quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Amélia Luz (Nem Romeu, Nem Julieta)

Já perdi a conta dos casos que ouvi de namorados românticos. Coisas do passado, é claro. Hoje em dia tudo está muito diferente, as moças não ganham mais as serenatas nas noites de lua cheia, mas elas vão com os seus “ficantes” curtir a balada vazando noites de agito total.

Bom seria mesmo ser a Colombina do Pierrô, ser a Julieta do Romeu, ganhar flores, chocolates, poesias autografadas e, no álbum da vida estar na primeira página ao lado do eterno namorado, aquele do primeiro olhar, do primeiro aperto de mão e do primeiro beijo no portão a despertar a primeira taquicardia.

Receber atenções especiais, corações flechados desenhados nas árvores do jardim com direito a nomes e datas. Ser escravos do Cupido até o fim da vida e contar e recontar todas as viagens, todos os presentes de aniversário, natal, dia das mães e, por que não, dia dos namorados mesmo comemorando as Bodas de Prata ou de Ouro.

Embora tudo isso seja sonho enterrado vivemos o pesadelo da falta de sensibilidade, de virarmos geleiras humanas sem a menor emoção a manifestar. Já não mais existem românticos que mesmo de “jeans e de calça desbotada” mandam “flores para a namorada” como na antiga canção. Que pena!

Com a revolução feminista visando a igualdade de condições, a mulher deixou de ser o sexo frágil que dependia da proteção do homem, preocupado em lhe proporcionar o melhor em muitos casos. Será que a mulher só ganhou ou também perdeu?

Despiu-se de rendas e cetins, vestiu uma bruta calça de brim, tirou o chapéu e a flor dos cabelos e saiu por aí tentando fazer a sua liberdade, ou melhor, a sua igualdade de poderes diante do sexo oposto.

Os homens comodamente se retraíram, guardaram os seus violões e suas poesias com declarações de amor e nem sabem se a lua é cheia ou minguante, porque minguados estão os seus sentimentos neste jogo da vida em que a nudez da mulher, reveladora de todos os seus encantos, agora é exposta, não despertando mais aquela curiosidade que despertavam excitações. Vivemos um tempo de amores passageiros, de divórcios e separações e casamento à moda dos nossos avós e pais é coisa de cafona.

Viajando pelo cinema Hollywoodiano, palco de grandes amores, com músicas e ídolos famosos e beijos inesquecíveis que marcaram um tempo temos as mais preciosas cenas de amor. Como esquecer Scarlett O’hara e o Capitão Rhett Butter no filme E o Vento Levou encantando plateias que se espelhavam nas cenas de amor verdadeiro?

Hoje é a telinha do WhatsApp ou do computador a ditar regras que viciam e castram as emoções de todos criando um outro mundo de gente fria e isolada, inconsciente do que está se passando, na verdade, a seu redor. Escravizados pela máquina segue o homem por esta nova estrada, “deletando” emoções, plugando links, acessando sites no cansaço de se sentir vazio num horizonte onde o arco-íris agora nasce sempre em preto e branco.
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Amélia Luz (1945)
AMÉLIA MARCIONILA RAPÔSO DA LUZ, conhecida artisticamente e no meio literário como Amélia Luz, é uma premiada e respeitada poeta, contista e cronista mineira. Embora sua história de vida e atuação estejam intimamente ligadas à região da divisa com o estado do Rio de Janeiro (próxima a Santo Antônio de Pádua), ela nasceu formalmente em Minas Gerais. Nasceu em 1945, na cidade de Pirapetinga/MG, situada exatamente na divisa com o estado do Rio de Janeiro, separada apenas pelo Rio Paraíba do Sul de municípios vizinhos da região noroeste fluminense, o que explica sua forte ligação cultural e geográfica com Santo Antônio de Pádua/RJ e arredores. Passou e construiu sua vida em sua cidade natal, expandindo suas atividades culturais pelas cidades irmãs da divisa mineira e fluminense. Possui uma extensa bagagem na área da Educação. É graduada em Pedagogia, com habilitações em Administração Escolar, Magistério e Orientação Educacional. Também se formou em Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa. Especializou-se em Planejamento Educacional e Psicopedagogia na Escola. Dedicou grande parte de sua vida profissional ao magistério, atuando de forma expressiva como professora e gestora educacional na região.
Embora escrevesse redações de destaque desde a escola primária, abraçou a carreira literária de forma pública e intensa em sua fase madura, apelidando sua escrita poética de "sua oficina de versos". Transita com facilidade entre a poesia tradicional, contos, crônicas e formatos modernos e sintéticos como as aldravias (forma poética minimalista nascida em Minas Gerais). É membra associada de importantes entidades geográficas e literárias, incluindo a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) nas seções do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Suas produções também integram mais de 200 antologias literárias nacionais e internacionais. Acumula distinções de relevância no Brasil e no exterior, com destaque para: Prêmio Internacional na Itália (2018): Conquistou o primeiro lugar em concurso literário internacional com sua obra Luz e Versos; Diversas outras premiações nas categorias de contos, crônicas e poemas em certames de língua portuguesa.
Entre suas principais obras individuais destacam-se: Pousos e Decolagens; Luz & Versos; Versos d'Aldeia; Contos de Argila; Silêncios Clarinam ao Longe?
Amélia Luz é uma voz fundamental para a preservação da identidade cultural do interior e das regiões de fronteira entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Sua escrita une a sensibilidade lírica do cotidiano à inovação de formatos, ajudando a consolidar o movimento aldravista fora dos grandes centros metropolitanos. Sua literatura possui tanta densidade técnica e poética que já se tornou objeto de estudo em dissertações de mestrado acadêmicas. A sua poesia é marcada por uma cadência sonora muito rica. Como a própria autora descreve em seus manifestos artísticos, ela busca "brincar com as palavras" fazendo-as "cantar e dançar". Essa forte presença de rimas, aliterações e a musicalidade intrínseca de seus versos faz com que sua poesia dialogue diretamente com a tradição dos saraus e da canção falada regional, celebrando a palavra como um instrumento melódico.

