sexta-feira, 13 de março de 2026

Asas da Poesia * 161 *


Poema de
JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO
Barcelona/Espanha (1928 – 1999)

Neste Mesmo Instante...

Neste mesmo instante
há um homem que sofre,
um homem torturado
tão somente por amar
a liberdade. Ignoro
onde vive, que língua
fala, de que cor
é sua pele, como
se chama, mas
neste mesmo instante,
quando teus olhos leem
meu pequeno poema,
esse homem existe, grita,
pode-se ouvir seu pranto
de animal acossado,
enquanto morde os lábios
para não denunciar
os amigos. Ouves?
Um homem só
grita amarrado, existe
em algum lugar. Eu disse só?
Não sentes, como eu,
a dor de seu corpo
repetida no teu?
Não te brota o sangue
sob os golpes cegos?
Ninguém está só. Agora,
neste mesmo instante,
também a ti e a mim
nos mantêm amarrados.
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Trova de
FERRER LOPES
Queluz/Portugal

As sementes da mentira,
e da calúnia também,
giram num mundo que gira
na lama que o mundo tem.
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Soneto de
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

O Destino

Nossa vida faz patético percurso
Até aquela final nota de ironia, 
Das cartas sempre o último recurso
Pra velar sua vocação que é a poesia.

Tenho medo da leitura da cigana,
Conquanto muitas vezes enganosa,
Quando lendo nossa vida nos engana,
Pensa dar gato e dá poesia pela prosa.

Da resposta não temos o tal código
Como um pai não saberá antes da hora
Se pra casa volta o filho pródigo...

Tudo é mistério: estamos às escuras,
Quem mente para a gente jamais cora,
Também não aquela face que procuras…
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Poema de
ARMANDO GUEBUZA
Murrupula, Província de Nampula/Moçambique

As tuas dores

As tuas dores
mais as minhas dores
vão estrangular a opressão

Os teus olhos
mais os meus olhos
vão falando da revolta

A tua cicatriz
mais a minha cicatriz
vão lembrando o chicote

As minha mãos
mais as tuas mãos
vão pegando em armas

A minha força
mais a tua força
vão vencer o imperialismo

O meu sangue
mais o teu sangue
vão regar a Vitória.
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Trova Popular

O amor entra pros olhos,
vai pro peito direitinho.
Amor embebeda a gente
como cachaça com vinho.
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Soneto de
FRANCISCO DAS CHAGAS ESMERALDO MOURÃO
Brasília/DF

Fúria da natureza

Soprava forte o vento sobre as águas
Galhos e folhas voando pelos ares
Furiosa a natureza são as mágoas
Com a depredação, lamúria e males.

Inundação sufoca nas cidades
Desliza morro casas morre gente
Lassidão à dor, a infelicidade,
O vil ledo ignora sorridente.

Quem tem algum, põe fogo e desmata,
Não se preocupa, pensa em se dar bem,
Não Sabe as consequências que advém.

Mais uma vez devasta a natureza
Destruindo e provocando absurdos
Sofre o inocente, sem qualquer escudo.
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Poema de
BETTY VIDIGAL
São Paulo/SP

O amor dos outros

O amor dos outros
é indiferente.
Só o da gente
é especial,
fosforescente,
brilha no escuro.

O amor dos outros
é tão pequeno,
nem vale a pena
pichar o muro.

Ninguém entende
o amor alheio;
não é bonito
e não é feio.
O amor dos outros
é tão efêmero!
Estão amando?
Fazendo gênero?

O amor dos outros
é muito pouco:
só o da gente,
direito ou torto,
alegre ou triste,
sereno ou louco,
lascivo ou puro,
céu ou inferno
- só o da gente
será eterno.

