quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Academia Formiguense de Letras (Posse, Lançamento e Sarau)


AFL EMPOSSA DOIS NOVOS ACADÊMICOS, LANÇA SEU 9º LIVRO E CONFRATERNIZA-SE COM SARAU

Com uma expressiva presença, aconteceu no sábado, dia onze de janeiro, às vinte horas, a Sessão Solene da Academia Formiguense de Letras – AFL. A solenidade aconteceu no CEMAP – Centro Municipal de Aprendizagem e Profissionalização situado na Rua Alderico Nogueira, nº 470, em Formiga (MG).

A abertura da solenidade ficou por conta de uma belíssima apresentação artística de dança do ventre coreografada pelo grupo “Além do Véu” sob a coordenação de Dora Smith e pelas dançarinas Daiana, Flávia, Gabrielly, Jociane e Larissa.

O cerimonial ficou por conta da marconiana Thayná Pereira Vieira, e a solenidade fora presidida pelo Sr. Paulo José de Oliveira, compondo ainda a Mesa de Honra a representante do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais – CECULT/MG Professora Maria Ribeiro de Andrada e Oliveira Figueiredo, o Dr. Sérgio Ricardo Gomes – representando o Conselho Comunitário de Segurança Pública – COMSEP, os Acadêmicos Dr. José Pereira de Souza e a Professora Maria Aparecida Castro e Campos Segundo (Tia Cidinha) e os neoacadêmicos Dr. Wilson Alves Figueira e Professor Carlos Eulocastro de Oliveira.

Na oportunidade foram empossados os neoacadêmicos Dr. Wilson Alves Figueira, ocupando a Cadeira de número 33, o qual foi saudado pelo Acadêmico Capitão José Pereira de Sousa, e o Professor Carlos Eulocastro de Oliveira (Professor Carlinhos), ocupando a cadeira de número 24, o qual fora saudado pela Acadêmica Maria Aparecida Castro e Campos Segundo – Tia Cidinha.

O ato de posse dos dois novos recipiendários foi conduzido pelo Sr. Paulo José de Oliveira – presidente da AFL e pela Acadêmica Maria Ribeiro de Andrada e Oliveira Figueiredo – Maria Andrada, membro do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Em seus discursos de posse os dois novos membros exaltaram a importância da AFL, a alegria de se tornarem imortais e, a disposição em tudo fazer para honrar suas Cadeiras e, por conseguinte as lídimas tradições acadêmicas. Representando os familiares, também foram homenageadas as esposas dos Acadêmicos empossandos Sra. Nilza e Sra. Alverilda.

Na sequência, fora realizado o lançamento do nono livro da AFL intitulado “Solar da Prosa, Poesia & Efemérides". A obra prefaciada pelo Acadêmico Dr. Ubiratan de Brito Mota é uma coletânea composta de homenagens, contos, crônicas, poesias e as efemérides da entidade.

Na oportunidade, o presidente da Academia Formiguense de Letras – AFL agradeceu a presença de todos, e aos que contribuíram para com a realização do evento, em especial à equipe do Clube Literário Marconi Montoli – CLMM (Marconianos), à secretaria Municipal de Educação (SME), à Proart Formaturas e Eventos, ao Acadêmico Paulo Pacheco – fotógrafo da noite, à imprensa e canais da web que divulgaram a solenidade e as cantoras Kakal Chaves e Cláudia França.

Encerrando o evento, fora realizado o Sarau Literário e Musical com a apresentação de Kakal Chaves e Cláudia França, tendo sido encerrado o evento com o Coquetel de confraternização.

Fonte:
Paulo José de Oliveira (PAJO)
Fotos: Paulo Pacheco – Ângulos

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Acruche Collection - Trova 12

Roberto Pinheiro Acruche é de São Francisco de Itabapoana/RJ

Fonte:
Trova formatada obtida no facebook do autor

Irmãos Grimm (O Enigma)

Era uma vez um príncipe que sentiu desejo de sair pelo mundo e não levou junto consigo senão um criado fiel. Um dia, ele cavalgava em uma grande floresta e, quando escureceu, vendo que não havia por ali nenhuma hospedaria, ficou sem saber onde passaria a noite. Então avistou uma moça que se dirigia a um casebre e, quando ele chegou mais perto, viu que a moça era jovem e bonita. Iniciou a conversa com estas palavras!

"Cara criança, será que eu e meu criado podemos encontrar abrigo nesta casa por esta noite?"

- "Claro," disse a moça, com voz triste. "Mas eu não aconselho; não entrem ali!"

- "Por que não?" perguntou o príncipe.

A moça disse suspirando! - "Minha madrasta pratica artes maléficas e não simpatiza com estranhos."

Então ele compreendeu que tinha chegado à casa de uma feiticeira, mas, como estava escuro e ele não poderia prosseguir viagem nem tinha medo, entrou. A velha estava sentada em uma poltrona junto à lareira e examinou os estranhos com seus olhos vermelhos.

"Boa noite!" murmurou ela, fingindo cordialidade. "Acomodem-se e descansem."

Depois soprou o carvão sobre o qual, em uma grande panela, estava cozinhando alguma coisa. A filha avisou-os de que tomassem cuidado para nada comer e também nada beber naquela casa, pois a velha preparava bebidas maléficas.

Dormiram tranquilamente até o raiar do dia. Quando se preparavam para a partida e o príncipe já estava sentado em seu cavalo, a velha disse!

"Espere um momento, desejo fazer um brinde à sua partida."

Enquanto ela foi buscar a bebida, o príncipe partiu a cavalo e o criado, que tinha de prender sua sela, ficou sozinho, quando eis que a feiticeira volta com a bebida.

"Leve-a a seu patrão," disse ela, mas naquele momento o copo quebrou e o veneno derramou sobre o cavalo, e era tão poderoso que o animal morreu na hora.

O criado correu até seu patrão e contou-lhe o que tinha acontecido, mas não queria deixar para trás sua sela e correu de volta para pegá-la. Mas, quando chegou junto ao cavalo morto, um corvo já estava sentado sobre ele e o devorava.

"Quem sabe se hoje encontraremos algo melhor?" disse o criado. Matou o corvo e levou-o consigo.

Percorreram a floresta o dia todo, mas não conseguiram sair dela. Ao cair da noite, toparam com uma hospedaria e nela entraram. O criado deu ao dono o corvo, a fim de que ele o preparasse para o jantar.

Eles, porém, tinham ido parar num covil de assassinos; com a escuridão, chegaram doze bandidos e sentiram vontade de matar e roubar os estranhos. Mas, antes de pôr mãos à obra, sentaram-se à mesa, e o dono da hospedaria e a feiticeira se uniram a eles.

Comeram juntos um prato de sopa na qual se tinha picado a carne do corvo. Mal tinham engolido alguns bocados e caíram mortos, pois o corvo os tinha contaminado com o veneno da carne do cavalo.

Não restava ninguém naquela casa senão a filha do hospedeiro, que era uma moça honesta e não tinha tido nenhuma participação nas coisas terríveis que ali aconteciam. Ela abriu todas as portas para os estranhos e mostrou-lhes tesouros incontáveis. O príncipe, porém, disse que ela poderia ficar com tudo, pois ele não queria nada, e partiu com seu criado.

Depois de terem cavalgado por muito tempo, chegaram a uma cidade onde havia uma princesa bela mas muito convencida; ela tinha feito proclamar que quem propusesse um enigma que ela não fosse capaz de decifrar se tornaria seu marido. Mas, se ela o decifrasse, ele seria decapitado. Ela tinha três dias para refletir; mas era tão esperta que sempre acabava decifrando o enigma antes do prazo. Já nove tinham morrido daquela maneira, quando chegou o príncipe e, deslumbrado com a beleza da moça, quis arriscar sua vida.

Então, apresentou-se diante dela e propôs seu enigma!

"O que é?: um não matou nenhum, mas matou doze."

Ela não sabia do que se tratava, pensou e pensou, mas não conseguiu desvendar o enigma. Consultou seu livro de enigmas, mas nada encontrou ali. Em resumo, sua esperteza chegara ao fim.

Não sabendo mais o que fazer, mandou sua criada ir até o quarto do senhor para espioná-lo enquanto dormia! talvez ele falasse durante o sono e revelasse o enigma... Mas o esperto criado tinha-se deitado na cama no lugar de seu patrão e, quando a criada chegou, arrancou-lhe o manto em que ela estava envolvida e expulsou-a do quarto a chicotadas.

Na segunda noite, a princesa enviou sua camareira na esperança de que ela tivesse melhor sorte. Mas o criado também arrancou-lhe o manto e expulsou-a a chicotadas.

Na terceira noite, o príncipe julgou-se em segurança e deitou-se em sua cama. Eis que vai até lá a princesa em pessoa, envolta num manto cinzento, e se senta perto dele. Quando pensou que ele estava dormindo e sonhando, pôs-se a lhe falar, na esperança de que ele lhe respondesse durante o sono, como muitos fazem.

Mas ele estava bem acordado e compreendeu e ouviu tudo muito bem.

Ela perguntou! "Um matou nenhum, o que isso significa?"

- "Um corvo, que se alimentou de um cavalo morto e envenenado e por isso morreu," foi a resposta do príncipe.

"E matou doze... como assim?" perguntou a princesa.

"São doze assassinos que provaram do corvo e por isso morreram."

Ao saber a chave do enigma, a princesa quis sair de fininho, mas o príncipe segurou-lhe o manto bem firmemente, de tal forma que ela teve de deixá-lo para trás.

Na manhã seguinte, a princesa fez saber que decifrara o enigma, mandou chamar os doze juizes e disse a eles qual era a solução. Mas o jovem pediu permissão para falar e disse!

– "Ela foi de fininho até meu quarto à noite e me perguntou, caso contrário não teria decifrado o enigma."

Os juizes pediram uma prova. Então o criado trouxe os três mantos.

Quando os juizes viram o manto cinzento que a princesa costumava vestir, disseram:

"Que se borde o manto com ouro e prata! Será seu vestido de casamento.”

Fonte:

Jangada de Versos do Ceará (5)

CÉSAR LEAL
(Francisco César Leal)

Saboeiro (1924 – 2013) Recife/PE
-

Sutilíssimo Eterno

Sutilíssimo eterno que habita
minhas saletas interiores
onde trago o tempo guardado
noturno e resignado

sutilíssimo eterno interior
que como um tálamo é
em minha alma limpa e sofrida
como água dormida em pedra

que eterna seiva alimenta
este tempo em mim retido
plumagem livre de flor
forma exata imperecível

sinto-te assim como um trunfo
branda coroa do eterno
além das nuvens, das águas
ouço o teu metal desperto

se existes no ser completo
na cinza móvel das sombras
por que retiras de mim
tudo o que em mim não é pântano?