Fontes:
Texto enviado pela autora.
Biografia = Museu da Pessoa; Portal CEN; etc.

Adélia Prado (Caderno Poético)

 

A SERENATA

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
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COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta,
anunciou: vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa me casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza
e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
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DONA DOIDA

Uma vez, quando eu era menina,
choveu grosso, com trovoada e clarões,
exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
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CORRIDINHO

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
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IMPRESSIONISTA

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
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CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
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ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
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DIA

As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
– ia dizer imoral-
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.
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Adélia Prado (1935)
ADÉLIA PRADO (nome artístico de Adélia Luzia De Prado Freitas), escritora amplamente reconhecida como uma das maiores vozes da literatura em língua portuguesa, completou 90 anos de idade. Nasceu em Divinópolis (MG) em 1935. Passou toda a sua vida e mora até hoje em Divinópolis. A pacata rotina do interior mineiro sempre funcionou como a principal matéria-prima para a sua literatura. Formou-se professora e lecionou durante 24 anos em escolas de Divinópolis. Ministrou disciplinas como Filosofia da Educação, Relações Humanas e Educação Religiosa. Abandonou as salas de aula em 1979 para se dedicar exclusivamente à literatura. Graduou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis em 1973. Atuou como Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis. Também dirigiu o grupo de teatro amador Cara e Coragem, encenando peças de Ariano Suassuna e Dias Gomes.
Começou a escrever versos aos 15 anos, motivada pelo luto após a morte de sua mãe. Contudo, sua estreia editorial ocorreu tardiamente, aos 40 anos. Em 1973, ela enviou seus manuscritos ao crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna. Impressionado, ele repassou os textos para Carlos Drummond de Andrade, que ficou fascinado com a originalidade de Adélia e usou sua coluna no Jornal do Brasil para anunciar o surgimento de uma grande poeta, apadrinhando o lançamento de seu livro de estreia, Bagagem, em 1976.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Adélia Prado não faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva (imortal), tendo optado por manter sua rotina reclusa no interior de Minas Gerais. Apesar disso, mantém uma relação de enorme prestígio e reconhecimento mútuo com as instituições literárias do país. Ao longo de sua consagrada trajetória, Adélia recebeu as distinções mais importantes da língua portuguesa: Prêmio Jabuti (1978): Vencido na categoria poesia com o livro O Coração Disparado. Foi também homenageada como Personalidade Literária do Ano no Jabuti de 2020 ; Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil (2007): Pela obra Quando eu era pequena ; Prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional e Prêmio APCA (2010) ; Prêmio Machado de Assis (2024): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra ; Prêmio Camões (2024): O prêmio máximo da literatura de língua portuguesa. Adélia fez história ao se tornar a primeira mulher mineira a receber esta honraria.
Sua produção literária transita com maestria entre a poesia e a prosa lírica:
Poesia: Bagagem (1976); O Coração Disparado (1978); Terra de Santa Cruz (1981); O Pelicano (1987); A Faca no Peito (1988); Oráculos de Maio (1999); A Duração do Dia (2010); Miserere (2013).
Prosa (Contos e Romances): Solte os Cachorros (1979) ; Cacos para um Vitral (1980) ; Os Componentes da Banda (1984) ; O Homem da Mão Seca (1994) ; Filandras (2001).
A relevância de Adélia Prado reside na capacidade única de universalizar o cotidiano banal e a vida doméstica sob uma ótica profundamente lírica, metafísica e feminina. Antes dela, a literatura frequentemente separava a experiência intelectual e artística dos afazeres de mãe, esposa e dona de casa. Adélia rompeu essa barreira ao colocar a cozinha, a fé cristã, o erotismo sutil, o corpo feminino, o tanque de lavar roupas e a província no centro da grande poesia. Sua linguagem é despojada, direta e musical, fundindo uma espiritualidade quase mística (isenta de moralismos) com o humor e as dores da carne, o que a consolida como uma das maiores referências do Modernismo tardio no Brasil.

Biografia: Ebiografia, Wikipedia, Recanto das Letras, Guia do Estudante, CNN Brasil, Gazeta, Biblioteca Pública do Paraná, etc.

Adalgisa Nery (A Gargalhada)

— Não grita, por favor.

— Não estou gritando. Estou rindo.

