sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Asas da Poesia * 146 *


Poema de
JAQUELINE MACHADO
Cachoeira do Sul/ RS

Eu e o mundo

Eu não tive infância...
Mas Deus não tirou – me a ânsia
de buscar... tocar... saber...

Desde muito menina,
o mistério da vida me fascina...
e de mim indaga sobre coisas que não posso ver...

Eu não tive infância...
Mas essa minha aliança com o universo,
despertou em mim um desejo confesso,
pelas artes do descobrir...

Meus olhos buscavam o céu,
e por detrás de sete véus,
uma voz perguntava:
e se ao invés do tudo, existisse o nada?
Se ao invés do princípio, restasse apenas o fim?

Eu não tive infância...
Mas as eras habitavam minha alma...
E uma senhora de sabedoria infinda,
com doçura me acalentava...

Eu não tive nada.
E por isso, tive tudo...
O mundo adentrou o meu puro ventre.
E eu o amamentei com as lágrimas do meu sofrer
e o ninei com as canções que fazem girar o mundo...
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano
FERNANDO ANTÔNIO BELINO
Sete Lagoas / MG

A feira

É puro encantamento e poesia
a feira de domingo na cidade!
Envolve intensamente a sociedade,
num vai-e-vem, repleto de alegria!

Ali, circula gente, nesse dia,
de toda classe e de qualquer idade!
Produtos há de grande variedade,
para atender à imensa freguesia. 

Os importados têm presença certa!
Salgados, doces, caldos com pimenta!
Sempre bem-vindos, quando a fome aperta!

Roupa usada, sapato, ferramenta
e um burburinho, que a atenção desperta:
É a fila do pastel que só aumenta!
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Poema de
JOÃO MARIA VILANOVA
Madeira/Angola, 1933 – 2005, Vila Nova de Gaia/Portugal

O Poeta vestido a rigor
em nossa terra

 o poeta pondera o fato
poeta transcende o fato & a notícia
poeta sem astúcia
poeta sempre sempre com alguma malícia

 os racistas temem o poeta
os golpistas temem o poeta
os inimigos do povo oh
esses temem o poeta

 o poeta sem teto
o poeta sem teto
o poeta vestido a rigor
em seu cadáver putrefato.
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TROVA POPULAR

Ninguém descubra o seu peito
por maior que seja a dor;  
quem o seu peito descobre      
é de si mesmo traidor.         
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Soneto sobre Cidade do Interior
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/ PR

Cidadezinha do interior 

Sequer se vê no mapa o seu ingresso…
parece um vilarejo e não cidade.
Gente pacata e afeita à honestidade,
mas sem anseios próprios do progresso.

Das frutas sobrevive a sociedade 
com poucos lucros, quase em retrocesso.
Dali se vão os jovens (sem regresso),
e a lentidão prossegue, na verdade.

Ao fim da tarde, o som da “Ave-Maria,”
lá na Matriz, despede-se do dia
e, nas janelas, povo atento à fé.

Carroças e compadres se visitam…
Compartilhando tudo em que acreditam,
comadres vão servindo um bom café…
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Poema de
ALBANO DIAS MARTINS
Aldeia do Telhado/Portugal (1930 – 2018) Vila Nova de Gaia/Portugal

Compêndio
 
Dizias: daqui o mar parece    '
uma tarântula
azul. Eu respondi:
vermelhas
são as flâmulas,
das algas e o fermento
das águas.
Escrever
é isso: fazer
da vida uma pauta
e um compêndio de espuma
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Soneto sobre Cidade do Interior
RICARDO CAMACHO
Rio de Janeiro/RJ

Humilde lugar

Diante do cenário prazenteiro,
Imerso no silêncio, à luz do dia,
Contemplo o micromundo brasileiro,
Volvido numa doce calmaria.

Na praça, um sorridente pipoqueiro...
E, logo, a criançada, na alegria,
Pula ao sentir o irresistível cheiro,
Rompendo o império da monotonia.

