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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A. A. de Assis (Era um tempo e tanto) Parte final

 

31.
De nublar a vista.
Vestida de azul e branco
passa a normalista.

32.
Meninas de tranças
cantando canções de roda.
Voltarão à moda?

33.
As artes da infância,
a turma da escola, o rio.
A terra natal.

34.
Namoro na praça.
Quanta história teve início
num flerte no footing.

35.
Tal e qual nos filmes.
No restaurante do trem
o jantar a dois.

36.
Pião, bilboquê,
bolinha de gude, ioiô.
Não tem mais por quê?

37.
Dou um Superman
por um Marvel e um Tarzan.
Troca de gibis.

38.
A santa saída.
Na porta da igreja os moços
esperando as moças.

39.
Ridentes passeios.
Vovô leva o neto ao bosque
para ouvir gorjeios.

40.
Bibibi-fonfom.
Carangos e calhambeques
na hora do rush.

41.
De repente o choque.
Eu da geração da valsa
vi nascer o rock.

42.
Outrora cantavam
de tardezinha as cigarras.
Onde mora o outrora?

43.
Moça na janela.
Na rua em frente um violino
sola o Autumn Leaves.

44.
Em nobre moldura
o retrato oval do avô.
Gratidão da prole.

45.
Um homem na rua
assobia o Hino à Alegria.
Obrigado, irmão.

46.
Abaixo o estilingue.
O pito da professora
na molecadinha.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
A. A. de Assis (1933)
        ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Fonte:
A. A. de Assis. Era um tempo e tanto. (triversos). Ed. Do Autor, 2021. Ebook enviado pelo autor.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A. A. de Assis (Poesia em pílulas)

 
Se vivesse hoje entre nós, será que Castro Alves escreveria o “Navio Negreiro”? Talvez até sim, e tão bonito quanto. O difícil seria encontrar leitor para tão longo e magistral poema, visto que tudo é tão corrido nestes tempos loucos.


Daí que a tendência é concentrar poesia em textos curtinhos, como se faz na trova ou no haicai. A trova tem quatro versos, correspondendo a 28 notas musicais. O haicai tem três versos, correspondendo a 17 notas. Uma trova se diz em oito segundos, um haicai em apenas seis.

Na trova tenho mais experiência. No haicai há certas normas que só os bambambans conseguem seguir ao pé da letra, porém arrisco fazer uns versinhos à minha moda. Cito alguns exemplos. Sugiro ler devagarinho, para fruir bem cada um.

· Assanhadas rosas.
Disputam a preferência
de um raio de sol.

· Chocados os ovos,
há o choque dos seres novos.
E a vida prossegue.

· Flores na enxurrada.
Vão ter afinal bom hálito
as bocas de lobo.

· Os passantes param.
Carregadinhos de flores
os jacarandás.

· Klash klash klash.
Brincando de pula-pula
no laguinho as rãs.

· De novo nas ruas
o encanto das pernas nuas.
Viva a primavera.

· Pombo sobre pomba.
Virão logo fazer ninho
em minha janela.

· Suaves passeios.
O vô leva o neto ao bosque
para ouvir gorjeios.

· Mão de jardineiro.
Num leve toque de artista
faz do esterco a flor.

· Florzinha silvestre
no jardim do shopping-center.
Êxodo rural.

· Almocinho a dois.
Tico-tico come um tico
do fubá da tica.

· Sabiá caçando.
Nem só de gorjeios vive,
mas também de insetos.

· Deixa o beija-flor
um selinho em cada rosa.
E elas gostam... ahhhh.

· Abelha se aninha
no colo do girassol.
Vai ter mel quentinho.

· Mosca na parede.
Avisem à lagartixa
que o jantar chegou.

· Gari, no capricho,
colhe pétalas no asfalto.
São flores, não lixo.

· No meio do pasto
um ponto de exclamação.
Último coqueiro.

· Outrora cantavam
de tardezinha as cigarras.
Onde mora o outrora?

· A pombinha desce
numa imagem de Jesus.
Pousa a paz na luz.

· Teste de audição.
Canta ao longe um pintassilgo
e eu escuto, oba.

Sujaram meu rio.
Ele, que lavava as gentes,
não lavou as mentes.

· Zunzunzum... zunzum...
É um pernilongo brincando
de fórmula um.

· Casal de velhinhos
na janela olhando a Lua.
Tão longe a de mel...

· Tanta coisa boa
virou coisa do passado.
Por exemplo: nós.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 19-10-2023)

Fonte: Texto enviado pelo autor

segunda-feira, 13 de março de 2023

domingo, 12 de março de 2023

Benedita Azevedo (Triversos Escolhidos) 1


a chuva está forte
e o relâmpago risca o céu
cadela se esconde
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ainda manhãzinha
olhares fixos na rede
esperam sardinhas
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além da montanha
já se vai a tarde outonal
enfeite do jantar
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bacalhoada
chega à hora do jantar
o marido faminto
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caminhadas de inverno
orelhas sob o vento
parecem queimar
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casa de veraneio
da janela para a rua
cheiro de peixe frito
= = = = = = = = =

cercado dos peixes —
tudo tão abandonado
com o mar de inverno
= = = = = = = = =

clarão da manhã
as pedras à beira mar
guardam lótus brancas
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começo de férias
invade a quadra da escola
o mar agitado
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culto das imagens
o turista esqueceu-se
do seu veranear
= = = = = = = = =

desvãos de praia
cheias de pobreza as casas
sob a chuvarada
= = = = = = = = =

Dia da mentira
o avô engana os netos
e volta à infância
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dia prolongado
também o trabalho aumenta
na horta da casa
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Domingo de Ramos
a procissão acompanha
o padre e a cruz
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em plena calçada
pescador conserta a rede
tempo de bagre
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família reunida
na mesa do restaurante
filé de dourado
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férias de verão
peixe frito no barraco
dá água na boca
= = = = = = = = =

fim de carnaval
restos de fantasia
no meio da rua
= = = = = = = = =

gritos ritmados
pescadores puxam a rede
cheia de peixe-espada
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joga a meninada
debaixo de um aguaceiro
tombos e risadas
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lembra um lenço branco —
o leve pouso da garça
entre os pescadores
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manhã de verão
sabor de peixe com arroz
à beira da praia
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maré outonal
as ondas quebram na areia
bem devagarinho
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marulhar das ondas
folguedos de carnaval
à beira da praia
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noite do folclore
a lua parece dançar
sobre as ondas
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noite tropical
últimos raios de sol
clareiam a praia
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padaria cheia —
o pão doce da vitrine
atrai uma abelha
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paisagem distante
a neblina de Petrópolis
desde o quintal
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revoada na praia
aves tornam a partir
na tarde de outono
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roçado de milho
só restam talos em pé –
gafanhoto peregrino
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súbito aparece
a lua sobre o Atlântico
valeu a espera
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vento da manhã
os barcos pra lá e pra cá
cheios de sardinhas
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velho sorridente
distribui panfletos –
chuva de inverno

Fonte:
Enviado pela autora.
Benedita Azevedo. Praia do Anil. Curitiba: Araucária Cultural, 2006.