— Falar alto ou gargalhar é a mesma coisa. É manifestação de animalidade que a minha natureza não suporta. Vocês conhecem a minha fascinação pelas mulheres. Nada para mim tem um poder de atração maior do que uma mulher. Porém a mulher mais linda, a mais perfeita, a mais fascinante, falando alto ou gargalhando, faz crescer em mim um ímpeto monstruoso e sinto que sou capaz de abrir com as mãos o seu pescoço. Fico desvairado; é uma repulsa incontida. Só os animais se expressam com alarido, só as criaturas desclassificadas, moral e espiritualmente, falam aos gritos e riem com a garganta. Já sabem, não gritem nem deem gargalhadas perto de mim se não quiserem transformar-me num criminoso. Fico descontrolado com o barulho, seja ele qual for.

Gaspar e dois amigos conversavam num bar, de madrugada, onde a fumaça dos cigarros e o cheiro de álcool misturavam-se ao som de um piano tocado por dedos já. cansados e indiferentes ao ambiente.

André, de temperamento alegre, depois de tomar duas ou três doses de álcool, expandia-se em piadas de mau gosto, acompanhadas de estridentes gargalhadas.

O outro, Maurício, quase silencioso, observava demoradamente os frequentadores do bar, Possuía um interesse especial por dois detalhes do corpo humano: mãos e nucas.

— Gaspar, você define e classifica as criaturas pelo falar alto e o gargalhar. Tem razão. Não pode haver inteligência nem condições espirituais numa pessoa que expressa suas alegrias e suas opiniões aos berros. Vocês dois criticam sempre a minha atitude quando em silêncio fico a maior parte do tempo com os olhos pregados nas mãos e na nuca das pessoas à minha frente. Eu explico. Gosto de definir, através das mãos e da nuca, a essência do indivíduo. Reparem, por exemplo, aquele sujeito sentado na mesa à nossa esquerda. Forçosamente tem de ser uma pessoa mesquinha, de fundo avarento, capaz de sujeiras frequentes nas vinte e quatro horas do dia. Está acompanhado de uma mulher que chama a atenção unicamente pela tristeza do olhar. O resto é comum e insignificante. O seu modo de trajar é suburbano. O seu olhar, entretanto, carrega pesadas humilhações e penas. O homem que a acompanha não vê nada disso que esmaga a pobre mulher.

— E você, Maurício, verificou a tristeza da mulher e a mesquinhez do caráter do homem pelas mãos dele, só pelas mãos? — perguntou André.

— Sim, pelas mãos. Observem seus gestos e a forma das suas mãos curtas e gordas, achatadas, de unhas minúsculas enterradas na carne, dedos cabeludos, pulsos cabeludos. Suas mãos, quando paradas, assemelham-se a aranhas adormecidas. São mãos asquerosas, devem ter uma transpiração abundante. Sempre molhadas de suor. Reparem nos seus gestos em curvas pequenas em direção à sua barriga, Parecem trazer as migalhas da mesa para o seu estômago. Nada em seu físico define com mais segurança a sua mesquinha personalidade do que as suas mãos.

— Você o conhece, para marcá-lo assim de maneira tão positiva?

— Não, nunca o vi. Mas desde que cheguei notei a sua repelente personalidade pelas suas mãos cabeludas, curtas e de movimentos repulsivos.

Enquanto Maurício falava sobre as suas observações, o homem reclamava aos brados, do garçom, uma insignificante quantia adicionada à nota das despesas. Dava a entender que o pagamento daquele mínimo excedente iria obrigá-lo a voltar a pé para casa.

A mulher que o acompanhava, de olhos baixos, sentia a humilhação de quem contribuíra para um grave problema financeiro do companheiro que a trouxera para o bar; como se reclamasse o preço excessivo da sua presença ao seu lado, A mulher somava tristezas.

Maurício olhou para os amigos com ar vitorioso de quem acerta no objetivo. 0 homem de mãos curtas e cabeludas exibira a sua essência.

— Vejam também agora a nuca deste sujeito que está sentado de costas para nós. Nuca pálida, enxundiosa, com o nascimento do cabelo muito alto e semelhante a uma franja rala. Nuca de homem tem de ser com o nascimento do cabelo no meio do pescoço, de fios grossos marcando vitalidade e decisão de atitudes. Desconfiem de todo homem que possuir uma nuca que sobe até o meio da cabeça. Não escapará de ser um indivíduo desleal, traiçoeiro, com tendência à vida sórdida, vivendo da exploração de mulheres.

— Ora, isso é bobagem. E os que não têm pescoço, os que não têm nuca, os que têm a cabeça. Diretamente pregada nos ombros, como são? — perguntou André já bastante alcoolizado.

— Bem, esses são os burros teimosos. Teimosos e vaidosos. Esses são perigosos. Sentem-se um deus de sabedoria e, se têm uma parcela de poder ou uma fortuna assegurada, entendem que têm o direito de arrasar com a humanidade, e que as suas opiniões estão na razão direta do seu dinheiro, Como já disse, esses sem pescoço são perigosos para a coletividade.

Nesse instante, Maurício chamou a atenção dos companheiros para o homem da nuca flácida.

— Reparem o que ele está fazendo e vejam como os meus estudos são infalíveis!

O homem recebia, sob a toalha da mesa, das mãos da mulher que o acompanhava, o dinheiro com que iria pagar as despesas feitas.

— Qual é a sua finalidade, Maurício, ao estudar e observar a personalidade das criaturas através dos detalhes das mãos e da nuca?