De vez em quando a brisa, sonolenta,
Passa no embalo da carroça lenta
No entardecer pacato do lugar...

A escuridão dos morros argilosos 
Mostra o poente e os astros luminosos
Como atração no interior de um lar.
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Poema de
ALBERTO DE SERPA
Porto/Portugal (1906 – 1992)

Riqueza

Por parques e praças,
Ruas e travessas,
Tu, meu olhar, caças
A vida.  E tropeças.

Uma gargalhada
Vem dum par contente. 
Guarda-a bem guardada,
Mas caminha em frente.

Surgem-te sorrisos
Dum e de outro lado.
Não faças juízos
Rápidos.  Cuidado!

Uma face grave
Nada te revela?
Talvez a dor cave,
Só mais tarde, nela.

Num choro, num grito,
Pressentes a dor?
E quedas, aflito.
Seque, por favor!

Seque, bem aberto
Para cada canto!
Olha o desconcerto
Que parece tanto!

Corre, olhar, em roda!
O que me intimida?
A vida?  Só toda
Pode amar-se, a vida.
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Soneto sobre Cidade do Interior
GILLIARD SANTOS
Fortaleza/CE

Cidadezinha do sertão

Mulheres andam entre as aroeiras,
Enquanto o dia segue sossegado...
Um homem, devagar, conduz o gado
Para o curral e fecha-lhe as porteiras.

Chegando a noite, acendem-se as fogueiras
E o prato principal é milho assado.
Pelos terreiros corre, lado a lado,
A criançada em suas brincadeiras...

Neste cenário rústico e tão belo
Não tenho as mordomias de um castelo,
Mas sigo por caminhos que são meus.

Nenhuma falta sinto da cidade,
Pois neste reino da simplicidade 
Eu vivo a vida que pedi a Deus.
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Soneto sobre a Vida no Interior
JÉRSON LIMA DE BRITO
Porto Velho/ RO

Vida interiorana

Entregue à inapetência do ponteiro
que marca seu compasso lentamente,
o tempo, generoso e complacente,
afaga o coração de um povo ordeiro.

A prosa na calçada, o sol dormente,
a brisa, a mata e o clima hospitaleiro
produzem novas linhas do roteiro
escrito na memória dessa gente.

Na rubra passarela preparada
desponta a noite calma e, na chegada,
promete mais brandura ao fim do dia.

Quando a simplicidade prepondera,
nenhum prazer suplanta o da quimera
que a vida interiorana propicia...
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun da alma arrependida

TROVA TEMA:
Na praça da minha vida
vi, de joelhos, em vão,
uma ofensa arrependida
pedindo abraço ao perdão...
José Valdez de Castro Moura 
Pindamonhangaba/SP

PANTUN:
Vi, de joelhos, em vão,
um alguém, que nunca via,
pedindo abraço ao perdão
no altar da Virgem Maria.

Um alguém, que nunca via,
Confessa os pecados seus,
No altar da Virgem Maria,
pedindo perdão a Deus.

Confessa os pecados seus,
por sentir-se angustiada;
pedindo perdão a Deus
vi a pobre alma penada.

Por sentir-se angustiada,
tristonha e arrependida,
vi a pobre alma penada
na praça da minha vida.
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Hino de 
Ponta Grossa/PR

Ponta Grossa aparece na altura
Dominando campanhas natais
Temos crença na glória futura
Da princesa dos campos gerais

Nossa terra sempre será
Por seu gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Há na história de nossa cidade
O destino de um povo feliz
Dando as mãos em penhor da amizade
Onde agora se eleva a matriz

Nossa terra ainda será
Por gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Como a pomba que o barco sagrado
Com o ramo da paz retornou
Um casal de pombinhos soltado
No lugar da cidade pousou

Nossa terra ainda será
Por gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Quantas vezes o tropeiro valente
Não saudou das bandas do sul
Ponta grossa em seu trono virente
Junto à barra do céu sempre azul

Nossa terra sempre será
Por seu gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Pátria livre! No teu centenário
Férreos braços nos fazem ligar
Briareu com seu dom legendário
Bandeirantes, gaúchos e o mar
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Soneto sobre Cidade do Interior
ARLINDO TADEU HAGEN
Juiz de Fora/MG

Vida no interior

Já não há mais cadeiras nas calçadas 
nas maiores cidades do país 
mas podem ser às vezes encontradas
na parte onde a nação é mais feliz.

