Cambaleio perdido em estilhaços
Pelas sendas funestas da saudade
Densa bruma me cerca... Oh, frialdade!
Como são lancinantes esses laços!
Não consigo esquecer teus belos traços
Coração não sossega, a dor me invade
Não escuto os clamores da vaidade
E confesso: desejo teus abraços
Minhas mãos sem teu corpo estão aflitas
Minha boca padece sequiosa
Devaneios lascivos inda habitas
Dama amada, perfeita, perfumosa
De feições generosas, tu volitas
Em meu sonhos alegres, donairosa
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DIVA
A noite é fria, é mais rude o tormento
Na imensidão deste quarto sombrio
Algo me falta... Que dor, que vazio!
Minh'alma brada em plangente lamento
Abro a janela, as estrelas espio
Há tanto brilho, ali busco um alento
Sorrir-lhes quero... Esse atroz sofrimento
Não me permite, sufoca-me o brio
Da vividez de um cenário tão belo
Resistem traços sutis, pequeninos
Oh, solidão, desumano flagelo!
Que o romantismo doutrora reviva
E um dia desses nos cruze os destinos
Estou carente de ti, minha diva!
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LÁGRIMAS PERDIDAS
Cansado doutra noite mal dormida
Enfim, abro a janela... Riem flores!
Contemplo o colorido e vejo a vida
Mostrando para mim seus esplendores
Da rosa outrora linda, a preferida
Não posso mais haurir nobres olores
E penso: quanta lágrima perdida!
Oferta-me o jardim tantos sabores...
Jasmins, hortênsias, ledas violetas
Em seu aroma puro, confortante
Acolhem meus suspiros lamentosos
Experimento as dúlcidas facetas
Da caminhada agora deleitante
Repleta de sorrisos jubilosos
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MEDO DO ESCURO
Cessados os tímidos passos, hesita
Seu rosto confessa pavor, inquietude
Perturbam-no feros demônios e grita:
"Fugiram meus anjos, não há quem me ajude!"
Vergasta seu corpo uma gélida brisa
O gosto é de fel, é de enxofre o perfume
Talvez impressões... Dalgum norte precisa
Perdido que está em completo negrume
Delira, deseja as blandícias de dantes
Voltar não consegue, há abismos gigantes
Das lidas vindouras ignora os segredos
Parece um menino assustado, inseguro
Das belas surpresas ocultas no escuro
Não sabe porquanto é refém de seus medos
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O COLIBRI
Volita no jardim o colibri faminto
Enfeita gracioso as sendas coloridas
E rasga belamente o grande labirinto
Oscula girassóis, hortênsias, margaridas
A cena é singular, esparge puro encanto
Do ilustre visitante as flores afagadas
Saudade sentirão quando esse beijo santo
Fartar-se de dulçor noutras vitais jornadas
Assim, segue seu curso, em festa, a natureza
Esplêndida expressão de um criador jeitoso
São telas magistrais... Que zelo, que destreza!
Viaja o colibri, rompendo os ares, cruza
Dos prados divinais ao vale tenebroso
Em busca do sabor d’alguma nova musa
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OUTONO
Sem destino certo bailam folhas
Voam soltas, secas, leves, mortas
Pobrezinhas, não têm mais escolhas
Traça o vento insanas rotas, tortas
De tristura choram nus os galhos
Mui saudosos doutros tempos fartos
Da verdura, do frescor, de orvalhos
Quando tinham mais vigor, quão hartos!
Segue assim seu ciclo a natureza
Transformando cenas, sem pudores
Na paisagem pobre, esmaecida
O arvoredo, em singular beleza
Renovado, logo explode em cores
Espetáculo de luz e vida
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Jerson Brito (1973)
JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.
Fontes:
Recanto das Letras do poeta.
(Biografia produzida pelo Blog: Garimpos pela internet)