Análise da sombra

Analisa-se da sombra
seu caráter permanente:
pela manhã retraindo
a imagem, à tarde crescente.

E aquele instante em que a sombra
adelgaça o corpo fino
como se no chão entrasse
quando o sol se encontra a pino.

Quem a esse instante mira
em oposição ao lado
onde o sol era luz antes
logo vê o passo vago

da sombra que agora cresce
o corpo de onde se filtra
até fundir-se no limbo
que em torno dela gravita.

Forma esse limbo a coroa
que as sombras traz federadas:
soma de todas as sombras
num só nó à noite atadas.

Minha águia
 

ó
Não
Não quero
Não quero perder
Não quero perder contato
Não quero perder contato com
Não quero perder contato com a
Não quero perder contato com a minha
Não quero perder contato com a minha Águia
ó não quero perder contato com a minha Águia !
S
S S
S S S
Sinto que ela voou para
céus tão altos
onde
se encontra agora ?
Que mãos lhe afagam as plumas
depois
de meu último
abraço
de meu último
beijo
de minha última
c
a
r
í
c
i
a

?
? ?
? ? ?

Homens e bois

Como um cruzador regressa
ao porto e vai descansar
das muitas fadigas funtas
em suas patas de radar,
regressam os bois ao curral
a mugir na cerração
do pó que as patas levantam
do lombo-azul do verão.
Marcham sempre organizados
— como em marcha um batalhão —
são tristes, magros e tristes
os magros bois do sertão.
Alguns morrem mesmo bois,
pescoço atado ao cambão,
outros morrem a morte de homens:
sangue a correr pelo chão.
Esse o destino dos dois
(homem ou boi, não importa o nome)
ambos morrem para matar
(dos canhões e homens) a fome.

Os quatro currais de Belmonte
 

São cicatrizes ligadas
à terra, como costuras,
aquelas cercas de pedras
semelhando a sepulturas.

Não pela forma alongada
que as sepulturas revela
nem pela cor dos tijolos
que a nossos olhos apela.

Nem pelo esmalte das tíbias,
o descarnado mistério,
dos bois que ali dormem secos
quais homens no cemitério.

Mas pelas rotas porteiras
de pedras esfumaçadas
quais cidadelas sem teto
depois de bombardeadas.

Viveram ali entendidos
homens, plantas e animais,
ao pó do solo fundidos.
Restaram quatro currais.

Elogio do sonho

Quando caminha nas águas
banha as agulhas noturnas
e bebe chamas de espumas
nos claros copos da lua
esconde no corpo um fogo
claro, vermelho, constante:
rubro ondular de bandeiras
por entre nuvens dançantes
ei-la subindo nas chuvas
galopando em seu cavalo
a cabeleira de trigo
solta ao furacão voante
ordena para que um dia
os sons se mudem nas cordas
destes violinos cegos
que por entre urtigas tocam
— vejo-a inteira, emparedada
entre as brasas que caíam
naqueles vales secretos
onde as árvores fugiam.

Fonte:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/cleal.html

Folclore da África (A Mensagem Perdida)

A formiga teve desde tempos imemoriais muitos inimigos, e porque ela é muito pequena e destrutiva, tem havido um grande número de mortes entre elas. Não só a maioria das aves são suas inimigas, mas o tamanduá se alimenta quase que exclusivamente só de formigas, e a centopéia ficava tocaiando elas em todas as oportunidades e lugares que tivessem chance.

Então entre algumas delas surgiu a idéia de fazer um conselho e juntos eles imaginarem uma solução para ver se eles podiam ser mudar para um lugar seguro, quando atacados por pássaros e animais ladrões.

Mas na conferência as opiniões foram as mais discordantes possíveis, e eles não chegavam a nenhuma decisão.

As formigas não se entendiam e cada uma resolveu fazer sua casa onde bem entendesse

Lá estavam a formiga vermelha, a formiga do arroz, a formiga preta, a formiga alvéola, a formiga cinza, a formiga brilhante, e outras variedades. A discussão foi uma verdadeira babel de diversidades, que continuou por um longo tempo e não deu em nada.

Uma parte desejava que todos fossem morar em um pequeno buraco na terra, e viver lá, outra parte queria ter uma casa grande e forte construída no chão, onde ninguém pudesse entrar, além de formigas; ainda outros queriam morar nas árvores , de modo a se livrar do tamanduá, esquecendo completamente que eles seriam a presa das aves; outra parte parecia inclinada a ter asas e voar.

E, como já foi dito, não houve acordo quanto a nada, e cada partido resolveu ir trabalhar de sua própria maneira, e sob sua própria responsabilidade.

As facções se dividiram em pequenas partes separadas e se espalharam em todo lugar do mundo, e cada um tinha a sua própria tarefa, e cada uma fez o seu trabalho de forma regular e bem. E todos trabalharam juntos no mesmo caminho. Dentre eles, escolheram um rei, e devemos dizer que alguns dos grupos fez e eles dividiram o trabalho para que tudo corresse tão bem como podia.

Mas cada grupo fez de sua própria maneira, e nenhum deles pensou em se proteger contra o ataque de pássaros ou tamanduá.

As formigas vermelhas construíram sua casa sobre a terra e viveram sobre ela, mas o tamanduá jogou no chão em um minuto o que lhes custou muitos dias de trabalho precioso. As formigas do arroz viviam debaixo da terra, e, com eles, não houve sorte melhor. Pois quando eles saíram, o tamanduá apareceu, tirando eles do buraco e metendo numa mochila. As formiga alvéola fugiram para as árvores, mas em muitas ocasiões a centopéia estava esperando por eles, ou os pássaros os devoravam. As formigas cinza tinha a intenção de salvar-se de extermínio, alçando vôo, mas isso também não lhes valeu de nada, porque o lagarto, a aranha caçadora, e as aves foram muito mais rápidos do que eles.

Quando a formiga rei ouviu que não chegariam a acordo nenhum, ele lhes mandou uma unidade de formigas em segredo, com a mensagem de trabalharem em conjunto. Mas, infelizmente, ele escolheu o besouro como mensageiro, e até hoje ele não chegou às formigas, de modo que eles ainda hoje são a personificação da discórdia e, consequentemente, a presa dos inimigos.

Fonte:
JAMES A. HONEŸ, M.D. in http://www.sacred-texts.com/afr/saft/
http://www.sacred-texts.com/afr/saft/
http://casadecha.wordpress.com

Simões Lopes Neto (Casos do Romualdo) O Gringo das Linguiças

Bom é o dito: viver, não custa, saber viver é que são elas!...

Estrangeiro é que é gente mestraça para saber arranjar a vida, de um nada faz muito e quando um de nós mal se precata vê o tal homezinho embandeirado, cheio de boas patacas e ... sempre chorando pitangas...

Conheci muito - quase na estrada do Caverá - um gringo ruivo, torto, de cabelo à escovinha, chamado Domenico, o qual tinha um boliche mui arrebentado, localizado ao lado de cá do Passo do Mutuca, sobre um galho do Ibicuí da Armada.

O lugar do arranchamento parece que foi escolhido a dedo: era trânsito obrigado de carreteiros, tropas, cargueiros e quaisquer andantes. E todos, de comitiva ou escoteiro, antes ou depois de varar o passo, faziam a parada certa no Domenico, que tinha boas sombras, boa aguada e bom potreiro.

O gringo era sabido ...

A venda só tinha uns garrafões de canha, rapaduras, queijo e alguns surrões de ótima erva-mate; já de matreiro o dono não supria a casa - pelo menos à vista - porque tinha receio de algum saque se mostrasse fartura nas prateleiras... sim, que araganos por aqueles pagos era cisco!

O que fazia a especialidade do Domenico era o amargo, e acima do amargo a comida: era só linguiça com ovos. Só, só, só: mas era uma senhora comida!

Quem chegasse - a que hora fosse - se pedia de comer, lá vinha a linguiça com ovos...

E apesar de que o diabo cobrava-se a lo largo, o cobre não aparecia; entrava aos punhados - balastracas, bolivianos e até onças! - porém ele chorava sempre, que mal "guadanhava" para sustentar os filhos, que eram uma ratatulha.

Por uma causa desconhecida, porém infalível, aquela redondeza era também a cancha certa da cachorrada gaudéria.

Em toda esta minha longa vida, nem antes nem depois, nunca vi tanto cachorro chimarrão! Creio porém que seria o cheiro das fritadas que atraía aquele bicharedo: era como uma isca cheirosa que voava no vento e entrava pelas bibocas e restingas chamando os chimarrões...

Todo o vizindário queixava-se de que a cachorrada baguala comia-lhe ovelhas, terneiros, potrilhos, vacas magras e até a criação do terreiro; todos se lastimavam dos prejuízos...

O Domenico, não.

Uma ocasião, por motivo de grandes chuvas, fiquei ilhado no Domenico; quando melhorou o tempo e dispunha-me a seguir viagem, fui atacado de violenta nevralgia, que por uns quantos dias trouxe-me de canto chorado...

Ora, quando, a poder de folhas de mamono aquecidas com sebo de carneiro, melhorei o meu tanto e resolvi marchar na manhã seguinte, justamente nessa noite foi a casa do Domenico assaltada por uma pandilha de ladrões. E por mal dos pecados, estávamos sós; de homens: eu e ele.

O gringo era passado nestas cousas... vi logo que não era esse o primeiro mondongo que ele pelava...

Não se acobardou com o perigo; ao contrário, reforçou as trancas das portas, fechou toda a família num quarto do centro da casa, pôs as roncadeiras, de dois canos, e a munição, em cima do balcão, empinou um trago gordo, convidou-me para ajudá-lo e apagou todas as luzes.

Eu nem se pergunta - já se vê, estava pronto; amartilhei as minhas pistolas e desembainhei os meus facões.

Os assaltantes, do lado de fora, junto à janela, cochichavam; de repente fizeram um alarido e meteram ombros à porta, forçando-a. Nós, quietos.

O Domenico soprou ao meu ouvido:

— La casa é di pau a pique, barreata...

Compreendi logo o partido a tirar e comecei a defesa, enérgica. Tiro sobre tiro na parede que dava para o terreiro, e que era a do assalto. Como as pistolas eram especiais, de dupla carga em cada cano, cada tiro, cada bala, varava a parede como se esta fosse manteiga!

E, tiro dado, bandido no chão!

O gringo fazia como eu; por fim já quase não podíamos respirar, de cerrado que tudo estava de fumaça. Com o cheiro da pólvora começamos a espirrar, e aproveitei logo esse recurso, espirrando e fazendo o Domenico espirrar, em tons diferentes e em pontos diferentes...; e vá tiro!