Deixa o progresso a sua cicatriz
ao tornar as pessoas separadas.
Porém no interior a diretriz
é manter sempre as almas irmanadas.

Os laços de amizade permanecem...
Quase todos, de fato, se conhecem.
A vida é mais pacata e mais profunda.

Pela questão somente financeira,
no entanto, muita gente de primeira 
vai levando uma vida de segunda.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A ostra e os pleiteantes

Dois peregrinos,
Um dia encontram
Na praia uma ostra,
Que o mar lançara.
Já com os olhos a sorvem, já com o dedo
A apontam um ao outro.
Pôr-lhe dente? Isso é ponto contestado.
Um se debruça
A colher preia,
E o outro o arreda.
E diz: «Saibamos
A quem compete
Ter dela o gozo.
O que a avistou primeiro, a trinque; e o outro
Veja-a com o olho,
Coma-a com a testa!
— Se o negócio, diz o outro, assim se julga,
Tenho — graças a Deus — esperto lúzio (olhos).
— Nem os meus são ruins, disse o primeiro:
Que antes que tu, a vi; por vida o juro.
— Se a viste, a mim cheirou-me.»
Neste comenos,
Chega ao pé deles
Juiz da Casinha,
Nele se louvam.
Mui grave o juiz recebe a ostra e — papa-a.
E os dois a olhar... Refeição feita:
Tomai — lhes diz, em tom de presidente —
Cada um sua casca,
Salva de custas,
E vão-se andando.»

Contai quanto hoje custa uma demanda,
E o que a muitas famílias depois fica;
E vereis que o juiz vos leva o bolo,
E vós ficais com o saco, e com os trebelhos.
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Almanaque Poético Brasileiro vol.1 (baixe o pdf gratuito)

 

Apresento-lhe o lançamento de meu novo e-book em pdf, Caleidoscópio da Vida, são 165 páginas, composto por 38 contos e crônicas, cada um deles inspirados em trovas de 36 trovadores diferentes de diversas regiões do Brasil.

Abaixo segue a relação dos trovadores cujas trovas foram minha inspiração para este livro. Foram enviados emails a eles com o livro.

Para os leitores em geral, o livro pode ser baixado no link abaixo

https://drive.google.com/file/d/13AR8yd4Ijge9BBiDKbUUSzmFt-8WKgO6/view?usp=drive_link

Desejo-lhe uma boa leitura.
abraços
Feldman

A. A. de Assis
Ademar Macedo
Adolfo Macedo
Angélica Villela Santos
Antônio Juraci Siqueira
Aparício Fernandes
Arthur Thomaz
Belmiro Braga
Carolina Ramos
Cláudio de Cápua
Darly O. Barros
Dorothy Jansson Moretti
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho
Edy Soares
Élbea Priscila de Souza e Silva
Eliana Palma
Fabiano Wanderley
Fernando Vasconcelos
Filemon Martins
Jerson Lima de Brito
João Costa
José Feldman
José Lucas de Barros
Lucília A. T. Decarli
Luiz Poeta
Luzia Brisolla Fuim
Mara Melinni Garcia
Miguel Epstejn Russowsky
Nei Garcez
Professor Francisco Garcia
Renato Alves
Selma Patti Spinelli
Solange Colombara
Therezinha Dieguez Brisolla
Vanda Fagundes Queiroz
Wanda de Paula Mourthé

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Arthur Thomaz (A Rifa)


Joelmir era mestre de obra em uma construtora especializada em casas populares na cidade de Maringá, no Paraná. Ganhava um salário, que ele considerava razoável, acima dos padrões pagos no Brasil.