Olha pro rosto
do amor alheio:
são só dois olhos,
nariz no meio,
cadê a boca?
Olha pra cara
do amor da gente:
que coisa louca!
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Trova Humorística de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Nas Bodas de Ouro, ela encuca:
- Quer, meu bem, uma canjinha?
Grita o velho: - Tá caduca?
Que culpa tem a galinha?
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Soneto de
DANIEL TOMAZ WACHOWICZ
Taboão da Serra/SP

A voz de uma pedra

Sou pedra. Falo feito pedra bruta,
Dura, tão dura igual palavra dura,
Palavra pedra, dura, forte e pura.
Daqui não saio, tem que ter disputa,

E pedra bate sempre bruta, forte,
Impenetrável, grave, tesa e brava,
Massa pesada, voz que é bruta clava,
Som estridente de pavor e morte.

Tenho vontade pétrea impenetrável,
De duros sentimentos, maleável
Nunca, teimosa sempre, sou teimosa

E provarei para vocês agora.
Posso virar estátua que decora,
Mas permaneço toda pedregosa.
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Spina de
REJANE NASCIMENTO
Caratinga/MG

Rememorar 

Recordo da juventude,
reconheço os momentos 
aquietando o coração.

Não tem como não lembrar 
do meu jeito meigo, carinhoso.
Agradeço com uma bela oração.
Trago poesia escrita pela vida;
minha alma canta uma canção.
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Poema de
ORIDES FONTELA
São João da Boa Vista/SP (1940-1998) Campos do Jordão/SP
 
Elegia (I)

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que

o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.
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Poema de
HILDA HILST
São Paulo/SP, 1930 – 2004, Campinas/SP

XLII

As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.
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Trova Humorística de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Menininho, numa prova,
sabiamente assim se exprime:
– Lua nova?... Lua nova
é a cheia que fez regime!
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Hino de 
LORENA/ SP

Guaypacaré das eras coloniais
Surgida no roteiro das "bandeiras"
Que escalaram sertões e cordilheiras
A demandar as minas cataguases.

Do Paraíba à margem, teus pioneiros
Erigiram à Virgem uma ermida,
E entre bênçãos a terra protegida
Na Vila Hepacaré fez suas bases.

Estribilho
Oh! Terra das Palmeiras Imperiais,
Velho berço de Condes e Barões,
Ninguém de ti se esquecerá jamais,
Ao reviver as tuas tradições!

Do solo teu que o braço escravo arou,
Brotaram verde-rubros cafezais,
E pelo Vale, imensos canaviais,
Do teu progresso indústrias se tornaram.

Os teus heróis que a história consagrou ·
Batalharam por nobres ideais,
Na jornada imortal dos Liberais,
Intrépidos os filhos teus tombaram!

Estribilho
Oh! Terra das Palmeiras Imperiais,
Velho berço de Condes e Barões,
Ninguém de ti se esquecerá jamais,
Ao reviver as tuas tradições!

Do teu passado, rico em tradições,
Cantamos no teu hino toda a glória,
Na exaltação da tua bela história,

A esta gente brava e varonil.
E contemplando as tuas gerações,
Oh! Lorena de outrora e do presente
Te confiamos nobre sonho ardente:
O esplêndido futuro do Brasil

Estribilho
Oh! Terra das Palmeiras Imperiais,
Velho berço de Condes e Barões,
Ninguém de ti se esquecerá jamais,
Ao reviver as tuas tradições!
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Poema de
AFFONSO MANTA
Salvador/BA

O realejo de vinho

Para quem me queira ouvir:
Sou um homem aos frangalhos.
Parte por culpa de tudo.
Parte por culpa de nada.

E digo mais ao casual
Ouvinte deste relato:
Não sendo herdeiro nem rico,
Não tenho crédito na praça.

Amo as japonas escuras
De mangas e tudo vasto.
E os colarinhos puídos
Uso desabotoados.

Ao pôr a minha gravata,
Fabrico um laço bem largo.
E acho triste andar com ela.
E mais tristes as gravatas.

Eu nunca faço questão
Que uma roupa seja cara.
Mas ampla e, sendo possível,
Com certo ar desesperado.