— A de definir para conhecer a essência das coisas. É um estudo como outro qualquer. É um divertimento. Meus estudos e observações não impedirão o nascimento de homens mesquinhos, sórdidos e de vidas repugnantes, eu sei. Mas cada vez que acerto nas minhas observações, mais vontade tenho de observar para acertar. É uma espécie de jogo comigo mesmo. O princípio da ignorância humana é o definir aquilo que se fala ou o que se prefere falar, sobre o que ainda não se sabe e nem se pode definir. Eu falo do que ainda não se pode definir. Tento chegar à ignorância humana.

— Por exemplo, o descontrole de Gaspar ao ouvir alguém gritar ou dar gargalhadas, parece-me uma reação intimamente ligada à sua sensibilidade. As suas impressões, as suas visões ou os seus ímpetos inesperados devem variar dependendo da sua receptividade brutalizada por risos estridentes e barulhos fortes. A reação da sensibilidade de cada pessoa pode encaminhar-se para o estoicismo ou para o crime. Conheci um rapaz que desde menino perdia a fala quando cercado de conversas tumultuosas ou de ruídos agudos. Permanecia completamente mudo por várias horas. Mas mudo mesmo. Trancava-se no quarto e entregava-se à leitura. A família desorientava-se com a sua mudez prolongada e repentina. A medicina não oferecia maiores explicações. A sua mudez era total e a sua audição também seguia o mesmo processo. No dia seguinte aparecia com a fala e a audição perfeitamente normais. Assustava-se, terrivelmente, quando ao longe percebia o ronco dos motores de um avião no céu. Quando o telefone tocava, se ele estivesse perto, corria para o quarto como um animal batido. Diziam que era um desequilibrado, mas essa conclusão foi posta por terra quando a família resolveu enviá-lo para uma fazenda no interior, onde ele só tinha contato com o silêncio. A solução foi afastá-lo de tudo e de todos na medida do possível. Durante esse período falava e ouvia normalmente, Interessante é que cantava canções de acalanto e a sua voz tinha uma sonoridade maravilhosa, 0 tumulto, os gritos, as conversas misturadas, as risadas, extinguiam instantaneamente a sua voz e a sua audição, mas voltavam perfeitas na substância do silêncio. Era por isso considerado um tipo estranho e enigmático. Ora, Gaspar deve estar incluído, sem saber, entre os raros que sofrem desse mesmo fenômeno. Daí o seu descontrole, a sua angústia, quando alguém a ao seu lado fala aos gritos ou dá estrondosas gargalhadas. Nota-se em Gaspar uma imediata transformação fisionômica, um ar desvairado, e não deve ser sem fundamentos que ele afirma a possibilidade de tornar-se um criminoso ao ouvir uma gargalhada.

Gaspar ouvia sem interromper Maurício, parecendo concordar com o diagnóstico do amigo.

Um grande silêncio envolveu a mesa dos três. Ao longe, rompendo a densidade da fumaça e o enjoativo cheiro de álcool que dominava o bar, o piano continuava tateado por mãos cansadas e indiferentes àquelas vidas gastando-se na madrugada. Vinda de um canto do bar, passou pela mesa dos três amigos uma mulher jovem. Não era bela nem feia. Era uma mulher de bar. Gaspar segurou-lhe o braço e indagou se estava sozinha. A mulher respondeu afirmativamente.

— Para onde vai?

— Para casa.

— Espere, vou com você.

Saíram os dois.

Num hotel barato, os outros hóspedes ouviram a porta de um quarto fechar-se. Depois o murmúrio de vozes do casal. De repente, uma gargalhada inundou o corredor do hotel. Outra gargalhada. Depois o silêncio absoluto.

Pela manhã, quando a arrumadeira iniciou o seu serviço, ao passar pelo quarto ocupado pelo casal da madrugada, viu pela porta entreaberta uma mulher nua, deitada na cama, tendo sobre a cabeça um travesseiro.

