quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Ribeiro Couto (Clube das esposas enganadas)

Parti para Petrópolis naquela manhã mesmo. Agora, todos os perigos ficavam para trás, na planície. Perto da Raiz da Serra, quando os primeiros lírios me enviaram aromas, apoderou-se de mim um desejo imenso de saber a fundo o Direito Marítimo, a História Diplomática, o Internacional Privado. A natureza agia por contrastes: em vez de um completo abandono do meu ser ao gosto físico de respirar, eu experimentava uma vontade intensa de conhecer pelo miúdo o Tratado de Tordesilhas - e parecia-me sentir, transfigurado pela paisagem, o cheiro de papel velho dos meus volumes de ciências. O trem galgava as ladeiras. O ar balsâmico do mato infiltrava-me a consciência perfeita de uma libertação. Acompanhando a estrada, arvoredos silvestres davam na janela tapas afetuosos, com ramos longos, debruçados. Era a natureza que me enviava mensagens. Lá em cima, na cidade silenciosa (maio inaugurava a estação morta) a existência nova começaria - a paz fecunda dos estudos, a tranquilidade do quarto cheio de sol e, pela noite adiante, a boa lâmpada em vigília.

Instalei num quarto do Hotel Max Meyer um pequeno quadro-negro que levara, os mapas murais e os livros. Dali agora ninguém me arrancava, a não ser o próprio Ministro das Relações Exteriores no dia das provas escritas, quando os jornais publicassem a chamada.

Como ficaria tia Clarice, ao saber da defecção? Furiosa, naturalmente. Caprichei na longa carta que lhe escrevi. Argumentei com a verdade abundante. Entre os motivos que me assistiam estava aquela irritante indagação dos amigos, quando  agora os encontrava. "Então, Clarimundo, como vai o clube?" Outros me batiam nas costas: "Seu felizardo, então essas esposas enganadas?"

Não era possível continuar no Rio enquanto durasse aquela brincadeira. Era preciso riscar o meu nome da fachada do clube invisível. Depois, as funções de secretário, que a princípio eu julgara leves, eram trabalhosíssimas, a julgar pelas primeiras cinqunta e tantas cartas. Só a correspondência me tomaria o tempo inteiro. Assim, como o concurso se aproximava, só em Petrópolis eu poderia - em criatura de memória infiel - ter sossego para recapitular certos pontos de direito, de história, de geografia, de línguas, particularmente ingratos à minha retentiva caprichosa.

Terminava oferecendo-lhe a chave do apartamento, que deixara com Lúcia, e acrescentava:

"Espero, minha boa tia, que a senhora disporá com franqueza de todo o espaço e de todo o mobiliário. A casa é sua. Entre os meus livros, há alguns que podem interessar à biblioteca futura do clube. Permito-me desde já assinalar a Fisiologia  do casamento de Balzac."

Tia Clarice telegrafou: "Ingrato desnaturado exijo explicação insinuações Fisiologia Casamento."

Ora essa, o livro devia ser útil ao clube. Mandei-lhe então uma enorme cesta de hortênsias.

Desta vez ela tornou mansa, com um simples cartão, mas surpreendente: "Trânsfuga! Os jornais falam cada vez mais em você."

Era verdade. Tendo publicado a segunda notícia, que tia Clarice lhes enviara pelo correio, os cronistas insistiam nas referências ao meu nome. Dava para desesperar.

Tomei a resolução de não ler mais jornais. O trabalho absorveu-me. Só uma recordação vinha perturbá-lo à noite, na hora avançada (por vezes alta madrugada) em que eu me enfiava dentro dos lençóis gelados...

Sem dúvida, podia considerar-me um sujeito invejável. Deliciosa Lúcia... A modéstia, entretanto, me aconselhava a não dar importância àqueles caprichos de uma noite.

Não era de crer que Lúcia tivesse por mim um sentimento durável. Fora tudo, como no verso de Bilac, resultado da ... cumplicidade Da sombra, do silêncio, do perfume...

O cavalheirismo consistia em não lhe escrever, em não lhe dar notícias minhas. O contrário pareceria presunção de quem se inculca. Quando viesse a encontrá-la de novo no Rio, exageraria minha frieza, requintaria na polidez superficial.

No entanto, ela pediria a tia Clarice o meu endereço. E uma tarde ouvi pelo telefone uma doce voz que me chamava de malcriado, de mufle, de monstro... Essa voz tornou nítida e tentadora na minha imaginação a imagem adorável.

- Não é possível explicar coisa alguma pelo telefone...

- Então desça ao Rio. Desça hoje.

- Não é possível! - gemi.

- Bom, nesse caso, vou eu...

Meu coração bateu deliciado. Lúcia, ali no Max Meyer, sozinha comigo, na noite fria de maio, exalando "Cesoirou jamais"... Súbito, uma covardia de complicações me invadiu. O major ia chegar de um momento para outro, descobrir, fazer um escândalo... Adeus, concurso! Não poderia apresentar-me ao concurso coberto de escândalo.

- Pelo último trem. Adeus.

-Alô? Ouça...

- Pelo último trem. Adeus.

Chirriou um beijo garoto e desligou. Já no resto daquele dia não pude trabalhar. Meu desejo era ir por ali, pelas ruas ermas, sob as árvores, absorvendo no ar úmido o contentamento de viver. Da janela, eu olhava com ternura o casario da cidade.

Os vilinos estavam fechados. Nos jardins abandonados havia hortências empalidecidas e rosas que se despetalavam. Ao sol brusco, seria bom ir à toa, com Lúcia pelo braço, fazendo projetos, dizendo tolices meigas, até que a noite nos encontrasse perdidos pelos caminhos da Westfalia ou da Cascatinha.

Em todo caso, ela viria - viria quando fosse tarde, pela noite adentro, e quando uma fria neblina envolvesse o sono da cidade, com os lampiões amortecendo nas esquinas, as águas do Piabanha correndo geladas entre os barrancos.

"Da natureza jurídica do navio. Sua individualização: nome, capacidade, domicílio e nacionalidade." Era odioso, o Direito Marítimo. Desci ao bar do hotel para ouvir gramofone e preparar a alma com um tango argentino.

À noite, pelo último trem como dissera, Lúcia irrompeu na plataforma da estação, descendo ágil do carro ainda em movimento, espalhando no ar "Ce soir ou jamais". Foi-me estendendo a boca e dizendo:

- Cínico!

Voltou ao Rio no dia seguinte muito cedo.

Tonto de êxtases prolongados, vaguei por Petrópolis, achando um acordo inefável entre a minha euforia e aquela bruma insinuante, que convida aos sentimentos delicados. Era amor que eu sentia? Qualquer coisa de inquietante, sim... O princípio da paixão... Ou era apenas a alegria do episódio? Não, devia ser amor, o grande e esperado amor...

Por trás dos morros, a claridade do sol ia-se tornando mais nítida, a bruma começava a esgarçar-se. Dentro de mim parecia haver também claridades nascentes. Até então eu supunha que o amor, o grande amor que aparece nos romances e nas lendas, só se alimentava de impossibilidades - pertencia ao nobre domínio da imaginação.

Parecia-me absurdo que ele sobreviesse à força dos sentidos, revelação nova. Todas as minhas noções, até aquela data, se resumiam, mesquinhas e fáceis, no verso mesureiro da "Ceia dos Cardeais":

A conquista era tudo, a posse quase nada.

Estava perplexo. Seria verdadeiramente o amor? Nesse caso, ele nascia depois... O que eu poderia chamar a conquista provocava-me um sentimento de pesar. Teria desejado que Lúcia fosse minha sem que eu mesmo percebesse como, por um milagre do qual não guardasse memória; que a nossa vida epidérmica tivesse começado na noite dos tempos, com o aparecer sobre a terra das primeiras flores, das primeiras vozes.

Por outro lado, o que o cardeal chamava a posse não era quase nada, era tudo. A forma ideal e definitiva da existência eram aquelas horas que eu vivera, primeiro na Rua Silva Manuel, depois no sobradinho do Max Meyer, momentos antes, quando a vida universal morrera para além de quatro paredes de um quarto - coberto de mapas dos cinco continentes inúteis.

Fonte:
Ribeiro Couto. Clube das esposas enganadas. Publicado em 1933.

Estante de Livros (Melhores contos, de Ribeiro Couto)

Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto, conhecido como Ribeira Couto, nasceu em Santos/SP, no dia 12 de março de 1898. Foi um escritor, jornalista, promotor e diplomata brasileiro. Escreveu poesias, contos, crônicas, ensaios e romances. É autor da obra "Cabocla", que foi adaptada para a televisão. Em 1912, estreou no jornalismo ao ingressar no jornal A Tribuna. Em 1915, mudou-se para a capital, para estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Colaborou com os periódicos “Gazeta de Notícias” e “A Época”. Nesse período, iniciou uma amizade com o poeta Manuel Bandeira. Em 1928, Ribeiro Couto viajou para Marselha, França, onde assume o cargo de vice-cônsul honorário. Em 1931 foi transferido para Paris, como adido junto ao consulado geral. Publicou 29 livros (contos, crônicas, poesias). Ribeiro Couto faleceu em Paris, França, no dia 30 de maio de 1963.

A maior parte dos contos de Ribeiro Couto foi escrita na mocidade, antes dos 30 anos, com títulos deliciosos e instigantes, que já dão uma ideia do universo do escritor: "A Casa do Gato Cinzento", "O Crime do Estudante Batista", "Baianinha e Outras Mulheres".

Depois de dobrar o cabo dos 40, publicou apenas um volume no gênero, Largo da Matriz. (Clube das Esposas Enganadas (1933) foi classificado pelo autor como novela). A maturidade, porém, não alterou as características do escritor nem tostou o frescor e a singeleza de suas histórias. Homem atento à riqueza do cotidiano, Ribeiro Couto dele extraiu o material de suas histórias, nas quais o realismo é atenuado pelo lirismo e a nota poética. Em alguns de seus melhores contos há um mal disfarçado sentimentalismo, sem que essa tendência comprometa a alta qualidade dos trabalhos.

