar poema é qual plasmar um filho;
lhe damos todo o amor que houver na gente,
mas, depois que soltamos seu anilho,
quem toma conta dele... é o Onipotente.

Também, quando criamos sonetilho,
queremos que ele seja convincente,
correto, puro e tenha certo brilho;
... nem sempre ocorre isso, infelizmente.

Mas não importa. O que conta é só amá-lo!
Quer fique lindo, ou mesmo um pouco feio,
de porte soberano, ou de vassalo;

Pois é parte de nós, porção de amor,
que quisemos doar ao nosso meio,
por vocação do próprio Criador!
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Dária Farion
Pinhais/PR
CARISMA DIVINO

Ter na alma o afeto,
Na palma da mão a vida.
Encerrar no coração a imagem
Na mente a coragem.

Ter certeza,
Gritar com firmeza:
Meu filho , és meu rei
meu herói.
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Ademar Macedo 
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN
TROVAS AVULSAS

Na vida o que me conforta,
está nesta frase bela:
“Deus jamais fecha uma porta,
sem que abra uma janela”!

Entregue ao próprio abandono,
eu vi na rua um menino,
igualmente um cão sem dono
sem lar, sem pão, sem destino...

Eu beijei tantas “donzelas”
nesta minha vida, a esmo,
que quando me lembro delas
sinto nojo de mim mesmo!…
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Fernando Pessoa 
Lisboa/ Portugal(1888 - 1935)
SÚBITA MÃO DE UM FANTASMA OCULTO

Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão noturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.
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Lígia Antunes Leivas
Pelotas/RS
ENTRELINHAS

Na insensatez dos conceitos
emergem desejos...
Quebra-se o elo:
desequilibra-se o universo.

A expectativa antessonha auroras
neste querer maior
de peles de veludo unidas
no desenho de nós mesmos.

Na hora cálida da tarde
atiçam-se todas as luzes...
Um pouco de mim, de ti, de nós
e a explosão de todos os sentidos.

Cada espaço traz a medida certa
...um oceano cresce entre nossas vidas
e nesta separação entre desenganos
descubro-me atônita!

Olhos ao longe (tão longínqua distância!...)
Sou voz perdida, sou desterro
sou muito menos agora
que as entrelinhas deste poema...
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Luiz Poeta
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

AMANTE É QUEM AMA

Somos amantes sem sê-lo,
Mesmo epidermicamente,
Somos mesmo sem sabê-lo,
Somos amantes na mente.

Se um corpo alheio, ao vê-lo,
Sentimos um calor fremente
E, num átimo, por tê-lo,
Ansiamos de repente...

Mesmo estando tão presente
A pessoa que nos ama,
Mesmo estando até na cama
Em carícias envolventes...

Traímos o que nos sente,
Sem todavia traí-lo,
Sentimos o amante ausente,
Sem entretanto senti-lo.

E não depende da gente
Lembrar alguém no momento
Do amor mais forte e envolvente,
Repleto de sentimento.

Traímos no pensamento,
Sem toques e sem contatos,
Portanto, se não há ato,
Não traímos, tão-somente.

Se em pensamentos traímos...
Traímos! ...mas quem reclama?
Porque, quando nos unimos,
Amante é aquele que ama.
= = = = = = = = = = = = = =  

Margot de Freitas Santos
Juiz de Fora/MG
SILÊNCIO

O silêncio de hoje é preciso.
Me nego a falar, nada tenho a escutar
Que seja mais forte e intenso
Do que repousa dentro de meu peito.

O silêncio de hoje é preciso.
Tenho lágrimas guardadas que não posso ocultar
De uma ausência doída, que por mais que eu chame,
Por estar em sono profundo, não consigo acordá-la.

O silêncio de hoje é preciso.
Busco o amparo forte
De abraços adormecidos
Que não mais podem me amparar.

O silêncio de hoje é preciso
Para aceitar esta ausência sentida
Por todo o meu corpo
Que sinto
Não mais existir!