O seu corpo morto deixava fora do lençol um seio alvo e volumoso.
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Adalgisa Nery (1905 - 1980)
ADALGISA MARIA FELICIANA NOEL CANCELA FERREIRA (adotou o sobrenome Nery após o casamento). foi uma das figuras mais fascinantes, combativas e multifacetadas da cultura brasileira no século XX. Transitando entre o lirismo intimista e o engajamento cívico, destacou-se não apenas como uma brilhante escritora, mas também como jornalista influente e pioneira na política nacional. Nasceu em 1905, no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1980, aos 74 anos, em decorrência de um AVC. Viveu a maior parte de sua vida na cidade do Rio de Janeiro. Entre 1927 e 1929, morou na Europa com seu primeiro marido. Na década de 1940, também residiu no México, onde seu segundo marido (Lourival Fontes) serviu como embaixador do Brasil. Nos últimos anos de vida, morou em Petrópolis (RJ) e, posteriormente, em uma clínica geriátrica na capital fluminense. Ficou viúva muito jovem e, para sustentar os filhos, começou a trabalhar na Caixa Econômica e no Conselho de Comércio Exterior do Itamaraty. Tornou-se uma jornalista de destaque, escrevendo colunas diárias e combativas para o jornal Última Hora. Sua forte atuação social a levou para a política, sendo eleita deputada estadual em 1960 pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Reeleita duas vezes, tornou-se uma voz ativa na defesa dos direitos humanos. Em 1969, por causa do AI-5 durante a Ditadura Militar, teve seus direitos políticos cassados e sua coluna censurada.
Adalgisa não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) e sua trajetória foi marcada por um histórico apagamento institucional por parte dos círculos literários mais tradicionais da época. Apesar do imenso sucesso de público e da aclamação de seus pares intelectuais (como Drummond, Murilo Mendes e Manuel Bandeira), ela não acumulou grandes prêmios oficiais em vida, enfrentando o esquecimento financeiro e editorial no fim da carreira. Conviveu intensamente com a vanguarda modernista. Casou-se aos 16 anos com o pintor Ismael Nery, com quem viveu uma relação efervescente e turbulenta. Após a morte dele, foi incentivada por amigos poetas a publicar seus próprios escritos. Sua obra passeia pela poesia mística, o sofrimento, o erotismo e o protesto social.
Poesia: Poemas (1937), A Mulher Ausente (1940), Og (1943), Ar do Deserto (1943), Cantas de Angústia (1948) e Mundos Oscilantes (1953).
Prosa (Romances e Contos): A Imaginária (1959 — seu livro mais famoso e autobiográfico), Sofonisba (1961), As Fronteiras da Quarta Dimensão (1965) e Neblina (1972).
A importância de Adalgisa Nery reside na sua coragem estética e temática em um período de forte opressão patriarcal. Ela foi uma das primeiras escritoras brasileiras a expor, sem filtros morais, a angústia existencial feminina, o confinamento do casamento, o desejo e as dores da maternidade e do luto. Na prosa, seu romance A Imaginária abriu caminhos para a autoficção no país, retratando dinâmicas de violência doméstica de forma pioneira. Ao unir o lirismo confessional ao jornalismo político de resistência, Adalgisa rompeu o estereótipo da "musa passiva" dos modernistas para se consolidar como uma voz autônoma, visceral e profundamente necessária para a literatura feminista e social do Brasil. 

Fontes:
Adalgisa Nery. 22 menos um. Publicado originalmente em 1972.
Biografia – Elfikurten, Escritas.org, Wikipedia, Museu da TV, Gov.Br., Guia das Artes, Recanto das Letras, etc.

Contos e Lendas da França (A Última Folhinha Verde)

Há muito tempo atrás, no Hemisfério Norte, havia um rei que estava de cama, muito doente ... morrendo lentamente.

Porém, mais forte do que a doença que lhe consumia, era o profundo desânimo que lhe tocava a alma. O rei havia desistido de viver.

Sua filha vinha vê-lo todos os dias e tentava animá-lo, relembrando dos bons momentos da vida.

Mas em vão, ela não reagia. O rei havia desistido e viver.

Passava os dias inteiros na cama, olhando para a janela à sua frente e observando uma grande árvore que ia lentamente perdendo suas folhas, porque o outono havia chegado.

Em uma manhã, quando a filha tentava animá-lo, o rei lhe disse:

- Sabe, filha, quando aquela árvore perder a última de suas folhas, terá chegado a minha hora de morrer...

- Que é isso pai? Que tolice! Por que amarrar o seu destino ao destino de uma árvore?

Mas o rei não a ouviu, tão absorto estava em sua melancolia.

A filha então compreendeu que existem momentos em que as palavras ficam muito pobres e não dão mais conta de acender uma luzinha no coração das pessoas.

Resolveu agir.

Assim que o pai adormeceu, a moça entrou no quarto com um pincel e um potinho de tinta verde. Subiu em um banquinho e pintou no vidro da janela, bem na direção da árvore que seu pai olhava, uma folhinha verde.

À medida em que o outono ia avançando e o inverno tomava seu lugar, as folhas da árvore desprenderam-se todas e saíram dançando ao vento...

O rei observava cuidadosamente todos os seus movimentos.

Observava, especialmente, uma certa folhinha verde muito teimosa e persistente, que não se movia do lugar e ficava agarrada a árvore, não importava o quão forte fosse o vento, quão inclemente fosse a chuva.

Até que a neve chegou e cobriu a árvore com um manto branco.

Mas, de sua cama, o rei havia atado o fio da vida àquela folhinha verde e continuava olhando-a fixamente.

E foi assim, agarrando-se à folhinha verde que o rei atravessou o inverno de sua doença e o inverno de sua alma.

Então, quando a primavera chegou e muitas novas folhinhas cobriam a árvore e aquela pequena folha verde ficou perdida entre tantas outras, o rei encontrou seu ânimo, sua vontade de viver e ficou de pé. Voltou à vida.

Mais tarde, enquanto limpava a folhinha pintada na janela a filha pensou:

- Espero que, algum dia, se o desânimo tomar conta do meu ser, alguém consiga oferecer uma folhinha verde, para que eu possa receber, através dela, a seiva da vida.

Fonte:
Conto reescrito por Rosângela Alves, do original de Magali Bonniol. La fille de l’arbre. Paris, L’école des loisirs, 2002. Disponível em Contar e Encantar.

Estante de Livros (Os Ratos, de Dyonélio Machado)

O barulho de pequenas mandíbulas aumenta o tormento do protagonista Naziazeno. Os ratos roem os fragmentos do que lhe resta, talvez o menino tenha deixado uma migalha de pão na mesa ao lado do maço de notas. O pensamento espiral avança na noite de insônia: encontros, negativas, buscas, necessidade, jogo, fome, fracasso, cansaço, lembrança do semblante tristonho da mulher, dor no corpo, a doença do menino, o resultado do bicho, inaptidão, negativas, impotência... Até que nas cores esmaecidas do entardecer, o protagonista consegue o dinheiro para pagar a conta do leiteiro e retorna para casa.

