segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Aparecido Raimundo de Souza (Coriscando) 12: Patacoadas


O  CIDADÃO PIRES DA CONCEIÇÃO XICRINHA  requereu numa das varas de família do Rio de Janeiro, seu divórcio, tendo em vista que não podia, segundo ele,  oferecer nada de bonito e elegante à sua esposa, a bela e esfuziante Pedralinda Pedregulhosa da Costa Xicrinha, ao passo que ela tinha de tudo do bom e do melhor.  

De fato, linda e maravilhosa, no albor dos vinte, Pedralinda Pedregulhosa da Costa Xicrinha era filha de mamãe e de papai. Apesar de saber do divorcio repentino, num primeiro momento rodou a baiana, subiu nas tamancas, virou bicho. No dia da audiência, mais calma, contratou a sua mãe, advogada porreta e sogra de Pires da Conceição Xicrinha. Os dois (nora e genro) pareciam  gato e rato numa briga desigual.   

No dia aprazado, todos reunidos na sala de audiência, a mãe advogada pediu a palavra, depois que o juiz abriu a boca e deu por aberta a contenda e mandou aquelas palavras idiotas de sempre, coisas para bois cansados e com sono dormirem logo que se recolhem a seus aposentos reais:

JUIZ:

- Senhora Pedralinda, não existe a possibilidade de ser repensado o pedido aqui protocolado e o casal terminar com os entraves e partir para uma possível reconciliação?

Antes que a autora respondesse, a mãe dela, dona Aurora Tribufú da Costa tomou a dianteira.

MÃE:

- Na, né, ni, na não, excelência...

O juiz escaneou a senhora de cima em baixo ajeitando os óculos para melhor contemplar a beldade que bruscamente o interrompera.

JUIZ:

- A senhora, quem é?

Aurora Tribufú da Costa, mãe de Pedralinda Pedregulhosa da Costa Xicrinha se levantou num salto e, igualmente, encarou o juiz:

- Sou a mãe dela, senhor juiz.

JUIZ:

- Senhora, quem precisa decidir é a sua filha. Por favor, fique em silêncio.

A senhora Aurora Tribufú da Costa vociferou:

- Um momento, Excelência. Eu preciso esclarecer que...

O juiz, soltou um latido esquisito e estridente dando sinais de fúria, como se tivesse sido mordido por um leão esfomeado:

- Senhora, como é seu nome?

MÃE:

- Meu nome é Aurora Tribufú da Costa. E o seu?

JUIZ:

- Isto não vem ao caso. Então, dona Aurora, a senhora como mãe, não pode interferir. Fique calada, ou pedirei que saia desta sala.

A MÃE (DE NOVO):

- Protesto, Excelência.

O JUIZ (BATEU NA MESA):

- Como é que é?

A MÃE  (AGORA, VISIVELMENTE TRÊMULA E NERVOSA):

- Eu protesto. Sou a mãe dela.

JUIZ:

- Não importa. Fique de boca fechada. A senhora não pode meter o bedelho.

A MÃE (SOCOU TAMBÉM A MESA, EM REAÇÃO AO ATO DO MAGISTRADO):

- Excelência, sou a mãe dela, como disse e outro detalhe. Sou advogada e estou aqui devidamente constituída defendendo os direitos de minha filha, tendo em vista o marido dela (este ai – falou apontando o sujeito) querer dar uma de João sem braço em cima da minha menina. Se Vossa Excelência olhar no processo, verá a minha procuração.

O JUIZ (COÇOU A CABEÇA):

- Por que não disse logo que era advogada da separanda?

A MÃE:

- O senhor não perguntou...

JUIZ:

- E por que a sua filha não pode responder ao que perguntei?

MÃE (DESABAFANDO):

- Meu genro, excelência, esta coisa aí, o Pires da Conceição Xicrinha é um pobretão metido a riquinho. Aliás, um riquinho fajuto. Alegou, em sua petição, que nada pode oferecer de bonito e elegante à minha querida filha.

E COMPLETOU, CHEIA DE IRA:

- Estou farta de ouvir, nos fóruns da vida, e nas audiências que faço, que os maridos que se queixam alegando que as suas mulheres são bonitas demais para eles, é porque não tem dinheiro suficiente para bancar os gastos mais prementes dos quais elas necessitam no dia a dia. Ou seja, este sujeitinho ai, em resumo, quer dar o golpe. Com a separação, pretende mamar metade dos bens que dei a ela. Eu mato este sujeito, eu mato... Tenho dito...

Juntando as palavras ao gesto, a mãe da jovem abriu a bolsa e empunhou uma 380 novinha em folha. O juiz, apavorado, se escondeu debaixo da mesa. O genro  preferiu voar para uma sala  contígua, sendo seguido por sua advogada. A promotora de justiça desmaiou.

A escrivã, antes de sair de cena, derrubou o computador que se espatifou, no chão causando uma explosão.  Alguém, lá fora, ouvindo a discussão acalorada e os gritos de socorro, chamou os policiais que meteram  os pés na porta e  contiveram a advogada.  Completamente endiabrada, a tresloucada partiu para cima do genro, arma empunhada, prometendo,  a brados retóricos, manda-lo para a terra dos pés juntos. Acabou presa.  

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

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