Na velhice, ao prefaciar a antologia Histórias da Cidade Grande, Ribeiro Couto dividiu os seus contos em três grupos, de acordo com os assuntos e os ambientes. As "histórias da cidade grande" passam-se no Rio de Janeiro, quase sempre, abordam vidas em crise ("O Crime do Estudante Batista", "O Primeiro Amor de Antônio Maria") ou momentos de transgressão ao código de bom comportamento burguês ("Uma Noite de Chuva ou Simão", "Diletante de Ambientes"), estes vistos pelo escritor com um certo sarcasmo. Bem diverso são os tipos e episódios do ciclo de "histórias da cidade pequena" ("Baiano", "Largo da Matriz"). Por último, as "histórias de meninos" ("Bilu, Carolina e Eu"), as mais caras ao escritor, nas quais há provavelmente uma origem autobiográfica.

Situados em tempos e locais diversos, estes contos estão unidos pelo espírito e a técnica, a ternura, a ironia, a compreensão das fragilidades humanas e um certo fundo discreto, muito discreto, de desencanto.

Fontes:

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Versejando 89

 

Esopo (A Velha e o Médico)

Uma velha, que tinha ficado cega, chamou um médico e  disse-lhe:

- Cure-me da minha cegueira e eu  pago-lhe bem. Mas se não me curar, não pagarei nada. Concorda?

O médico aceitou. Todas as semanas vinha à casa dela e aplicava-lhe nos olhos um falso remédio sem qualquer valor. Mas, a cada visita, levava consigo alguma coisa da casa da velha. Acabou por levar tudo o que ela possuía.

Algum tempo depois, finalmente, o médico começou a tratá-la a sério e deu-lhe um remédio que a curou.

Quando a velha voltou a ser capaz de ver, viu que a casa estava vazia e que não poderia pagar ao médico. Este, para cobrar a dívida, levou-a a tribunal.

Diante do juiz, a velha declarou:

- Este homem fala a verdade. Concordei que lhe pagaria se recuperasse a visão. E ele concordou que eu não precisaria de lhe pagar se permanecesse cega. Agora ele diz que eu estou curada. Mas eu digo que continuo cega, porque quando perdi a visão a minha casa estava cheia de objetos que agora não consigo ver!

O juiz deu-lhe razão e a velha ganhou a causa.
 
Moral da História: Quem está pronto a ganhar o que não merece, também deve estar pronto a perder.

Fonte:
Fábulas de Esopo, disponível em FalaBarão

Gislaine Canales (Glosas Diversas) XXXIV

MEU SOL


MOTE:
Chegaste, assim, de repente
na minha vida vazia,
trazendo um sol ainda quente,
quando já entardecia.

Amália Max
(Ponta Grossa/PR, 1929 – 2014)


GLOSA:
Chegaste, assim, de repente

dando muito amor, a mim.
Tua imagem atraente
pôs, na nostalgia, um fim!

Colocaste muita vida,
na minha vida vazia,
a estrada triste e comprida
transformou-se em alegria!

O teu calor envolvente
aqueceu meu coração,
trazendo um sol ainda quente,
resplendente de afeição!

Revivi, então, meus sonhos!
Trouxeste a policromia
àqueles dias tristonhos
quando já entardecia.
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TARDE VAZIA

MOTE:
Domingo, tarde vazia
uma saudade no ar
e um cheiro de maresia
que vem distante do mar.

Humberto Del Maestro
(Serra/ES)

GLOSA:
Domingo, tarde vazia

de uma acinzentada calma.
Sinto nela (qual magia)
o vazio de minha alma!

Nessa tarde - solidão,
uma saudade no ar
faz pulsar meu coração,
que já nem sabe chorar!

Sinto findar o meu dia
numa tristeza sem fim,
e um cheiro de maresia
penetra dentro de mim!

Com meu olhar já cansado,
olho, sem nada enxergar!
Só há sombra do passado,
que vem distante do mar.
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LÁGRIMA DOCE

MOTE:
Bendigo a lágrima doce
da chuva que cai lá fora.
Bom seria se assim fosse
o pranto que a gente chora!

José Valdez de Castro Moura
(Pindamonhangaba/SP)


GLOSA:
Bendigo a lágrima doce

que na tarde, cai tranquila,
pois tua lembrança, trouxe,
e é muito gostoso ouvi-la!

Essa lágrima bonita
da chuva que cai lá fora
o meu coração agita
e manda a tristeza embora!

Com esse sabor agridoce
eu sinto a chuva com gosto,
bom seria se assim fosse
as lágrimas do meu rosto!

Que bom seria, se um dia,
nos caminhos, vida afora,
que fosse só de alegria
o pranto que a gente chora!
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CANTO AO DESENCANTO...

MOTE:
Liberto a paixão contida
seco as lágrimas do pranto...
e canto... à beira da vida
o meu canto ao desencanto...

Maria Lua
(Nova Friburgo/RJ)


GLOSA:
Liberto a paixão contida

deixo-a livre pelo espaço,
nessa lembrança sentida
do calor do teu abraço!

Quero me fazer feliz!
seco as lágrimas do pranto,
colorindo a tarde gris
com um punhado de encanto!

A esperança renascida
em minha alma, me faz bem,
e canto... à beira da vida
cantando a vida, também!

Peço ao vento do Universo,
que leve a todo recanto,
no carinho do meu verso,
o meu canto ao desencanto…
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DELÍRIO

MOTE:
No delírio encontro jeito
de negar esta existência:
No vazio do meu leito
cabe apenas tua ausência.

Wanda de Paula Mourthé
(Belo Horizonte/MG)


GLOSA:
No delírio encontro jeito

de diminuir minha dor,
pois o meu sonho foi feito
de sementeiras de amor.

É difícil, eu bem sei,
de negar esta existência:
as lágrimas que chorei
já não têm mais consistência!

Aperta a dor no meu peito,
e o olhar vai à procura
no vazio do meu leito
da tão sonhada ventura!

Nesse vazio profundo,
sendo de grande abrangência,
mesmo o maior desse mundo,
cabe apenas tua ausência.

Fonte:
Gislaine Canales. Glosas. Glosas Virtuais de Trovas XVI. In Carlos Leite Ribeiro (produtor) Biblioteca Virtual Cá Estamos Nós. http://www.portalcen.org. Março 2004.

Ernest Hemingway (O Velho na ponte)


Um velho usando óculos com aro de metal e roupas imundas de poeira estava sentado à beira da estrada. Um pontão cruzava o rio e por ele passavam carroças, caminhões, homens, mulheres e crianças. As carroças, puxadas por mulas, balançavam um bocado no esforço para subir a íngreme barranca após a travessia, com os soldados ajudando a empurrá-las pelos raios das rodas. À frente, abrindo passagem, iam os caminhões, deixando na traseira grande massa de camponeses que mal se deslocavam naquela terra macia que lhes cobria os tornozelos. O velho, entretanto, nem se mexia, continuava sentado ali. Estava cansado demais para prosseguir.

Minhas ordens eram as de cruzar o pontão e examinar as cabeceiras para descobrir até que ponto o inimigo avançava. Tendo-as cumprido, regressava à base, atravessando o rio em sentido contrário. Já não havia tantas carroças, nem tanta gente a pé. Mas o velho continuava ali.

— De onde é que você vem? — perguntei-lhe.

— De San Carlos! — respondeu, sorrindo para mim.

Era a sua cidade natal, e ele parecia orgulhar-se de mencioná-la.

— Quem tomava conta dos animais era eu. — explicou.

— Ah! — exclamei, sem entender muito bem o que ele queria dizer com aquilo.

— Sim! — continuou ele — Fiquei até o fim tomando conta deles e fui a última pessoa a abandonar a cidade de San Carlos.

Ele não me dava a impressão de ser um pastor, nem um boiadeiro. Examinei melhor sua roupa escura, imunda de poeira, seu rosto também empoeirado e aqueles estranhos óculos com aro de metal, e perguntei-lhe:

— Mas que animais eram?

— Vários animais. — respondeu, sacudindo desanimadamente a cabeça — Tive que abandoná-los…

Olhei então para a ponte improvisada e para aquela região do delta do Ebro, tão parecida com a África, perguntando-me quanto tempo correria até que víssemos o inimigo e mantendo os ouvidos atentos para os primeiros ruídos que pudessem assinalar esse acontecimento frequentemente misterioso a que chamamos contato. O velho, imóvel, continuava ali.

— Mas que tipo de animais eram eles? — insisti.

— Eram só três, — explicou — duas cabras e um gato. Isso sem falar em quatro casais de pombos.

— E você teve que abandoná-los?

— Sim, por causa da artilharia. O capitão me mandou sair dali, por causa da artilharia.

— Você não tem família? — perguntei-lhe sem tirar os olhos da cabeceira do pontão, onde algumas poucas carroças se apressavam em descer a ribanceira.

— Não. — disse-me ele — Somente esses animais de que lhe falei. Com o gato, naturalmente, tudo correrá bem. Um gato sempre cuida bem de si próprio, mas nem sei o que acontecerá com os outros.

— E quais são as suas ideias políticas?

— Não tenho ideia política de nenhum tipo. — respondeu-me — Sou um velho de 76 anos, percorri doze quilômetros até aqui e acho que não tenho forças para prosseguir.

— Este não é um bom lugar para ficar parado. — falei-lhe eu — Se esforçar-se um pouco mais, é quase certo que arranjará condução no lugar onde a estrada se vira para Tortosa.

— Vou descansar um pouco mais, depois irei. Para onde é que esses caminhões estão indo?

— Para Barcelona. — informei-lhe.

— Não conheço ninguém que more para esses lados, mas lhe agradeço muito pela informação. Muito obrigado, mesmo!

Olhou para mim com uma expressão vazia, desanimada, e depois, como alguém que deseja compartilhar suas preocupações, repetiu-me:

— Com o gato tudo correrá bem, estou seguro. Nem preciso inquietar-me com ele. Mas o que dizer dos outros? O senhor tem alguma ideia do que poderá ocorrer com eles?