O desenrolar do drama do funcionário público endividado e ainda com vergonha de olhar os credores que passam no cotidiano atravessa os capítulos e nos transpassa de angústia. O dinheiro do leite, a doença do menino, a fome do protagonista... Enfim, um empréstimo. Percebemos, na vida de Naziazeno, que ter conseguido o dinheiro para quitar a conta do leite é apenas o início de uma nova dívida, a expectativa de mais um dia caminhando em busca de uma solução. Paliativos!

O livro “Os ratos”, do escritor gaúcho Dyonélio Machado, inicia com a advertência do leiteiro de que cortará o fornecimento de leite caso não receba o pagamento até o dia seguinte. Apenas vinte e quatro horas... Naziazeno sente o desespero da mulher, a vergonha diante dos olhares da vizinhança que presenciam o ultimato.

A mulher lamenta todos os cortes: a manteiga, sapato novo... Mas leite é fundamental para o desenvolvimento do filho de quatro anos já tão abatido pela doença.

Vinte e quatro horas... Naziazeno sai para o trabalho com a obrigação de trazer o dinheiro, observa os passageiros do bonde, tenta em vão esquecer do leite. Mas como? Os olhares dos vizinhos, a voz da esposa, o filho...

Naziazeno tenta pedir um empréstimo ao diretor da repartição, o que é negado na frente dos outros funcionários. Sai em busca dos amigos, não os encontra, joga os trocados no bicho e na roleta. A sorte não está ao seu lado. Continua pelas ruas, visita os agiotas, desvia dos credores... Carcomido pela fome e cansaço, escuta apenas negativas... Ao fim do dia, numa operação complicada com um anel penhorado, consegue o dinheiro emprestado do amigo Alcides.

Retorna para casa com dinheiro suficiente para pagar o leiteiro, tirar os sapatos da mulher do sapateiro, comprar um vinho, um pedaço de queijo e um pequeno mimo para o filho. Conta as notas e as moedas para o pagamento do fornecimento do leite e, novamente, percebemos a precariedade da situação econômica do protagonista.

Ele se deita na certeza de que o leiteiro encontrará o dinheiro de madrugada e tudo estará solucionado com a continuidade do fornecimento, mas toda a inquietação e a angústia que dominaram seu dia num corpo faminto e fraco, agora ganham força com a modesta refeição. Tenta dormir, fecha os olhos, finge não perceber a luz amarelada ao lado da cama, reclama com a mulher que ronca, escuta os pequenos movimentos do filho, mas o pensamento costura seus passos, as imagens dos olhares reprovadores, a sensação de vergonha, inaptidão e impotência, a repartição, os funcionários e os vizinhos que o observam em cada negativa, testemunham a cristalização do seu fracasso e murmuram que ele não paga as contas.

Tudo retorna e as vivências são retalhadas numa intensa noite de insônia. O leitor se aprisiona na narrativa, torce para que o personagem relaxe na conquista do possível, mas também está preso demais às angústias presenciadas e à certeza de que é apenas mais um dia. E quantos dias?

O bonde passa de madrugada, a mulher ressona alto, o filho ensaia um choro... Não há relógio na casa de Naziazeno, porém as horas passam lentas enquanto ele não consegue se libertar de seu drama diário. O que poderia sonhar? Não consegue pensar em nada que não sejam os passos, as negativas, o diretor da repartição, sua inaptidão para conseguir uma renda extra, o azar no jogo, as contas que não pagou...

Observa o rosto gorducho e apático da esposa. Ela dorme...

Ouve pequenos ruídos de mandíbulas de ratos. São os ratos a devorar o que lhe resta. O dinheiro posto em cima da mesa, ao lado da panela do leite, deve estar sendo devorado pelos roedores. Tenta se levantar, mas a noite o prende à cama... Os ratos devoram o leite do filho, lembra-se do rapaz do bonde que almoçava leite, a mulher que reclama e diz que sem leite não pode ficar... O leite e os ratos, talvez uma migalha de pão...

O avançar das horas o aflige. Como pode não dormir e despertar para trabalhar? Será que não dormiu em algum lapso de pensamento? A mulher e o filho continuam dormindo...

Abruptamente, a porta da cozinha é aberta. Barulho de passos e de leite derramado com abundância. O leiteiro... Naziazeno adormece antes que a porta se feche.

O leitor é invadido pela espiral das angústias do fim do romance. O descanso de Naziazeno não é verdadeiro e não convence. Sabemos que amanhecerão novas inquietações e dívidas para o funcionário, novas cobranças para o chefe de família e novos olhares reprovadores.

A mediocridade do papel do protagonista no mundo se contrasta com a forma brilhante como Dyonélio Machado desenvolve a trama e nos envolve no drama do protagonista com diretas reflexões inseridas em nossas rotinas. A reviravolta na narrativa ocorre quando, ao anoitecer, pensamos que o caso está encerrado e percebemos que as vivências ecoam e retornam em ousadas lembranças dos movimentos do dia sob novos olhares. Sentimos com força a angústia de ser e de permanecer próximo do protagonista do escrito literário.