Com essa hábil manobra sucedeu o que eu previa: os bandidos julgaram que havia muitos defensores entrincheirados dentro da casa - pudera! tanto espirro e tanto tiro! - e rasparam-se, carregando os mortos e feridos, que deviam ser muitos, pelos meus cálculos.

Suspendemos o tiroteio; tranquilamente acendi um cigarro no cano da pistola, que estava em brasa. E como não havia mais perigo urgente, resolvemos deixar o exame do local do combate para de manhã. Acendemos a candeia e resfrescamos as armas.

O gringo apertou-me a mão, calorosamente agradecido, e declarou-me, a queima-roupa.

— Dopo mafiana voi no mangerete piü linguice in questa casa mia...

E foi soltar a sua gente.

Julguei que com o susto o coitado estivesse variando.

Deitei-me e dormi até sol alto. Apenas desperto lembrei-me do assalto noturno e saltei do catre para ir ver os estragos que houvesse.

O terreiro apresentava enormes manchas de sangue, além de pequenos regatos onde ele estava empoçado, coalhado, e espalhados pelo chão (que o Domenico deixara para eu ver - e que os bandidos perderam por ter sido a noite muito escura) encontramos uns quantos dedos de mão, vários pedaços de nariz e de orelhas, três retalhos de bochechas, alguns bocados de miolos arrebentados e chamuscados pelas buchas, uma tampinha de joelho, um pé inteiro, atorado pelo tornozelo, ainda calçado com o pé da bota e a espora, e muitos outros vestígios da carnificina que haviamos feito, aliás sem esperar aquele montão de avarias. Enterramos aquela pedaçaria pondo-lhe uma cruz ao lado!

Fomos almoçar. Tive então, e clara, a explicação da frase do Domenico, na véspera: não havia linguiça à mesa!

Galinha ensopada, uma paleta de ovelha, assada, e canjica de milho branco. Era uma novidade completa! Verdade que eu não estava almoçando na mesa do boliche e sim na da família do gringo.

Ele, então, abriu-se:

— Voi, qui, non mangerete piú linguiza. Vi diró perché e solo a voi, per gratitudine!.

E disse-o, assim, que eu repito em língua de gente, por não obrigar ninguém a traduzir:

— "Signor" Romualdo, já reparou como comem os diversos animais?

— Não, Domenico!

— Repare, "Signor", e curioso e instrutivo, O gato, come devagar, esparramando a comida, escolhendo, catando, jeitosamente pegando, largando o pedaço; o porco, atola o focinho no cocho, mastiga tudo, misturando, batendo a queixada, babando-se, roncando; o boi, deita de lado a língua, para apanhar o pasto; o cavalo, corta-o, delicadamente; a galinha vai de ponta de bico; o urubu, a bico e unhas, estraçalhando... mas o cachorro! o cachorro! ... come esganado, sôfrego, às bocadas, tudo inteiro, sem mastigar! Parece que em vez de meter a comida dentro de si, parece que ele é que se quer meter pela comida adentro. "É vero, Signor?"

— Sim, Domenico, é assim mesmo!

Ebbene! Aqui os vizinhos todos lastimam-se por causa do cachorro chimarrão; eu, não, ao contrário: gosto! Poupo muito trabalho, "Signor" Romualdo. É com eles que faço as linguiças para os andantes.., mas deles, não é a carne que eu quero, "Signor", são as tripas. Dellcate, fine, mervegliose!"

É assim:

O cheiro das fritadas atrai muito os cachorros baguais; vai então, por isso, lá dentro do galpão penduro um pedaço de lingüiça frita de bom tamanho, e bem alto, para eles não lhe chegarem. Vem o primeiro farejando, outro e mais outro vem; enfim dezenas de cachorros vão chegando, apenas no ar o cheiro da fritura anda voando! ...

Quando o galpão está cheio, fecho a porta e começo a laçar os cachorros e ponho-os todos na corrente, cada um no seu palanque, lá detrás da horta.

Comida, nada; água, sim, à vontade. Assim, durante uma semana os vou limpando perfeitamente; aquelas tripas ficam que nem resma têm, mais... perfeitissimamente limpas.

Nas vésperas de um precisar, só então começo a dar água com sal, uma salmourita leve, para manter o apetite...

Enquanto isso, mato os porcos, as ovelhas, ou as vaquilhonas, conforme a conta, isto é, conforme os cachorros que tenho em compostura, isto é, conforme a quantidade de varas de tripa que calculo em cada um, conforme o respectivo tamanho:

Bem, carneio as reses, pico toda a carne, tempero-a e deixo ficar uns dias, para tomar gosto, cada porção separada para cada cachorro, conforme o tamanho, na competente gamela.

A tudo isso, nos bichos, salmourita fraca!

No dia marcado para a fabricação, vou levando as gamelas e pondo em frente de cada chimarrão.

"Per la madonna! Signor Romualdo!" aquilo é em dois tempos!... Uhn! ... uhn! ... uhn! ... e zás! come, que comer inhact! inhact! ... às bocadas, aos punhados, ao montões, sofregamente, esganadamente, inteiro, sem respirar, às goladas, sem provar nem mastigar nada! É uma cachoeira pra dentro!

Mal o chimarrão acaba de engolir e pega a lamber a gamela, então aproveito a ocasião...

Mato o cachorro! abro-o, amarro as duas pontas - o principio e o fim - da tripa... e pronto, tenho uma lingüiça bem-feita, grossa, parelha, e que me não deu trabalho nenhum para encher...

Depois é pôr na vara a orear e ir cortando os pedaços para fritar, conforme o número de gente a servir, e pra bonito, enfeitar sempre com ovos estrelados por cima. É "meraviglia!"
==============

Tive, a modo, uns engulhos, e tratei de montar a cavalo.
Aquele gringo ... aquele gringo era das Arábias!…

Fonte:
http://pt.wikisource.org/wiki/Casos_do_Romualdo/XV

Miguel Carneiro (Balada do Cangaceiro sem Mãe e Outras Baladas) II

O Herói Anônimo

Quando a opressão
Clama por Justiça
Eu então me engolfo nessa Legião.

Defendendo em plagas distantes
A liberdade instalada em meu coração.
Eu já estou mutilado
Diante de tanta revolução

Não tenho mais uma perna
Não possuo nem mais uma mão.

Dentro de mim
Bate apenas o vento
De uma nova rebelião.
Balada do Cangaceiro Sem Mãe

Vim de muito longe
Das terras de Massacará
Trazendo somente farinha
E a vontade de pilhar
Pelejando por caminhos tiranos
Entre xiquexique, macambiras e gravatás.
Perdido entre tantas lembranças
Sozinho, sem mulher, sem sonhar.

Vindo de muito longe
Pra nessa terra guerrear.
O punhal sobre o peito
E o meu ferro de marcar.
Zé Baiano é o meu nome
E não sei
Onde minha mãe agora estar.

Anel de ouro, trancelim,
Seda, cachaça
Trago no fundo do emborná.

A coragem no meu olho
Sou de longe, sou de longe
Das terras de Massacará.

A coragem no meu olho
Sou de longe, sou de longe
Das terras de Massacará.

Minha sina é morrer lutando
Em qualquer tiroteio
Na hora que eu for enfrentar.
Tenho a benção do Meu Padim
Meu corpo fechado
Bala nenhuma irá se alojar.
Nem as pegadas do inimigo
Poderá um dia me alcançar.

Dormindo em coitos
Sem puder se quer descansar
Acordando no breu da noite
Depois de parar pra rezar
Minha vida pertence
ao Deus Dará
Vim de longe,
Vim de longe,
Das terras de Massacará.
Cangaço
Para João Bá

Para quem pensa
Que o cangaço se acabou
Vive parado na história
O cangaço continua
Silencioso na memória
Sem volantes, cangaceiros
Ou Lampiões
Matando muito mais gente
Pelas cidades e pelos sertões.

Quem imaginou
Que no tempo do Capitão
Houve mais mortandade
Enganados todos estão
O cangaço anda solto
Com a anuência do grande Cão
Agora dando gravatas
Em insuspeitos cidadãos
Matando muito mais pais de família
Pelas cidades e pelo sertão.

O nordestino morrendo de fome
E o preto pobre metralhado na invasão
Lampião foi um santo
Besta é aquele que difama o capitão
Diga-me se o cangaço
Não tá aí agora, não
Sem clavinote, fuzil ou mosquetão,
Silencioso na capital Federal
Em pleno coração de minha Nação.

Fontes:
Miguel Carneiro. Balada do Cangaceiro Sem Mãe e outras Baladas
Imagem = Pintura em tela . textura e tinta acrílica, de Katia Almeida

Nilto Maciel (Meu Filho Matias Beck)

Estive em Amsterdã durante três dias. Na bagagem levei um dicionário inglês-português, português-inglês. Em Paris procurei dicionário holandês-português, português-holandês. Não o encontrei e viajei preocupado. No entanto, ao me encontrar com Jacob Komrij, meu tradutor e futuro cicerone, voltei a sorrir. Mal nos conhecemos pessoalmente (durante um ano trocamos cartas e conversamos por telefone), ele me presenteou um pequeno livro, um dicionário holandês-português, português-holandês, de sua autoria. Porém, avisou logo: eu não iria precisar do dicionário em nenhum momento. Ele estaria comigo durante os três dias de minha estada em seu país. E já havia programado todos os minutos de minha vida: livrarias, jornais, televisões, as igrejas góticas Oude Kerk e Nieuwe Kerk, a Casa de Rembrandt, o Museu Van Gogh, os canais da cidade etc. Ao nos despedirmos à noite, após o jantar no hotel, combinamos encontro na manhã seguinte, às dez horas. Iria ao hotel. Dormi logo, embora pensando naquela aventura. Ora, quem diria, conhecer quase toda a Europa, em dois meses. E ainda ver de perto alguns de meus livros em inglês, francês, espanhol e até holandês. Sentia-me o verdadeiro escritor satisfeito consigo mesmo. Não digo orgulhoso, vaidoso, que isto não tenho sentido quase nunca.

            Ao acordar, olhei para o relógio: ainda não eram oito horas. Quando desci à recepção, passavam cinco minutos das nove. Decidi, então, ver a rua, as pessoas. Criei coragem e me pus a andar. Ninguém olhava para mim, como se eu fosse um holandês qualquer. Eu, porém, olhava para todos, quase todos, curioso, como se cada holandês fosse um ser de outro planeta. Até ver uma garota sentada num banco, lendo um livro. Parei a dez metros dela e fui seduzido por sua beleza. Vestia uma saia curta e deixava à mostra as pernas. Recostei-me a uma árvore, evitando ser atropelado pelos transeuntes. Não tirava os olhos da moça, que parecia alheia a tudo, inclusive aos meus olhos curiosos. 

