SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN
Lisboa (1919 – 2004) Porto
Cantata de paz
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror
A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças
D'África e Vietnam
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados
Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)
Velho tema (III)
Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.
Têm a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas...
Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:
Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.
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Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México
Poeta
A noite me pede um poema
é indulgente com este bardo,
ferido pelo silêncio.
Faz minha caneta dançar,
meu ritmo, minhas palavras.
Letras noturnas, letras na solidão.
Escrevo algumas na minha mão esquerda,
Elas serão o início de um poema.
Há folhas que não admitem poesia
e armazenam palavras escondidas.
Você sente o aroma do verbo.
Letras que saltam,
para construir poemas para loucos
como a balada de Ferrer,
com espírito insurrecional
versos de vaga-lume,
iluminam
Morre a noite
e também o poeta,
um pouco a cada verso,
que derrotará a ferrugem do tempo,
e a poeira do esquecimento,
escreve poesia.
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Soneto de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994) Porto Alegre/RS
A Rua dos Cata-ventos (VII)
Avozinha Garoa vai contando
Suas lindas histórias, à lareira.
"Era uma vez... Um dia... Eis senão quando..."
Até parece que a cidade inteira
Sob a garoa adormeceu sonhando...
Nisto, um rumor de rodas em carreira...
Clarins, ao longe... (É o Rei que anda buscando
O pezinho da Gata Borralheira!)
Cerro os olhos, a tarde cai, macia...
Aberto em meio, o livro inda não lido
Inutilmente sobre os joelhos pousa...
E a chuva um' outra história principia,
Para embalar meu coração dorido
Que está pensando, sempre, em outra cousa…
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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Saudade – no fim do dia,
já sei por que me dói tanto:
aumenta a melancolia,
dobra as dores do meu pranto!
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Poema de
JOSÉ PEDRO DA SILVA CAMPOS D’OLIVEIRA
Moçambique (1847 – 1911)
A Uma Virgem
(Improviso)
Motora dos meus martírios!
Causa da minha saudade!
Ingênua e casta deidade!
Minha terna inspiração!
Condói-te da triste sorte
Do jovem que te ama tanto,
Que por ti verte agro pranto
Gerado no coração!
Rasga-me o peito, se queres,
E vê nele a intensa chama,
Que há três anos o inflama
Em cruas dores, sem fim...
De padecer já cansado
Vou sentindo a morte dura
Arrastar-me à sepultura,
E na flor da idade assim!...
E podes ser tão tirana,
Que possas ver indif´rente
D´anos de´nove somente
Morrer o teu trovador?!
Ai! Não! Alenta-me a vida,
Reprime esta dor infinda
Dando-me só, virgem linda,
O teu puro e casto amor!...
(obs: foi mantida a grafia original)
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Poema de
OLIVER FRIGGIERI
Floriana/Malta
Somos água viva
Nossa história deve terminar algum dia
Como água do manancial que ao remanso chega
Ou pedra que rola até deter-se,
Como um pêndulo de relógio que ao fim se imobiliza.
Cada dia ao anoitecer, em nossas casas
Quando nossos filhos perguntam o que está passando
Trocamos de tema ao não ter resposta
E cantamos o estranho hino de nossa idade:
“Somos água viva e nada a bebe
Porque nas ondas se encontra o sal da destruição.
Somos pedras eliminadas dos altares
De Deuses enfermos que iam mortos desesperados
Em uma luta contra eles mesmos. Pêndulo somos
Que está a ponto de gastar o seu vigor.”
(Tradução do Maltês e Espanhol por José Feldman)
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Poema de
LUCIANA SOARES CHAGAS
Rio de Janeiro/RJ
Iara, menina do encanto
Na praia dourada, a menina a brincar,
Iara, com olhos negros a brilhar.
Sorriso faceiro, de encanto sem par,
Sua alegria faz o mundo dançar.
Cabelos cacheados, como ondas do mar,
Bailam no vento, livres a sonhar.
Inteligente e doce, um brilho especial,
Sua presença é luz, um dom celestial.
Amiga querida, sempre a cativar,
Com um toque de rosa, um sonho a criar.
Unicórnios encantam seu mundo infantil,
Irmã e companheira, de amor tão gentil.
Toda charmosa com suas vestes de bailarina,
Iara, sua risada é melodia divina.
Um poema pra ti, menina...
És estrela brilhante, de alma cristalina.
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Soneto de
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP
Esperança
Enquanto há vida, eu sei, há esperança
que é uma das virtudes teologais,
foi isso que aprendi desde criança
e na verdade não esqueci jamais.
As outras são: o amor que não se cansa,
e a fé, que todo dia eu tenho mais!
E aí, querida, está minha confiança:
juntos faremos nossos esponsais!
Vou esperar o quanto for preciso,
certo de que não perderei o juízo,
até o dia que você me amar.
E nesse dia eu serei tão feliz,
que vou levar você até a Matriz,
e sob bênçãos, vamos nos casar!
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Hino de
SÃO TOMÉ/PR
Quando os homens rasgaram um dia
Os mistérios do velho sertão
Entenderam por certo que havia
Um poder incomum neste chão
Visionários, a voz da esperança.
Numa luta de ardor e de fé
Na paisagem da verde pujança
Projetaram à luz São Tomé
ESTRIBILHO
Na mata virgem deslumbrante,
Rio dos Índios o solo a irrigar
A cachoeira borbulhante
Um poema de amor a entoar,
É tão belo, neste recanto.
Outro igual asseguro não há
São Tomé que eu amo tanto,
É orgulho do meu Paraná.
A riqueza brotando imponente
Desta terra de cor peculiar
A mostrar o valor de tua gente
No labor de uma faina invulgar
Na cadência marcada dos passos
Deste povo que ruma seguro
Carregando alegria nos braços
Para um grande soberbo futuro.
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Trova Premiada de
RITA MARCIANO MOURÃO
Ribeirão Preto/SP
Tu nasceste nesta rua,
eu nasci além dos mares,
mas foi sempre a mesma lua
que juntou nossos olhares!
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Recordando Velhas Canções
SOLIDÃO
(samba-canção, 1961)
Adelino Moreira
Não, não quero mais o seu amor
Chega de amar, chega de dor
E de esperar em vão
Quando desperto
E vejo o leito vazio
Eu sinto frio no coração
Não, não quero mais ficar sozinha
Já Estou cansada de esperar
Acalentando a promessa
De que um dia
Você vem para ficar
Quem não tem direito ao amor
Não deve amar
Para não sofrer
Para não chorar
Veja meus Deus
A triste sorte minha
Na solidão do quarto
Eu beijo o seu retrato
E vou dormir sozinha
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