terça-feira, 29 de novembro de 2022

Arthur de Azevedo (Romantismo)


Capítulo I


— Então, Rodolfo, decididamente, não te casas com a viúva Santos?

— Nem com ela, nem com outra qualquer. E peço-lhe, meu pai, que não insista sobre esse ponto, para poupar-lhe o desgosto de contrariá-lo. O casamento assusta-me; é a destruição de todos os sonhos, o aniquilamento de todas as ilusões. Deixe-me sonhar ainda. Tenho apenas vinte e cinco anos.

— Tu o que tens é uma carregação de romantismo e preguiça, que me aborrece deveras. O teu prazer, meu mariola, é andar envolvido em aventuras de novela, desencaminhando senhoras casadas, procurando amores misteriosos e noturnos, paixões de horas mortas, de chapéu desabado e capa. Olha que um dia vem a casa abaixo! Don Juan, quando menos pensava, lá se foi para as profundas do inferno!

— Entretanto, observou Rodolfo a sorrir, Don Juan também usava capa, e dizem que quem tem capa sempre escapa.

— Ri-te! Ri-te! um dia hás de chorar!

E o doutor Sepulveda pôs-se a medir com largos passos nervosos o assoalho do gabinete.

De repente estacou, sentou-se, e, voltando-se para o filho:

— Que diabo! disse, a viúva Santos é uma das senhoras mais lindas que conheço! Não se diga que te estou metendo à cara um estupor!

— Fosse a própria Vênus!

— É mais, muito mais, porque a Vênus não tinha duzentos contos de réis em prédios e apólices.

— Ora, sou bastante rico, e o senhor, meu pai, não sabe o que há de fazer do dinheiro. A sua banca de advogado rende-lhe uma fortuna todos os anos e eu tenho a satisfação de lhe lembrar que sou filho único.

— A minha banca, maluco, há muito tempo não rende o que rendia no tempo em que os cães andavam com linguiças no pescoço. O que te ficou por morte da tua mãe, e o que te posso dar, ou deixar, é pouco para a tua dispendiosa vida de rapaz romântico, anacrônico e serôdio.

— Tenho ainda meu padrinho, o general.

— Pois sim! Teu padrinho é muito bom, sim senhor, muita festa pra festa, meu afilhado pra cá, meu afilhado pra lá, mas olha que daquela mata não sai coelho.

— É extraordinário o interesse que o senhor toma por essa viúva Santos!

— Não é por ela, é por ti, pedaço de asno! Vocês foram feitos um para o outro, acredita, e o que mais lhe agrada nas tua pessoa é justamente esse feitio que tens, de Antony de edição barata.

— Ela nunca me viu.

— Nunca te viu, mas conhece-te. Pois se não lhe falo senão do meu Rodolfo! Levei-lhe a tua fotografia, aquela maior... do Pacheco... aquela em que estás tão bonito, que até me parece a tua mãe...

— Que tolice! Minha mãe com bigodes!

— Os bigodes não, mas os olhos, a boca e o nariz parecem tirados de uma cara e pregados na outra.

— Mas se o senhor lhe levou o meu retrato, por que não me trouxe o dela?

— Disso me lembrei eu. Infelizmente nunca se fotografou. Se eu lhe apanhasse o retrato, oh! oh! Mostrava-lo, e estou certo que não resistirias.

— O senhor mete-me medo! Para evitar uma asneira de minha parte, hei de fugir da viúva Santos como o diabo da cruz!

— Disseste que me interesso por ela; e quando me interessasse? Não é filha de um bom camarada, o Teles, que morou comigo quando éramos estudantes, e se formou em Olinda no mesmo dia que eu?— Não imaginas o prazer que tive quando recebi uma carta de Rosalina — ela chama-se Rosalina — dizendo-me: “Venha verme; quero conhecer um dos melhores amigos de meu pobre pai.”

— O pai é morto?

— Há muitos anos. Morreu juiz municipal nas Alagoas. Deixou a mulher e os filhos na mais completa pobreza, mas os rapazes arranjaram-se no comércio, e lá estão em Pernambuco em companhia da mãe. A Rosalina, essa casou-se com um negociante aqui do Rio, o Santos, que a viu por acaso uma vez que teve de ir a Pernambuco tratar de negócios.

