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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Jerson Brito (Devaneios Poéticos) = 1 =


AFLITO

Cambaleio perdido em estilhaços
Pelas sendas funestas da saudade
Densa bruma me cerca... Oh, frialdade!
Como são lancinantes esses laços!

Não consigo esquecer teus belos traços
Coração não sossega, a dor me invade
Não escuto os clamores da vaidade
E confesso: desejo teus abraços

Minhas mãos sem teu corpo estão aflitas
Minha boca padece sequiosa
Devaneios lascivos inda habitas

Dama amada, perfeita, perfumosa
De feições generosas, tu volitas
Em meu sonhos alegres, donairosa
= = = = = = = = = = = = = =  

DIVA

A noite é fria, é mais rude o tormento
Na imensidão deste quarto sombrio
Algo me falta... Que dor, que vazio!
Minh'alma brada em plangente lamento

Abro a janela, as estrelas espio
Há tanto brilho, ali busco um alento
Sorrir-lhes quero... Esse atroz sofrimento
Não me permite, sufoca-me o brio

Da vividez de um cenário tão belo
Resistem traços sutis, pequeninos
Oh, solidão, desumano flagelo!

Que o romantismo doutrora reviva
E um dia desses nos cruze os destinos
Estou carente de ti, minha diva!
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LÁGRIMAS PERDIDAS

Cansado doutra noite mal dormida
Enfim, abro a janela... Riem flores!
Contemplo o colorido e vejo a vida
Mostrando para mim seus esplendores

Da rosa outrora linda, a preferida
Não posso mais haurir nobres olores
E penso: quanta lágrima perdida!
Oferta-me o jardim tantos sabores...

Jasmins, hortênsias, ledas violetas
Em seu aroma puro, confortante
Acolhem meus suspiros lamentosos

Experimento as dúlcidas facetas
Da caminhada agora deleitante
Repleta de sorrisos jubilosos
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MEDO DO ESCURO

Cessados os tímidos passos, hesita
Seu rosto confessa pavor, inquietude
Perturbam-no feros demônios e grita:
"Fugiram meus anjos, não há quem me ajude!"

Vergasta seu corpo uma gélida brisa
O gosto é de fel, é de enxofre o perfume
Talvez impressões... Dalgum norte precisa
Perdido que está em completo negrume

Delira, deseja as blandícias de dantes
Voltar não consegue, há abismos gigantes
Das lidas vindouras ignora os segredos

Parece um menino assustado, inseguro
Das belas surpresas ocultas no escuro
Não sabe porquanto é refém de seus medos
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O COLIBRI

Volita no jardim o colibri faminto
Enfeita gracioso as sendas coloridas
E rasga belamente o grande labirinto
Oscula girassóis, hortênsias, margaridas

A cena é singular, esparge puro encanto
Do ilustre visitante as flores afagadas
Saudade sentirão quando esse beijo santo
Fartar-se de dulçor noutras vitais jornadas

Assim, segue seu curso, em festa, a natureza
Esplêndida expressão de um criador jeitoso
São telas magistrais... Que zelo, que destreza!

Viaja o colibri, rompendo os ares, cruza
Dos prados divinais ao vale tenebroso
Em busca do sabor d’alguma nova musa
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OUTONO

Sem destino certo bailam folhas
Voam soltas, secas, leves, mortas
Pobrezinhas, não têm mais escolhas
Traça o vento insanas rotas, tortas

De tristura choram nus os galhos
Mui saudosos doutros tempos fartos
Da verdura, do frescor, de orvalhos
Quando tinham mais vigor, quão hartos!

Segue assim seu ciclo a natureza
Transformando cenas, sem pudores
Na paisagem pobre, esmaecida

O arvoredo, em singular beleza
Renovado, logo explode em cores
Espetáculo de luz e vida
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Jerson Brito (1973)
JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.

Fontes:
Recanto das Letras do poeta.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Mário Quintana em Verso * 1 *

 

 A RUA DOS CATAVENTOS

VII

Avozinha Garoa vai contando
Suas lindas histórias, à lareira.
"Era uma vez... Um dia... Eis senão quando..."
Até parece que a cidade inteira

Sob a garoa adormeceu sonhando...
Nisto, um rumor de rodas em carreira...
Clarins, ao longe... (É o Rei que anda buscando
O pezinho da Gata Borralheira!)