— Acho que acabarão encontrando uma boa saída qualquer.

— Acha mesmo?

— Por que não? — respondi-lhe, continuando a olhar para a cabeceira do pontão, onde já não havia tráfego algum.

— Mas o que poderão fazer se houver fogo da artilharia, pois a mim mesmo obrigaram a dar o fora dali?

— Você deixou o pombal com as portas abertas?

— Deixei.

— Então, não há perigo. Eles voarão para longe.

— Sim, os pombos se salvarão… Mas e os outros? Nem quero pensar nisso!

— Bem, parece que você já descansou o suficiente e é melhor se pôr a caminho. Levante-se e comece a andar.

— Obrigado — agradeceu ele.

Levantou-se, balançou como um pêndulo e caiu para trás, sentando-se de novo na poeira.

— Eu cuidava dos animais — lamuriou-se.

Não se dirigia a mim, especificamente, e repetiu:

— Eu só tomava conta dos animais…

Não havia coisa alguma que eu pudesse fazer por ele àquela altura. Estávamos no Domingo de Páscoa e os fascistas avançavam na direção do Ebro. O dia estava de um cinza sombrio, com nuvens baixas no céu. Por isso mesmo não apareciam os aviões do inimigo.

Essa circunstância e o fato de os gatos serem capazes de cuidar de si mesmos eram tudo o que aquele velhinho poderia considerar boa sorte.

Fonte:
Conto publicado em 1938.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

A. A. de Assis (Saudade em Trovas) n. 18: Colombina

Colombina, pseudônimo de Yde Schloenbach Blumenschein

Prof. Garcia (Caderno de Trovas) 3

Busca teu sonho e sê bravo,
pois quem tenta a sorte a esmo,
torna-se cativo, escravo,
da escravidão de si mesmo!
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Casa de taipa, esquecida,
sem janela e sem portão...
Quanta saudade esculpida,
nas ruínas do teu chão!
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Com traços angelicais,
rompe outra flor entre nós;
Laura - orgulho de seus pais
e encanto de seus avós!
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Daquela casinha pobre,
rica de fé, na pobreza,
Deus faz dela o lar mais nobre:
Põe paz e pão sobre a mesa!
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Da velha praça, onde outrora,
fiz da infância uma ilusão...
Tudo que me resta agora
é a sombra da solidão!
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Em cada beijo roubado,
que roubo de ti, meu bem,
sinto o gosto do pecado
que um beijo roubado tem!
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Filho, mesmo na amargura,
dês o exemplo da candeia:
Quanto mais a noite escura
mais ela brilha e clareia!
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Lamparina sobre a mesa,
e em volta, os filhos e os pais!...
Que saudade da pobreza
dos meus antigos Natais!
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Lembro da humilde casinha,
pobre, nos seus rituais...
Onde Jesus sempre vinha,
benzer os nossos Natais!
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Meu verso aqui, não tem lume,
é simples, sem filigrana,
mas tem o doce perfume
do cheiro da jitirana*!
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Não há gesto nobre em vão;
que Deus se lembra do nome,
daquele que estende a mão
dividindo o pão que come!
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O inverno acaba a tristeza
do pó dos sertões bravios,
e os olhos da natureza
choram nos leitos dos rios!
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O mar bravo se avoluma,
se agita e depois desmaia,
pondo arabescos de espuma
nos pergaminhos da praia!
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Onde estás, doce quimera?
Essa espera me apavora...
Já voltou a primavera,
não voltaste até agora!
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O pôr do sol no sertão,
toda tarde, ao fim do dia,
dobra a cor da solidão,
aos pés da Virgem Maria!
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Parte a jangada a sonhar
aos sopros do mar imenso;
tremula um lenço no mar,
no cais acena outro lenço!
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Pelos chinelos guardados,
posso dizer quem tu és!...
Pois, os teus velhos calçados,
fotografaram teus pés!
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Pés chagados, mãos calosas,
no meu barco sem convés...
Prossigo ofertando rosas,
curando as chagas dos pés!
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Por que tantos rituais
de joelhos, aos pés dos templos,
se és entre pobres mortais
o exemplo dos maus exemplos?...
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Porteira velha!.., O rangido,
desta dor que te corrói...
E o teu passado esquecido
que, em teu presente, ainda dói!
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Prenderam-me!... E, escravizado,
eu sinto toda tardinha...
O mesmo passo apressado
da pressa em que você vinha!
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Que a inveja, eu nunca carregue,
nem faça o mal a ninguém;
infeliz de quem prossegue
pisando os pés de outro alguém!
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Que a velhice que nos guia
enriqueça a alma da gente,
pondo mais luz e poesia
no entardecer do poente!
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Que lindo pecado santo,
entre a rosa e o beija-flor!...
O beija-flor beijou tanto,
que os dois morreram de amor!
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Se a maldade segue os passos
das injustiças reais...
Pode até prender meus braços,
mas nunca os meus ideais!
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Segue a tua caminhada
e ama teus próprios desejos,
sem riqueza sobejada
com restos de outros sobejos!
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Sê neste Natal sem brilho,
que se esqueceu de Jesus...
Um pouco da luz do filho,
que ao padecer, se fez Luz!
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Só o inverno enxuga o pranto,
de uma seca no sertão...
Pois, com chuva, em cada canto,
brota uma vida no chão!
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Todo o orgulho que se pensa,
não passa de um falso orgulho
que o tempo, com indiferença
destrói sem fazer barulho!
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* Jitirana = é uma planta trepadeira que cresce em regiões tropicais e subtropicais do mundo. Conhecida popularmente como corda-de-viola. Muito rústica de rápido crescimento. Possui flores de coloração rosa com o centro arroxeado, tendo outras variedades. Por exemplo, a Jitirana-azul é uma trepadeira anual herbácea, de ramos pilosos, nativa do continente americano, ocorrendo em grande parte do Brasil. Adorna o cenário sertanejo crescendo sobre arbustos e cercas, com suas vistosas flores azuis de garganta branca, que trazem impressas uma “estrela-do-mar”., É considerada uma planta daninha ou que causa danos ao infestar áreas agrícolas.

Fontes:
Francisco Garcia de Araújo. Cantigas do meu cantar. Natal/RN: CJA Edições, 2017. Livro enviado pelo autor.

Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020.
Livro enviado pelo autor.

Jitirana Azul, flor do sertão in Focado em Você. 

Sammis Reachers (As "belgas"* de Claudinho)

* “Belga”: sujeitar à quebra

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Cláudio Pereira, de Claudinho, que é seu carinhoso apelido não tem nada. É um camarada muito sério e com pinta de brabo, embora no fundo daquele coração seja bem tranquilo. Mas não pise no calo dele.

Claudinho começou na Ingá como cobrador. Não queria ser motorista, e após alguns anos, surgiu a oportunidade de ser auxiliar de plataforma, que eram aqueles camaradas que ficavam nas estações (baias ou plataformas) da Alameda São Boaventura, no objetivo de auxiliar a população e o tráfego de ônibus. Dois anos se passaram, e Claudinho se rendeu: Foi para a escolinha (manobra) para se tornar motorista.

Certa feita, após sair da garagem com o ônibus, e já indo em direção ao bairro da Ilha da Conceição, onde trabalhava na linha 60 (Ilha da Conceição x Icaraí), o motorista Alan, amigo de Cláudio, lhe manda um "zap":

- Ô Claudinho meu amigo, você esqueceu a lanterna do seu carro acesa aqui, do lado de fora da garagem da empresa... E o pior; o alarme disparou, e fica tocando de cinco em cinco minutos...

Claudinho pensou rápido e se assustou. Era ainda oito da manhã, e ele só iria largar lá pelas quinze horas. E mais, havia acabado de pagar trezentos reais naquela bateria – que além de descarregar, corria o risco de estragar. Ele precisava fazer alguma coisa, mas como? Belgar o ônibus?

Aí ele se lembrou do validador. O validador, a máquina que fazia a leitura dos cartões eletrônicos dos passageiros (RioCard e as gratuidades) estava bem lento. Não era bem um defeiiiiiiiito, mas... Tinha que servir!

Chegando no ponto final da Ilha, Claudinho foi logo avisando ao despachante:

- Olha aí Paulinho, este validador está muito lento e assim não dá pra trabalhar não. Já me aborreci ontem à beça com essa porcaria, vou levar esse carro pra garagem para eles darem uma olhada.

E lá foi Cláudio. Mas havia um problema: Ao passar a mensagem de áudio pelo Whatsapp para Cláudio, Alan estava próximo ao inspetor da empresa, Gilson, que marotamente ouviu toda a conversa. Mesmo sem saber que Claudinho iria belgar, ele já imaginava que alguma coisa ele iria aprontar só pra vir desligar a lanterna do carro? que era seu xodó, comprado com muito suor e algumas lágrimas.

Ao adentrar com o veículo na garagem, como era de praxe, Cláudio o levou até os fundos, onde fica a oficina, e depois voltou andando para a portaria da empresa, onde se reuniam os funcionários. Lá, antes de Cláudio abrir a boca, Gilson mandou:

- Fala Cláudio! E aí, qual é a belga?

-A belga é o validador, Gilson. Está muito lento...

- Não, não. A belga do ônibus eu sei, eu estou falando da belga do seu carro lá fora, com a lanterna acesa e o alarme tocando...

Claudinho mais uma vez pensou rápido, e pelo sorriso irônico de Gilson, percebeu que ele desconfiava que a belga do ônibus era só pra poder desligar a lanterna de seu querido Corsa. Mas, sincero que era, não se fez de rogado:

- Olha Gilson, a belga de um é o validador, e ele está lento mesmo, a gente pode ir lá e fazer o teste. Agora, a belga do outro eu vou lá ver. Confesso que vim aqui foi mesmo por isso. Gilson, a bateria do meu carro me custou trezentos reais. Mesmo se você me der três dias de suspensão, pra mim sai mais barato do que eu comprar uma nova. Sou sincero, chefia, meu carro é prioridade. Vê o que o senhor vai fazer aí.