Tentei ler o título do livro. Voltava o foco da visão para a pele clara das pernas da leitora. Lembrei-me de ter às mãos o dicionário de Jacob e resolvi me aproximar da jovem. Abri o dicionário e pedi permissão para me sentar ao seu lado. Abri o dicionário e me apresentei: brasileiro, escritor etc. Ela me mostrou o livro. Estupefato, percebi estar diante da primeira leitora de  Corrida de Anões em terras batavas. Eu disse ser o autor daquele livro. Ela pareceu não acreditar em mim, sorriu, abriu novamente o volume e se pôs a olhar para minha foto na aba. A fotografia é de 1976, eu tinha 30 anos, usava cabelos longos e negros. Nisso, Jacob se aproximou de nós. No hotel indicaram o rumo que eu havia tomado. Apresentei-lhe Aadje. Ele lembrou de nosso compromisso e eu a convidei a passear conosco. 

Dirigimo-nos ao carro, parado diante do hotel, e saímos. Pedi a Jacob para servir de intérprete. Falei de mim, do Brasil, da literatura brasileira. Ele e ela falaram da Holanda, de Amsterdã, de escritores holandeses, especialmente  Joost van den Vondel, Herman Gorter, Elizabeth Wolff-Bekker, Aadje Deken e outros. Ora, então eu estava conhecendo outra Aadje? Não, não escrevia nada. Apenas gostava de ler, estudava Literatura na Universidade. E o nome? Aadje Beck. Seria descendente do célebre aventureiro Matias Beck? Falei da invasão de Pernambuco e do Nordeste brasileiro pelos holandeses, em 1630. Maurício de Nassau, Johann Mauritius van Nassau-Siegen. A Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Lembrei o domínio dos holandeses no Ceará: o rio Marajaik; as minas de prata na serra de Itarema (Maranguape); o forte de Schoonenborch; Matias Beck, o “verdadeiro fundador” da cidade de Fortaleza, segundo Raimundo Girão. Beck e seus 298 comandados desembarcaram no Ceará em 6 de abril de 1649.

Cheio de coragem, convidei Aadje para jantarmos. A conversa teve início com Desidério Erasmo, O Elogio da Loucura, a Reforma, Lutero, católicos e protestantes. Passamos aos tempos de hoje, o mundo, as guerras, a política e a literatura. Meio embriagado, beijei a mão de Aadje. Ela sorriu. Jacob lembrou os compromissos do dia seguinte e se despediu. Perguntei à moça se desejaria conhecer o quarto onde me hospedava. Algumas horas depois, ainda acordados, pus-me a falar de minha viagem de volta. Ainda deveria conhecer Londres. Convidei-a a conhecer o Brasil, especialmente Fortaleza, a cidade fundada pelo seu ancestral Matias Beck. Ela parecia feliz. Se um dia tivesse um filho, dar-lhe-ia o nome de Matias.

Três meses após meu regresso ao Brasil, recebi um telefonema de Jacob Komrij: nossa amiga Aadje Beck acabava de falecer. E deixava um filho.

Fonte:
MACIEL, Nilto. A leste da morte. Editora Bestiário, 2006.

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) José Costa Matos

José Costa Matos (Ipueiras, 1927), poeta, contista e romancista, é autor do volume de contos Na Trilha dos Matuiús (1998). Apesar de não ter apresentado livro de ficção curta antes, sua dedicação à literatura vem de muitos anos. Um dos vencedores do II Prêmio Ceará de Literatura, de que resultou livro com este título, em 1995. Venceu o Concurso Nacional de Contos, na Bahia, o II Prêmio Ceará de Literatura e outros concursos literários realizados em diversos Estados. Está presente em algumas antologias, como O Talento Cearense em Contos. Na poesia, tem os livros Pirilampos, As viagens, O sono das respostas, Na última curva da esperança e O Povoamento da solidão, este ganhador do Grande Prêmio Minas de cultura. É titular da cadeira 29 da Academia Cearense de Letras.

O poeta Francisco Carvalho, também estudioso da Literatura, faz a seguinte observação nas abas do livro Na Trilha dos Matuiús, de José Costa Matos: “Parece lícito supor que o conto, ao contrário do poema, se faz com palavras e com ideias. E também, obviamente, com imaginação e talento”. A obra objeto deste artigo se constitui de dez narrativas. Numa delas, “Um conto, só”, talvez a mais bem realizada do volume, o narrador, Marcos, cujo nome é mencionado apenas uma vez, rumina as suas angústias de querer ser escritor e, assim, mostrar ao povo e às autoridades da pequena cidade onde mora que a falta de diploma acadêmico não o torna menor que o juiz e o vigário. No entanto, sente-me menor, porque não passa de “defensor dativo dos réus pobres”, à falta de advogados na cidade, razão por que a inveja pouco a pouco vai lhe roendo o espírito: “A verdade é que não posso competir com ele em títulos, e isso me dói um bocado”. Essas ruminações lembram alguns personagens de Graciliano Ramos. A linguagem também nos remete à prosa castiça e envolvente do mestre de Angústia. E esse é um dos aspectos positivos no livro de Costa Matos. Mas voltemos ao conto: o protagonista-narrador se propõe escrever um conto e com ele participar de um concurso internacional, na França. Ganhar o prêmio seria realizar um sonho fabuloso: abocanhar quinze mil francos, ter a história publicada na Europa e ver o seu nome “em jornais de dois continentes”. Restava escrever o conto. Rumina aqui, rumina ali, Marcos se convence de que é fácil para ele escrever um conto, pois “tinha gramática” e imaginação. Bastava ler alguns autos de processos criminais, rememorar as secas no sertão e passar uma revista nos “tipos curiosos” do lugar. O assunto da história surgiria disso. Passam-se os dias e nada de o conto germinar. A angústia cresce, pois, sem o conto, ele continuará apenas defensor dativo de réus pobres, professor de “rapazes e moças da sociedade”, conferencista religioso e redator de telegramas dos políticos. Continuará menor do que o doutor Seixas, o magistrado. A história chega ao fim e nada de o conto ser escrito. Porque, apesar de todos os seus conhecimentos do espiritismo, do catolicismo e dos livros, não sabe como se escreve um conto. Talvez faltasse talento ao pobre Marcos. Como também a João Valério, o narrador de Caetés, que “tinha um romance começado na gaveta” e, no final do romance, confessa: “Abandonei definitivamente os caetés: um negociante não se deve meter em coisas de arte”. O que sobrou em Graciliano e não faltou a Costa Matos, ao escrever o conto de um conto que não foi escrito.

Na Trilha dos Matuiús contém crônicas poéticas (“Pedidos de Natal”, “Nada”), crônicas de costumes (“Madrinha Juliana e suas Peiticas”), novelas curtas (“Incêndio na Pedra”, “Uma História de Prefeito”), histórias pitorescas e anedóticas (“O Desmaio de Luís Preto”), contos psicológicos (“Um Conto, Só”, “Pedras na Vidraça”). Em quase todas as narrativas as tramas se desenrolam em cidade pequena do Ceará, seja a Ipueiras real e seus arredores (em “Incêndio na Pedra” há referência à “festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira dos ipueirenses”; em “Uma Usina de Mitos” um personagem pergunta: “Não vê que Ipueiras está cercada de morros?”), seja uma fictícia e mítica urbe do interior do Nordeste brasileiro: Morro do Papoco, com “seus sambas quentes”, Rua de Baixo, Rua de Cima, Rua do Ourives, Morro do Curral do Açougue. Também Fortaleza, ou simplesmente a capital, é palco de um drama, “Pedras na Vidraça”, embora somente na última frase haja menção a uma de suas praias: “Os coqueiros se desequilibravam em colunas oscilantes, sob a brisa de treva da Volta da Jurema”.

As histórias de Na Trilha dos Matuiús ocorrem em tempos variados, algumas nos meados do século XX, antes da televisão; outras, na era do telefone celular. Um personagem se refere a um cavalo-de-pau, seu objeto de desejo. Fala de retretas da banda de música. Tonho Silveira “comprou uma geladeira a querosene”. Dona Josefa “ficava sem outra ocupação que as novelas do rádio”.

Em “Incêndio de Pedra”, Inácio Romão encontra uma Ipueiras modificada, após anos longe da terra natal. Acostumado à cidade grande, bradava: “Cadê o barulho? Cadê o cheiro de fumaça? Me acostumo não! Sou um bicho de máquinas zoadentas. Preciso escutar sirenes de fábricas. Queimem gasolina, meus patrícios, pode ser que o progresso sinta a cheirinho bom e resolva chegar por aqui!” O conto ambientado em Fortaleza menciona a televisão e os automóveis.

Tirante os empresários Santiago Ribas e Sérgio Câmara, do conto acima mencionado, os personagens de Costa Matos são matutos ou vivem em cidade pequena. Alguns são tipos característicos (ou curiosos, como diz um personagem) desse ambiente e surgem, ou são apenas citados, em mais de uma história. O contista frustrado Marcos relembra alguns deles: “Passei uma revista nos tipos curiosos do meu conhecimento: Antônio Té-Logo, Maria Tei-tei, Véi Zuca-do-Oi-Só, Carolina Bunda-Alegre...” São pretas velhas, cozinheiras nas casas dos abastados, como Madrinha Juliana; padres de voz estridente nos sermões, como Salustiano e Feitosa; donas de forrós, como Joaninha Bunda Alegre; fabricantes de viola; cantadores; primeiras-damas; prefeitos corruptos; juízes incompetentes; promotores subservientes; comerciantes de secos e molhados.

Voltemos à linguagem. No meio da narrativa, o personagem Marcos, em seu monólogo bem arrumado, refere-se ao momento em que decide escrever um conto: “Certamente, eu tinha gramática para isso. E imaginação também”. Entretanto, se sabe que somente gramática, estudo, leitura não fazem um escritor. Mesmo que o candidato a prosador tenha também muita imaginação. É preciso algo mais. Talvez talento e dedicação à arte de escrever. Costa Matos certamente tem gramática para escrever. Sua frase é quase sempre curta, sem rodeios. Os verbos e os substantivos se casam de forma precisa, clara, sem a necessidade das muletas dos adjetivos, advérbios, preposições, como neste trecho de “Incêndio na Pedra”: “No princípio das tardes, o céu escurecia, para os lados do nascente. E chovia nas alturas. Aqui em baixo, apareciam umas gotinhas de água, tão leves que voavam na horizontal. Os cachorros, ociosos, tentavam abocanhá-las, na ilusão de comer pequeninos insetos faiscantes”. A descrição é minuciosa, embora sem excessos de palavras. Lembra pintura expressionista ou cenário de filme no campo.