Cerro os olhos, a tarde cai, macia...
Aberto em meio, o livro inda não lido
Inutilmente sobre os joelhos pousa...

E a chuva um'outra história principia,
Para embalar meu coração dorido
Que está pensando, sempre, em outra cousa...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

VIII
Para Dyonélio Machado

Recordo ainda... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada fora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino.., acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

IX
Para Emilio Kemp

A mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para quê?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que inda anunciam: - ALEGRIA - RISOS
Depois do circo já ter ido embora!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

X

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

"Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!"
Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
"Que tédio!" o coro dos Amigos clama.

"Mas que vos dar de novo e de imprevisto?"
Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:
"Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!"
* * * * * * * * * * * * * * * *  

XI

Contigo fiz, ainda em menininho,
Todo o meu curso d'alma... E desde cedo
Aprendi a sofrer devagarinho,
A guardar meu amor como um segredo...

Nas minhas chagas vinhas por o dedo
E eu era o Triste, o Doído, o Pobrezinho!
Amava, à noite, as luas de bruxedo,
Chamava o por-do-sol de meu padrinho...

Anto querido, esse teu livro "Só"
Encheu de luar a minha infância triste.
E ninguém mais há de ficar tão só:

Sofreste a nossa dor, como Jesus...
E nesta Costa d'África surgiste
Para ajudar-nos a levar a Cruz!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

XII

Tudo tão vago... Sei que havia um rio...
Um choro aflito... Alguém cantou, no entanto...
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu...

O menino dormira... Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu...
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto...

E era a voz que eu ouvi em pequenino...
E era Maria, junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino...

Eras tu... que, ao me ver neste abandono,
Daí do Céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Mário Quintana (1906 – 1994)
MÁRIO DE MIRANDA QUINTANA foi um dos poetas mais queridos e traduzidos da literatura brasileira. Conhecido por sua simplicidade, ironia sutil e sensibilidade para as pequenas coisas do cotidiano, ele transformou o comum em poesia mágica. Nasceu em 1906, em Alegrete/RS, e faleceu em 1994 (aos 87 anos), em Porto Alegre/RS. Embora tenha nascido em Alegrete e estudado temporariamente em Curitiba, ele passou a maior parte de sua vida em Porto Alegre. Morou grande parte de sua vida adulta em hotéis, sendo o mais famoso deles o Hotel Majestic, no centro da capital gaúcha (espaço que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana). Trabalhou como jornalista, tradutor e funcionário público. Passou por jornais importantes como O Estado do Rio Grande e o Correio do Povo, onde manteve por décadas a famosa coluna "Caderno H". Como tradutor renomado, verteu para o português obras de grandes autores mundiais como Marcel Proust, Virginia Woolf, Voltaire e Graham Greene.
Estreou oficialmente na literatura em 1940 com a publicação de A Rua dos Cataventos, uma coletânea de sonetos que foi muito bem recebida pela crítica. Ele nunca se casou e não teve filhos, dedicando sua vida quase que inteiramente às palavras e à observação poética do mundo. Quintana tentou por três vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas não foi eleito em nenhuma delas. Ao ser convidado a se candidatar uma quarta vez com a promessa de unanimidade, ele recusou, imortalizando o episódio com o famoso "Poeminho do Contra" ("Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!"). Ele fez parte, no entanto, da Academia Rio-Grandense de Letras. Obteve Prêmio Fernando Chinaglia (1966) pelo livro Antologia Poética ; Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano (1980); Prêmio Machado de Assis (1980), concedido pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Sua vasta produção literária incluiu poesia, prosa poética e literatura infantojuvenil. Entre suas principais obras destacam-se: A Rua dos Cataventos (1940); Canções (1946); Sapato Florido (1948); Caderno H (1973); Apontamentos de História de Galpão (1976); A Vaca e o Hipogrifo (1977); Esconderijos do Tempo (1980); Baú de Espantos (1986); Preparativos de Viagem (1987).
Mário Quintana ocupa um lugar único na literatura brasileira por sua capacidade de democratizar a poesia sem perder a profundidade. Ele rompeu com o formalismo rígido e aproximou o leitor de temas universais — como a morte, o tempo, a infância e o amor — usando uma linguagem fluida, bem-humorada e despretensiosa. Sua importância reside em ter humanizado a figura do poeta; ele provou que o lirismo não precisa ser erudito ou inacessível para ser genial. Quintana transformou a melancolia em beleza e a rotina urbana em arte, consolidando-se como o "poeta das coisas simples" e uma das vozes mais autênticas e atemporais da cultura nacional. 