O doutor Sepulveda aproximou a sua cadeira par mais perto do filho e comentou:

— Alguém disse que a viúva é como a casa que está para alugar: há sempre lá dentro alguma coisa esquecida pelo antigo inquilino. Bem vejo, meu filho: o que te desgosta é esse Santos, esse marido, esse inquilino; pois não tens razão. O casamento de Rosalina foi obra dos irmãos - um casamento de conveniência. A pobre rapariga sacrificou-se à felicidade dos seus. O coração entrou ali como Pilatos no Credo. Oito dias depois de casados, os noivos vieram para o Rio de Janeiro. Seis meses depois morreu o marido, mas antes disso teve a boa idéia de chamar um tabelião e fazer testamento em favor dela. Ofereço-te um coração virgem, meu rapaz; aceita-o, e com isso darás muito prazer a teu pai e ao general, teu padrinho, que consultei a esse respeito, e é inteiramente da minha opinião.

Rodolfo ergueu-se, espreguiçou-se longamente, e disse, com os braços estendidos, e a boca aberta num horroroso bocejo:

— Ora, meu pai, não falemos mais nisso.

E não falaram mais nisso.

O doutor Sepulveda foi ter com o general, e contou-lhe a relutância do afilhado.

— Mas hei de teimar, seu compadre, hei de teimar!

— Não teime. Você não arranja nada. Aquele que está ali não se casa nem à mão de Deus Padre.

— É o que havemos de ver, seu compadre, é o que havemos de ver”...

Capítulo II

Dois dias depois, Rodolfo sentia-se abalado pela insistência paterna, e estava quase disposto a pedir ao doutor Sepulveda que o apresentasse à viúva Santos, quando o correio urbano lhe trouxe uma carta concebida nos seguintes termos:

“Rodolfo — Se não é medroso, esteja amanhã, quinta feira. às 8 horas da noite, no largo da Lapa, junto ao chafariz. Ali encontrará uma senhora idosa, vestida de preto, com o rosto coberto por um véu. Faça o que ela indicar. Trata-se de sua felicidade.”

A carta escrita com letra de mulher, em papel finíssimo, não tinha assinatura, e exalava um delicioso perfume aristocrata. Rodolfo leu-a, releu-a três vezes, e guardou-a cuidadosamente. Ocioso é dizer que a viúva Santos varreu-se inteiramente da sua imaginação, excitada agora pelo misterioso da aventura que lhe propunham.

Foi ao largo da Lapa. Por que não havia de ir? Poderia recear uma cilada? Ora! No Rio e janeiro não há torres de Nesle nem Margaridas de Borgonha.

Já lá encontrou a velha, junto do chafariz. Ela foi ao seu encontro, cumprimentou-o, e, dirigindo-se a um coupê estacionado a alguns passos de distância, abriu a portinhola e com um gesto convidou-o a entrar. Rodolfo não hesitou um segundo; entrou; a velha entrou também, e o coupê rodou na direção do Passeio Público.

— Aonde vamos? perguntou ele.

A velha disse-lhe por gestos que era muda, e abaixou os stores. Rodolfo percebeu que o carro entrou na rua das Marrecas, e dobrou a dos Barbonos; depois não pode saber ao certo se tomou a rua dos Arcos ou a de Riachuelo. As rodas moviam-se vertiginosamente. De vez em quando dobravam uma esquina. Dez minutos depois, o moço ignorava completamente se se achava em caminho e Botafogo ou de Vila Isabel, da Tijuca ou do Saco do Alferes. Quis levantar um store. A velha opôs-se com um gesto precipitado e enérgico. Ele caiu resignadamente no fundo do carro, e deixou-se levar. Ora, adeus!

A viagem durou seguramente uma hora. Quando o coupê estacou, a velha ergueu-se, tirou um lenço da algibeira, e tapou os olhos do moço, que se deixou vendar humildemente, sem proferir uma palavra.

Ela ajudou-o a descer, e levou-o pela mão, sempre de olhos tapados, como Raul de Nagis nos Huguenotes.