O silêncio de hoje só não mais seria preciso,
Se aqui você estivesse e, então,
A vida teria sentido: o renascer do amor a cada dia
Onde o adormecer jamais existiria!
= = = = = = = = = = = = = =  

Antônio Roberto Fernandes 
São Fidélis/RJ, 1945 – 2008, Campos dos Goytacazes/RJ
LADAINHA

Olhai pra mim, mulher da minha vida!
Senhora dos meus sonhos, me escutai!
Minh' alma já não sabe aonde vai,
neste vale de lágrimas perdida.

Com a luz de vossos olhos me mostrai
um caminho, uma chance, uma saída,
Senhora finalmente aparecida,
meus negros horizontes clareai.

Não tenho vocação para o martírio,
perdão se é heresia o meu delírio
mas nestes lábios que têm fogo e mel.

Arrebatai-me agora, ao gozo eterno
para que eu - que já conheço o inferno -
possa, convosco, conhecer o céu!.…
= = = = = = = = = = = = = =  

Guilherme de Almeida 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP 
NÓS

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
---" Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos…
= = = = = = = = = = = = = =  

sábado, 22 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 217 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ MACHADO STABILE
Uruguaiana/RS

A tua volta, querida,
é força que me renova;
põe amor em minha vida
e euforia em minha trova!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de 
ANALICE FEITOSA DE LIMA
Bom Conselho/PE, 1938 –, São Paulo/SP

Parece Tatuagem

Meu ser se incorporou à vida tua
de um modo tão incrível, tão seguro,
que eu tenho de deixar, mas continua
em ti minha esperança de futuro.

O meu apego tanto te cultua,
que o expresso em versos, rabiscando o muro.
E uma saudade ao meu redor flutua
enquanto no vazio eu te procuro.

Deixaste em meu viver enorme brecha
que sangra a todo instante e não se fecha,
porque a lembrança ao teu encontro vai.

Eu tento te esquecer mas não tem jeito.
E a tua imagem sufocando o peito,
parece tatuagem que não sai...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL MARIA RAMIREZ Y ANGUITA
Ponta Grossa/PR

Muito pouco significa
a amizade morna e muda.
Aquele que te critica
é sempre quem mais te ajuda.
= = = = = = = = = = = = = =

Poema de
FERNANDO PAIXÃO
São Paulo/SP

Aleijadinho

Na pausa do cinzel e das ferramentas
declinas perguntas à pedra.
Teus profetas elegem o ar
conhecem o volteio dos dias
pisam
o pergaminho das parábolas.
Doze vezes a pedra humanizada
respira
o silêncio das colinas.
Tuas mãos em descanso emocionam
o tempo fixado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MANUEL JOSÉ LAMAS
Remoães/Portugal (1909 – 1973) Rio de Janeiro/RJ

Não vou além do que faço,
nem vou além do que digo.
Meu mundo está num abraço,
quando me abraço contigo...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
SÓLON BORGES DOS REIS
Casa Branca/SP

Contrários

 Alguém terá que ser o último,
para que sejas o primeiro.

E só serás proclamado o vencedor,
quando abaixo de ti houver vencidos.

Mas, o amor é mais generoso que a vitória.
Porque não se alimenta da derrota.
Nem está condicionado.
Absoluto, independe do contraste.
Só o amor prescinde dos contrários.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ERCY M. M. DE FARIA
Bauru/SP

Quis vingar “olho por olho”
e também “dente por dente”...
Mas, como, se era caolho
e a sogra só tinha um dente?!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PEDRO DU BOIS
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC

Escutar

Escuto o barulho dos tambores
no som dos homens trabalhando 
escuto o silêncio reservado do poeta
no alarido das crianças 
escuto o sentimento extravasado
no discurso do profeta
escuto o anoitecer no cão que late
ao pássaro no voo indelével
escuto o raspar da pedra sobre a pedra
ao escutar você e não escuto nada 
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ESMERALDO SIQUEIRA
Pedro Velho/RN

Teu silêncio me exaspera.
por que estás sempre calada?
Pensas em mim? Quem me dera!
Talvez não penses em nada...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Todo o amor que não me tinhas

Todo o amor que não me tinhas
se escondeu num violão,
violando as "musiquinhas"
que se encontram sem refrão.