Fonte:
Mário Quintana. A Rua dos Cataventos. Publicado em 1940.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Gonçalves Crespo (Poemas Escolhidos)

 

QUIMERAS

O mar já me tentou: aspirações fogosas
Fizeram-me idear fantásticas viagens;
Eu sonhava trazer de incógnitas paragens
Notícias imortais às gentes curiosas.

Mais tarde desejei riquezas fabulosas,
Um palácio escondido em múrmuras folhagens,
Onde eu fosse ocultar as cândidas imagens
Das virgens que evoquei por noites silenciosas.

Mas, tudo isso passou: agora só me resta
Das quimeras que tive, uma visão modesta,
Um sonho encantador, de paz e de ventura.

É simples: uma alcova, um berço, um inocente,
E uma esposa adorada, envolta, a negligente!
De um longo penteador na imaculada alvura…
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SONETO DO OCASO

Sara, quando me vês, suave e brando,
Repelir os teus beijos amorosos,
Talvez julgues, mulher, ir declinando
O alegre sol dos dias teus formosos.

Como te enganas, flor! choro pensando
Que foste irmã dos lírios cetinosos,
E que talvez o céu fulgiu brilhando
De teus olhos nos raios luminosos…

Quem te colheu o beijo primitivo?
Que Fausto ou Mefistófeles altivo
Te enodoou as vestes, Margarida?

Escuta: enquanto dormes, impudente,
Talvez nalguma estrela resplendente
Chore tua alma triste e arrependida.
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FERVET AMOR
(ao Dr. Antônio Cândido)

Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Veem-se ao longe os trigos ondulando…
Maio sorri na pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho;
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo;
Zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.
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NA ALDEIA
(a Cristóvão Aires)
 
Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem à porta insetos variegados,
Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia à soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho
Saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm seminus, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.
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MODESTA
(À minha irmã)

Se lembro esse momento
Mais belo d’esta vida!
Voava desprendida
A tua coma ao vento…

O teu olhar, querida,
Desceu ao meu tormento,
E após enternecida
Disseste em brando acento:

“Tua alma sofre e chora,
Quando o porvir se inflora,
Quando a teu lado estou!…”

Doce te olhei tremendo;
A noite ia descendo,
Um beijo se escutou.
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MODESTA (II)

Um beijo se escutou,
E eu via mal seguro
A luz que ele traçou
No azul do meu futuro.

Um beijo se escutou.
Depois… teu lábio puro
Mais brando suspirou
Que a pomba em ermo escuro.

Voz doce e piedosa!
Não fujas, mariposa,
Não tremas, Galatéia!

Gwinplaine, extasiado,
De um ósculo sagrado
Os pés ungia a Déia…
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O CAMARIM

A luz do Sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha,
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a “Norma”, ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.
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NA ROÇA