Pelo cascalho que pisava e pelo aroma que sentia, Rodolfo adivinhou que estava num jardim, caminhando em deliciosa alameda. Depois de andar cinco minutos, guiado sempre pela mão encarquilhada da velha, esta murmurou baixinho: — Adeus, seja feliz! — e afastou-se. Ao mesmo tempo, uma voz argentina, uma voz de mulher que parecia vir do alto e soou musicalmente aos seus ouvidos, disse-lhe: — Desvenda-se, Rodolfo.

Ele arrancou o lenço dos olhos. Estava efetivamente num jardim, defronte de uma das partes laterais de um belo prédio moderno. A lua, iluminando suavemente aquele magnífico cenário, batia de chofre na sacada em que se achava uma mulher vestida de branco com os cabelos soltos.

— Onde estou eu? perguntou ele, e olhou para o horizonte, a ver se algum morro conhecido o orientava. Nada! — nos fundos da casa erguia-se, é verdade, um morro, mas tão próximo e tão alto, que o moço do lugar em que se achava, não lhe podia notar a configuração.

— Onde estou eu? repetiu.

Por única resposta a mulher de cabelos soltos deixou cair uma escada de seda, cuja extremidade ficou presa à sacada; e Rodolfo subiu por ela com mais presteza do que o faria o próprio Romeu.

Ao entrar na alcova, fracamente iluminada pela meia luz de um bico de gás, ficou deslumbradíssimo. Estava diante de um prodígio de formosura! O pasmo embargou-lhe a fala; quis soluçar um madrigal, e não teve uma palavra, uma sílaba, um som inarticulado!

— Amo-te, disse ela com uma voz que mais parecia um ciciar de brisa; amo-te muito, Rodolfo, e quero que também me ames.

— Oh! sim, sim... quem quer que sejas... eu amo-te, e...

Uma gargalhada o interrompeu. Era o doutor Sepulveda que entrava na alcova e dava mais luz ao bico de gás.

— Meu pai!

— Teu pai, sim, meu romântico. Era esse o único meio de te fazer cá vir. Ora aqui tens a viúva Santos. Agora recuas, se és homem!

O casamento ficou definitivamente tratado naquela mesma noite.

Capítulo III

No dia seguinte o doutor Sepulveda, nadando em júbilo, foi ter com o general e contou-lhe tudo.

— Então? Não lhe dizia, seu compadre?

— Ora muito obrigado! respondeu o outro com a sua rude franqueza de velho militar; por esse processo você poderia casá-lo até com a Chica Polka!

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos fora de moda. Publicado em 1894.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Cecy Barbosa Campos (Cena urbana)


A máquina roncava com um som rouco de gigante adormecido, intercalado com suspiros sibilantes que lhe doíam os ouvidos. Estava quase ao fim de mais um dia de trabalho intenso, que lhe deixava os nervos á flor da pele. Pensava nos minutos que faltavam para atravessar aquela porta, chegar ao relógio de ponto e sentir-se livre.

A sensação de detentos na penitenciária não deve estar muito longe do que sinto, pensou. A diferença são as horas ao final do expediente, quando chego a casa e encontro minha mulher e meus filhos.

Entretanto, ele sabia que o amanhã seria igual, com a mesma angústia, sem perspectivas de mudança. Faria um trabalho igual, ouviria um barulho igual e sentiria um cheiro igual; cheiro de máquinas, cheiro de corpos suados que se misturavam naquele galpão abafado.

Tentava se animar, procurando ser feliz por ter o seu ganha-pão de cada dia. Mesmo não dando para muito mais que pão, era melhor do que estar desempregado como alguns de seus amigos.

Finalmente, soou a campainha. O alívio que sentia amenizava a estridência do som. Parecer-lhe-ia estar ouvindo um dos Noturnos de Chopin, se os conhecesse. De qualquer forma, funcionava para ele como uma melodia tranquilizadora e suave. Atravessou o pátio com decisão e rapidez, logo alcançando a rua. Ao final do expediente, não tinha paciência para ficar de "papo", de tão ansioso ficava para chegar a casa.

Passou pela carrocinha do baleiro, estacionada perto da fábrica, e não resistiu ao apelo do anúncio: "Cinco paçoquinhas por R$1,00". Contando as moedas, entregou-as sorridente, antecipando a alegria dos meninos.

