segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (Oitenta anos)

Oitenta anos.

Quando lembro que os tenho, não sei se choro ou rio.

Às vezes faço os dois. Um risinho, um chorico, meio acanhado, meio assanhado, a misturar baba de alegria com lágrima de tristeza.

Mas faço apenas quando me sinto só, segurando a mão da solidão como proteção. Seria ela a corda de segurança da velhice?

Difícil dizer. Estou a experimentá-la só agora... Oitenta.

Marca indelével do que vivi. É aí que o pensamento encolhe as asas como pássaro friorento. Para se assentar por inteiro em mim. Aninhando-se como aves sob a chuva fria: sendo mais e menos, eu.

Mais pelo riso em lábios esticados; menos, com os olhos vermelhos a verter medo.

Momento em que os músculos se contraem para, em contraposição, distender a emoção e repetir em voz rouca e curta: oitenta, oitenta, oitenta, como anúncio em cornetas de circo.

Pois, sabe o que acontece? Eles ficam sem a preocupação do fazer.

E, no sentido de lazer, viram-se instintivamente aos céus.

As palmas, espontâneas, se unem sem fechar as mãos. Compõem uma torre. Como ponta de seta virada para cima.

Hora em que os olhos a acompanham e, também, se elevam. Como se procurassem algo nas nuvens, no topo do céu, perto do infinito.

E fico nessa ansiedade, tentando invadir fendas esgarçadas para que mais longe possa enxergar. Lá deve estar Deus.

Quem tem oitenta anos, eu acho, tende a ficar assim nessa espera.

Mas pode, se quiser, ir a qualquer lugar. E é o que faço ainda com passos largos. Ou nem tanto. Pois já os sinto meio encolhidos pelo encarangar das pernas.

Pressinto que, às vezes, não. Mas, sim. O sim da realidade é mais forte e me põe a andar com o semblante sóbrio, enfeitado apenas por uma nesga de sorriso.

Dizem que faz bem sorrir. É mais simpático a olhos outros. Mesmo que esses nem me conheçam. Mas verão que meu sorriso tem razão de ali estar. E de ficar.

Quem fez oitenta pode se dar esse luxo. Se quiser.

Sabe por quê? Aos oitenta, os pés se fincam em um torrão que produz flores.

Assim, faço as pazes com os oitenta na espera dos noventa. Eles me encontrarão com os pés fincados num jardim.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

(Texto enviado pelo autor.)
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

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