Todo o amor que não me tinhas
se espalhou do coração,
violento como as linhas
que me cortam toda a mão.

Todo o amor que não me tinhas
se encantou com a solidão,
solidário com as coisinhas
que se guardam no porão.

Todo o amor que não me tinhas
nunca teve compaixão
e fez pouco das florinhas
que deixei em sua mão.

Todo o amor que não me tinhas
sempre teve condição
de ver tudo que eu lhe tinha,
mas foi cego, coração.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELISABETE AGUIAR
Mangualde/Portugal

No meu livro de memórias, 
guardo, com todo o recato, 
as mil saudosas histórias
que conta o nosso retrato.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de 
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Queria ser seu livro de cabeceira 

Sabe aquele livro que você tem o maior cuidado? 
E que volta e meia você o relé, e põe-se a refletir? 
Aquele que por nada e para ninguém é prestado? 
Aquele que você toca por ultimo antes de dormir? 

Sabe aquele livro no qual você viaja e lê entrelinha? 
Aquele que faz você preso, incondicional liberdade? 
Aquele que invade sua mente e seu coração aninha? 
Aquele com o qual você desabafa; é maior amizade? 

Sabe esse livro que é seu preferido, até tira a poeira? 
Esse que tem uma história que leva você às viagens? 
Esse que alivia seu estresse e lhe enche de bagagens? 

Então, queria muito de ser esse seu livro de cabeceira. 
Esse; precisamente esse que está sempre ao seu lado. 
Que carrega você desse mundo para outro encantado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EPIFÂNIO DA FONSECA DÓRIA E MENESES
Tobias Barreto/SE (1884 – 1976) Aracaju/SE

A vida alheia respeite,
seja da paz sempre amante:
com rancores não se deite,
com ódios não se levante.
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Poema de 
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Algumas mudanças, nenhuma mudança 

Eu não deveria estar aqui! 
Mas estou! 
De pé diante de ti 
Com o olhar indignado! 
Mudo & Calado! 
Sem nada para te dizer... 
 
Eu não devia estar aqui! 
Deveria estar por lá fora! 
A gritar por liberdade. 
Da minha gente 
Do meu povo. 
 
Deveria estar na rua 
Em qualquer lugar 
E em todos os lugares. 
Mas não estou 
Estou diante de ti 
Mudo calado 
Sem nada para te dizer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ELÍSIO DE SOUSA VASCONCELOS
Cametá/PA

Quando no rancho tu passas
a bailar alegremente,
ficas, Maria das Graças,
nas graças de toda gente.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Nasce o sol, outra manhã 
Se espreguiça, é novo dia 
E a morte, má, se anuncia 
No canto da acauã 
Ave de agouro, malsã, 
Que canta nossa desgraça 
Sobrevoando a carcaça 
Do boi que ontem era são 
Hoje inerte jaz no chão 
No pé do seco imbuzeiro 
O meu verso tem o cheiro 
Da poeira do sertão.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ

No jogo de apostas fartas
do mundo em que nós estamos,
a sorte embaralha as cartas
e nós apenas jogamos...
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Poema de
JOÃO FELINTO NETO 
Mossoró/RN

Gramatical

Só em letras imprimo minha alma.
Mais do que texto 
sou contexto indecifrável.
Meu sinônimo é antônimo de si mesmo.
 Um sujeito indefinido
 que é objeto de um erro
 gramatical.
 Entre modos e tempos,
 triste verbo
 que ecoa na forma nominal.
 Orações que são subordinadas
 aos meus vícios de linguagem.
 Um início em letras ordenadas
 e um fim
numa expressão oral.
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Aquele dia

Borboleta anil
que um louro alfinete de ouro
espeta em Abril
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