Cercada de mestiças no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco a pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro
E vêm das matas os negros colhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atrás das grades, pardas borboletas
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada.
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Gonçalves Crespo (1846 – 1883)
ANTÓNIO CÂNDIDO GONÇALVES CRESPO foi um dos principais poetas luso-brasileiros da segunda metade do século XIX, amplamente reconhecido por introduzir a estética do Parnasianismo em Portugal. Nascido no Brasil, ele viveu e construiu toda a sua aclamada trajetória literária em solo europeu, atuando na transição entre o Romantismo e o Realismo. Nasceu em 1846, no [Rio de Janeiro (RJ), então capital do Império do Brasil. Ele era filho de um comerciante português e de Francisca Rosa da Conceição, uma brasileira de origem mestiça e escrava. Faleceu em 1883 (aos 37 anos), em Lisboa/Portugal, vítima de complicações da tuberculose. Viveu sua infância no Rio de Janeiro. Aos 10 ou 14 anos de idade, mudou-se para Portugal por razões de saúde e para prosseguir com seus estudos. Em solo português, viveu em cidades como Porto e Coimbra (durante seu período universitário) e, por fim, Lisboa onde se fixou e casou com a renomada escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Embora tenha adquirido a nacionalidade portuguesa (requisito legal na época para advogar), atuou pouquíssimo no âmbito jurídico. Dedicou-se intensamente ao jornalismo, trabalhando como redator e colaborador de grandes periódicos, como o Diário das Câmaras, o Jornal do Commercio de Lisboa e a revista de artes O Occidente. Além disso, construiu uma carreira política, sendo eleito deputado às Cortes lusitanas entre 1879 e 1881.
Iniciou suas publicações ainda estudante, na revista poética A Folha (dirigida por João Penha), veículo essencial para a difusão da nova estética antirromântica em Portugal. Juntamente com sua esposa, comandou um dos salões intelectuais e literários mais concorridos de Lisboa, frequentado por gigantes da literatura portuguesa como Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco. Faleceu de forma muito prematura em 1883, décadas antes da fundação oficial da Academia Brasileira de Letras (1897) e da Academia das Ciências de Lisboa abrir uma classe literária nos moldes modernos. Portanto, não pertenceu a academias formais de letras, mas foi figura central de influentes agremiações e tertúlias intelectuais de sua época.
Sua obra poética solo é breve, porém de alto impacto técnico: Miniaturas (1870) – Livro de estreia que marcou o início do movimento parnasiano em Portugal e ecoou fortemente no Brasil; Noturnos (1882) – Coletânea que consolidou sua escrita madura, marcada por melancolia e precisão formal; Contos para os nossos filhos (1886) – Obra de literatura infantil publicada de forma póstuma, escrita em coautoria com sua esposa, Maria Amália Vaz de Carvalho.
A importância de Gonçalves Crespo reside no fato de ele ser o elo de ligação e o pioneiro do Parnasianismo em Portugal. Ao lado de João Penha, ele liderou o rompimento com os excessos sentimentais do Ultra-Romantismo, propondo uma poesia focada no rigor métrico, na perfeição formal, na visualidade e na precisão técnica. Além de sua enorme relevância para o cenário português, ele é uma figura fundamental para a história da literatura afro-brasileira e luso-afro-brasileira. Sendo filho de mãe escravizada, Gonçalves Crespo trouxe para a rigorosa poesia parnasiana traços de recordações íntimas do Brasil, retratando o cotidiano de forma realista e abordando de maneira terna e musical figuras como as mucamas e a vida colonial. Ele provou que o rigor clássico europeu poderia perfeitamente caminhar lado a lado com a sensibilidade e a ancestralidade brasileiras.

Biografia = Universidade Federal de Minas Gerais, Wikipedia, Infopedia, Educação.uol, Escritas.org, Antônio Miranda, Portal da Literatura, etc.

Júlia Cortines Laxe (Poesias Escolhidas)

 

COLOMBINA

Mascarada mulher o rabecão trouxera.
Morrera em pleno baile a frágil Colombina
E, no egrégio salão de culto à Medicina,


O professor leciona, em voz veemente e austera:
-"Rapazes, contemplai! É rameira e menina.
Tombou ébria novicio e com certeza era
Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,
Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina.”.

Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo,
Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,
Afasta, indiferente, as flores de rendilha...

No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,
O mestre cambaleia e chora junto dela...
Encontrara na morta a sua própria filha.
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INTERROGAÇÃO

Contemplo a noite: a cúpula estrelada
do firmamento sobre mim palpita;
meu olhar, que a interroga, embalde fita
o olhar dos astros, que não veem nada:

“Nessa amplitude lôbrega e infinita
que inteligência ou força inominada
numa elipse traçou a vossa estrada,
estrelas de ouro, que o mistério habita?

Dizei-me se, transpondo a imensidade,
alguma cousa a vós minha alma prende,
um vínculo de amor ou de verdade.

Dizei-me, o fim da nossa vida agora:
para que serve a luz que em vós resplende,
e a oculta mágoa que em meu seio mora?...”
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O LAGO

Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o voo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo,

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde o sonho astros de ouro semeia!
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ÚLTIMA PÁGINA

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
Ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
Eu quisera lançar, num supremo transporte,
Meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forre e por mais estridente
Que ela corra através do infinito, até vós,
Ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
Nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
E que nunca a fará de leve estremecer
Na sua eternidade e sua indiferença
O lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
Onde cada alma sente, em torno, a solidão,
Esse grito, que a dor duma existência encerra,
Não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
Eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
Enviar esse brado imenso de agonia,
Se para o compreender não existe ninguém?!
= = = = = = = = = = = = = =  

FRACOS

Fracos, odeio a inércia e detesto a fraqueza.
Prefiro a mão que esmaga ou que vibra o punhal
À doce e inconsciente e nefasta moleza,
Que é para a alma do forte um veneno mortal.