Era casado com Mirianilsen, uma bela mulher, já um tanto gordinha, de quase 40 anos, com quem não tivera filhos. Mirianilsen trabalhava vendendo cosméticos porque lhe rendia o suficiente para os gastos com a cadelinha Sunshine, que adotara de uma ninhada nascida na casa de uma prima, e a quem dedicava todo o amor que poderia ter dado ao filho que não teve.

Certa manhã, Joelmir foi avisado que um membro da igreja viria visitar a obra. Ao chegar, o Monsenhor Teixeira falou que estava fazendo uma rifa para ajudar na construção de uma igreja na região em que estavam construindo as casas.

Todos ficaram interessados porque o prêmio era uma viagem para a Flórida com tudo pago, porém, na hora que o Monsenhor disse o valor de R$1000 por número, todos voltaram discretamente para a obra, deixando Joelmir sozinho perante o religioso.

Ele lembrou-se de uma poupança que fazia secretamente para um dia levar Mirianilsen a uma viagem que ela tanto sonhava. Então efetuou o pagamento da rifa.

O Monsenhor avisou que eram 100 números e que ele poderia escolher qualquer um. Joelmir lembrou-se da casa da sua mãe em Campinas, no Estado de São Paulo, e que tinha o número 329. Escolheu o número 29, despediu-se do Monsenhor, e passou o dia sentindo uma ponta de remorso.

Ao final do expediente, como quase sempre fazia, passou pelo boteco, onde o seu remorso foi imediatamente aplacado por uma dose de cachaça que um companheiro trouxe de Salinas, Minas Gerais. Na segunda dose já estava alegre, esquecido do remorso e contente com o seu feito.

Quase chegando em casa, pensou que hoje iria fazer amor com Mirianilsen para compensar esse gasto que ele jamais contaria a ela. Porém, ao chegar e abraçar a esposa, ela imediatamente gritou:

– Você andou bebendo de novo, Joelmir? Vá tomar banho, jantar e depois vá para a cama imediatamente.

Dormiu sem remorso e também sem o amor.

Meses depois, já quase esquecido da rifa, foi avisado que o sorteio seria realizado no salão da catedral, aberto ao público, no sábado seguinte.

Foi até lá, e junto a outros 99 ansiosos concorrentes, presenciou a moça com uma cestinha de bingo sortear o primeiro número. A bolinha foi a de número dois. Imediatamente, noventa pessoas retiraram-se desapontadas do salão.

Ansioso, Joelmir aguardou a saída do outro número. Quando ele ouviu o número nove, não sabendo o que fazer, gritou:

– Bingo!

Provocando muitas risadas.

Foi abraçado por todos os presentes, e sem conter a euforia, repetia sem parar:

– Eu sabia, eu sabia que ia ganhar.

Monsenhor Teixeira veio até ele, e apresentou-lhe a moça da companhia de viagens que iria providenciar tudo a respeito da viagem conquistada. Foi com a moça da agência até em casa contar o acontecido, só omitindo o valor da rifa.

Após algum tempo de intensos preparativos, chegou o dia da tão esperada viagem. Foram levados pela companhia até o aeroporto internacional de Curitiba.

Mesmo sabendo que eram apenas cinco dias de estadia, Mirianilsen apareceu com uma enorme e pesada mala, o que fez o casal pagar uma boa quantia pelo excesso de peso.

Ao acomodarem-se nos assentos do avião, a aeromoça veio pedir a Mirianilsen que retirasse o chapéu colorido com enormes abas, que o vendedor havia lhe garantido ser a última moda na Flórida, porque estava encostando no rosto do passageiro ao lado.

Querendo mostrar erudição, ela disse:

– Yes, Yes.