O uso da descrição é discreto nas narrativas de Costa Matos. Somente o necessário para que o leitor imagine o lugar onde os personagens atuam. Em “O Desmaio de Luís Preto” lê-se isto: “Era o domingo entardecer e a poeira subir, no campo ao lado do cemitério novo. Bancas de café, potes de aluá, pirulitos em tabuleiros itinerantes, bandejas de pés-de-moleque”. Em poucas palavras pintou o quadro de uma festa esportiva.

Costa Matos mostra com Na Trilha dos Matuiús que é possível e bom para a Literatura o uso correto da frase, sem se prender demais às regras gramaticais e sem se deixar fascinar pelos modismos e pela banalização da linguagem.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 22 – 1.° de agosto de 1887

Anda agora toda a imprensa,
Ou quase toda, cuidando
De alcançar que, sem detença,
Acabe um vício nefando.

Na brasileira linguagem,
Essa nacional usança
Chama-se capoeiragem;
É uma espécie de dança,

Obrigada a cabeçadas,
Rasteiras e desafios,
Facadas e punhaladas,
Tudo o que desperte os brios.

Há formados dois partidos,
Dizem, cada qual mais forte,
De tais rancores nutridos,
Que o melhor desforço é morte.

Ora, os jornais que desejam
Ver a boa paz nas ruas,
Reclamam, pedem, forcejam
Contra as duas nações cruas.

Referem casos horrendos,
Já tão vulgares que soam
Como simples dividendos
De bancos que se esboroam.

E zangam-se as tais gazetas,
Enchem-se todas de tédio,
Fazem caras e caretas
Por não ver ao mal remédio.

Vou consolá-las. É uso
Das alminhas bem nascidas
Dar, contra o pesar intruso
Consolações repetidas.

Eu (em tão boa hora o diga,
Que me não minta esta pena!)
Tenho aquela corda amiga
Que, em pena, dá eco à pena.

Inda quando a rima saia,
Como essa, um pouquinho dura,
(Ou esta da mesma laia)
É rima que dói, mas cura.

As consolações — ou antes
A consolação é uma;
Trepa tu pelas estantes,
Busca, arruma, desarruma:

E, se tens livros contendo
Decisões de Vinte e Quatro
(Há sessenta anos!) vai lendo
Um aviso áspero e atro.

Lê isto: “Para que cessem
De uma vez os capoeiras,
Que as ruas entenebrecem,
Com insolentes canseiras,

“Manda o imperador, que sabe
E quer pôr a isto cobro,
Dar a pena a que lhes cabe,
E se for preciso, em dobro.

“Recomenda neste caso
Que haja a major energia,
Para que em estreito prazo
Acabe a patifaria;

“E seja restituída
A paz aos bons habitantes,
De modo que tenham vida
Igual à que tinham dantes”.

Ora, se este aviso expresso
(Que é de vinte e oito de maio)
Teve tão ruim sucesso
Que inda fulge o mesmo raio,

Concluo que o capoeira
Nasceu com a liberdade,
Ou deu a nota primeira
Se tem mais que a mesma idade.

Valha-nos isto, que ao menos
Consola a gente medrosa,
E faz de alguns agarenos
Cristã gente gloriosa.

Sete de abril, a Regência,
Depois a Maioridade,
Partidos em divergência,
Barulhos pela cidade,

Guerras cruas e compridas,
Exposições, grandes festas,
Paradas apetecidas,
Tudo viu a faca e a testa...

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

Humberto de Campos (A Obra Prima)

O almirante Ribas acabava de referir às senhoras, à mesa de jantar, a origem da mulata nacional, tal como eu a contei, aqui, há poucos dias, quando o desembargador Pessegueiro, recompondo as guias do bigode grisalho e cuidado, atalhou, com orgulho:

- Há engano nessa tradição, Sr. almirante: há engano. A mulata não teve origem no céu, como se diz; a sua origem, para gloria nossa, é toda terrena.

E recostando-se na cadeira, apoiando-se na mesa com ambas as mãos, começou, pausado, a sua narrativa:

- O preto, o branco e o amarelo, que habitam a África, a Europa, a Ásia e a Oceania, foram, realmente, modelados por Jeová, que os reconheceu, de fato, como seus filhos. Atirando-os, aos milhares, ao mundo, ele os conhecia todos, regulando-lhes a vida e a morte. E tanto assim, que, quando aparecia, no céu, de volta da terra, um branco, um preto ou um indivíduo de raça asiática, ele tomava, paternal, pela mão, reconduzindo-o ao convívio dos bem-aventurados.

Feita uma pequena pausa, o desembargador continuou:

- Certo dia, porém, bateram à porta de ouro do céu. Solícito, como sempre, S. Pedro correu a abri-la, e recuou, deslumbrado: era a primeira mulata que, requebrada, cheirosa, encantadora, incomparável, penetrava, triunfante, no Paraíso!

As senhoras sorriram, admirando o entusiasmo do velho magistrado, e ele, sorrindo com elas, retomou o fio à narrativa:

- A presença daquela criatura estranha, rica de encantos, de graças, de seduções, agitou, de pronto, a morada celeste. Anjos e serafins rodeavam-na, fascinados, tontos, embriagados de beleza. Estrelas que viviam isoladas no azul, achegavam-se, cochichando, formando constelações. E uma grande música religiosa ressoou pelas alturas, celebrando, num enlevo, o maravilhoso acontecimento.

Nesse ponto, com os braços e os lábios abertos, o desembargador quedou-se, como num êxtase. Passado um minuto, continuou:

- Avisado da novidade, Jeová quis, ele próprio, ver o prodígio; e, descendo do seu trono de pedrarias, encaminhou-se, com o cortejo de arcanjos, no rumo da porta, de se achava a mulata, rodeada de santos e querubins. Chegando aí, ao vê-la, ele próprio recuou, tapando os olhos com as mãos; diante dele, a cabeça pendida para um lado, os lábios entreabertos num sorriso, e os olhos entrefechados num delíquio, a recém-chegada esperava-o, doce, linda, maravilhosa! Passado o primeiro momento de pasmo, o Supremo Arquiteto levantou o rosto venerável, e, com a barba soberba derramada pelo peito largo, bradou, deslumbrado:

"- Eu fiz a raça preta, que povoou a Líbia ardente, suportando, impassível, o fogo dos desertos. A raça amarela, cujas mulheres, pequeninas e tímidas, enchem a Ásia, é obra minha. A mulher branca, delicada, mimosa, de olhos azuis e cabelos de ouro, saiu das minhas oficinas. Que artífice terá, porém, imaginado e realizado esta jóia, esta obra-prima da natureza, esta flor incomparável da criação?"

Nesse momento, os bem-aventurados abriram alas, deixando ver uma figura curiosa: barba feita, bigode retorcido, correntão de ouro atravessado sobre o colete, que lhe dava maior vulto à obesidade, apareceu, sorridente, o Manuel da Venda, exclamando, com orgulho:

- Eu, Senhor!

Ante essa confissão, Jeová não resistiu: encaminhou-se para o Manuel, que o olhava desafiadoramente, e, sem se conter, bradou, com os olhos úmidos:

"- Mestre!..."

E apertou-lhe a mão, comovido.

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

José Feldman (Aquarela de Trovas n. 13)


Como é bom saber que o filho
vida afora alegre vai,
dando forma, força e brilho
aos sonhos do velho pai!
A. A. DE ASSIS – MARINGÁ (PR)
 -
Eu disse pra minha amada,
baseado num estudo,
o amor nasce de um nada
e morre de quase tudo!
ADEMAR MACEDO – NATAL (RN)
 -
O circo segue em viagem
deixando em cada cidade
um círculo de serragem
delimitando a saudade...
ADILSON DE PAULA – JOAQUIM TÁVORA (PR)
 -
Que bom se o tempo na vida
fosse eterno para o amor...
e existisse outra medida
passageira para a dor!
ALBA HELENA CORRÊA – NITERÓI (RJ)
-
Em pedaços fui rasgando
tua foto pela praça;
hoje os procuro chorando,
pedindo ajuda a quem passa.
AMÁLIA MAX – PONTA GROSSA (PR)
 -

Velhos sinos badalando
anunciam minha dor...
– Cada toque ressoando
no meu presente sem cor...
ANTÔNIO MANOEL ABREU SARDENBERG – SÃO FIDÉLIS (RJ)
 -
Infância é um brinquedo usado
que um dia a vida resolve
tomar um pouco emprestado
e nunca mais nos devolve!
ARLINDO TADEU HAGEN – BELO HORIZONTE (MG)
-
De tu boca quiero oír
Tus palabras zalameras
Esas que sueles decir
Que eternamente me esperas.
CARMEN PATINO FERNÁNDEZ (ESPANHA)
-
Encontrei na minha trova
a vontade de escrever.
A paixão por coisa nova
faz a gente renascer.
CECIM CALIXTO –TOMAZINA (PR)
 -
Hoje os rios caudalosos
descem cantando suas mágoas
dos tempos idos, saudosos,
em que eram puras as águas...
CIDINHA FRIGERI – LONDRINA (PR)
-
Partiste... o sonho acabou,
num mistério que revolta...
– E a saudade carimbou
seu passaporte sem volta!...
CLENIR NEVES RIBEIRO – NOVA FRIBURGO (RJ)
-
Olhando fotos antigas,
tenho saudade de mim.
– Hoje, maduras espigas;
ontem, um frágil jardim.
CLEVANE PESSOA – BELO HORIZONTE (MG)
 -
Que tenhas muita ventura
no  universo do teu lar,
que só o amor e a ternura
possam  contigo,  ficar!
DELCY CANALLES – PORTO ALEGRE (RS)
-
Foste embora e, na saudade,
a ofensa se fez lição:
descobri que o amor-verdade
se alicerça no perdão!
DOMITILLA BORGES BELTRAME – S. PAULO (SP)
 -
Coração deixado vago
lamenta ter que informar:
fizeram-lhe tanto estrago,
que não dá mais pra morar.
DOROTHY JANSSON MORETTI – SOROCABA (SP)
-
Utopias!... Por vivê-las
e a elas me aprisionar,
quando desejo as estrelas,
deixo meu sonho voar!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA – RIO DE JANEIRO (RJ)
-
As espadas da descrença
não ferem meu coração,
nem há presságio que vença
o poder de uma oração.
ÉLEN FÉLIX – NITERÓI (RJ)
-
Por ser caboclo do mato,
de capina a vida inteira,
meu mundo tem o formato
de uma roça sem fronteira!
EDUARDO TOLEDO – POUSO ALEGRE (MG)
-
Dominar o medo e o ódio,
a injustiça e o desamor,
são vitórias que, no pódio,
dão mais brilho ao vencedor!
ELISABETH SOUZA CRUZ – NOVA FRIBURGO (RJ)
 -
A  ilusão da  meninice
com  os  meus  netos se  fez,
agora  em  plena  velhice
eu  sou  criança  outra  vez!
FERNANDO CÂNCIO – FORTALEZA (CE)
 -
O sonho que mais me anima,
que me faz bem, me renova,
é sonhar fazendo rima,
compondo mais uma trova.
FRANCISCO GARCIA – CAICÓ (RN)
 -
Nossa humildade se mede
e sempre se medirá,
não com o favor que se pede
mas com o perdão que se dá.
FRANCISCO PESSOA – FORTALEZA (CE)
 -
A frase dura que escapa
da boca de muitos pais
é tão cruel quanto um tapa
e, às vezes, machuca mais!
GERSON CÉSAR SOUZA (PR)
-
A minha vida é uma Trova,
trova de ilusão perdida,
pois a vida é grande prova,
que prova a Trova da vida!
GISLAINE CANALES – PORTO ALEGRE (RS)
 -
A sentença mais atroz
que a solidão concebeu
condenou o nosso “nós”
a ser, apenas, um... “eu”!
HÉRON PATRÍCIO – SÃO PAULO (SP)
-
Começa a lua num traço,
vai crescendo e nos seduz...
Como é formoso, no espaço,
esse trapinho de luz!
HUMBERTO DEL MAESTRO – VITÓRIA (ES)
 -
Seresteiro e trovador
ambos têm equivalências:
porque os dois fazem do amor
o motivo da existência.
IALMAR PIO SCHNEIDER – PORTO ALEGRE (RS)
-
Se a viagem é impossível,
deixo o sonho de nós dois
numa espera indefinível
para um suposto depois...
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA – BANDEIRANTES (PR)
 -
O imortal desaparece
desta vida transitória,
mas seu verso permanece
nas letras vivas da história!
JOAMIR MEDEIROS – NATAL (RN)