Gilson, um chefe sério mas no fundo possuidor de um bom coração, ao invés de repreender e mais, punir Claudinho, disse apenas:

- Eu gosto desse moleque, gosto desse moleque... Moleque sincero, moleque macho.

E assim Claudinho, que não é pilantra, mas de bobo também não tem nada, escapou de uma bela punição - e ainda salvou sua bateria novinha...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

Minha Estante de Livros (Livros de Escritores Indígenas do Brasil) 1


Tiago Hakiy
Awyató-Pót: Histórias indígenas para crianças


Awyató-pót: histórias indígenas para crianças é uma obra que se caracteriza pela bravura do povo Mawé, representada nos contos pela figura mítica que dá título ao livro. São quatro histórias.

A primeira história conta sobre o nascimento do curumim, fruto da união de uma índia metamorfoseada em cobra com um gavião real. Na segunda, é contada a valentia e o caráter de liderança de Awyató-pót que conseguiu negociar com a Surucucu a Noite para levá-la a sua tribo. Na terceira, o índio derrotou o monstro Juma, devorador de seus parentes e na quarta, em que Awyató-pót, já viúvo e dominado pelo ciúme que tinha da filha, é enganado pelo sapo O ók que desposou a moça.

As histórias de Awyató-pót podem ser lidas como as narrativas de aventuras singulares e imprevistas de um mito que sintetiza a cultura de um povo que, ao ser interpretado sob a visão microcósmica, nos ensina que a Humanidade, aqui e acolá, enfrenta os mesmos desafios: garantir a existência. As histórias contadas por Tiago Hakiy dão o recado do povo indígena Mawé: o desejo de aproximar o mundo mítico dos índios ao mundo das crianças da cidade.
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Mauricio Negro (org.)
Nós: Uma antologia de literatura indígena


Nesta belíssima antologia ilustrada, o leitor vai conhecer dez histórias contadas ou recontadas por escritores de diferentes nações indígenas.

A menina Yacy-May era tão especial que fez com que o sol se apaixonasse por ela, deixando a lua enciumada. O peixe-boi surgiu a partir da união de Guaporé, filho do grande chefe dos peixes, com Panãby’piã, filha do governante dos Maraguá, e sinalizou a paz entre os humanos e os peixes. A velha misteriosa Pelenosamo tem um dia a casa invadida por uma garota curiosa, que resolve investigar o que ela fazia com os galhos secos que sempre levava recolhia e não dividia com ninguém.

Essas são algumas prévias das histórias reunidas nesta antologia, contadas ou recontadas por escritores das nações indígenas Mebengôkre Kayapó, Saterê-Mawé, Maraguá, Pirá-Tapuya Waíkhana, Balatiponé Umutina, Desana, Guarani Mbyá, Krenak e Kurâ Bakairi.

Tratando dos mais diversos temas — dos mitos de origem às histórias de amor impossível —, as narrativas conduzem o leitor por situações e desenlaces muito próprios, sempre acompanhadas por um glossário e um texto informativo sobre o povo indígena de origem de cada autor. Esta é uma chance preciosa para todos aqueles que desejam entrar em contato com as raízes mais profundas de nossa cultura, ainda pouco valorizadas e respeitadas, por puro desconhecimento.
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Daniel Munduruku
A Caveira-Rolante, A Mulher-Lesma e outras histórias indígenas de assustar


“Os caçadores e o Duende Arranca-Olho”, “O doente de olhos postiços”, “Kanoé – A história do morcego”, “A mulher-lesma”, “A caveira rolante”, “As amantes feiticeiras são seis histórias de diferentes povos indígenas – Tukano, Ajuru, Macurap, Tembé, Karajá.

Segundo Daniel Munduruku, este tipo de história é narrado pelos adultos ou pelos mais velhos da aldeia, já que são os guardiões da memória de nossa gente. Não são narrativas apenas para amedrontar as crianças e os jovens, mas também são formas de ensinamento com os quais vão nos lembrando que não estamos sozinhos no mundo e que não podemos querer nos transformar em donos das coisas que criamos. E, embora sejam histórias de assustar, elas nos ajudam a compreender nosso lugar no mundo.

As histórias, permeadas de mistério, prendem a atenção pela maneira como são contadas e, ao mesmo tempo, possibilitam uma reflexão sobre a relação do homem com os outros seres da natureza.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Adega de Versos 58: Rita Mourão

 

Fausto Toloy (A pomba)

"Vai-se a primeira pomba  despertada…"
(Raimundo Correia)

Pássaros entram na casa de pessoas usualmente; por vezes quebram coisas: cristais, lustres, outros objetos  de decoração.

– Querido, entrou uma pombinha na suíte, acho que tá no banheiro, veja lá…

– Pardais entram sempre na copa pela porta…

Ela, a POMBA  esbaforida assenta em chuveiro, box, lustre, parapeito da janelinha…

– Pombinha, amiguinha, não quero te machucar! – trejeitos e tentativas ridículas do marido, que por pouco não  apanha o pássaro na cuba da pia, onde ficam duas penas.

– Viche, quase peguei, e agora querida que faço?

– Abra a porta de vidro do jardim de inverno, ok?

– Isso, boa ideia! - Após outras toalhadas a pomba sem enxovalhar nada com dejetos, limpa...VOA...VOA...VOA para o seu mundo de insofismável liberdade!

– Aqui, no meu mundo dos livros, olho a borda de Fernão Capelo Gaivota e me emociono ao lembrar- me desta leitura há muitos anos no passado.

Fonte:
Texto enviado pelo author.

Lygia Fagundes Telles (A Estrela Branca)

 
Ah, meu Deus, meu Deus, como poderei contar todo esse horror se tenho a boca seca como se tivesse engolido um punhado de areia e se as minhas mãos estão geladas como as mãos dos afogados?! É a realidade ou um pesadelo? Desde quando estou assim rodando desgovernado feito um pião com as palmas das mãos comprimindo com força os meus olhos — espera, eu disse os meus olhos?…

Espera, calma, um pouco de calma e saberás tudo, vamos pelo começo, foi há dois meses que assim tateante e apoiado numa bengala cheguei a esta ponte, um cego mas um cego orgulhoso, nunca quis ter aquele cão-guia que vai indo assim na frente silencioso e triste, ah! querem tanto se libertar e a libertação dos guias e dos cegos só pode ser a morte.

Naquele dia, tomado por uma alegria quase insuportável consegui chegar a esta ponte e fiquei ouvindo as águas tumultuadas do rio correndo lá embaixo e que me chamavam, Vem!… Para não despertar a atenção dos passantes eu pousei a minha bengala no chão, segurei no gradil de ferro e cheguei a sorrir tão feliz como naquela minha última noite em que vi a minha estrela branca pela última vez, palpitando lá no céu, estava tão próxima que se estendesse a mão poderia segurá-la, ah! era linda essa última visão antes de mergulhar nesta treva. Dormi feliz e quando acordei não enxerguei mais nada e então comecei a gritar, Estou cego, estou cego! E as pessoas em redor pensando que eu tinha enlouquecido, antes fosse loucura mas era mesmo a cegueira. Fui levado para o hospital e durante um ano os médicos tão atônitos quanto eu mesmo tratando deste cego sem solução e sem explicação, os dias, os meses correndo e aquele espanto, aquela perplexidade… Então pensei, Não quero isto, não quero! e de repente resolvi fugir. Lembrei-me daquele rio correndo tumultuado e que seria a minha libertação. Fugi do hospital e perguntando e tateando pelas ruas quase gritei de alegria quando a voz do rio foi ficando mais próxima, mais próxima e me chamando, Vem!

Poucos passantes na ponte e assim tentei fazer uma cara tranquila quando pousei a bengala no chão e me agarrei ao corrimão de ferro, Agora, já! Sussurrei crispado como um gato antes de saltar. Foi então que alguém me agarrou pelo braço. Voltei-me enfurecido, e então?!… Quem vinha se intrometer, quem?!… O desconhecido — era um homem — apanhou a bengala no chão e disse com voz tranquila: “Boa tarde!” Crispei a boca, baixei a cabeça. Não respondi e ele ainda me segurando, ah! Mas o que significava isso? Respirei de boca aberta, calma! Fiquei repetindo a mim mesmo. E se ele resolvesse chamar a polícia? Deve ser proibido se matar, hein?! A mão que me segurava era forte, vigorosa. Levantei a cabeça e tentei sorrir: “Quer ter a bondade de me soltar?” – eu pedi. Ele afrouxou a mão e em voz baixa, para não chamar a atenção dos passantes disse que eu adiasse o suicídio, era possível adiar o suicídio? Dilatei as narinas e pensei, ele devia ser um médico, cheirava a hospital.

— Médico?

— Doutor Ormúcio — ele respondeu baixando o tom de voz. — Há quanto tempo está cego?

Ah! meu Deus, meu Deus, quer dizer que ia começar tudo de novo?! Ele tinha aquele mesmo tom obstinado dos médicos lá do hospital, ah, sim, eu conhecia bem essa raça, melhor ir com calma, decidi e devo ter sorrido porque senti que ele sorriu também.

— Faz um ano, doutor. Pela última vez vi no céu uma estrela e depois dormi e quando acordei não vi mais nada. Fui levado para o hospital e lá fiquei internado, especialistas me trataram, me viraram do avesso e nada, nada, continuava cego. Então eu pediria agora que seguisse seu caminho e me deixasse em paz, agradeço a intervenção mas largue do meu braço, por favor, e me deixe. É pedir muito?

— Mas há quanto tempo?…

— Estou cego? Há mais ou menos um ano, está satisfeito? Agora adeus, doutor. Siga o seu caminho e seguirei o meu, gratíssimo e adeus!

Ele aproximou-se mais. Falou com a boca quase encostada ao meu ouvido.

— Acontece que andei fazendo algumas descobertas importantes, está me escutando? Você não tem nada a perder, é jovem ainda, quantos anos?

— Trinta e dois.

