sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Asas da Poesia * 146 *


Poema de
JAQUELINE MACHADO
Cachoeira do Sul/ RS

Eu e o mundo

Eu não tive infância...
Mas Deus não tirou – me a ânsia
de buscar... tocar... saber...

Desde muito menina,
o mistério da vida me fascina...
e de mim indaga sobre coisas que não posso ver...

Eu não tive infância...
Mas essa minha aliança com o universo,
despertou em mim um desejo confesso,
pelas artes do descobrir...

Meus olhos buscavam o céu,
e por detrás de sete véus,
uma voz perguntava:
e se ao invés do tudo, existisse o nada?
Se ao invés do princípio, restasse apenas o fim?

Eu não tive infância...
Mas as eras habitavam minha alma...
E uma senhora de sabedoria infinda,
com doçura me acalentava...

Eu não tive nada.
E por isso, tive tudo...
O mundo adentrou o meu puro ventre.
E eu o amamentei com as lágrimas do meu sofrer
e o ninei com as canções que fazem girar o mundo...
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano
FERNANDO ANTÔNIO BELINO
Sete Lagoas / MG

A feira

É puro encantamento e poesia
a feira de domingo na cidade!
Envolve intensamente a sociedade,
num vai-e-vem, repleto de alegria!

Ali, circula gente, nesse dia,
de toda classe e de qualquer idade!
Produtos há de grande variedade,
para atender à imensa freguesia. 

Os importados têm presença certa!
Salgados, doces, caldos com pimenta!
Sempre bem-vindos, quando a fome aperta!

Roupa usada, sapato, ferramenta
e um burburinho, que a atenção desperta:
É a fila do pastel que só aumenta!
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Poema de
JOÃO MARIA VILANOVA
Madeira/Angola, 1933 – 2005, Vila Nova de Gaia/Portugal

O Poeta vestido a rigor
em nossa terra

 o poeta pondera o fato
poeta transcende o fato & a notícia
poeta sem astúcia
poeta sempre sempre com alguma malícia

 os racistas temem o poeta
os golpistas temem o poeta
os inimigos do povo oh
esses temem o poeta

 o poeta sem teto
o poeta sem teto
o poeta vestido a rigor
em seu cadáver putrefato.
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TROVA POPULAR

Ninguém descubra o seu peito
por maior que seja a dor;  
quem o seu peito descobre      
é de si mesmo traidor.         
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Soneto sobre Cidade do Interior
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/ PR

Cidadezinha do interior 

Sequer se vê no mapa o seu ingresso…
parece um vilarejo e não cidade.
Gente pacata e afeita à honestidade,
mas sem anseios próprios do progresso.

Das frutas sobrevive a sociedade 
com poucos lucros, quase em retrocesso.
Dali se vão os jovens (sem regresso),
e a lentidão prossegue, na verdade.

Ao fim da tarde, o som da “Ave-Maria,”
lá na Matriz, despede-se do dia
e, nas janelas, povo atento à fé.

Carroças e compadres se visitam…
Compartilhando tudo em que acreditam,
comadres vão servindo um bom café…
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Poema de
ALBANO DIAS MARTINS
Aldeia do Telhado/Portugal (1930 – 2018) Vila Nova de Gaia/Portugal

Compêndio
 
Dizias: daqui o mar parece    '
uma tarântula
azul. Eu respondi:
vermelhas
são as flâmulas,
das algas e o fermento
das águas.
Escrever
é isso: fazer
da vida uma pauta
e um compêndio de espuma
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Soneto sobre Cidade do Interior
RICARDO CAMACHO
Rio de Janeiro/RJ

Humilde lugar

Diante do cenário prazenteiro,
Imerso no silêncio, à luz do dia,
Contemplo o micromundo brasileiro,
Volvido numa doce calmaria.

Na praça, um sorridente pipoqueiro...
E, logo, a criançada, na alegria,
Pula ao sentir o irresistível cheiro,
Rompendo o império da monotonia.

De vez em quando a brisa, sonolenta,
Passa no embalo da carroça lenta
No entardecer pacato do lugar...

A escuridão dos morros argilosos 
Mostra o poente e os astros luminosos
Como atração no interior de um lar.
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Poema de
ALBERTO DE SERPA
Porto/Portugal (1906 – 1992)

Riqueza

Por parques e praças,
Ruas e travessas,
Tu, meu olhar, caças
A vida.  E tropeças.

Uma gargalhada
Vem dum par contente. 
Guarda-a bem guardada,
Mas caminha em frente.

Surgem-te sorrisos
Dum e de outro lado.
Não faças juízos
Rápidos.  Cuidado!

Uma face grave
Nada te revela?
Talvez a dor cave,
Só mais tarde, nela.

Num choro, num grito,
Pressentes a dor?
E quedas, aflito.
Seque, por favor!

Seque, bem aberto
Para cada canto!
Olha o desconcerto
Que parece tanto!