Enquanto caminhava, contemplava o sol que ensanguentava o horizonte, ferido pelo dia que morria. Teve a sensação de estar sendo envolvido por aquela mancha de sangue. Sentiu-se zonzo, as pernas pesavam, começou a cambalear. Ao alcançar a faixa de pedestres para atravessar no sinal, ficou confuso. Era verde ou vermelho? Trocando os passos, foi em frente até que, sem entender, ouviu o que lhe gritaram: Seu bêbado, filho da mãe, não vê o sinal?

Não chegou a perceber o que acontecia, pois o carro que vinha atrás atingiu-o em cheio.

Paçoquinhas estraçalhadas permaneceram em seu bolso.

Fonte:
Cecy Barbosa Campos. Recortes de Vida. Varginha/MG: Ed. Alba, 2009.
Livro enviado pela autora.

Afrânio Peixoto (Trovas Populares Brasileiras) – 4

Atenção: Na época da publicação deste livro (1919), ainda não havia a normalização da trova para rimar o 1. com o 3. Verso, sendo obrigatório apenas o 2. Com o 4. São trovas populares coletadas por Afrânio Peixoto.


A desgraça do pau verde
é ter o pau seco ao lado:
Vem o fogo, queima o seco
fica o verde sapecado…
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Alguém te chamou de feia
e te puseste a chorar…
O agrado supre tudo
bela — é quem sabe agradar.
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De muita gente que existe
e que julgamos ditosa,
toda a ventura consiste
em parecer venturosa.
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Dês a ponta do dedo,
que eles desejam a mão;
se vai a mão, vai-se o braço,
vai-se o peito e o coração.
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Dizem que a fortuna é cega,
é mentira, ela vê bem...
Dá milhões a quem tem muito,
a quem não tem, nem vintém.
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Menina bonita ou feia,
tudo tem sua procura:
Amor não enjeita nada,
porque tudo é criatura.
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Ninguém se julgue feliz,
inda tendo bom estado,
às vezes tirana sorte
faz dum feliz, desgraçado.
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O mal dos outros faz pena,
só o nosso faz cuidado.
Não se aprende com os outros
a ser menos desgraçado.
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Quem dá o seu coração
àquele que não conhece,
por muitas penas que passe
dobradas penas merece.
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Quem tiver o seu segredo,
não conte à mulher casada,
que a mulher conta ao marido,
e o marido ao camarada.
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Não se mostra o possuído
para não ser cobiçado;
Dinheiro ou mulher à vista
falta pouco pra roubado.
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Não há vantagem no mundo
que não tenha o seu senão;
Nunca vi rapaz bonito
que não fosse paspalhão.
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Meu amor está mal comigo
eu não sei por que motivo;
Que me importa, lá se venha,
não é de amores que eu vivo.
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Quem corre nem sempre alcança,
nem vence por madrugar.
Quem quiser chegar a tempo
ande firme e devagar.
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Vê o que dizes: tu passas
de livre a preso, num’ hora:
Palavra guardada é escrava
palavra solta é senhora.
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Hoje, Sancho é muito bom,
amanhã, Sancho é ruim...
Já fica sendo um demônio,
quem ontem foi serafim.
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Os tolos pensam que regras
ao mundo vieram dar;
Vão ver que pra ter juízo
na caneca hão de apanhar.
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Eu quero dar um conselho
a quem o quiser tomar,
quem quiser viver no mundo
há de ouvir, ver e calar.
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Quem muito alto quer subir
sem ter asas para voar,
as nuvens já estão se rindo
da queda que ele há de dar.
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Minha gente, venham ver
coisa que nunca se viu:
O tição brigou com a brasa
e a panelinha caiu!
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Eu quero a minha malícia
tal e qual se eu mesmo visse;
eu nunca maliciei
que certo não me saísse,
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Como o sereno da noite
procura o seio da flor,
assim minha alma amorosa
suspira por teu amor.
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Menina da saia verde,
de verde cor de esperança,
teus desdéns não me amotinam,
quem espera sempre alcança.

Fonte:
Afrânio Peixoto (seleção). Trovas populares brasileiras. RJ: Francisco Alves, 1919.

Carlos Leite Ribeiro (Marchas Populares de Lisboa) Bairro de Carnide


Para se conhecer Carnide há que deambular, sem destino definido, pelas antigas azinhagas. O inesperado pode ser descoberto: os portões enferrujados de uma quinta abandonada, a mureta de pedra de uma velha exploração agrícola, a avenida de alcatrão que rasga o terreno baldio.