— Ótimo! Se o meu tratamento falhar, voltará aqui, as águas esperam, este rio não vai desaparecer… O tratamento não será dolorido, isso eu prometo. E não precisará me pagar, serei belamente recompensado com o sucesso dessa operação… Está claro?

— Claríssimo! — eu sussurrei.

Ele fez uma pausa. Senti seu olhar atento. Tentei relaxar, Calma! pedi a mim mesmo. O intruso parecia bem-intencionado, era melhor relaxar e assim quem sabe ele me deixaria em paz.

— Tem família? — perguntou.

— Não. Sou só, não tenho nada a não ser a solidão e esta treva. Agradeço de coração a sua proposta, vou pensar nela e agora, se me permite eu me despeço muito grato pelo seu interesse doutor…

— Doutor Ormúcio. Moro só com o meu empregado. Venha comigo e conversaremos melhor, não vai se arrepender, a morte pode esperar, concorda?

Deixei-me levar como uma criancinha. “Esta é a minha casa, e este é o meu empregado”, ele disse quando chegamos. O empregado era um homem ainda jovem, de voz mansa. Parecia estar habituado às singularidades do patrão porque não demonstrou nenhuma surpresa quando Ormúcio pediu-lhe que preparasse o quarto para o hóspede.

Foram dias calmos, eu estava indiferente, apático e foi sem nenhuma emoção que ouvi Ormúcio me dizer depois de um prolongado exame que eu estava em condições de ser operado. “Ah, é uma operação?” eu disse. Ormúcio confirmou e daí por diante não estivemos mais juntos, ele passava o tempo todo no consultório ou no hospital e eu já pensava em fugir quando certa manhã ele entrou no meu quarto.

— Hoje vamos para o hospital.

Nesse instante a ideia de enxergar novamente sacudiu-me com violência. Poderei descrever aquele tempo que antecedeu à operação? “Não me faça perguntas!”, Ormúcio ordenava. E eu obedecia, verdadeiro autômato nas mãos daquele homem que ora se me afigurava um deus, ora um demônio, impenetrável como a própria escuridão. Fui um desses bonecos de mola esquecido num canto e que de repente alguém se lembrou de dar corda e a corda foi excessiva, tudo se embaralhou e me descontrolei numa volúpia de movimentos que já era uma alucinação. No meu peito arfante o desespero e a esperança num rodízio enlouquecedor, às vezes eu me sentia rolando no espaço sem direção e sem socorro. Mas de repente um jorro de luz me inundava e eu me preparava para “aquilo” com o entusiasmo de um menino a se aprontar para uma festa. Já nem fazia mais ideia há quanto tempo estava internado à espera quando de repente, numa madrugada — devia ser madrugada — Ormúcio aproximou-se.

— Venha comigo.

Obedeci em silêncio, habituado a fazer o que me ordenavam sem perguntar “por quê”. Conduziu-me por um longo corredor que achei frio e deteve-se diante de uma porta. Segurou no meu braço.

— Ele sabe que vai morrer logo, falência múltipla dos órgãos — sussurrou-me e pela primeira vez notei um leve tremor na sua voz. — Creio que não passa de amanhã… Ele me pediu para falar com você, antes ele quer falar com você.

— Ele quem?

Silêncio. Comecei a tremer porque de repente senti que alguma coisa terrível ia ser revelada e assim todo o meu ser se inteiriçava na expectativa “daquilo” que meus sentidos pressentiam. Estaquei resfolegante como à beira de um abismo.

— Ele quem? — repeti num sopro de voz. — Quem é que quer falar comigo antes de morrer?

— Ele… O homem de quem você vai herdar os olhos.

Encostei-me à porta para não cair. Então era isso, era isso. Meus olhos iam ser arrancados e nos buracos seriam colocados os olhos daquele homem que estava morrendo. O moribundo me fazia presente dos olhos, eu ia herdar um par de olhos!

Desatei a rir e logo o riso se transformou em soluços.

— Vamos, nada de cenas, acalme-se! — Ormúcio ordenou a sacudir-me com força. — É um mendigo, há meses está internado aqui. Naquela tarde em que impedi seu suicídio eu já estava pensando nele, nos olhos dele que são perfeitos e que poderiam servir para alguém. Nem eu nem ele, nós não queremos nada em troca, ele se contenta em lhe ceder os olhos e eu serei pago com o sucesso da operação. Compreendeu agora?

Fiz que sim com a cabeça. Compreendia tudo e estava de acordo com tudo, como não havia de estar de acordo? Eu queria enxergar, não era isso? E para enxergar, usaria de todos os meios, fossem quais fossem. Enxuguei o suor que me empastava os cabelos e entrei no quarto. No silêncio, só se ouvia uma respiração ansiosa. Inclinei-me. Senti um hálito fétido.

— É este? — uma voz áspera perguntou voraz. Era tão asqueroso o bafo que vinha daquelas cobertas e tão desagradável aquela voz que instintivamente recuei.

— Sim, ele é bem jovem! — prosseguia a voz sem esperar pela resposta. Havia nessa voz um tom de insuportável alegria. — Quer dizer que viverei muitos anos ainda! Muitos anos!

Continuei calado, voltando o rosto para não sentir mais o bafo que vinha em lufadas do meu benfeitor. Ah, benfeitor, benfeitor!… Se eu soubesse, meu Deus! Que ridícula soa agora esta palavra, benfeitor! Decerto ele está delirando, pensei e só mais tarde aquelas frases voltaram cheias de sentido, verdadeiras hienas a devorarem a paz do meu coração.

— Se você não fosse tão jovem eu não lhe daria meus olhos — exclamou o moribundo apertando avidamente a minha mão. — Meus cabelos caíram, meus dentes caíram, minha carne murchou, de toda esta ruína, só os olhos se salvaram. Pois fique com eles e bom proveito!

Ormúcio impeliu-me para o corredor e fechou apressadamente a porta do quarto mas ainda pude ouvir atrás a voz triunfante:

— Continuarei em você! Continuarei!

Fomos para o jardim. Ormúcio acendeu um cigarro e colocou-o entre meus dedos.

— Não imaginei que ele começasse a delirar justamente na hora em que você… Enfim, passou — disse Ormúcio secamente.

Deixei cair o cigarro e aspirei o perfume fresco da folhagem orvalhada. A voz medonha, o hálito repugnante, tudo aquilo parecia agora pertencer a um pesadelo.

— A última coisa que meus olhos viram foi uma estrela branca cintilando no céu, a minha estrela! Da cama, eu a via sempre pela janela aberta. Naquela noite ela se apagou. Aceito tudo para vê-la novamente.

Dessa operação e dos dias que se seguiram nada poderei dizer porque minha memória partiu-se em mil pedaços assim como um espelho. Sei que certa manhã ouvi a voz sussurrante de Ormúcio segredar a um colega: Amanhã saberemos!

Um tremor violento sacudiu-me todo. E quando veio a enfermeira da noite avisando que as bandagens seriam retiradas, pedi-lhe que saísse um pouco do quarto, eu queria ficar só para rezar. Ela obedeceu. Então sentei-me na cama e freneticamente fui arrancando as gazes, arrancando tudo… A princípio, ainda o negrume! E eu já ia desabar sobre mim mesmo dilacerando-me quando aos poucos um armário branco, um crucifixo, uma cadeira começaram a emergir das sombras, vagamente, meio dissolvidos como os destroços de um naufrágio. Vieram à tona, à tona… dançaram na minha frente indecisos sob um véu de lágrimas. Depois foram se firmando. E se fixaram.

Sufoquei um grito. E delirando de alegria, saltei do leito e escancarei as janelas, era noite, era noite. E a minha estrela? Quis saber, erguendo a cara para o céu, queria vê-la de novo, branca e cintilante, ela que se tornara cinzenta, onde estará, onde?

Foi nesse instante que o horror começou, ah, mas de que modo explicar a hediondez da minha descoberta? Ergui a face para o céu, ergui a face mas os olhos… os olhos não obedeciam. Quero olhar a estrela, a estrela! Repeti mil vezes num esforço desesperado. E os olhos baixavam obstinados para o jardim como se fios poderosos os dirigissem para o lado oposto daquele que minha vontade ordenava. Como descrever o horror que senti? Como explicar minha cólera ao verificar que fora enganado, miseravelmente enganado porque nunca aqueles olhos seriam meus! Que me adiantava tê-los herdado, ter-lhes dado vida se eram independentes, se não me obedeciam?

Penso que jamais poderei reproduzir as tentativas alucinadas que fiz naquelas horas para arrancá-los da força medonha que os mantinha na direção oposta daquela que eu determinava, insolentes, livres. Tentei fechá-los, mas esbugalhados como se quisessem saltar, eles rodaram nas minhas órbitas como dois piões num rodopio enlouquecedor e agora se divertiam à minha custa, riam-se de mim naquela brincadeira infernal. Corri para o espelho. Na minha cara pálida e encovada, só os olhos do morto pareciam ter vida, tão brilhantes quanto cruéis. E se deliciavam em me examinar com uma expressão triunfante, gozando o contraste que faziam com o meu rosto retorcido pelo horror. Eu continuarei em você! Não foi o que disse o monstro asqueroso?

Cobri a cara com as mãos. Ormúcio triunfara porque a operação fora um sucesso, o morto também triunfara porque continuava vivendo dentro das minhas órbitas, mas e eu?!

Sorrateiramente, antes que o sol raiasse fugi do hospital saltando pela janela. Ormúcio ficaria na dúvida, era esta a minha paga, ele não saberia jamais se fracassara ou não. E do morto, como vingar-me dele?