Eu prefiro aos bons charutos
Um velho e forte cigarro.
E odeio fumar cachimbo
Pois sou muito angustiado.

No mais, um vento me agita,
Interior e largado.
E me devasta os cabelos,
Rosto, sorriso e palavra.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O avarento que perdeu o tesouro

Quem não usa não tem, reza o adágio;
E é bem verdadeiro;
Pois nada prestará, sem o gozarmos,
Acumular dinheiro.
Esopo, no seu conto
Do tesouro escondido,
Fornece belo exemplo ao nosso ponto.

Houve outrora um avarento
Que ouro sobre ouro juntava,
E nem um real gastava:
Dele escravo e não senhor,
Ao vê-lo, imaginaríeis
Que a fortuna assim unida
Guardava para outra vida,
Para outro mundo melhor.

Enterrou-o numa cova,
E a alma enterrou com ele.
Coma, beba, durma, vele,
O seu único prazer
É pensar a cada instante
No seu virginal erário,
Que adora, como sacrário;
E a cada instante ir vê-lo.

Foi lá, foi lá tantas vezes,
Que um cavador, com suspeita
Do mistério, a cova estreita
Abriu, e tudo roubou.
Pouco depois o avarento
O passeio acostumado
Fez ao seu ouro adorado,
Mas... só o ninho lhe achou!

Pasma; lágrimas derrama;
Soluça; geme; suspira;
De raiva os cabelos tira.
É um sonho! Não o crê!
Nisto acaso um viandante
Por aquele sítio passa,
E com dó de tal desgraça
Pede a razão do que vê.

«Roubaram-me o meu tesouro!»
— O teu tesouro roubaram?
E em que lugar o encontraram?
— Junto desta pedra; aqui.
— Por que o trouxeste tão longe?
Receias alguma guerra,
Para o esconderes na terra
De todos, e até de ti?

Veio espairecer no campo?
Antes em casa guardado
Estivesse a bom recado,
E tu a vê-lo, e a gastar.
— Eu gastar o meu dinheiro!
O meu dinheiro? Estás louco!
Custa ganhá-lo tão pouco?
Eu nunca lhe ousei tocar!

— Que me dizes! Impossível!
— Nunca! — Então inútil era.
E a mágoa te desespera?!
Famoso! Deixem-me rir!
Nesse caso, põe na cova
Uma pedra: o mesmo importa
Que a tua riqueza morta;
Do mesmo te há de servir.»
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Mensagem na Garrafa 157 = Escola de anjos


AUTOR ANÔNIMO

Era uma vez, há muitos e muitos anos, uma escola de anjos. Conta-se que naquele tempo, antes de se tornarem anjos de verdade, os aprendizes de anjos passavam por um estágio. Durante um certo período, elas saíam em duplas para fazer o bem e no final de cada dia, apresentavam ao anjo mestre um relatório das boas ações praticadas.

Aconteceu então, um dia, que dois anjos estagiários, depois de vagarem exaustivamente por todos os cantos, regressavam frustrados por não terem podido praticar nenhum tipo de salvamento sequer.

Parece que naquele dia, o mal estava de folga. Enquanto voltavam tristes, os dois se depararam com dois lavradores que seguiam por uma trilha. 

Neste momento, um deles, dando um grito de alegria, disse para o outro:

- Tive uma ideia. Que tal darmos o poder a estes dois lavradores por quinze minutos para ver o que eles fariam?

O outro respondeu: - Você ficou maluco? O anjo mestre não vai gostar nada disto! 

Mas o primeiro retrucou:
- Que nada, acho que ele até vai gostar! Vamos fazer isto e depois contaremos para ele. 

E assim o fizeram. Tocaram suas mãos invisíveis na cabeça dos dois e se puseram a observá-los. Poucos passos adiante eles se separaram e seguiram por caminhos diferentes.