Talvez neste momento incorporemos suas vivências nas lembranças de cada capítulo consumido. A ficção está eivada de realidade. O pensamento espiral nos consome nas tantas vinte e quatro horas que compõem nossas vidas.

O fornecimento de leite é apenas uma metáfora. O leitor, em cada pausa, poderá se confundir com a trama, lembrar do cheque especial, do resgate do penhor, da conta atrasada... Afinal, poderá compor também suas necessidades e, como Naziazeno, se perguntar qual sua aptidão. Questionar suas funções na repartição. Observar sua representação no mundo no olhar dos outros funcionários

Certamente, o livro “Os ratos” não é uma leitura recomendada para quem sofre de insônia, ou para quem administra o cotidiano no empate de seus rendimentos e dívidas.

Podemos ainda ouvir as mandíbulas dos vorazes ratos devorando nossos rendimentos: a pesada carga tributária, os aumentos constantes das taxas públicas e da gasolina, os juros do especial... Na esfera de uma noite insone, podemos remontar nossos passos, julgar nossas ações e nos culpar por algumas omissões e comodismos.

A viagem literária proporciona uma visão mais ampla da trajetória. O destino ainda é uma expectativa e é previdente que possamos analisar a viabilidade de novos rumos sem ficarmos presos às urgências diárias de nossas necessidades.

Dyonélio Machado se destacou na segunda fase do modernismo na literatura brasileira, com uma prosa intimista ou de sondagem psicológica, com a abordagem da relação do “eu” com o contexto inserido. Além de escritor, Dyonélio foi médico psiquiatra e conheceu as obscuridades do psiquismo dos indivíduos comuns, percebeu o limiar das possibilidades, medos e anseios e, numa narrativa original, envolveu-nos definitivamente na condição de seus leitores. Espero que a memória e a obra do escritor permaneçam imunes às mandíbulas da alienação e do esquecimento.

Fonte:
Resenha por Helena Sut. Disponível em Algo Sobre.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Henriette Effenberger (Trovas Temáticas)

 

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SAUDADE
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Para falar de saudade
sempre se vai precisar
ter um pouquinho de idade
e coisas para lembrar...

Saudade de nossa infância,
saudade de tempos idos...
Saudade pela distância
dos nossos entes queridos.

Saudade de gargalhadas,
saudades da adolescência,
das noites enluaradas,
plenas de efervescência...

Saudade não é lembrança,
saudade não é sofrer.
Lembrança sem esperança,
isso ela pode até ser.…

A campa tão nua e fria
do morto desconhecido
recebeu a cortesia
de um ipê todo florido.

A saudade, envelhecida,
virou apenas lembrança
não dói mais como ferida,
pois já perdeu a esperança…

Na quietude da noite
onde até o silêncio dorme,
a saudade, qual açoite,
retalha o sonho disforme.

Nos meus momentos de insônia,
minha saudade acalanto
e ela, sem cerimônia,
repousa sobre meu pranto.

Pra espantar felicidade,
a maldade tanto fez
que se vestiu de saudade
pra machucar outra vez.

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DESTINO
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A vida que tenho agora
é apenas resultado
de escolhas de outrora,
de opções do passado...

Dizem que eu tive sorte,
que o destino me sorriu,
ao escolher o meu norte
todo caminho se abriu.

O que chamam de destino,
boa, má sorte ou maré
eu apenas denomino
fruto de trabalho e fé.

Sei que fiz o meu destino,
palmo a palmo, linha a linha,
nada veio repentino
nem tive fada madrinha...

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PAZ
= = = =

A paz nem sempre é perfeita,
esconde-se em descaminhos,
entre dores, fica à espreita,
como rosa entre os espinhos.

Paz: muitas vezes usada
para gerar tanta guerra,
palavra tão desgastada,
não a vemos cá na Terra.

Pedir paz é tão vulgar,
lugar comum, um clichê;
melhor mesmo é desejar
que a paz habite em você...

Viver na Paz do Senhor,
nos dizia a tia Sila,
só mesmo com muito amor
e com fé que não vacila.

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ESTAÇÕES DO ANO
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Bom seria cada dia
viver como a primavera,
trazendo luz e alegria,
pois o verão nos espera..

Na primavera me aninho,
sou colibri, beija-flor,
sou menina-passarinho
buscando por teu amor...

Gosto de verão “caliente”,
sol daqueles de rachar,
que aquece a alma da gente
e nos convida a amar.

Verão agora é assim
chove, chove, sem parar.
Essa água não tem fim,
parece o céu a chorar...

Às vezes penso que o outono
por vir depois do verão
é uma estação de sono,
de invernos que chegarão...

O  verão com sol brilhando
e um azul no céu sem fim;
no fundo está preparando
o outono que existe em mim...