Aqui estou no mesmo lugar de onde Ormúcio me arrastou para a sua experiência. Agora os olhos ficaram obedientes, me atendem, ah! Eles me obedecem, vejo o que quero, estas águas que são mais escuras e turbulentas do que eu imaginava, vejo as nuvens, vejo uma criança correndo lá longe… Eis que agora os olhos me obedecem apavorados porque descobriram meu plano, sabem por que fugi do hospital e por que vim a esta ponte, eles sabem! E já não zombam de mim, não, não zombam mais, sabem que me sepultarei no negrume das águas, desaparecerei como a minha estrela sepultada no negrume do céu, ela e eu teremos o mesmo destino. Agora não posso deixar de rir, de gargalhar até perder o fôlego porque tudo está sendo muito engraçado! O morto queria viver à minha custa, dono de mim! Só que ele não contava com isso, agora sou eu que me rio dele e ainda estarei rindo até o instante em que os seus olhos monstruosos se dissolverem nas águas como duas miseráveis bolotas de miolo de pão.

Fonte:
Lygia Fagundes Telles. Um Coração Ardente. Cia das Letras, 2012

Francesco Petrarca (Poesia sem Fronteiras) 2


SONETO LX


Louro gentil que amei por tantos anos,
enquanto o teu desdém não me feria,
minha arte à tua sombra refloria,
débil, crescendo em meio aos desenganos.

Depois, seguro eu já de tais enganos,
de doce a duro lenho passaria,
e para um alvo só se voltaria
minha mente: cantar seus tristes danos.

Que há de dizer quem por amor suspira,
se outra esperança os versos meus renove
ultimamente, e enfim por ti a perde?

Poeta nenhum te colha mais, nem Jove
tenha esse privilégio, e do Sol a ira
seja tal que te seque a rama verde.
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SONETO LXV

Em mim, triste, a lembrança mal se anima
do dia em que a ferir-me veio o Amor,
passo a passo tornando-se o senhor
do meu viver, que comandou de cima.

E não supus, frente ao seu brio e estima,
que falho de firmeza e de valor
fosse o meu peito, esperto já na dor:
e eis o que ocorre a quem o subestima.

Doravante, qualquer defesa é tarda,
senão mesmo provar se muito ou pouco
dói ao Amor o nosso humano rogo.

Não peço já (que tal pedido é louco)
que suportavelmente o peito me arda,
mas que uma parte tenha ela do fogo.
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SONETO XCIII

Escreve — o Amor me disse, imperativo,
tanta vez — o que viste em letras de ouro:
e como a quem me segue descoloro,
deixando-o ao mesmo tempo morto e vivo.

Que o sentiste em ti mesmo, disjuntivo,
dá como exemplo ao amoroso coro;
e que alhures buscaste outro tesouro,
mas te alcancei tão logo, fugitivo.

Se os olhos belos em que me mostrei
e lá onde era o meu gentil reduto,
quando abri do teu peito a fortaleza,

o arco me dão que tudo o mais despreza,
talvez não tenhas sempre o olhar enxuto,
que do pranto me nutro, e o sabes bem.
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SONETO CXXXII

Se amor não é, que é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa, e qual?
Se boa, por que o efeito é assim mortal?
Se má, por que é tão doce o seu tormento?

Se ardo em querer, por que choro e lamento?
Se não, por que tais queixas, afinal?
É morte viva, ou deleitoso mal?
Como cresce ele em mim, se não o aguento?

E, se o aguento, por que me dói, tão fero,
e entre contrários ventos, frágil barco,
derivo em alto mar, já sem governo?

Pesado de erro, e de sapiência parco,
que eu mesmo já não sei bem o que quero,
e tremo no verão, e ardo no inverno?
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SONETO CCXXVI

De pássaro mais triste e contrafeito
não sei, ou de animal em bosque ameno,
do que eu, se desse belo olhar me alieno,
que é meu sol e meu único sujeito.

Sempre chorar é meu sumo deleito:
dor o riso, e o alimento só veneno,
cuidado a noite, e fosco o céu sereno,
e duro campo de batalha o leito.

Da morte o sono é irmão, como se diz,
de fato, pois subtrai ao coração
esse doce pensar que o aviva e impele.

Torrão no mundo fértil e feliz,
margem florida e plácido rincão
só vós possuís; e eu choro, longe dele.


Fonte:
Francesco Petrarca. O Cancioneiro. Original de cerca de 1370.

Rubem Fonseca (Devaneio)

Os professores me chamavam de estrábico. Mas os meus colegas da escola me chamavam — pelas costas, é claro — de caolho, zarolho, mirolho.

Certa ocasião eu fui falar com uma garota e ela olhou para mim e caiu na gargalhada. Sofri muito com aquilo. E passei a andar à sorrelfa, para que não percebessem o meu defeito. Nunca mais olhei o meu rosto num espelho. Fazia a barba no chuveiro, o que aliás era uma boa ideia, água quente — eu tomo banho com a água fervendo — amacia os pelos do rosto e a raspagem é fácil e perfeita.

Fui ao oftalmologista, o doutor Cobra. O nome dele era Cobra. Não estou inventando. E qual o problema do sujeito se chamar Cobra? Não tem gente que se chama Barata, Leitão, Camarão, Aranha, Carneiro, Café? Eu podia arrolar aqui dezenas de nomes estranhos. Ele me examinou longamente e disse:

“O seu caso é raro, a sua síndrome é dificilmente encontrada em outra pessoa. E não tem cura.”

“E uma cirurgia, doutor?”

“Qualquer cirurgia deixaria você irremediavelmente cego.”

“E o que o senhor me aconselha para diminuir esse meu sofrimento?”

“Usar óculos escuros. Bem escuros. Assim ninguém percebe a sua anomalia ótica.”

Nesta mesma ocasião os meus pais faleceram, num desastre de automóvel. Meu pai, que também era estrábico, estava dirigindo.

“O estrabismo”, o doutor Cobra me disse, “não é genético, você e o seu pai sofrerem do mesmo problema é uma mera coincidência”.

Herdei dos meus pais bens suficientes para uma vida inteira. Comprei os óculos escuros, saí da escola, nunca mais procurei o doutor Cobra.

Eu não tirava os óculos escuros para nada. À noite, quando ia dormir, apagava a luz e colocava os óculos na mesinha de cabeceira. Eu tinha oito pares de óculos, não queria correr o risco de ficar sem um deles. Eu nunca mais, repito, nunca mais olhei o meu rosto no espelho sem os óculos.

Eu gostava de andar pelo parque, próximo da minha casa, e costumava sentar-me num dos bancos para ficar olhando as pessoas passarem. Confesso que os óculos estavam me fazendo bem, eu já não via mais as coisas como antes, de maneira distorcida.

Entre os transeuntes da praça um chamava a minha atenção. Era uma jovem muito bonita, elegante, a quem eu contemplava, sem que ela percebesse, pois os óculos escuros o permitiam.

Chegando em casa ficava pensando nela, principalmente ao deitar. Eu a via com nitidez caminhando pela praça, e quando o sono me dominava eu sonhava com ela.

Um dia eu estava sentado no banco quando vi, feliz, ela se aproximando. Para minha surpresa ela se sentou ao meu lado.

“Nós sempre nos encontramos e nunca nos falamos. O meu nome é Helena.”

Disse isso estendendo a mão para mim. Eu a cumprimentei dizendo:

“O meu é José, mas os meus pais me chamavam de Zé.”

“Então também vou chamá-lo de Zé. Posso?”

“Claro.”

“Felizmente o sol já se pôs. Eu adoro o pôr do sol, você também? E quando vai tirar esses óculos escuros?”

Fiquei trêmulo, escondi as mãos enfiando-as no bolso.

“Tenho que ir embora, lembrei agora que estou atrasado para um encontro importante.”

Saí apressado, creio mesmo que corri esbaforido.

Nunca mais fui passear na praça.

Passaram-se uns meses, e um dia eu estava tomando um cafezinho — confesso que sou um viciado em café, o meu único vício —, quando senti um toque no meu ombro.

Era Helena.

“Você sumiu. Tenho ido todos os dias à praça para ver se o encontro, mas não tenho tido esse prazer. Pensei que você gostasse de mim.”

“Eu gosto... muito...”, gaguejei.

“E por que desapareceu? Isso me deixou muito triste.”

Criei coragem e decidi falar a verdade.

“Por quê? Por quê? Por isso!”

Tirei os óculos e olhei Helena de frente.

“Você tem olhos lindos.”

Ela devia estar escarnecendo, nada se iguala à maldade das mulheres! Havia vários espelhos no botequim. Olhei num deles. O meu estrabismo desaparecera! Se eu fosse uma pessoa religiosa acreditaria num milagre.

Bem, devo confessar que nada disso ocorreu. Foi mais um sonho. Eu encontrar a moça na praça foi um sonho. E qual é o problema?

O sonho, para a ciência, é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono. Em diversas tradições culturais e religiosas, o sonho aparece revestido de poderes premonitórios ou até mesmo de uma expansão da consciência.

Aquele sonho era um presságio? Iria ocorrer o que eu sonhei?

Fonte:
Rubem Fonseca. Histórias curtas. RJ: Nova Fronteira, 2015.

domingo, 21 de novembro de 2021

Varal de Trovas n. 535


 

Contos e Lendas do Mundo (O Saci)

Carolina Ramos
(Santos/SP)

SACI-PERERÊ


Saci-Pererê... O moleque atrevido!
Só tendo uma perna, veloz como o vento,
faz mil peraltices sem ser pressentido...
- Transforma a quietude da noite em tormento!

Dispara a boiada... Galopa e extenua
os pobres cavalos... e a crina lhes trança!
Cachimbo na boca... nas noites de lua,
remoinha a poeira na trêfega dança!

Se alguém, de surpresa, um dos gorros vermelhos,
consegue roubar... E, com sorte, reter...
terá como escravo o Saci de joelhos
que, sem o capuz, perde o mago poder!

Não raro, o Saci pode ser caluniado!
Se às vezes o culpam do extremo alvoroço,
nem sempre de tudo, em verdade, é culpado...
Do mal, talvez, seja até pálido esboço...

pois... há muita gente, de pele bem alva,
que tem duas pernas... cachimbo nem vê,
que bole com tudo... nem santo salva!
E é muito pior... que um Saci-Pererê!
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O saci, também conhecido como saci-pererê, saci-cererê, matimpererê, matita perê, saci-saçurá e saci-trique, é um personagem bastante conhecido do folclore brasileiro. Tem sua origem presumida entre os indígenas da Região das Missões, no Sul do país, de onde teria se espalhado por todo o território brasileiro.