Um deles, após alguns passos depois de terem se separado, viu um bando de pássaros voando em direção à sua lavoura, e passando a mão na testa suada disse:

- Por favor meus passarinhos, não comam toda a minha plantação! Eu preciso que esta lavoura cresça e produza, pois é daí que tiro o meu sustento. 

Naquele momento, ele viu espantado a lavoura crescer e ficar prontinha para ser colhida em questão de segundos. Assustado, ele esfregou os olhos e pensou: devo estar cansado... e acelerou o passo.

Aconteceu que logo adiante ele caiu ao tropeçar em um pequeno porco que havia fugido do chiqueiro. Mais uma vez, esfregando a testa ele disse:

- Você fugiu de novo meu porquinho! Mas, a culpa é minha, eu ainda vou construir um chiqueiro decente para você. 

Mais uma vez espantado, ele viu o chiqueiro se transformar num local limpo e acolhedor, com água corrente e o porquinho já instalado no seu compartimento. Esfregou novamente os olhos e apressando ainda mais o passo disse mentalmente: estou muito cansado!

Neste momento ele chegou em casa e, ao abrir porta, a tranca que estava pendurada caiu sobre sua cabeça. Ele então tirou o chapéu, e esfregando a cabeça disse: – De novo, e o pior é que eu não aprendo. Também, não tem me sobrado tempo. Mas ainda hei de ter dinheiro para construir uma
grande casa e dar um pouco mais de conforto para minha mulher. 

Naquele exato momento aconteceu o milagre. Aquela humilde casinha foi se transformando numa verdadeira mansão diante dos seus olhos. Assustadíssimo, e sem nada entender, convicto de que era tudo decorrente do cansaço, ele se jogou numa enorme poltrona que estava na sua frente e, em segundos, estava dormindo profundamente. 

Não houve tempo sequer para que ele tivesse algum sonho. Minutos depois ele ouviu alguém pedir 

– Socorro: compadre! Me ajude! Eu estou perdido! 

Ainda atordoado, sem entender muito o que estava acontecendo, ele se levantou correndo. Tinha na mente, imagens muito fortes de algo que ele não entendia bem, mas parecia um sonho. Quando ele chegou na porta, encontrou o amigo em prantos. Ele se lembrava que poucos minutos antes eles se despediram no caminho e estava tudo bem. Então perguntando o que havia se passado ele ouviu a seguinte história:

“- Compadre nós nos despedimos no caminho e eu segui para minha casa, acontece que poucos passos adiante, eu vi um bando de pássaros voando em direção à minha lavoura. Este fato me deixou revoltado e eu gritei:

“- Vocês de novo, atacando a minha lavoura, tomara que seque tudo e vocês morram de fome!

“Naquele exato momento, eu vi a lavoura secar e todos os pássaros morrerem diante dos meus olhos!

“Pensei comigo, devo estar cansado, e apressei o passo. Andei um pouco mais e cai depois de tropeçar no meu porco que havia fugido do chiqueiro. Fiquei muito bravo e gritei mais uma vez:

“- Você fugiu de novo? Por que não morre logo e para de me dar trabalho? 

“Compadre, não é que o porco morreu ali mesmo, na minha frente! Acreditando estar vendo coisas, andei mais depressa, e ao entrar em casa, me caiu na cabeça a tranca da porta. Naquele momento, como eu já estava mesmo era com raiva, gritei novamente: 

“ – Esta casa... Caindo aos pedaços, por que não pega fogo logo e acaba com isto?... 

Para surpresa meu compadre, naquele exato momento a minha casa pegou
fogo, e tudo foi tão rápido que eu nada pude fazer! Mas... compadre, o que aconteceu com a sua casa?... De onde veio esta mansão?

Depois de tudo observarem, os dois anjos foram, muito assustados, contar para o anjo mestre o que havia se passado.

