sábado, 20 de novembro de 2021

Mia Couto (Ofélia e a eternidade)

Quem amamos nasce antes de haver o tempo. Passou o tempo e Ofélia era ainda a única mulher no mundo. Eu a via passar na rua, afastava os cortinados e o universo ganhava súbita explicação. Ela parava no passeio, sentindo que estava sendo contemplada. Meus olhos a tornavam sagrada. E não havia palavra.

Passou o tempo mas a cintura dela se conservava menininha, convidando as mãos a circunavegarem seu corpo.

—Você é linda, Ofélia.

Mas ela! Não eram essas as palavras que mexiam em sua alma.

—Diga que sou eterna — pedia.

Eu não era capaz de cumprir aquele pedido. Algum senão me desviava a voz. E nunca repeti tão solicitadas palavras.

Afinal, o destino nos separou. Único culpado dessa pequena morte: o tempo, esse animal que defeca memórias. Eu fui para a cidade, ela permaneceu onde sempre existira. No último momento, afastei a cortina e a vi sob a árvore. Saí para me despedir:

—Está apanhando sombra?

—Estou sendo sombra, eu.

Ela se entregava a enigmas, frases desfeitas. Anunciei:

—Vou para o litoral.

—Vai ver o mar?

—Certamente.

Antes de eu desaparecer ela me pediu outra vez. Não queria eu proclamar sua eternidade? Abanei a cabeça. Dessa vez até aceitei um esforço. Mas, debaldemente. Aquelas palavras me pareciam uma heresia, coisa demasiado excessiva. Eternidade é assunto divino. Mais sagrado que a morte.

Saí por anos. Foi mais a ausência que o afastamento. Regressei à pequena vila para a reencontrar. Ofélia já reeditara sua existência. Tivera seis filhos. Dois que já não constavam, vencidos por um correr das águas. Dizem. Naquelas mortes de seus meninos ela morrera também. Ela fora com eles. Para esse inominável lá.

—De lá já voltei ninguém — disse ela, pedindo desculpas de sua tristeza quando nos reencontramos.

Atacada de incorrigível melancolia. Agora, ela se tinha toda convertido em sombra. E nenhuma luz lhe dava alento. O luto em seus olhos me avisou: os cortinados de meu quarto se fechariam sobre todas as ruas onde ela passasse.

Sugeri-lhe que tivessemos encontro. Breve, sem consequência. Marcamos na traseira dos Correios. Cheguei-me e não soube que palavras escolher. O momento pedia-me um idioma que não há. Eu me faltava. Ela me olhou como se eu fosse quem tivesse demorado. Como se eu fosse culpado.

—Vou lhe contar uma história—disse eu apenas para quebrar o silêncio.

Ela reagiu prontamente:

—Nunca, mas nunca me conte histórias.

Era tanta a veemência que eu me atrapalhei com o sem querer da minha ofensa.

—Odeio histórias! — rematou ela.

Deixou uma pausa, esperando em pose e apelo. Aguardava, quem sabe, que eu perguntasse porquê. Como eu me mantivesse mudo, ela somou:

— História é contra a eternidade.

Acenei com a cabeça. Perdera os filhos, não perdera aquela viciada ideia.

— Sou eterna, não lembra?

Depois ela me segurou na mão e me perguntou:

— Me trouxe um mar?

— Sim.

Mentira. Eu só podia mentir perante o pedido. Ela ficou, imóvel, esperando.

Esperava? Que mar lhe havia eu de dar, se nenhum me coubera, nem grão de areia, nem concha, nem búzio. E, no entanto, ela estava frente a mim como se aquele momento resumisse toda nossa existência. Fiquei tão desarmado que uma lágrima aflorou em meus olhos. Depois aconteceu, sem decisão pensada. Aquilo me saiu, à parte de minha vontade. De repente, quase imperceptíveis, as palavras me afluíram:

—Você é eterna, Ofélia.

Ela levantou o rosto e me enfrentou como se me descobrisse em primeira vez. Se aproximou e me beijou. Estendeu os dedos e recolheu esse esboço de água em meus olhos. Depois, com voz sumida:

—Obrigada por este mar.

Desde aquele momento, nunca mais voltaram a morrer seus dois filhos falecidos. Que eu diria: meus dois filhos de lá. Porque sou Ofélia, eu mesmo que desfolho esta estória. Sim, sou a mulher a quem, certa vez, na ponta dos dedos, foi oferecido o mar.

O resto é a minha eternidade contra a história. Pois nunca existiu homem nenhum que me tivesse amado e empreendesse, alguma vez, viagem alguma para além deste lugar.

Fonte:
Mia Couto. Na berma de nenhuma estrada e outros contos. Publicado em 2001.

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