 -
Às vezes, Divino Pai,
quando converso contigo,
eu sinto que um anjo vai
orando, também, comigo!
JOSAFÁ SOBREIRA DA SILVA – RIO DE JANEIRO (RJ)
-
Baú velho, tampo torto,
cartas e fotos mofando...
– Refúgio de um sonho morto,
que eu vivo ressuscitando!...
JOSÉ OUVERNEY  – PINDAMONHANGABA (SP)
-
A paz é conquista interna,
pura ausência de ansiedade,
tranqüilidade que externa
prazer e felicidade.
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE – PINHALÃO (PR)
 -
Debruçada sobre o berço
do seu querido filhinho,
busca a mãe, com o seu terço,
indicar-lhe um bom caminho.
LUIZ HÉLIO FRIEDRICH – CURITIBA (PR)
 -
Para a alma aliviar
na dor, conflito, paixão,
a lágrima acalma o olhar;
um poema, o coração!
MARIA ELIANA PALMA – MARINGÁ (PR)
 -
Falar de trovas, meu Deus!
Missão que faz me encantar!
Falar de trovas aos meus!
Ainda não sei trovar!
MARIA GRANZOTO DA SILVA – ARAPONGAS (PR)

Minha boneca de sonho…
vivências da mocidade!
Pensamento que transponho
no meu portal de saudade!
MARIA JOSÉ FRAQUEZA – PORTUGAL
 -
Imortal não sou agora,
mas eu tenho uma alegria:
– Sou poeta e ao “ir-me embora”...
deixo um rastro de poesia!
MARIA LÚCIA DALOCE  CASTANHO – BANDEIRANTES (PR)
-
Sabedoria... só cabe
a quem tem por diretriz
não dizer tudo o que sabe,
mas... saber tudo o que diz.
MARIA MADALENA FERREIRA – MAGÉ (RJ)
-
Poeta arguto e sensível,
vai o inquieto beija-flor
buscar a rima impossível
no coração de uma flor!
MARIA THEREZA CAVALHEIRO – SÃO PAULO (SP)
 -
Na viagem de retorno
eu guardei algo de bom:
no meu lencinho o contorno
de tua boca em batom.
MAURÍCIO LEONARDO – IBIPORÃ (PR)
-
Cupido avisa aos poetas
e também aos namorados
que seus estoques de setas
foram todos renovados!
MIGUEL RUSSOWSKY – JOAÇABA (SC)
-
Sou louco quando preciso
e o remorso não me assalta;
eu nunca tive juízo
e ele nunca me fez falta...
MILTON SOUZA – PORTO ALEGRE (RS)
 -
E’ maldade, insensatez,
marcar com ferro a boiada,
se o nascimento da rês
traz a sentença marcada.
NEIDE ROCHA PORTUGAL – BANDEIRANTES (PR)
-
O namoro é uma viagem
que nos leva ao paraíso;
mas quem for comprar passagem...
na bagagem leve juízo.
NEI GARCEZ – CURITIBA
-
Carrego pouca bagagem
porque na vida aprendi
que, mesmo longa a viagem,
preciso apenas de ti!
OLGA AGULHON – MARINGÁ

Quer sejam feias ou belas,
das mulheres fujo, sim…
Das feias, de medo delas;
das belas – medo de mim!
PAULO EMÍLIO PINTO – CONSELHEIRO LAFAYETTE (MG)
-
Aprendi pelos caminhos
da vida, entre dissabores,
a não deixar que os espinhos
me impeçam de ver as flores!
REGIANE BAGNI ORNELLAS – VALINHOS (SP)
-
Fraternidade é sentir
uma comunhão tão alta
que nos leva a dividir
até mesmo o que nos falta!
RENATA PACCOLA – SÃO PAULO (SP)
-
Não condeno a caminhada,
culpo sim, meus passos falhos.
Bem larga era a minha estrada
fui eu quem buscou atalhos.
RITA MOURÃO – RIBEIRÃO PRETO (SP)
-
Tanto, tanto ela falou
na última temporada,
que da praia ela voltou
com a língua bronzeada!
ROZA DE OLIVEIRA – CURITIBA (PR)
 -
No contraste a dor sentida
dos que não tiveram sorte:
a morte buscando a vida,
e a vida esperando a morte.
SARAH RODRIGUES – BELÉM (PA)
-
Quem, no rumo desta vida,
se distrai na caminhada
pode acertar na partida,
mas pode errar na chegada.
SELMA PATTI SPINELLI – SÃO PAULO (SP)
-
Mais que justa há que ser boa
a resposta a uma agressão,
que o bom é justo e perdoa
mesmo os erros sem perdão!
SÉRGIO BERNARDO – NOVA FRIBURGO (RJ)
 -
Nem me lembro mais do gosto
da tal noite de verão,
e até hoje pago imposto
que ela chama de pensão...
SÉRGIO FERREIRA DOS SANTOS – NOVA FRIBURGO (RJ)
-
A idade impõe seus percalços
e a humildade os ameniza;
quem anda de pés descalços
respeita a terra onde pisa!
SÉRGIO FERREIRA DA SILVA – SÃO PAULO (SP)
-
Tendo o amor por inquilino,
com coragem e artimanha,
meu coração é um menino
que ora bate... que ora apanha!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA -  SÃO PAULO (SP)
-
No mundo das ilusões,
havendo entrega total,
se entrelaçam corações
numa paixão virtual…
VANDA ALVES – CURITIBA (PR)
-
Por mais que a gente conquiste
grande acervo de saber
mais sábio é saber que existe
muito mais para aprender.
VANDA FAGUNDES QUEIROZ – CURITIBA (PR)
-
De um amor que é só miragem
finjo agora ter o assédio,
para escapar da engrenagem
dessa moenda que é o tédio.
WANDA DE PAULA MOURTHÉ – BELO HORIZONTE (MG)
-
A vida é uma grande viagem
se o excesso de “informação”
não excluir da bagagem
“enlevos” do coração.
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ – CURITIBA (PR)
 -
Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração...
perco o rumo e o raciocínio!
VÂNIA ENNES – CURITIBA (PR)
 -
Canta a prosa, canta o verso
com esplêndida leveza,
enchendo todo o universo
e louvando a natureza.
VIDAL IDONY STOCKLER – CURITIBA (PR)

Irmaõs Grimm (O Bando de Maltrapilhos)

O galo uma vez disse para a galinha:

- "Agora chegou a época das nozes amadurecerem, então, vamos subir juntos a colina e vamos ser os primeiros a comer até enfartar antes que o esquilo venha e leve todas as nozes embora."

- "Sim," respondeu a galinha. "venha, nós vamos nos divertir muito juntos." Então, eles subiram a colina, e como estava um dia ensolarado eles ficaram até o anoitecer.

Agora eu não sei se era porque eles haviam comido muito e estavam muito pesados, ou se eles eram muito orgulhosos e não queriam voltar a pé para casa, e o galo pretendia fazer uma pequena carroça com as cascas das nozes. Quando a carroça ficou pronta, a galinha se sentou no banco, e disse para o galo:

- “Você poderia ser atrelado à carroça."

- "De jeito nenhum," disse o galo, "eu prefiro ir para casa à pé do que ser atrelado a uma carroça, não, não foi isso que combinamos. Eu não me importaria de ser o cocheiro e ficar sentado na boléia, mas puxar a carroça sozinho eu não vou mesmo."

Enquanto eles estavam assim discutindo, um pato grasnou para eles:

- "Ei, seus pequenos ladrões, quem autorizou vocês a subirem na minha colina de nozes? Esperem só, e vocês vão pagar por isso!"

E correu de bico aberto em direção ao galo. Mas o galo não era medroso, e enfrentou o pato com coragem, e machucou tanto o pato com as suas esporas que ele teve de pedir misericórdia, e permitiu que fosse atrelado à carroça como punição.

O pequeno galo se sentou na boleia como se fosse o cocheiro, e lá foram eles galopando, com o pato, correndo tudo que podia. Depois de terem percorrido uma parte do caminho, eles encontraram dois passageiros que estavam andando a pé, um alfinete e uma agulha. Os dois gritaram:

- "Parem, parem!" e disseram que o dia estava ficando escuro que nem piche, e que eles não conseguiam dar nem um passo sequer, e que havia tanta sujeira na estrada, e perguntaram se eles não podiam subir na carroça um pouquinho.