Estavam muito apreensivos quanto ao tipo de reação que o anjo mestre teria. Mas tiveram uma grande surpresa. O anjo mestre ouviu com muita atenção o relato, parabenizou os dois pela ideia brilhante que haviam tido, e resolveu decretar que a partir daquele momento, todo ser humano teria 15 minutos de poder ao longo da vida. Só que, ninguém jamais saberia quando estes 15 minutos de poder estariam acontecendo.
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Será que os 15 minutos próximos serão os seus? Muito cuidado com tudo o que você diz, como age e aquilo que pensa! Sua mente trabalhará para que tudo aconteça, seja bom ou ruim.

Arthur Thomaz (A fofoqueira)


No bairro em que morava, quando Gilda ia visitar alguém, as pessoas da casa já se preparavam 
para o pior. Ela chegava elogiando um a um, mas logo depois desferia a temida pergunta:

– Vocês sabiam o que fulano de tal fez?

Em seguida fazia um maldoso relatório da conduta do citado infeliz.

Geralmente era de um membro da família que não estava presente para se defender. Depois do espanto geral, ia embora, satisfeita, deixando a discórdia implantada no âmbito familiar.

As pessoas tentavam evitar qualquer contato com ela e não sabiam como Gilda se inteirava de situações particulares ocorridas nas famílias. Gilda regozijava-se cada vez que tomava conhecimento de uma nova fofoca.

O que todos desconheciam é que as informações sigilosas vinham geralmente de um parente ressentido com alguém da própria família, que vinha contar-lhe, sabendo que em pouco tempo ela iria propagar o fato.

Uma das ocasiões que Gilda considerava ter sido a maior indiscrição de todas foi quando soube que o padre tinha sido visto pulando o muro, na hora em que o marido de uma beata chegou antes da hora em casa.

Na missa dominical, foi ao microfone da igreja e disse que os fiéis perguntassem ao padre o porquê de sua batina estar rasgada. Em alguns dias, o sacerdote foi transferido para outra paróquia, bem longe dali.

Em certa ocasião, mudou-se para o bairro uma moça muito bonita, aparentando ser solteira, pois morava sozinha.

Gilda foi visitá-la algumas vezes, levando doces e bolos no intuito de descobrir algo na vida da jovem que servisse para ela usar em uma fofoca. A moça sempre tratava-a com atenção, mas esquivava-se de contar detalhes de sua vida particular.

Gilda passou a espionar a casa da jovem à noite, para ver se encontrava algo estranho.

Em uma sexta-feira à noite, viu um jovem bem vestido estacionar seu carro na garagem e somente sair no domingo. Gilda criou uma narrativa falsa sobre o comportamento da moça e espalhou-a pelo bairro, acrescentando detalhes picantes ao fato.

A moça foi até o salão de beleza para cortar os cabelos. A cabeleireira, sem rodeios, perguntou se ela tinha contado à Gilda algum segredo de sua vida pessoal.

Diante da negativa, falou que a citada mulher estava espalhando que ela recebia homens em sua casa, com mais alguns detalhes sórdidos. Espantada, a moça negou tudo e, sem dar mais explicações, foi embora após o corte.

Algum dia, algo ruim sempre acontece com pessoas que se sentem felizes às custas do sofrimento alheio. Uma família do bairro, inconformada com os sucessivos malfeitos de Gilda contra seus membros, resolveu processá-la por injúria, calúnia e difamação.

No dia da primeira audiência, no fórum da cidade, Gilda ficou surpresa e apavorada quando viu que o suposto amante daquela mulher que ela difamara era o marido e o novo juiz da comarca.

Ele era juiz de outra cidade e havia sido transferido para lá, mas ainda não tinha vindo porque precisou finalizar alguns processos pendentes. Sua esposa tinha vindo antes para arrumar a casa deles.

O jovem magistrado iniciou a audiência dizendo:

– Senhora Gilda, a sua surpresa e a palidez de seu rosto ao me ver aqui já servirão de lição para o resto de sua vida. Quero assegurar-lhe que seu julgamento será estritamente realizado dentro das leis, sem nenhuma conotação pessoal.