Como de encontro à costa, em ondas remansadas
Chora o mar, ou se atira em bravos vagalhões,
Assim de encontro a vós, almas adormentadas,
Fremem de ódio e de amor os nossos corações.

Almas fracas, fugindo à aspereza das lides,
Sem um esforço para às correntes opor,
Pelo rio do tempo arrebatadas ides,
Desta ou daquela vaga a boiar ao sabor.

Que vos importa a vós a agonia da luta,
A ânsia de possuir, o infinito aspirar?
Que vos importa a vós a decepção que enluta,
Se não sabeis querer, nem sabeis adorar?!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Júlia Cortines Laxe (1868-1948)
Júlia Cortines Laxe nasceu em Rio Bonito, RJ, em 1868, e faleceu no Rio de Janeiro (então Capital Federal), em 1948. Apesar de sua longevidade (viveu quase oitenta anos), pouco se sabe de sua vida, supondo-se que haja sido professora
Não reconhecida devido ao preconceito de então, visto que o crítico literário, José Veríssimo, após a publicação de seu segundo livro, em 1905, tenha declarado que "Os poemas de Júlia Cortines distanciam-se magnificamente da poesia de água-de-cheiro e de pó-de-arroz da musa feminina brasileira, e revelam em Júlia, mais que uma mulher que sabe sentir, alguém que sente com alma e coração e de forma que disputa primazias com nossos melhores poetas contemporâneos.”
Sua poesia é carregada e vibrante, como se pode ver no poema “Fracos”.
Poeta parnasiana, como Francisca Júlia, Júlia Laxe também colaborou em revistas como A semana e A Mensageira, da paulista Presciliana Duarte de Almeida, lançada em 19 de outubro de 1897, que se tornou um dos principais espaços da mulher escritora do final de século XIX/início de XX e onde também escreveram a citada Narcisa Amália, Anália Franco, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia (link para minha postagem), Auta de Souza (confira a postagem), nomes igualmente de peso na época. (Informação in Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922)) de Ana Luiza Martins – Fapesp – Edusp – pág. 374-375)
Obras: Versos (1894) e Vibrações (1905), a respeito do qual, José Veríssimo fez os elogios.
“Júlia Cortines” – diz Péricles Eugênio da Silva Ramos (Pan.III, pág.246) – “é uma das poetisas selecionadas por Valentim Magalhães para figurarem na parte antológica de A Literatura Brasileira (1870 -1895). Sua poesia afigura-se realmente parnasiana, de um comedimento e boleio de frases semelhantes ao de Francisca Júlia.” É ela, segundo afirma o poeta e ensaísta Darcy Damasceno (in A Lit. no Brasil, III. T.1, pág.376). quem “abre o desfile dos epígonos parnasianos”.
Sentimento, emoção, cuidado da forma, beleza expressional e correção ética caracterizam-lhe os poemas, levando José Veríssimo a compará-la a celebre poetisa italiana Ada Negri (Apud E. Werneck, Ant. Brasileira pág. 507. (Rio Bonito, Estado do Rio, 12 de Dezembro de 1868 – Desencarnou em 19 de março de 1948.)

Fontes:
Frâncisco Cândido Xavier. Antologia dos Imortais.
Biografia = Literatura em Vida 2 (blog), Antonio Miranda, Global Editora.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Florbela Espanca (Sonetos Escolhidos)

 

ÁRVORES DO ALENTEJO
Ao Prof Guido Battelli

Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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QUEM SABE?…
Ao Ângelo

Queria tanto saber por que sou Eu!
Quem me enjeitou neste caminho escuro?
Queria tanto saber por que seguro
Nas minhas mãos o bem que não é meu!

Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!

A estrada de Damasco, o meu caminho,
O meu bordão de estrelas de ceguinho,
Água da fonte de que estou sedenta!

Quem sabe se este anseio de Eternidade,
A tropeçar na sombra, é a Verdade,
É já a mão de Deus que me acalenta?
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A MINHA PIEDADE
A Bourbon e Meneses

Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,

Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!

Tenho pena de mim… pena de ti…
De não beijar o riso duma estrela…
Pena dessa má hora em que nasci…

De não ter asas para ir ver o céu…
De não ser Esta… a Outra… e mais Aquela…
De ter vivido e não ter sido Eu…
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SOU EU!
À minha ilustre camarada Laura Chaves

Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves pousam nos meus ombros…

Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!