Eles tinham ido até a cervejaria do alfaiate que ficava perto do portão, e tinham ficado muito tempo lá tomando cerveja. Como eles eram magrinhos, e portanto, não ocupavam muito espaço, o galo permitiu que os dois subissem, mas os dois deviam prometer a ele e à pequena galinha que não pisariam em seus pés. Tarde da noite eles chegaram numa estalagem, e como eles não gostavam de viajar a noite, e como o pato não tinha mais forças no pé, e caía de um lado para outro, eles decidiram entrar.

O estalajadeiro, a princípio, fez algumas objeções, a sua casa já estava cheia, além disso, pensou ele, eles não poderiam ser pessoas muito distintas, mas, finalmente, como a conversa deles era agradável, e haviam lhe dito que ele poderia ficar com os ovos que a galinha havia botado no caminho, e também poderiam ficar com o pato, que botava um ovo todos os dias, o estalajadeiro finalmente disse que eles poderiam ficar aquela noite.

E então, eles foram bem servidos, e festejaram e fizeram muito barulho. Bem cedo de manhã, quando o dia estava clareando, e todos estavam dormindo, o galo acordou a galinha, trouxe o ovo, e comeram juntos, mas a casca eles jogaram no fogão a lenha. Então, eles foram até a agulha que ainda estava sonolenta, pegaram-na pela cabeça, e a espetaram na almofada da cadeira do estalajadeiro, e colocaram o alfinete na toalha dele, e finalmente, sem alhos nem bugalhos, foram embora voando por cima do fogão.

O pato que gostava de dormir a céu aberto e tinha ficado no quintal, ouviu quando eles estavam indo embora, ficou muito feliz, e encontrou um riacho, e por ele foi nadando, porque era um caminho muito mais rápido de viajar do que estando preso a uma carroça. O estalajadeiro só saiu da cama duas horas depois que eles tinham ido embora, ele se lavou e ia se secar, então, o alfinete espetou a sua cara e deixou uma lista vermelha que ia de uma orelha a outra.

Depois disto ele foi para a cozinha e quis acender um charuto, mas quando ele chegou perto do fogão a casca do ovo explodiu em seus olhos.

- "Hoje de manhã todas as coisas estão caindo na minha cabeça," disse ele, e nervoso se sentou na cadeira de seu pai, mas ele deu um pulo novamente e gritou:

- "Ai meu Deus," pois a agulha havia picado num lugar bem pior que o alfinete, e não tinha sido na cabeça.

Agora, sim, ele tinha ficado muito furioso, e desconfiou dos hóspedes que haviam chegado bem tarde na noite anterior, e quando ele decidiu procurar por eles, eles tinham ido embora. Então, ele jurou nunca mais aceitar maltrapilhos em sua estalagem, porque eles consomem muito, não pagam nada, e usam de artifícios desonestos durante a negociação a pretexto de gratidão.

Fonte:
Contos de Grimm

Sueli Donário (Poemas Avulsos)

Amantes distantes

Horas passam em agonia a se arrastar
Na distância entre o anoitecer e alvorecer
Um ainda feliz neste magnífico sonhar
Enquanto o outro deseja só o adormecer

São conflitantes como Sol e Lua sobre o céu
Dificilmente irão se encontrar no mesmo lugar
Enquanto o Sol resplandesce a Lua desce seu véu
Um oceano e fusos teimosos em lhes separar

Mas a suavidade do olhar terá brilhos molhados
Quando delicadamente um boing estiver a pousar
Lágrimas não existirão, só sorrisos apaixonados
Neste pequeno enlevo o oceano estará feliz a secar.
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Amor de perdição

Teu olhar me procurava na multidão
Tua alma viu minha luz perdida
Teu coração me iluminou na escuridão
Meu amor te conduz para a vida

Estranho mundo começou na vastidão
Sem rumo, sem limites, só expectativa
Diferente, tudo parece novo e velho
Nosso caminho, talvez nova alternativa

Dentro de nós dúvidas, medos e paixão
Encobrindo a razão de tanta loucura
Mescla de amor, tesão e solidão
Certeza, o passado demorou sua procura

Outra vida talvez explique a sensação
Meu desejo em teus braços, pareço estar viva
Desespero, pesadelo, Deus tem explicação
Tenho medo de amar, sofrer nesta vida

Fecho os olhos ao pavor do sonho se quebrar
Encontro nele seus olhos e o tempo pára
Volto da vida já vívida, alegria incontida
Agora todo sol, para nós só irá brilhar
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Medo da vida

Tudo era lindo, era esperança
A alegria reinava no mundo
Dos meus pequeninos olhos de criança
Não sei por que cresci
Cresci e vi maldade, vi tanto ódio,
Tanta falsidade, vi uma mulher
Numa sargeta imunda
Vendo sua filha morrer de frio quase nua
Vi a inveja num manto de amizade
ódio destruindo a liberdade
Vi a hipocrisia de um falso sorriso
Vi querra, vi gente correr, vi gente morrer
Fechei os olhos
Fechei-os para não ver
Fechei-os para morrer.
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Noites infinitas

Te espero, a cada momento um tormento
Sonho em devaneios, com teus carinhos
De longe, penso em ti, só acalento
De perto, não posso ao menos pensamentos

Noites frias, com você seriam frívolas
Passadas como lua aos quatro ventos
Solitária e triste, tento protegê-las
De mi mesma e te teus olhares sedentos

Quase não me apercebo, penso em ti
Vivo assim entre amores e desejos
Não quero, mas são todos os momentos
Minha vida é mesmo cheia de medos

Noites infinitas, passo o tempo a esperar
Que você apareça e venha me escutar
Falar e me acariciar, minha sede matar
Não me deixe de novo no infinito a sonhar.
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Porto da canção

Para cada coração, um mandamento
Para cada violão, uma canção
E nos tempos de solidão
Apenas uma ilusão

Neste pensar, me acalento
Apenas a sonhar o que é o vento
Que me traz o sonho ou o sofrimento
vem ou não o mandamento?

E neste embalo solitário
O passar do tempo traz apenas a canção
Dedilhando a imensa solidão,
E o vento, leva a ilusão.
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Saudades de você

Olhar nos teus olhos é sofrimento
Falar com você magoa minha alma
Lembrar dos teus beijos é um tormento
Não ter sua boca me tira a calma

Todo dia, toda hora e a todo momento
Cada pensamento meu, é somente teu
Em todo lugar vejo o desencantamento
Da perda do amor que era só meu

Hoje a vida é só tristeza e amargura
Não posso imaginar agora o meu futuro
Só me lembro dos momentos de loucura
Minha paixão concreta, eterna no obscuro

Teu lado na cama continua à tua espera
Mas o frio de teu olhar me congela
Sei que nada poderá retornar nesta esfera
Lamentável é o vazio ao olhar pela janela.

Fonte:
Casa do Bruxo

Humberto de Campos (Ninho do Curió)

Rosto em brasa, olhos vivos, cabelos alvoroçados, atravessava o Luizinho a praça do povoado, denunciando no desalinho das roupas, no fogo das faces, no susto das maneiras, a sua última travessura, quando, ao passar pela frente da igreja, foi detido suavemente, brandamente, pela bondade do padre Guilherme.

- Venha cá, ó Luizinho!

O garoto tremeu, desconcertado, e o vigário, homem de uns quarenta anos, insistiu:

- Venha cá!

Luizinho chegou-se, respeitoso, de olhos no chão e chapéu entre os dedos, e o sacerdote indagou:

- Então, por onde andou você, hoje?

- Eu?

- Sim, você.

O pequeno corou, envergonhado, e o padre, excelente pastor, pegou-lhe da mão, puxando-o para dentro da igreja.

- Venha cá; venha se confessar.

Um minuto depois estava o Luizinho, com os olhos muito espantados, ajoelhado no confessionário, a contar ao padre Guilherme o seu grande pecado do dia.

- Eu estive hoje na mata do outro lado do rio, tirando uns ninhos de curió... confessava o garoto.

- Ninho de curió? - estranhou o confessor, franzindo a testa. - Você não sabe, então, que é pecado tirar os ninhos das avezitas, roubando os pobres passarinhos ao conchego de seus pais?

Luizinho mantinha-se cabisbaixo, vermelho de arrependimento e de vergonha, e não respondeu. O vigário insistiu, porém:

- E onde foi que você achou esses ninhos de curió?

- Na ingazeira, junto do morro.

- E havia muitos?

- Havia, sim, senhor.

- Pois, não tire mais, não. É pecado, e pecado mortal!

Na manhã seguinte, após uma noite de apreensões aflitivas, ia o garoto procurar urnas vacas na outra margem do rio, quando viu, ao longe, o vulto de padre Guilherme, que se aproximava, cauteloso, da ingazeira de que lhe falara na véspera. Luizinho escondeu-se, de um salto, em uma das moitas das proximidades, e observou tudo. Padre Guilherme chegou, com o breviário nas mãos e nariz no ar, examinou, sondou, olhou para um lado, olhou para outro, e, como não visse ninguém, descansou o livro na raiz da árvore, endireitou os óculos e subiu. Momentos depois, assinalados pelo piar dos passaritos implumes e pelo vôo das aves aninhadas, o servo de Deus descia da ingazeira, sustentando nas mãos os bolsos da batina, repletos de curiós.

Luizinho viu tudo isso, da sua moita, e não disse nada. Padre Guilherme apanhou o seu breviário e foi-se embora para a aldeia. Ele tomou, também, o seu varapau, e lá se pelo mundo ganhar a vida, até que, anos depois, homem feito, voltou, de novo, à terra do seu nascimento.

Forte, moço, querido das moças, ia, uma tarde, o Luiz pela praça da matriz, quando o detiveram pelo braço:

- Olá, Luiz, como vai?

- Oh! o Sr. padre Guilherme! - sorriu o rapagão, feliz.

E travou-se a palestra

- Então, veio à terra para casar, não?

- É verdade, sim, senhor.

O padre deu-lhe parabéns, mas, não satisfeito, insistiu:

- E a noiva?... Afinal, quem é a noiva?

Luiz encarou, firme, o reverendo, e trovejou:

- A noiva? Eu sou tolo, então, para lhe dizer quem é?

E, dando-lhe as costas, indignado:

- Pensa, então, que isto é ninho de curió?...

E afastou-se, resmungando.

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze.

Sérgio Telles (Mergulhador de Acapulco)

De longe: Os bicos dos sapatos, meio arredondados, saem fora do caixão. A sola mostra ter andado por muitos caminhos antes de enveredar por este agora para o qual está destinado.

Já mais próximo: O leito de flores. A mão inchada de tantos tubos e agulhas. A face em placidez séria e cérea. O terno azul-claro, combinando com a meia e a gravata, com a camisa de listrinha azul, tudo como ele fazia antes.