Corre, olhar, em roda!
O que me intimida?
A vida?  Só toda
Pode amar-se, a vida.
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Soneto sobre Cidade do Interior
GILLIARD SANTOS
Fortaleza/CE

Cidadezinha do sertão

Mulheres andam entre as aroeiras,
Enquanto o dia segue sossegado...
Um homem, devagar, conduz o gado
Para o curral e fecha-lhe as porteiras.

Chegando a noite, acendem-se as fogueiras
E o prato principal é milho assado.
Pelos terreiros corre, lado a lado,
A criançada em suas brincadeiras...

Neste cenário rústico e tão belo
Não tenho as mordomias de um castelo,
Mas sigo por caminhos que são meus.

Nenhuma falta sinto da cidade,
Pois neste reino da simplicidade 
Eu vivo a vida que pedi a Deus.
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Soneto sobre a Vida no Interior
JÉRSON LIMA DE BRITO
Porto Velho/ RO

Vida interiorana

Entregue à inapetência do ponteiro
que marca seu compasso lentamente,
o tempo, generoso e complacente,
afaga o coração de um povo ordeiro.

A prosa na calçada, o sol dormente,
a brisa, a mata e o clima hospitaleiro
produzem novas linhas do roteiro
escrito na memória dessa gente.

Na rubra passarela preparada
desponta a noite calma e, na chegada,
promete mais brandura ao fim do dia.

Quando a simplicidade prepondera,
nenhum prazer suplanta o da quimera
que a vida interiorana propicia...
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun da alma arrependida

TROVA TEMA:
Na praça da minha vida
vi, de joelhos, em vão,
uma ofensa arrependida
pedindo abraço ao perdão...
José Valdez de Castro Moura 
Pindamonhangaba/SP

PANTUN:
Vi, de joelhos, em vão,
um alguém, que nunca via,
pedindo abraço ao perdão
no altar da Virgem Maria.

Um alguém, que nunca via,
Confessa os pecados seus,
No altar da Virgem Maria,
pedindo perdão a Deus.

Confessa os pecados seus,
por sentir-se angustiada;
pedindo perdão a Deus
vi a pobre alma penada.

Por sentir-se angustiada,
tristonha e arrependida,
vi a pobre alma penada
na praça da minha vida.
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Hino de 
Ponta Grossa/PR

Ponta Grossa aparece na altura
Dominando campanhas natais
Temos crença na glória futura
Da princesa dos campos gerais

Nossa terra sempre será
Por seu gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Há na história de nossa cidade
O destino de um povo feliz
Dando as mãos em penhor da amizade
Onde agora se eleva a matriz

Nossa terra ainda será
Por gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Como a pomba que o barco sagrado
Com o ramo da paz retornou
Um casal de pombinhos soltado
No lugar da cidade pousou

Nossa terra ainda será
Por gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Quantas vezes o tropeiro valente
Não saudou das bandas do sul
Ponta grossa em seu trono virente
Junto à barra do céu sempre azul

Nossa terra sempre será
Por seu gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Pátria livre! No teu centenário
Férreos braços nos fazem ligar
Briareu com seu dom legendário
Bandeirantes, gaúchos e o mar
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Soneto sobre Cidade do Interior
ARLINDO TADEU HAGEN
Juiz de Fora/MG

Vida no interior

Já não há mais cadeiras nas calçadas 
nas maiores cidades do país 
mas podem ser às vezes encontradas
na parte onde a nação é mais feliz.

Deixa o progresso a sua cicatriz
ao tornar as pessoas separadas.
Porém no interior a diretriz
é manter sempre as almas irmanadas.

Os laços de amizade permanecem...
Quase todos, de fato, se conhecem.
A vida é mais pacata e mais profunda.

Pela questão somente financeira,
no entanto, muita gente de primeira 
vai levando uma vida de segunda.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A ostra e os pleiteantes

Dois peregrinos,
Um dia encontram
Na praia uma ostra,
Que o mar lançara.
Já com os olhos a sorvem, já com o dedo
A apontam um ao outro.
Pôr-lhe dente? Isso é ponto contestado.
Um se debruça
A colher preia,
E o outro o arreda.
E diz: «Saibamos
A quem compete
Ter dela o gozo.
O que a avistou primeiro, a trinque; e o outro
Veja-a com o olho,
Coma-a com a testa!
— Se o negócio, diz o outro, assim se julga,
Tenho — graças a Deus — esperto lúzio (olhos).
— Nem os meus são ruins, disse o primeiro:
Que antes que tu, a vi; por vida o juro.
— Se a viste, a mim cheirou-me.»
Neste comenos,
Chega ao pé deles
Juiz da Casinha,
Nele se louvam.
Mui grave o juiz recebe a ostra e — papa-a.
E os dois a olhar... Refeição feita:
Tomai — lhes diz, em tom de presidente —
Cada um sua casca,
Salva de custas,
E vão-se andando.»

Contai quanto hoje custa uma demanda,
E o que a muitas famílias depois fica;
E vereis que o juiz vos leva o bolo,
E vós ficais com o saco, e com os trebelhos.
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