Ao chegarem na Flórida, outra moça da companhia, e que falava português, levou-os até o Hotel Resort Golf Club, fez o check-in e instalou-os no quarto. Ela avisou que o horário das refeições eram: 7h (café da manhã), 12h (almoço) e 20h (jantar). Também acertou os horários nos relógios deles, sem tentar explicar a diferença de fuso horário com o Brasil.

Na primeira refeição, que foi um jantar, o garçom, muito solícito, colocou uma pequena quantidade de vinho na taça para que Joelmir fizesse a degustação e aprovasse o produto, conforme a etiqueta. Ele tomou a garrafa do garçom, encheu as taças dele e da mulher, colocou a garrafa na mesa e continuou a comer, deixando o garçom estupefato.

Após o lauto jantar, Joelmir notou que o garçom ficava ao lado da mesa com a mão espalmada. Não teve dúvida, achou que era para cumprimentá-lo e apertou a mão dele e despediu- -se. E foram passando os dias, extasiados com as atrações que o Hotel oferecia. Fizeram um tour de ônibus pela cidade de Boca Raton, que os deixou maravilhados com a modernidade e as belezas naturais do local.

Durante o dia, aproveitavam a piscina, onde Joelmir tomava algumas Bud de latinha, pagando 5 dólares cada, e também onde Mirianilsen exibia seu talento de nadadora, com seu estilo cachorrinho. Em uma das noites foram até o cassino.

Joelmir procurou uma mesa para jogar truco ou bingo. Não encontrando, queixou-se da qualidade do cassino.

Mirianilsen comprou algumas fichas e apostou no número 29 na roleta. Ganhou 40 dólares, e disse que já sabia onde os gastaria. E então, chegou o tão esperado dia do jogo de golfe. Nesse jogo específico, em vez de dois jogadores disputando o mesmo buraco, eram cinco, para agilizar.

O caddie, designado para acompanhá-los, deu um taco para cada um, e sorteou a ordem de início. Sorteado em primeiro, ao tentar a tacada, Joelmir golpeou o ar duas vezes, e na terceira arrancou um enorme tufo de grama. Mesmo assim, impulsionou a bolinha a cem metros, sendo aplaudido pelos outros jogadores.

Nesse momento, o caddie veio pegar o taco para carregar. Joelmir gritou:

– No! É meu. Só devolvo na secretaria.

Ao chegarem ao quinto buraco, o caddie comunicou-se com os promotores do evento, que enviaram dois carrinhos de golfe para buscá-los. Como nenhum havia conseguido um ponto sequer, consideraram todos vitoriosos. Individualmente, todos subiram ao pódio para receberem suas medalhas e serem fotografados.

Joelmir, entusiasmado com a medalha, agarrado ao taco, e ainda bravo com o caddie que ficara o tempo todo tentando tirar o objeto de suas mãos, foi até a secretaria do hotel registrar uma queixa.

O gerente que não falava português, vendo a inutilidade da conversa, deu o taco de brinde a ele, e ainda retirou da parede um quadro com a foto da visão aérea do campo de golfe, feita por um drone.

Ao retornarem ao quarto, foram avisados que o jantar dessa noite seria a última refeição deles no hotel, porque a moça da companhia de viagens viria às 6h para fazer o check-out e o translado ao aeroporto.

Nessa noite, enquanto fazia as malas, Mirianilsen comentou:

– A educação aqui nesse país é muito melhor do que a do Brasil. Diariamente, os garçons e garçonetes vieram cumprimentar a gente depois de todas as refeições.

Prosseguiu:

– Se fosse no Brasil, eles e elas estariam pedindo gorjetas acintosamente.

Depois do jantar, que seria o último, empolgado com as palavras da esposa, Joelmir, na hora em que o garçom espalmou a mão, levantou-se e deu um forte abraço nele, deixando surpresos todos no salão.

Na manhã seguinte, após o check-out e o translado, embarcaram para Curitiba.

Ao chegarem a Maringá, foram descansar da exaustiva viagem, mal contendo a ansiedade em contar aos amigos as peripécias no país estrangeiro.