Não gosto de tempo frio
nem daquele céu cinzento.
O inverno, eu avalio,
é um velho rabugento...
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Henriette Effenberger (1952)
HENRIETTE EFFENBERGER é uma romancista, contista, poeta, memorialista e autora de literatura infantil da cena contemporânea brasileira. Destaca-se não apenas pela sensibilidade de sua produção, mas também por seu papel combativo na valorização das vozes femininas e como uma forte ativista cultural. Nasceu em 1952, na cidade de Bragança Paulista (SP). Desenvolveu toda a sua trajetória pessoal e profissional em sua terra natal, onde reside e mantém firme sua atuação na comunidade artística local. Formou-se professora primária (Magistério) em 1970. Em 1972, concluiu o curso Técnico em Contabilidade e, em 1975, graduou-se em Administração de Empresas pela Universidade São Francisco (USF). Conciliou suas formações técnicas com o engajamento social e cultural. Trabalhou inicialmente na APAE de sua cidade e, ao longo dos anos, uniu sua veia profissional ao resgate da memória e da história de diferentes instituições regionais por meio de livros encomendados e pesquisas históricas.
Henriette construiu uma carreira sólida na literatura independente nacional. É amplamente reconhecida como uma das criadoras e entusiastas do Mulherio das Letras, um coletivo literário feminista de grande relevância nacional que joga luz sobre a produção de escritoras mulheres. Pertence à ASES (Associação de Escritores de Bragança Paulista): sócia-pioneira, ex-presidente e diretora da instituição. Com uma produção vasta e diversificada, Henriette passeia por diferentes gêneros:
Romances e Ficção: A Ilha dos Anjos (2002, em coautoria com Maria Dulce N. K. Louro) e Quase nada de azul sobre os olhos (2022, seu elogiado primeiro romance solo).  
Contos: Linhas Tortas (2008): composto por contos premiados em concursos literários nacionais e internacionais, com apresentação de Ignácio Loyola Brandão e Fissuras (2018, publicado pela Editora Penalux). Em 2017, organizou a coletânea de contos: Horas partidas e a coletânea de contos e crônicas do Movimento Mulherio das Letras.
Literatura Infantil: As Aventuras do Superagora (2008) e Vida de Sabiá – O que sabiam os sabiás além de assobiar. vencedor do Prêmio João de Barro de Literatura Infantil, editado em 2009, pela Fundação Cultural de Belo Horizonte.
A autora acumula dezenas de prêmios em concursos literários nacionais e internacionais de poesia e prosa. Entre as principais honrarias, destacam-se: Prêmio João de Barro de Literatura Infantil (um dos mais tradicionais e importantes do segmento no Brasil); Prêmio Manaus de Literatura. Sua obra transcendeu as livrarias e tornou-se objeto de pesquisas universitárias. Seu livro Fissuras foi indicado como leitura na pós-graduação em Crítica Feminista da Universidade Federal Fluminense (UFF), e sua produção foi catalogada e estudada na obra acadêmica Vozes Femininas na Literatura Brasileira.
importância de Henriette Effenberger está profundamente atrelada à resistência da literatura descentralizada e ao fortalecimento da autoria feminina no Brasil. Ao criar narrativas que mergulham em fraturas cotidianas (como em Fissuras) e debater as complexidades do universo da mulher, ela subverte estruturas tradicionais e abre espaço para que temas intimistas e sociais caminhem juntos. Além disso, sua dedicação na liderança da ASES e no movimento Mulherio das Letras funciona como uma ponte fundamental para acolher, divulgar e pavimentar o caminho para as novas gerações de escritoras fora dos grandes eixos metropolitanos.

Biografia = Típico Local, Ser Mulher Arte, Papo D’Oro. Editora Penalux. Seção Bragança Paulista, etc.

Cantinho do Frata (Como caminhamos)

O difícil da nossa estrada é que, de repente e sem que esperemos, aparece uma bifurcação. E a incerteza nasce a indagar: esquerda ou direita? Qual direção tomar?

A hesitação ganha corpo e produz insegurança. Se não impede a escolha, ao menos a dificulta.

Nessa indecisão perdemos tempo, eis que "as horas mais tristes da vida são aquelas em que duvidamos de nós próprios"¹.

Mesmo porque a vida não nos mostra a estrada inteira. Ela quase sempre revela o próximo trecho só depois que vencemos o anterior. Etapa a etapa. Por isso, mais importante que a distância do primeiro passo é a firmeza com que o damos.

Dado esse, os demais serão consequência.

Por que digo isso? Porque a vida é eivada tanto de dádivas quanto de desafios. Dá-nos a graça de vivê-la e, junto dela, o peso de enfrentar aquilo que o viver exige.

O que seria do mar se ele produzisse apenas ondas difíceis e insuportáveis travessias? Ou o contrário? O que seria da roseira se no mesmo galho dos espinhos não nascesse a mimosa rosa perfumada?

É assim que o viver sentencia: uma coisa ao lado da outra. Por isso nos submetemos tanto à virtude quanto ao vício e seus asseclas: degradação e torpeza.

É o oscilar das escolhas entre um e outro que nos ensinará a procurar o equilíbrio e, esse, a que rejeitemos os excessos prejudiciais a nós próprios e, claro, a terceiros.

Esse oscilar será o conjunto de atos diários e constantes que desenhará quem somos.

Ninguém se perde de uma vez numa bifurcação, assim como ninguém se encontra a si próprio nessa condição. Na verdade, a vida não pede que acertemos sempre a direção, mas que fiquemos atentos na bifurcação. Porque o medo de errar tem o mesmo valor que a razão de acertar.

E não importa tanto a escolha do caminho, mas como faremos para percorrê-lo. Até o erro, quando reconhecido, pode nos fazer avançar. Sabe por quê? Ele é parte do caminho.
No fim, o que fica não é a direção à esquerda ou à direita. É a maneira como caminhamos.
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¹ Henry Ward Beecher
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Renato Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

(Texto enviado pelo autor)