A figura do saci surge como um ser maléfico, como somente brincalhão ou como gracioso, conforme as versões comuns ao sul.

ETIMOLOGIA
Três termos são importantes: "saci" é oriundo do termo tupi "sa'si". "Matimpererê" é oriundo do termo tupi "matintape're". O termo "pererê" é oriundo do termo tupi "pererek-a", que significa "ir aos saltos".

REPRESENTAÇÃO
O saci é um jovem negro de uma perna só, portador de uma carapuça sobre a cabeça que lhe concede poderes mágicos. Sobre este último caractere, é de notar-se que, já na mitologia romana, registrava Petrônio, no Satíricon, cujo píleo também conferia poderes ao íncubo e recompensas a quem o capturasse.

Considerado uma figura brincalhona, que se diverte com os animais e pessoas, fazendo pequenas travessuras que criam dificuldades domésticas, ou assustando viajantes noturnos com seus assovios – bastante agudos e impossíveis de serem localizados. Assim é que faz tranças nos cabelos dos animais, depois de deixá-los cansados com correrias; atrapalha o trabalho das cozinheiras, fazendo-as queimar as comidas, ou ainda, colocando sal nos recipientes de açúcar ou vice-versa; ou aos viajantes se perderem nas estradas. A ele é atribuída também a capacidade de ser carregado por redemoinhos.

INFLUÊNCIAS HISTÓRICAS

INDÍGENA
As entidades protetoras da floresta Jaci Jaterê da cosmologia guarani e o Kambaí da cosmologia caingangue são possíveis influências na concepção do Saci.

AFRICANA
Uma lenda iorubá descreve Aroni, um gnomo de uma perna só que ensina a Oçânhim sobre o uso de ervas medicinais pode ter influenciado a concepção do Saci. Outros relatam Oçânhim e Anoni como a mesma entidade.

PORTUGUESA
Da mitologia portuguesa, o saci herdou o píleo, um gorrinho vermelho usado pelo lendário trasgo. Trasgo é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, especialmente da região de Trás-os-Montes. Rebeldes, de pequena estatura, os trasgos usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais.

De Portugal para o Brasil veio a crença da explicação sobrenatural sobre redemoinhos, de que seriam guiados por uma "coisa ruim" e que poderiam arremessar pessoas. Foi documentada essa crença no Brasil, paralelamente a crença da ligação entre o Saci e redemoinhos.

NAS MÍDIAS CONTEMPORÂNEAS
O saci se tornou presente nas artes brasileiras a partir de 1917, em publicação por Monteiro Lobato em jornal de pesquisa sobre crenças sobre a figura.

LITERATURA

O primeiro escritor a se voltar para a figura do saci-pererê foi Monteiro Lobato, que realizou uma pesquisa entre os leitores do jornal O Estado de S. Paulo. Com o título de "Mitologia Brasílica – Inquérito sobre o Saci-Pererê", Lobato colheu respostas dos leitores do jornal que narravam as versões do mito, no ano de 1917. O resultado foi a publicação, no ano seguinte, da obra O Saci-Pererê: resultado de um inquérito, primeiro livro do escritor.

Mais tarde, em 1921, o autor voltaria a recorrer ao personagem, no livro O Saci, seu segundo trabalho dedicado à literatura infantil.

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
O quadrinista Ziraldo criou em 1958 a série de histórias em quadrinhos A Turma do Pererê, em que o Saci contracena com o índio Tininim, a onça-pintada Galileu e outros personagens. As histórias foram originalmente publicadas na revista O Cruzeiro.

Saci aparece em várias histórias da Turma da Mônica de Mauricio de Sousa e em histórias brasileira dos quadrinhos Disney.

CINEMA E TELEVISÃO
O primeiro ator a representar o papel foi Paulo Matozinho, no filme O Saci, adaptado do livro infantil de Lobato. A produção de 1951 da Brasiliense Filmes foi dirigida por Rodolfo Nanni.

Na televisão, as séries que adaptaram a obra de Monteiro Lobato em 1977 e 2007 tiveram Romeu Evaristo e Fabrício Boliveira, respectivamente, interpretando o personagem. O cantor Jorge Benjor também encarnou o saci no especial Pirlimpimpim, de 1982. Em Pirlimpimpim 2, de 1984, foi a vez de Genivaldo dos Santos vestir a carapuça.

Na adaptação para a tevê das histórias de Ziraldo, o papel de Pererê coube a Silvio Guindane.

MÚSICA
Em 1912, o compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos escreveu a marcha "Saci", quinta parte da sua suíte para piano "Petizada" (W048). A composição, assim como as outras da mesma peça, é inspirada no folclore musical brasileiro.

Francisco Mignone também deu o nome de "Saci" à sexta parte dos seus "Estudos Transcendentais" para piano, de 1931.

O maestro Edmundo Villani-Cortes voltou a lhe dar vida em obras como "Primeira folha do diário do saci" (para piano, 1994), "Terceira folha do diário de um saci" (para flauta, 1992) e "Sétima folha do diário de um saci" (para contrabaixo, 1992).

Na música popular, a primeira referência ao personagem data de 1909, ano da composição de "Saci-Pererê", de Chiquinha Gonzaga, gravada pela dupla Os Geraldos. Em 1913, foi a vez de "Saci", uma polca de J.B. Nascimento gravada pelo Sexteto da Casa. Gastão Formenti também gravou duas músicas intituladas "Saci-Pererê": uma toada de Joubert de Carvalho, em 1918 e uma canção de J. Aimberê e Bide, em 1929.

Nas décadas seguintes, outros artistas recorreram ao tema, como "Teu olhar é um Saci", de Cipó Jurandi e Décio Abramo, 1930; "Saci-Pererê", de J.B. Carvalho, 1932; "Saci-Pererê", de Ivani, 1949; "Saci", baião de Antônio Bruno e Ernesto Zwarg, 1956).

No especial "Pirlimpimpim" (1982), a canção para o personagem ficou por conta de Jorge Benjor ("Saci Pererê". A terceira versão do Sítio para a tevê incluiu, na sua trilha, "Pererê Peralta (saci)", de Carlinhos Brown (2001) e "Eu vi o Saci", de Marcos Sacramento e Izak Dahora (2006).

Na música instrumental, as principais referências são o violonista Carlinhos Antunes ("Saci-Pererê", 1996), a banda Terreno Baldio (Saci-Pererê, 1977), Guilherme Lamounier ("Saci-Pererê", 1978) e o Quarteto Pererê ("Polka do Sacy" e "Liberdade Pererê", ambas no álbum "Balaio", 2010) [27]. O Quarteto Pererê já havia apresentado, em 2005, o espetáculo Saci Armorial, em que fundia a lenda com o universo literário do escritor pernambucano Ariano Suassuna [28].

Uso do nome nas ciências
Em 2013, uma nova espécie de anfíbio anuro (Adenomera saci[30]) foi descrita do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no estado de Goiás. O nome dado à espécie faz alusão à vocalização da espécie, que é um assobio curto e intermitente, e pela dificuldade de se observar indivíduos da espécie cantando, que podem ser elusivos, como atribuído ao saci na cultura popular: "...ele assobia para assustar e confundir os viajantes noturnos, a origem dos assobios impossível de ser localizada...".

Em 2001, uma nova espécie de dinossauro ornitísquio foi descoberta em Agudo, no Rio Grande do Sul. Como o fóssil foi encontrado sem o fêmur esquerdo, recebeu o nome de Sacisaurus agudoensis.

DIA DO SACI
Em 2005, foi instituído o Dia do Saci no Estado de São Paulo, a data também é celebrado em Vitória (Espírito Santo); Poços de Caldas e Uberaba (Minas Gerais); Fortaleza e Independência (Ceará) comemorado no dia 31 de outubro, a fim de restaurar as figuras do folclore brasileiro, em contraposição a influências folclóricas estrangeiras, como o Dia das Bruxas.

Fontes:
- Poesia Saci Pererê: Carolina Ramos. Canta… Sabiá! (folclore). 
Santos/SP: publicado pela Editora Mônica Petroni Mathias, 2021.
- O Saci: Wikipedia

Humberto de Campos (A Santa Casa)

(Paródia a uma sátira de Emílio de Menezes)


As nuvens começavam a tomar uma cor arroxeada, anunciando o fim do crepúsculo e o inicio de uma noite soturna, quando alguém bateu, medroso, à luminosa porta do Céu.

- Quem bate? - gritou, de dentro, São Pedro, arrastando as suas sandálias de couro e tilintando, trêmulo, a sua enorme penca de chaves.

- Sou eu! - respondeu de fora o recém-chegado.

Aberta a portinhola do parlatório, informou o retardatário haver sido despachado da vida naquele dia, com destino à mansão dos justos, onde devia, portanto, ser admitido.

- Aqui? - observou o apóstolo, espantado. - Aqui. não. Todas as pessoas que tinham de entrar hoje, já entraram. Não falta mais nenhuma.

E bondoso:

- Não será engano seu, meu filho? Você não terá sido despachado para o Purgatório?

O peregrino admitiu a hipótese de uma confusão, e, saltando de nuvem em nuvem, como quem salta de rochedo em rochedo, foi ter à porta de fogo do Purgatório, onde bateu.

- Quem vem lá? - trovejou um anjo, escancarando, com um gancho, a rubra fornalha das penitências.

O desventurado deu o seu nome, e, momentos depois, reabria-se o forno.

- Há engano na direção, camarada! - informou o guardião, soprando, severo, a sua vermelha espada de chama. - O seu lugar não será no Inferno? Aqui, é que não é. Não consta nada sobre a sua pessoa!

E, fechando a fornalha, deixou-o na amplidão, tristonho, solitário, abandonado, tendo aberto, apenas, à sua frente, o caminho escuro do Inferno. Resolvido a cumprir o seu destino, tomou o infeliz esse rumo, até ir ter, corajoso, à porta da caverna formidável.