Na manhã seguinte, Mirianilsen colocou o seu enorme chapéu colorido, a camiseta com “I Love Flórida”, e vestiu a cadelinha Sunshine com o casaquinho de quarenta dólares que comprara na loja do hotel, que estampava o logotipo do local, e foi vender seus cosméticos e narrar às amigas curiosas as aventuras no exterior.

Como o boteco não abria de manhã, Joelmir foi até a obra para mostrar os objetos e descrever aos companheiros as proezas vividas lá nos Estados Unidos.

Foi contando, mas o ponto alto deu-se na hora em que exibiu a medalha, o taco, o quadro do campo e as fotos recebendo a medalha no pódio.

De lá, foi até o boteco, onde pagou uma rodada aos amigos e começou a relatar as aventuras nas terras do Tio Sam.

Na história, ele acertou quase todas as tacadas. Nessa hora, subia nas mesas e simulava dar as tacadas, causando exclamações de admiração dos colegas de bar.

Dizia também ter ganho o primeiro lugar, exibia a medalha para provar o feito. Para realçar a conquista, mostrava as fotos e o quadro do enorme campo de golfe. Mirianilsen e Joelmir foram a sensação da cidade por um longo tempo.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

José Feldman (Debate na Casa de Luz)

 
Era uma tarde ensolarada em Arles, as cores vivas do Provence que pareciam dançar nas paletas dos três mestres. Van Gogh, Gauguin e Monet estavam reunidos em uma pequena casa onde as paredes estavam adornadas com suas obras. A conversa logo se transformou em um acalorado debate.

Van Gogh: (gesticulando para o seu quadro) Olhem para isso! A energia da pintura é palpável. Cada pincelada expressa a turbulência da minha alma. É como se cada estrela estivesse viva, pulsando com a luz.

Gauguin: (rindo) Ah, Vincent, não me diga que você ainda acredita que pintar a realidade é o que a arte deveria ser! Sua paisagem é como um grito, mas eu prefiro a suavidade e a simplicidade da vida. Olhem para a minha tela! (aponta para sua obra) Aqui, eu capturei a essência das coisas — um mundo mais espiritual e menos caótico.

Monet: (com um sorriso irônico) Vocês dois sempre emaranhados nos seus próprios demônios! Eu busco a beleza das coisas efêmeras. A luz e a cor que mudam constantemente. Minha série de Nenúfares é pura Harmonia — um jogo da natureza, não um grito desesperado.

Van Gogh: (frustrado) Harmonia? Claude, sua arte parece uma ilusão! Você está tão perdido na busca da luz que se esquece da luta real dentro de nós. Minhas galas de girassóis são um reflexo da paixão! 

Gauguin: (levantando a voz) A luta não é tudo, Vincent! Existe uma sabedoria na simplicidade. A natureza não é apenas um campo de batalha ou um lugar de dor. É onde encontramos a paz. Os meus quadros buscam provocar um pensamento! Olhem para este! (aponta para seu trabalho) Há uma fantasia que revela a verdade, algo que fatos não podem capturar.

Monet: (sorrindo) E essa fantasia muitas vezes ofusca a realidade! Não podemos esquecer que a natureza é uma dançarina, uma musa que está sempre em transformação. (faz uma pausa) Vocês dois falam de alma e luta, mas eu vejo um jardim.

Van Gogh: Um jardim? Claude, existem jardins imaginários e jardins reais. O que eu vejo nas flores é a fragilidade da vida! Cada girassol em minha tela é um símbolo da luta contra a escuridão.

Gauguin: (interrompendo) E o que é a escuridão sem a luz? Uma obra de arte deve provocar reflexão! Estar em harmonia com o espírito da coisa é mais importante do que a técnica. Você pode ter traços intensos, mas sem compreensão, é apenas ruído.

Monet: (pensando) A técnica é a ponte entre a visão e a realidade! Se você está preocupado só com a mensagem, a pintura se torna um panfleto, não arte! (aponta para os quadros) O que eu desejo é capturar o instante — a beleza do agora.