Gilda foi condenada a prestar serviços comunitários e, após cumprir essa pena branda, nunca mais cometeu uma bisbilhotice sequer.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
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quinta-feira, 12 de março de 2026

José Feldman (O Tinteiro de Areia e o Visitante de Luz)


O casarão de Tomás cheirava a papel antigo e chá esquecido. Aos oitenta anos, o escritor era uma ilha cercada por um oceano de silêncio. Seus livros, outrora lidos, agora repousavam em estantes cobertas de pó, e a caneta tinteiro sobre a mesa parecia um monumento a uma era que já não lhe pertencia. Ele não esperava visitas, não desejava fama e, acima de tudo, não tinha mais aspirações.

Ele estava sentado em sua poltrona de couro puído, observando a poeira dançar em um raio de sol, quando notou alguém encostado na estante de clássicos. Não era um homem comum. A figura vestia uma túnica que parecia tecida com a névoa da manhã e seus olhos mudavam de cor conforme ele respirava.

— Você está atrasado para o chá, Tomás — disse o visitante, com uma voz que ressoava como o som de águas calmas.

Tomás não se assustou. A essa altura da vida, a fronteira entre o sonho e a vigília era uma linha tênue e borrada.

— Eu não fiz chá para dois — respondeu o velho escritor, sem se mexer. — E, se você é fruto da minha demência, espero que seja pelo menos um interlocutor interessante.

O estranho sorriu, e a sala pareceu aquecer dois graus.

— Alguns me chamam de anjo, outros de inspiração. Eu prefiro pensar que sou apenas alguém que veio lhe lembrar do que você esqueceu enquanto olhava para as suas derrotas.

— Vitórias e derrotas... — Tomás soltou um riso seco. — Palavras vazias para quem terminou a jornada sozinho. Eu escrevi milhões de palavras, e hoje elas não passam de alimento para traças. Minha vida foi uma sucessão de tentativas fracassadas de ser "grande".

O visitante caminhou até a mesa e tocou um dos manuscritos inacabados.

— Você persegue a "Grande Vitória", Tomás. Aquela que brilha como um farol, mas que é perigosa. Grandes triunfos são como acrobatas se equilibrando em um arame alto; um sopro de vaidade e tudo desmorona. O que você não vê são as pequenas vitórias.

— Pequenas vitórias não mudam o mundo — rebateu o velho, amargurado.

— É aí que você se engana — disse o anjo, aproximando-se. — Uma praia majestosa não é um bloco maciço de pedra. Ela é composta por bilhões de pequeninos grãos de areia. Cada frase que você escreveu, cada gesto de honestidade em seus textos, é um grão. Sozinho, parece insignificante. No conjunto, ele sustenta o peso do oceano.

— Ninguém lê o que eu escrevo — sussurrou o escritor. — Não tenho família, não tenho amigos. Sou um zero à esquerda na soma do universo.

O visitante colocou a mão sobre o ombro dele. O toque era leve, mas carregava uma autoridade milenar.

— Você acha que não significa nada? Neste exato momento, em uma cidade que você nunca visitou, um jovem está lendo um parágrafo que você escreveu há quarenta anos. Aquele parágrafo o impediu de desistir de si mesmo hoje. Você tem valor, Tomás. Um valor imenso para alguém que você nem sabe que existe. Você faz parte de um conjunto maior, uma tapeçaria onde cada fio, por mais escondido que esteja, segura a estrutura toda.

Tomás sentiu uma pontada no peito. Não era dor, era algo que ele não sentia há décadas: a percepção de pertencimento.

— Então... eu não estou sozinho?

— Nunca esteve. A sua reclusão é física, mas a sua alma está espalhada em cada mente que foi tocada pela sua verdade. Não despreze o pequeno. O eterno é feito de instantes miúdos.