- Quem é? - rugiu, de dentro, uma voz que parecia um trovão.

Tremendo de pavor, o mísero deu o seu nome, e esperava, já, o instante de ser precipitado nas enormes caldeiras ferventes, quando o portão monstruoso se abriu, dando passagem aos chavelhos de ferro de Belzebu.

- Quem o mandou para cá? - indagou o bruto, acendendo os olhos.

- A mim? - gemeu o desventurado. - Ninguém. Fui ao Céu, disseram-me que não era lá. Fui ao Purgatório, e informaram-me a mesma coisa. Logo, é aqui, por força.

O Diabo meditou um instante, consultou umas chapas de ferro incandescente que estavam próximas, e protestou, firme:

- Aqui, também, não é!

- Não?

- Não; absolutamente! - tornou o Capeta. - O seu lugar deve ser mesmo no Céu. O Pedro está muito velho, já, e, com certeza, não viu bem. Volte lá! Volte lá!

Um momento depois, estava o desgraçado, de novo, à porta do Paraíso.

- Outra vez? - observou São Pedro, paciente.

- Outra vez, sim, - confirmou, grosso, a vítima. - O meu lugar não é no Purgatório, não é no Inferno; deve ser, forçosamente, aqui. Veja bem!

O apóstolo enforquilhou os óculos no nariz, abriu o livro em que estavam registrados os nomes das almas, folheou, folheou, folheou, e, de repente, voltando-se, indagou:

- Diga-me uma coisa: onde foi que você morreu?

- Eu? Na Santa Casa do Rio de janeiro! - respondeu a vítima.

E o chaveiro, escancarando a porta:

- É aqui mesmo, entre!

E mostrando o livro:

- A culpa não foi minha, filho! Você devia vir para cá, daqui a vinte anos!

E aborrecido:

- Esta Santa Casa tem me estragado a escrita!...

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. Publicado originalmente em 1921.

Minha Estante de Livros (“A Serpente de Bronze”, de Humberto de Campos)


A “Serpente de Bronze” é o primeiro livro de crônicas escrito por Humberto de Campos com o pseudônimo Conselheiro XX, publicado em 1921. É inspirado, no que se refere ao título e às temáticas, em textos bíblicos, assim como a primeira obra do cronista, intitulada “Da seara do Booz”.

O livro assinado com o pseudônimo marca uma mudança no estilo de escrita do autor, que passa da crítica social e política feita de modo direto e formal, para a crítica disfarçada, envolta em ironia. Esse livro contém textos na forma de anedotas, histórias pitorescas e espirituosas, de tom malicioso, que provocam o riso.

Os textos do Conselheiro XX apresentam um narrador onisciente intruso. As crônicas remetem a acontecimentos históricos, e neles o narrador manifesta juízos de valor, além de fazer algumas denúncias. Mitologicamente, a “serpente” remete à maldade e à tentação. Pode representar, também, castigo e punição. Por sua vez, o livro A serpente de bronze parece representar simbolicamente a realidade, o cotidiano, o poder, a corrupção, as doenças, a sexualidade, o dia-a-dia. Se a serpente mitológica castiga, a serpente do Conselheiro XX aplica um castigo aos poderosos e aos políticos.

A serpente, na obra de Humberto de Campos, pretende alertar as pessoas sobre os problemas que ocorrem na sociedade. A “serpente de bronze”, no livro, remete à ideia de denúncia, de renovação dos valores e dos comportamentos. As crônicas, em geral, constituem-se em sátiras do poder.

No livro em questão, o autor emite opiniões que, no Brasil de 1920, são consideradas absurdas pela extrema “falta de decoro”.

O Conselheiro XX – sem o público saber de quem se trata – abusa da imaginação, do ceticismo, da graça e da jovialidade.

De acordo com Macário de Lemos Picanço, o Conselheiro XX só tinha um intuito, que era o de fazer rir aos leitores, mas para o crítico Múcio Leão, citado na obra de Picanço, o Conselheiro XX era a forma de Humberto de Campos se sustentar:

Homem de gosto, de sensibilidade e poesia, não acrediteis que Humberto de Campos deixasse de sentir a atroz tristeza de assumir aquela humilhante caracterização. Mas, se era aquela a sua forma de ganhar a vida?... No íntimo o poeta andaria a percorrer os jardins suaves, onde se apraziam as Armidas dos seus sonhos. Mas, se a sua literatura refletisse apenas a pureza e a doçura, quem lhe pagaria os miseráveis mil réis, que os contos rabellaisianos do Conselheiro XX cada quinzena lhe garantiam?"

Humberto de Campos não nega a autoria das crônicas assinadas pelo Conselheiro XX e assume que seus textos vão contra a moral religiosa e patriarcal das famílias brasileiras, mas acredita que as críticas ao Conselheiro XX são excessivas.

Nas crônicas de “Serpente de Bronze”, a anedota e a metáfora são ainda mais frequentes do que nos demais livros do autor. Assim como em “A bilha” e “O troco”, em “Ninho de Curió”, a anedota é adotada pelo autor para contar uma história que possui um final cômico.

As características desses textos de Humberto de Campos provêm do cômico-sério, como a “fusão do sublime e do vulgar, do sério e do cômico”. Outro recurso utilizado por ele é a paródia, que aparece constantemente nas crônicas da obra “Serpente de Bronze”. No livro, o autor constantemente parodia uma obra, seja de modo cômico ou por meio da ironia, com o intuito de ridicularizar uma situação. A Bíblia é o principal livro a ter algumas de suas passagens parodiadas, como pode ser percebido em “A mulata” e “A Santa Casa”.

A crônica “A Santa Casa”, por exemplo, é um texto inspirado numa sátira à Emílio de Menezes. O Conselheiro XX usa a ironia para ampliar e exagerar os detalhes, fazendo uma espécie de caricatura textual. “A santa Casa” apresenta uma linguagem objetiva, com a influência da oralidade. O texto é uma crítica à Santa Casa do Rio de Janeiro, porém escrita na forma de anedota. O cronista conta, com precisão de detalhes, que um homem bateu à porta do céu para entrar. Através dessa crônica, o autor critica as condições de funcionamento da Santa Casa do Rio de Janeiro. No texto, Campos coloca o morto como “vítima”. A crônica traz informações sobre o estado da Santa Casa e, também, faz ironia com o homem que morreu vinte anos antes. Desse modo, é perceptível, em Campos, a “revitalização da linguagem” da crônica.

Portanto, a crônica vai deixando cada vez mais a formalidade, para comentar os fatos que acontecem num tom de humor e, assim, divertir o leitor. É o que se confirma na crônica de Humberto de Campos. A linguagem é leve, descompromissada e une a crítica à ironia.

“A Santa Casa” é um texto que pode ser enquadrado em várias classificações. Pode ser uma “crônica especializada satírico-humorística”, na acepção de Luiz Beltrão, porque tem o objetivo de criticar, ridicularizando e ironizando os fatos e os personagens. E nesse texto, Humberto de Campos critica e, principalmente, ironiza a problemática situação da Santa Casa. A crônica também pode ser considerada uma “crônica-informação”, na definição de Afrânio Coutinho, porque traz as
informações, através da divulgação dos fatos, tecendo comentários ligeiros – e não pessoais –, mais genéricos e que, provavelmente, manifestam uma opinião semelhante à da maioria dos leitores. Em “Santa Casa” o autor fornece informações sobre a precariedade do hospital carioca; e pode ser, ainda, de acordo com a classificação proposta por Antonio Cândido, uma “crônica-diálogo”, porque é uma conversa do cronista com seu interlocutor imaginário, ou uma conversa entre os personagens criados pelo autor. E essa crônica de Humberto de Campos pode-se enquadrar nesta classificação de Cândido em razão dos diálogos entre os personagens criados, exemplificado entre São Pedro e o homem já falecido.

Diferentemente dos outros livros do autor, nesse, como se verifica na crônica recém comentada, estão pequenos detalhes do cotidiano, escritos de modo irônico e cômico. O texto termina de forma satírica; parece piada. Nos textos assinados com o pseudônimo “Conselheiro XX”, o autor vale-se do conhecimento que possui sobre o assunto e aproveita-se disso para revelar seu “outro eu”. Todas as temáticas dos textos são abordadas num tom de sátira, revelando as opiniões que o autor não ousa emitir quando publica as crônicas com o seu próprio nome. Nos textos, evidencia-se, ininterruptamente, o posicionamento pessoal e irônico de Campos.

A ironia e o humor do Conselheiro XX chamam a atenção para a composição dessas crônicas. Os textos são recheados de ideias implícitas, que deixam a opinião do autor aparecer de modo subliminar. O autor subverte a linguagem e torna a leitura um ato de exercitar a inteligência. O cômico aparece justamente quando os assuntos tratados, mesmo sendo sérios, são transformados em caricaturas. O Conselheiro XX provoca o riso, na medida em que recorre à ironia para castigar os personagens que são inspirados na realidade.

Deste modo, torna-se perceptível que em “A serpente de Bronze” a opinião do narrador fica, ora implícita, ora explícita. Quem escreve é o Conselheiro XX, um cronista despreocupado, que tem como objetivo promover a polêmica e não está preocupado com as respostas dos indivíduos atingidos por suas críticas.

Os textos do livro são, todos, “crônicas especializadas satírico-humorísticas”, na definição de Beltrão, porque ridicularizam e satirizam uma situação, embora alguns possam também ser enquadrados em outras categorias.

É importante salientar que o material teórico sobre o autor é quase inexistente.

O artigo completo em pdf (10 páginas) de autoria da Prof. Ms. Roberta Scheibe - Universidade de Passo Fundo, pode ser baixado em http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2007/resumos/R0077-1.pdf

Fonte:
Trechos do artigo da Prof. Ms. Roberta Scheibe, “Sob o véu da imaginação: O humor e a ironia nas crônicas de Humberto de
Campos”, disponível em Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS, no link acima.