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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 6 *

Sinaá (ou Sina’a), o grande herói mítico e ancestral do povo Juruna (Yudjá), conhecido por seus poderes xamânicos e por guardar o segredo do fim do mundo.


José Feldman (Floresta/PR)

Sinaá: Guardião do Destino

No centro do mundo, em tempos remotos,
Sinaá vivia com grande saber,
ouvia dos rios os sons mais devotos,
e o que estava oculto podia ler.

Xamã poderoso de força infinita,
ele era o mestre de toda a invenção,
sua voz nas aldeias ainda ressoa e habita,
trazendo a memória de cada ancião.

Diz a lenda antiga que o herói era imortal,
pois sempre trocava de pele e de cor,
vencia o tempo, vencia todo o mal,
mostrando ao seu povo o seu alto valor.

Mas ele guardava um segredo profundo,
no topo da serra, em um grande lugar,
um jarro que encerra o fim deste mundo,
se a tampa um dia alguém levantar.

Se o jarro se quebra, o céu desabará,
as águas do rio virão para o chão,
e nada na terra então restará,
será o silêncio da destruição.

Sinaá se cansou da maldade da gente,
dos homens que esquecem de toda a raiz,
partiu para longe, de modo imponente,
para um reino distante, por ser mais feliz.

Ele mora hoje no alto da serra,
sentado ao lado do jarro fatal,
olhando as batalhas que existem na terra,
e o rumo que toma o destino final.

Às vezes ele chora e o céu se escurece,
a chuva que cai é o seu lamento,
a tribo se cala, a aldeia padece,
sentindo a força do seu pensamento.

Ele ensinou como a roça se planta,
como fazer o polvilho e o beiju,
sua sabedoria até hoje encanta,
desde o Xingu até o alto Pacaás Novos e o Juru.

Se o homem a lei da floresta  respeitar,
e cuidar da vida com muito cuidado,
para o jarro na paz  perdurar,
e o fim por Sinaá continue guardado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 5 *

 

José Feldman  (Floresta/ PR)

LENDA DAS CATARATAS DO IGUAÇU

Nas margens do Rio Iguaçu,
vivia o povo Caingangue,
sob o céu de intenso azul,
longe de guerra ou de sangue.

Mboi, serpente temida,
exigia adoração,
uma jovem era escolhida,
em santa consagração.

Naipi, de rara beleza,
foi a ele prometida,
mas contra a vil correnteza,
pelo amor foi conduzida.

Tarobá, jovem guerreiro,
por ela se apaixonou,
num plano firme e certeiro,
na canoa a resgatou.

Fugiram pelo remanso,
sob o brilho do luar,
buscando um porto de descanso,
onde pudessem se amar.

Mboi, em fúria profunda,
o chão da mata fendeu,
numa queda que inunda,
onde o rio se perdeu.

As águas logo caíram,
num abismo de pavor,
os amantes não fugiram
do destino e do seu rigor.

Tarobá virou palmeira,
à beira do precipício,
observando a ribeira,
em eterno sacrifício.

Naipi, em rocha mudada,
pelas águas é banhada,
sendo para sempre castigada,
pela serpente odiada.

Diz a lenda que o arco-íris,
que une a árvore e a pedra,
é o amor que, entre eles,
ainda vive e se medra.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 4 *

  

JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

LENDA DO PINHEIRO E A PALMEIRA

Nas terras do sul, o destino,
traçou um encontro de luz,
um amor puro e divino,
que ao horizonte conduz.

Havia um jovem guerreiro,
valente e de forte presença,
andava no mato certeiro,
com alma de fé e de crença.

A moça de graça infinita,
era a índia mais faceira,
a joia da mata, a mais dita,
bela na vida inteira.

Amavam-se contra o vento,
em tribos de guerra e rancor,
guardavam o seu sentimento,
num mundo sem paz e sem cor.

O ódio de velhos caciques,
barrava o sagrado querer,
erguendo cruéis tabiques,
proibindo o amor de crescer.

Fugiram na noite calada,
buscando o refúgio do chão,
a alma por Tupã abraçada,
num só e fiel coração.

Mas antes que o dia surgisse,
o destino os veio buscar,
para que o tempo os unisse,
tiveram que se transformar.

Ele virou um gigante,
o Pinheiro de copa pro céu,
com espinhos no corpo, constante,
combatendo o vento e o véu.

A moça virou a Palmeira fagueira,
crescendo ao lado de seu grande amor.
Vivem abraçados na mata inteira,
vencendo o tempo, o medo e a dor.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 3 *


José Feldman (Floresta/PR)

GRALHA AZUL

Nas matas frias de verde pinheiro,
vivia a ave de penas comuns.
Sem o azulado do céu por inteiro,
buscava o brilho em tempos de jejuns.

Diz a lenda que o bicho dormia,
no galho seco que o vento balançou,
mas um machado, com fúria e agonia,
o pinheiral no chão derrubou.

A ave subiu ao reino do alto,
pedindo a Tupã um novo poder,
ganhou o manto do azul do planalto,
para as florestas de novo erguer.

Voltou à terra com foco e coragem,
colhendo o pinhão com o bico fiel.
Enterra a semente em cada pastagem,
sob a proteção do sagrado dossel.

É a Gralha Azul, que a mata semeia,
plantando a araucária no solo do sul,
enquanto o destino no bico se enleia,
pinta o destino em tom de azul.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Grinalda Indígena * 2 *



José Feldman (Floresta/PR)

HERÓIS DA TERRA

Em cada fibra que compõe o Brasil,
pulsa a batida do vosso tambor.
Longe do mito do povo servil,
ergue-se a força de um povo senhor.

Se a mata canta, é por vossa voz,
zelo que guarda o que o lucro consome.
Pois sem a terra, o que resta de nós?
Apenas o vazio e a sombra da fome.

Vossa presença é o norte fiel,
cura que nasce da raiz profunda.
Escrevem o mundo sem usar papel,
em uma sabedoria que o tempo inunda.

Sem o indígena, a pátria se esvai,
torna-se pó sob o asfalto sem vida.
Onde o espírito do ancião não cai,
a esperança se mantém erguida.

Corpo e alma de um solo sagrado,
pilar que sustenta o que ainda é real.
O Brasil verdadeiro está ao vosso lado,
sendo o princípio e o fim de seu ritual.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Grinalda Indígena * 1 *


José Feldman 
(Floresta/PR)

LOUVOR AOS POVOS INDÍGENAS

Piso este chão que o tempo consagrou,
nas matas vivas onde o sol se deita.
Pelo seu sangue a terra despertou,
nesta herança que a alma respeita.

Eu, que carrego a cor do invasor,
curvo meu peito à vossa resistência.
Pois contra o ódio e o braço opressor,
vós sois a vida e a pura consciência.

Guardais os rios, o sopro e o trovão,
antigos cantos que o vento propaga.
Mesmo no fogo da vil negação,
vossa verdade jamais se apaga.

Corpo de argila e alma de luz,
filhos da mata, de garra sem fim.
Vossa crença que a todos conduz,
é o que salva o que resta de mim.

Aos pés do tronco, o espírito é rei,
povo que luta, que planta e que sente.
Em cada passo que aqui caminharei,
honro o passado que faz o presente.