Ecos longínquos de ondas… de universos..
Ecos dum Mundo… dum distante Além,
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!

Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
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PANTEÍSMO
Ao Botto de Carvalho

Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso, o horizonte…
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
Dum verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Ouço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos

Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!
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MINHA TERRA
À J. Emídio Amaro

Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa…

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha… a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu…
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada…

Truz… truz… truz… Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite…
Terra, quero dormir… dá-me pousada!
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A UMA RAPARIGA
À Nice

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!…
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MINHA CULPA
A Artur Ledesma

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém…

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estátua truncada de alabastro…
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…
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TEUS OLHOS

Olhos do meu Amor! Infantes louros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesouros:
Meus anéis. minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigmáticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…

Berço vinde do céu à minha porta…
Ó meu leite de núpcias irreais!…
Meu sumptuoso túmulo de morta!…
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Florbela Espanca (1894 - 1930)
FLOR BELA LOBO, adotou literariamente o nome de Florbela d'Alma da Conceição Espanca, foi uma das figuras mais celebradas e intensas da literatura em língua portuguesa. Conhecida por sua poesia confessional e de altíssima sensibilidade, ela revolucionou a escrita feminina ao tratar do amor, do desejo e do sofrimento com uma entrega visceral e sem precedentes. Nasceu em 1894, em Vila Viçosa (região do Alentejo), em Portugal, filha ilegítima, fruto da relação de seu pai com uma camponesa, mas foi criada pelo pai e pela madrasta. Faleceu em 1930, no dia em que completava 36 anos, em Matosinhos/Portugal, suicídio por overdose de barbitúricos, após anos batalhando contra uma profunda depressão. Viveu sua infância em Vila Viçosa. Na juventude, mudou-se para Évora para estudar. Também residiu na vila de Redondo, na capital Lisboa (durante seus estudos universitários) e passou seus últimos anos em Matosinhos. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso liceal (secundário). Mais tarde, fez história ao se tornar a primeira mulher a ingressar no curso de Direito da Universidade de Lisboa, embora não tenha chegado a exercer a advocacia. Para além da escrita de seus livros, Florbela trabalhou como professora particular e de ensino primário (tendo aberto uma escola com seu primeiro marido em Redondo), além de atuar como jornalista colaboradora em jornais locais e tradutora de romances franceses.
Florbela não pertenceu a nenhuma academia de letras e não recebeu prêmios literários em vida. O conservadorismo e o machismo da sociedade portuguesa da época marginalizaram sua produção e sua conduta pessoal (ela divorciou-se duas vezes, algo escandaloso para o período). O reconhecimento oficial veio de forma póstuma — hoje, a Câmara Municipal de Vila Viçosa organiza o prestigiado Prémio Literário Florbela Espanca em sua homenagem. Começou a escrever poesias ainda na infância, aos 8 anos. Sua obra é célebre pelo formato do soneto e dividida entre a dor profunda (acentuada pela trágica morte de seu irmão Apeles) e o panteísmo erótico.
Livros publicados em vida: Livro de Mágoas (1919); Livro de Sóror Saudade (1923).
Principais publicações póstumas: Charneca em Flor (1931 — sua obra-prima, enviada para publicação pouco antes de morrer); As Máscaras do Destino (1931 — livro de contos e prosas; Juvenília (1931).
A importância de Florbela Espanca reside no fato de ter sido a pioneira da poesia intimista e erótica feminina na literatura portuguesa. Em um cenário dominado por homens, onde se esperava que as escritoras mantivessem um tom recatado, Florbela ousou colocar o corpo, o desejo, o orgulho de ser mulher e a emancipação sentimental no centro de seus sonetos. Sua poesia antecipou discussões do movimento feminista em Portugal ao recusar o papel de musa passiva e assumir o de sujeito desejante. Com uma técnica técnica impecável, musicalidade única e uma capacidade rara de transformar o sofrimento psicológico em arte, ela influenciou gerações de poetas e permanece como uma das vozes líricas mais cultuadas e viscerais de todos os tempos.

Fontes:
Florbela Espanca. Charneca em Flor. Publicado originalmente em 1931.
Biografia = Wikipedia, Wikisource, E-biografia, Jornal de Poesia, Brasil Escola, Recanto das Letras, Mar Alto, Jornalismo Júnior, etc.