 Encostado no caixão: Vertigem, tontura, sensação de desmaio. Como se – de uma altura enorme – fosse cair dentro do caixão. À beira de um penhasco. Mas logo me firmo e, mergulhador de Acapulco, pulo em salto mortífero, riscando o vazio num voo limpo e preciso, o corpo em movimentos gráceis e poderosos, um canivete que se abre e fecha, uma seta certeira fazendo o arco completo até afundar no azul do mar. Subo à tona, estou vivo e me vanglorio de ter conseguido mais uma vez. A beleza da vida, o sol, a ousadia, o criar desafios gratuitos e desnecessários, pelo simples prazer de vencê-los da forma mais bela e justa.

Saindo de perto do caixão: Uma vontade de espancar o morto, de esmurrá-lo, de derrubar o caixão no chão, espalhar flores e velas. Espancá-lo para acordá-lo, trazê-lo de volta, para que venha para cá, para que não nos deixe. Ou ainda, para quebrar a ilusão de que ele apenas dorme, para que caindo no chão o corpo hirto assuma posições grotescas e impossíveis, casca abandonada, inútil. Para que, impossibilitado de acordá-lo, acorde as outras pessoas que ali estão e que agem como se nada de grave estivesse acontecendo, que se recusam a ver o terror nu que ali se expõe cruamente, que – em suave rumor de conversas civilizadas – bebericam café e água em pequenos copos de plástico.

 (Sérgio Telles, Mergulhador de Acapulco)

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Sérgio Telles


João Sergio Siqueira Telles (Fortaleza, 1946) formou-se em 1970. Tem livros na área da psicanálise e dois de contos: Mergulhador de Acapulco (1992), menção honrosa no Concurso de Contos do Paraná, 1988, com o título O Décimo Dia e outros contos, e Peixe de Bicicleta (2002), prêmio APCA, 2002. Está incluído na antologia de literatura brasileira Fran Urskog Till Megastad, organizada e publicada por Arne Lundgren, na Suécia, em 1994. Para a antologia O Talento Cearense em Contos teve selecionado “Cicatriz de Bala”. Em 2003, lançou Fragmentos Clínicos de Psicanálise, estudos psicanalíticos. Em 2004, lançou dois livros, um de ensaios psicanalíticos sobre cinema, O Psicanalista Vai Ao Cinema, e Mistura Fina – Contos & Crônicas & Poesias. Em 2006, lançou Visita Às Casas de Freud e Outras Viagens, livro de ensaios de psicanálise e cultura.

Há, pelo menos, quatro tipos de contistas ou narradores. O primeiro deles é constituído de Machado de Assis e outros exemplares raros. Outro tipo forma a grande maioria. A dos que nunca trabalharam em redações de jornal, leram ou ouviram as notícias como qualquer mortal, acompanharam a História de seu tempo como espectadores e aprenderam a narrar fatos ou histórias extraídos de suas memórias e das páginas dos clássicos. Também nunca clinicaram em consultórios de analistas, nunca leram Freud e Young em profundidade e apreenderam dramas psicológicos em casa, nas ruas e nos livros. O terceiro tipo é composto de jornalistas. O quarto é formado de psiquiatras, psicólogos e analistas. Sérgio Telles é um deles. Seus personagens são atormentados e analisados, sofridos e dissecados, uns doentes mentais, outros apenas pacientes.

Em “Amizade”, Clóvis e Jorginho se completam como amigos: um frágil, outro atlético; um inteligente e culto, outro joga futebol de salão, “jogo pesado, de macho”. Até surgir a figura da mãe do primeiro, a nova conquista amorosa do segundo, e o conto ter um desfecho enigmático: após a “traição”, Jorginho se sente “péssimo em relação” ao amigo, que, no entanto, simplesmente diz: “– Clóvis, agora me conta tudo, tudo. Com detalhes”. Ora, somente um analista daria um desenlace como este ao conto. Nunca um jornalista ou um contista não afeito à psicanálise. Como se vê, o conflito entre personagens muitas vezes está somente na expectativa do leitor. Ora, qual seria a reação “normal” de Jorginho, se não a repulsa ao amigo?

Os transtornos que a sexualidade reprimida opera estão presentes em diversas narrativas dos dois livros de Telles. Assim como perturbações de outra natureza, nem sempre esclarecidas. O que sente Paulo, de “Falta de ar”, que não consegue dormir ? Será apenas falta de ar? O que leva o “cantor famoso, rico e importante”, do conto “Na Delegacia”, a ficar nu no palco, até terminar preso pelo tumulto causado e confessar ao delegado as suas angústias? Esses personagens “doentes” terminam em confessionários ou em divãs, rememorando suas vidas, suas dores, seus fracassos, seus medos, suas desilusões. Há até uma narrativa sob o título “Rememorando”, também mergulho no poço interior do personagem, cujo desfecho é a pergunta: “Que mais posso fazer além de tentar domar o tigre louco de meu medo e forçá-lo a se dispor nas entrelinhas do que escrevo?”

Em “Peixe de bicicleta”, um dos contos narrados por personagem feminina, o sexo é mais uma vez o motivo da história. A narradora parece se perder em devaneios eróticos, como se vivesse exclusivamente em função do sexo. O contista faz um retrato de um tipo de mulher e de homem da classe média, seus hábitos, como o  de perambular pelo shopping.

Em “Feita para quem não está morto”, do primeiro volume, o narrador se sente “vivo”, livre da “morte em vida”, ao atropelar, matar uma mulher e conduzir o corpo a uma represa, onde tenciona jogá-lo. Nas suas ruminações, o homem se analisa, se desnuda, se mostra a si mesmo, como se quisesse dizer que o ser humano é uma máquina quase imperfeita.

No segundo livro há que se destacar “Uma coleção de lápis”, uma das mais finas peças do contista. Narrado em primeira pessoa, um homem vai arrumando as malas da separação conjugal e, ao mesmo tempo, ruminando (narrando) fiapos de sua vida. Na apresentação do segundo livro, Malcolm Silverman pondera: “Tudo leva a uma justaposição cronológica, o que reforça o tom confessional das peças de Telles, em sua maioria escritas numa primeira pessoa intimista”.

Leia-se o conto “O colchão de listas azuis”. A vergonha, a humilhação do garoto Júlio, chantageado pelos irmãos, a se comparar aos prisioneiros dos campos de concentração, narradas com simplicidade, dão um toque de leveza quase infantil à narrativa.

Em “Saudades de Francisca Turner”, ao mesmo tempo em que presta homenagem à cantora negra Tina Turner, lembra a empregada de “tantos anos atrás”, a velha Francisca, “indômita e bela”. Mais parece crônica ou poema, não fosse conto escrito com os olhos do mais fino humanismo.

Homens e mulheres são vasculhados em suas intimidades ou se mostram por inteiro, como a paciente Marion L., de “Cara Doutora Frieda”, em carta-confissão-despedida. No conto “Maktub!”, narrado em terceira pessoa, Paulo reencontra um amigo de infância, Juvenal, então transformado em Vivi. Sentado a uma mesa de bar, vê “alguém familiar que não conseguiu reconhecer logo, até constatar divertido que era de Marilyn Monroe a fisionomia conhecida que julgava ver ali”. Sérgio Telles narra e descreve os instantes do reencontro com mão de contista fino e alcança um desfecho dos mais surpreendentes, ao se valer do flashback: quando criança o protagonista Paulo leu o Maktub, de Malba Tahan. E pergunta: “Será que Deus escreve errado em linhas tortas? Maktub, Alá assim o quis, teria dito Malba Tahan em tais circunstâncias – pensou Paulo”.

E assim são outros personagens de ambos os livros.

A linguagem nos contos de Sérgio Telles não apresenta novidades. A narração, tanto do ponto de vista onisciente, como da primeira pessoa ou do narrador-testemunha, flui em frases bem ordenadas, de fácil leitura. Nada de malabarismos verbais. Aliás, a linguagem é quase sempre coloquial, mesmo quando o ponto de vista é do escritor-narrador. Leia-se “Classe Média Blues”. Primeira frase: “Era noite de sexta-feira”. Final: (...) “foi até a cozinha tomar um gole de café”. Quando se serve do monólogo interior, como no conto “Feita para quem não está morto”, a linguagem também é a oral. O protagonista recorda um fato (o atropelamento de uma mulher, a confusão na rua, o corpo estendido no chão, a acomodação do corpo no banco de seu carro, até a chegada à represa de Gaurapiranga etc.) como se falasse para si mesmo. Ora, o contista poderia muito bem tecer a narração de forma arrevesada. No entanto, a linguagem é simples, usual: “Vinha dirigindo numa boa pela Augusta e atravessei a Paulista, acelerando, dentro do zunzum do trânsito da tarde” (...). Observe-se a expressão “numa boa”. Em “Quando Cora cala”, o personagem-narrador, como se narrasse para si mesmo ou para um ouvinte ou um leitor, vai tecendo a malha de seu relacionamento com a mulher Cora, o significado da incessante fala dela, no dia-a-dia, e de quando ela se cala. A fala, o tormento causado pela fala de Cora, a não-fala, o calar-se e o tormento da solidão, do silêncio. “Todo dia – quer chova, quer faça sol – antes de ir trabalhar, pego meu carro e vou até o Ibirapuera correr”. Observe-se a expressão popular. E ainda os hábitos da classe média, tão presentes na obra do contista. E a presença constante da capital paulista como pano de fundo, como cenário das narrativas.

Em “Missão Cumprida”, dois personagens conversam num bar. O narrador  nem chega a lhes dar nomes. São simplesmente “o gordo” e “o homem de meia-idade”. As frases curtas narram pequenos atos e gestos, comuns a mortais urbanos: “respirou fundo”, “puxou a cadeira”, “passava as mãos pelo cabelo” etc. As falas são da linguagem oral urbana: “Prazer em te rever”, “Me conta. Em que pé está?”, “E agora, para onde você vai?” No entanto, essa linguagem comum esconde um mistério: quem seriam os dois homens?

Nas abas do primeiro volume, Claudio Willer observou: “Esta coletânea de contos mostra, entre outras coisas, que há um ciclo da narrativa realista que ainda não se esgotou. Essas amostras do inferno burguês e metropolitano, esses fragmentos do cotidiano brasileiro, no que tem de cruel e de lírico – já vimos isso antes, na literatura e ao vivo. Mas as situações e personagens reaparecem, vitalizados, com mais força, graças ao talento, à capacidade de observação e à sensibilidade do autor”. Acrescente-se: graças também à psicanálise, pois, não fosse Sérgio Telles um estudioso da alma, certamente muitas de suas histórias começariam e terminariam sem nenhuma graça, como simples relatos de fatos sem importância.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.