De tudo o sonho é capaz...
E, ante o Bem que o amor encerra,
quem veste o manto da paz,
despe os farrapos da guerra!
De todas as forças que movem as engrenagens invisíveis do mundo, nenhuma possui a plasticidade do sonho. Ele não é uma fuga da realidade, mas a sua matéria-prima. Como bem anuncia a sabedoria da trova, de tudo o sonho é capaz. Ele é o construtor do invisível. Tudo o que hoje tocamos — as cidades de concreto, as leis que nos protegem, os livros que nos consolam — foi, em algum momento da história, apenas um rastro de fumaça na imaginação de um sonhador. O sonho é a teimosia humana contra a rigidez do agora.
Mas o poder do sonho não é neutro; ele exige uma escolha de vestimenta. A vida comum, desatenta e automatizada pelos conflitos cotidianos, costuma nos vestir com os farrapos da guerra. Andamos pelo mundo armados. Usamos o cinismo como escudo, a indiferença como armadura e a agressividade como espada. Essa roupa bélica nos protege do toque, mas nos isola do encontro. O farrapo da guerra é pesado, cheira a pólvora fria e a ressentimento acumulado. É o uniforme daqueles que acreditam que viver é apenas sobreviver ao ataque alheio.
A grande virada filosófica da existência ocorre quando o sonhador percebe o Bem que o amor encerra. Esse "Bem" não é um conceito abstrato de dicionário, nem um romantismo ingênuo. É uma força prática e cortante. O amor, do ponto de vista existencial, é o desarmamento unilateral do espírito. É a coragem de se apresentar ao mundo com o peito aberto, aceitando o risco da vulnerabilidade.
É nesse exato instante de lucidez que ocorre a troca de guarda da alma: quem veste o manto da paz, despe os farrapos da guerra.
Não é possível sobrepor essas duas vestes. Não se pode vestir a paz por cima da armadura da guerra; o tecido delicado se rasgaria nas pontas afiadas do metal. Para que o manto da paz toque a pele, é preciso ter a coragem de despir-se. É preciso deixar cair no chão os velhos hábitos da discórdia, o orgulho de ter sempre razão, a necessidade de revide e as pequenas violências com que alimentamos o nosso ego diariamente.
Despir os farrapos da guerra é um ato de desapego doloroso. Muitas vezes, nós nos apegamos às nossas feridas e aos nossos inimigos porque eles nos dão um senso de identidade e de propósito. A guerra nos mantém ocupados. A paz, por outro lado, exige o silêncio, a responsabilidade e o peso do próprio arbítrio. O manto da paz é leve, mas carrega a densidade dos homens livres.
Viver sob o manto da paz não significa habitar um mundo sem conflitos, mas escolher não ser o solo onde a guerra germina. É compreender que a paz é uma construção ativa, um sonho transformado em vestimenta diária. O verdadeiro sonhador é aquele que olha para o campo de batalha da vida cotidiana e, pelo simples ato de depor suas próprias armas內, força o mundo ao seu redor a repensar o sentido do combate.

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