Van Gogh: (com um sorriso triste) Então, somos todos diferentes, não somos? Vocês preferem sussurrar, enquanto eu grito com cada pincelada. Mas isso é o que torna a arte tão rica e variável! 

Gauguin: E isso é o que devemos celebrar! Cada um de nós tem um olhar único. A arte é o reflexo da nossa experiência. 

Monet: Concordo! Ao final, é a paixão que nos une, mesmo que as nossas paletas sejam diferentes.

E assim, os três mestres continuaram a discutir, rindo e debatendo, cada um defendendo seu mundo particular. O sol se pôs lentamente, lançando um brilho dourado sobre seus quadros, que pareciam, cada um à sua maneira, perfeitamente vivos.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Título Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”., “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas),
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas",  “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (O ódio e a sua doce face adulterada)


NA PRAÇA em frente à pequena igrejinha de Nossa Senhora das Candongas Aflitas, o relógio colocado recentemente pela prefeitura, marca o tempo como quem não se importa com ele. As pessoas vão e vem. Passam apressadas, umas pelas outras, três ou quatro saem da recém terminada missa do padre Faustulóbio. Cinco ou mais, logo adiante, deixam o mercado com sacolas plásticas abarrotadas de compras.

Ao mesmo tempo, sem tirar nem pôr cada uma dessas almas carregam a sua ligeira sofreguidez como se fosse um segredo perigoso que precisa ser guardado a sete chaves. E aqui, entre o vai e vem que apenas se entrelaça por força das correrias dessas criaturas, vejo surgir um sentimento estranho: o ódio adulterado, ou melhor explicando, a face conturbada das malévolas trazidas em cada coração que bate descompassado.

Esse ódio, é um ódio cru, destemperado e insosso. Não aquele que explode em gritos ou socos. Na verdade, esse agastamento é um mal disfarçado, um enfado repulsivo, camuflado com perfume barato, vestido de boas maneiras, a maioria dessas maneiras entrelaçadas de palavras polidas. Um ódio meio assim neurastênico que sorri, que aperta mãos, que diz “bom dia” por dizer, enquanto na surdina do seu “eu” mais profundo, trama quedas e baques silenciosos.

Esse ódio açoitado não queima de imediato. Ele corrói devagar, sem pressa, “come pelas beiradas”, se distende como ferrugem em ferro esquecido. Se adultera, misturado com conveniências e vaidades. Se dilata e se torna quase invisível. E por isso, se faz mais letal e perigoso. Mais fulminante e agressivo, pelo fato de não se reconhecer ao primeiro olhar.

Ele parece cordial, se mostra justo, se molda perfeito até ao conhecido como racional. Eis alguns exemplos: na fila da padaria, na mesa do jantar, no cotidiano das redes sociais, ele se infiltra. Um comentário irônico, por exemplo, uma piada que não se faz ou não se coaduna só numa piada, uma crítica que veste a máscara da preocupação. Tudo contribui para o ódio adulterado não gritar: o ódio adulterado, aliás, não faz barulho, apenas sussurra.

E esse sussurro, repetido mil vezes, acaba virando verdade para quem não presta muita atenção. No final da tarde, quando o sol se despede atrás dos telhados da igreja do padre Faustulóbio, na mesma forma das casas e prédios no longevo da avenida, percebo que o danado do ódio tipo “as sete vidas de um gato” se transformam literalmente como uma sombra: e, como tal, ele só existe porque há luz.

Talvez seja esse o desafio. A gente aprender a reconhecer a sombra ofuscante sem deixar que ela, num momento de puro descuido, nos engula da cabeça aos pés. E enquanto o relógio da praça segue marcando os minutos, matutamos com nossos botões que o antídoto não está em negar esse mal corrosivo, mas em trazê-lo às corridas do dia a dia, e desmascará-lo.