O anjo começou a desvanecer, tornando-se novamente poeira dourada sob o raio de sol. Antes de sumir completamente, sua voz ecoou uma última vez:

— Escreva mais uma linha hoje, Tomás. Apenas uma. O grão de areia de hoje é o que manterá a praia de amanhã.

Tomás olhou para a caneta. Sua mão tremia, mas não de fraqueza. Ele a molhou no tinteiro e, no papel em branco, escreveu uma única frase sobre a luz. Ele não sabia se era realidade ou imaginação, mas pela primeira vez em anos, ele se sentiu em casa.

Moral: 
A verdadeira grandeza não reside em um único feito monumental, mas na soma das pequenas e silenciosas contribuições que, como grãos de areia, formam o solo onde outros caminharão.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

O Folclore da Bélgica


A Bélgica guarda um folclore menos conhecido internacionalmente, mas igualmente rico — um emaranhado de contos e lendas que nasce das suas cidades medievais, das planícies costeiras, das colinas da Ardenha e das vielas onde se cruzam línguas e culturas. Essas histórias, passadas de geração em geração, revelam um imaginário onde o cotidiano encontra o fantástico, e onde o humor, o medo e a sabedoria popular convivem com naturalidade.

Muitos relatos belgas brotam de locais específicos: castelos, pontes, moinhos e bosques. As Ardenas, com suas florestas fechadas e penhascos, são cenário recorrente para narrativas de espíritos, cavaleiros errantes e aparições noturnas. Nesses contos, a natureza parece ter memória própria; trilhas e rochas carregam histórias de amores perdidos, pactos antigos e advertências para os imprudentes. Nas cidades, lendas sobre sinos, prisioneiros e mercadores dão forma a uma memória urbana que mistura fatos históricos e imaginação.

Uma figura que atravessa muitas tradições locais é a do fantasma — nem sempre aterrador, por vezes dramático ou até melancólico. Contam-se histórias de almas que voltam para resolver injustiças do passado, proteger tesouros esquecidos ou simplesmente repetir um gesto até encontrarem descanso. As histórias de assombrações belgas frequentemente têm um tom moral: servem como lembretes sobre honra, dívida e reparação.

A Bélgica também é terra de criaturas pequenas e brincalhonas do folclore, como fadas e seres domésticos que, segundo as crenças antigas, podem ajudar nas tarefas da casa ou pregar peças em quem é displicente. Esses seres refletem uma relação íntima com o cotidiano — explicam pequenos acontecimentos, ajudam a preservar tradições e alimentam o senso de maravilha entre crianças e adultos.

Carnavais e festas locais trazem outro tipo de lenda: personagens mascaradas, rituais que misturam sátira e rito, e símbolos de fertilidade e renovação. Exemplos como o Carnaval de Binche, com seus Gilles, mostram como a tradição pode transformar história, música e traje em narrativas vivas, que conectam comunidade e território. Esses eventos preservam mitos e comportamentos antigos, convertendo-os em espetáculo coletivo e património cultural.

Também há contos que se ligam à disseminação cultural do país — onde influências flamengas, valonas e francófonas se entrelaçam, e onde ecos de mitos germânicos, latinos e celtas aparecem mesclados. Assim, as lendas belgas podem variar bastante de região para região, mas carregam um fio comum: a tentativa de explicar o mundo, preservar a memória e criar laços sociais através da narrativa.

No fundo, os contos e lendas da Bélgica não são apenas curiosidades folclóricas; são espelhos da vida comunitária. Contá-los é reafirmar identidades locais, ensinar valores e celebrar o lugar onde se vive. Ao ouvir essas histórias — de castelos enevoados, de pequenas fadas domésticas ou de festas ruidosas — aproximamo-nos de uma Bélgica menos turística e mais íntima, feita de histórias que nos lembram que o passado continua a falar, em sussurros e ritos, pelas ruas e pelos bosques.

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