Descobre-se que só quando a gente revela o disfarce que ele traz camuflado, é que se pode verdadeiramente escolher não carregar esse peso infame, vida à fora, ou repetindo, para deixar bem claro, esse ódio encolerizado. O disfarce desse ódio pecaminoso se revela justamente nos detalhes, nos pequenos gestos disfarçados de mimos que parecem inocentes, mas bem sabemos, ou deveríamos ter consciência, carregam um veneno quase mortal. Ele não se mostra em explosões, se molda em fissuras.

No fundo, essa artimanha embuçada se revela quando alguém ousa prestar atenção. O ódio contaminado depende da distração coletiva; basta um olhar atento para que a máscara se rache e caia por Terra. Tenho visto esse ódio mascarado em todos os lugares. Na mesa do café, na padaria, quando a garçonete traz o pedido com um sorriso ensaiado. O cliente agradece, porém, o olhar dela demora um segundo a mais, carregado de julgamento.

Pequeno gesto. Quase invisível. Mas nele está entranhado o ódio adulterado, escondido nas entrelinhas da sutileza. Outro dia, dentro do ônibus, uma senhora pediu licença para passar. O rapaz se levantou, todavia, em seguida suspirou alto, como quem carrega o peso mórbido de uma concessão forçada. Não houve insulto, não houve grito. Só o suspiro.

Um pequeno gesto. O ódio ignominioso se infiltra assim, se abanca no meio de nós como a poeira que vem da rua e não percebemos que a sujeira trazida ultrapassou os limites da janela. Na reunião de trabalho, a colega elogia a ideia bailada, mas acrescenta (talvez sem querer, ou sem refletir) uma “pena que você demorou tanto para pensar nisso”. O comentário se avizinha embrulhado em papel de presente, mas dentro dele há um outro embrulho menor, esse cheio de espinhos.

Repetindo o já dito acima, um pequeno gesto. Com ele, o ódio fulminante vestindo a melhor roupa da frágil cordialidade. Na rua aqui de casa, a minha vizinha de lado cumprimentou um outro morador que mora casas abaixo. O fez com a mão. O corpo dela se virou rápido demais, como quem não queria estar ali. De novo, batendo na mesma tecla repetitiva, o pequeno gesto. O ódio deselegante se revelando na pressa de cair fora, de escapar.

Entendo perfeitamente e até levo em conta que esses gestos não fazem estardalhaços, não produzem alardes. São como gotas de um vidrinho pequeno de remédio que temos em casa, na nossa farmacinha doméstica. Gotas que caem em silêncio, sem alardes, entretanto, juntas, tem o poder de inundar. O ódio carcomido pela falsidade não precisa de palco.

Ele se alimenta da rotina, das microexpressões. Igualmente das palavras que parecem sem estilos ou friamente neutras. Talvez seja aí que resida o verdadeiro perigo: porque o ódio infectando a gente, não o reconhece de imediato. Por conta, ele se acumula nos detalhes, até que um dia, quando alguém finalmente presta atenção, percebe que o mundo ao redor, se fez infectado de grandes e monstruosas rachaduras.

Devemos ter em mente, sempre, haja o que houver, que há gestos que parecem sem sentido, ou se assemelham a coisa alguma, porém, no âmago carregam universos. Um suspiro atravessado, um olhar enviesado que se desvia, uma palavra que chega com doçura e sai do outro lado deixando por onde passa, um rastro de ferrugem bombasticamente destrutiva. O ódio adulterado tem uma cólera doce, passeia por cadências afinadas, não se anuncia em trombetas.

Ele é sádico, desumano, empedernido. Carrega os rancores da mais vil das opressões, se veste delas. Prefere haja o que houver, o silêncio das mínimas linhas, das brechas e frestas. Devemos ficar atentos, olhos abertos. E fugir quanto mais depressa melhor, passar longe, dar a volta por cima desse mal inquisitorial que tenta de todas as formas nos levar para o buraco da desgraça e dentro dele nos DEFINHAR.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (PR). Reside atualmente em Vila Velha/ES.

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