Antigo povoado dos arredores de Lisboa, Carnide era um belo conjunto de quintas, hortas e casas ricas, além de possuir ainda conventos e um hospital. Ao longo da história, predominaram as funções religiosa, agrícola, artesanal, militar, industrial e habitacional, motivadas pela sua acessibilidade. No final do século XlX, o aglomerado que é hoje de Lisboa já possuía iluminação, água canalizada, posto de polícia, uma filarmônica, um teatro e duas escolas.

Perde-se no tempo a origem rural de Carnide que também foi lugar eleito para veraneio dos nobres, que ali ergueram palácios e quintas ajardinadas. Desse passado ilustre, ficou uma herança patrimonial: o Palácio dos Condes de Carnide, o Palacete do Largo das Pimentas (atual Junta de Freguesia), a Igreja da Luz e o Convento de Santa Teresa do Carmo.

A freguesia tem crescido muito a nível populacional desde que as grandes urbanizações chegaram ao bairro, o que aconteceu pelos anos 60. Mas Carnide velho continua a sobreviver, com as suas casas e a fácil relação entre vizinhos.

Fundada em 28 de Junho de 1913, a Sociedade Dramática de Carnide (SDC) mantém-se fiel aos seus objetos de caráter sócio-cultural. Inserido neste conjunto de objetos destaca-se a existência do Grupo de Teatro de Carnide, em atividade há 35 anos. O Grupo de Teatro tem sido merecedor de vários prêmios, entre estes, registre-se a Medalha de Prata de Mérito da Cidade de Lisboa, vencendo ainda alguns importantes festivais de teatro, tanto a nível regional como nacional. A Sociedade Dramática de Carnide organiza a Marcha desde 1966.
 
 MARCHA DE CARNIDE
(Carnide Lavrador)

Letra de Maria Valejo
Música de Mário Valejo


Que belo é Carnide o Lavrador
Altaneiro na sua singeleza
Orgulhoso mostra que o seu amor
pertence a esta terra Portuguesa
deixou as hortas veio ver a cidade
engalanou-se vestiu fato novo
e marchar cheio de brio e com vaidade
por entrar nesta festa que é do povo.

(Refrão)

Carnide Carnide
Carnide que passa
Marchando ele mostra
Sua Lusa Raça

Carnide Carnide
Ai quanta beleza
Traz de braço dado
A Alma Portuguesa

Carnide Carnide
Canta em viva voz
A Língua bendita
Que é de todos nós.

Angola e Brasil também aqui vão,
Cabo Verde marcha, pôs na alma a Fé
São Tomé e Príncipe ai quanta emoção
Cá vai Moçambique e também Guiné
Não esqueceu as Ilhas mais belas que viu
Herança d’avós d’amor sem igual
Lembra Macau, Goa, Damão e Diu
Tudo em Português, viva Portugal!

 
Fonte:
Este trabalho teve apoio de EBAHL – Equipamento dos Bairros Históricos de Lisboa F.P.
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Carlos_Leite_Ribeiro-anexos/TP/marchas_populares/marchas_populares.htm

Jaqueline Machado (A virgem dos lábios de mel)


Ela é moça, ela é bela, ela é Iracema, a inesquecível virgem dos lábios de mel. Esboçada e animada pelo literato indianista José de Alencar, a índia Tabajara que embrenhada entre as matas, com os pássaros gostava de conversar, fez a sua estrela brilhar no céu, na terra e nos mares do santo Ceará.

A virgem era promessa das tribos de Tupã, possuía o segredo da Jurema e não podia descobrir o amor. Porém, certa vez conheceu Martim, um português aliado dos adversários Potiguaras. Os dois se apaixonam instantaneamente. O guerreiro já tinha a sua amada em Portugal e a jovem índia por sua vez, não foi feita para desfrutar dos sabores de um romance.

Caso amasse, poderia perder a própria vida. Porém, mesmo correndo riscos, eles desafiaram as leis e renderam-se a uma bela união. E ao gestar um filho, fruto da mistura do sangue entre brancos e índios, Iracema transformou-se em um encantado anagrama da América, símbolo da beleza, da natureza e da mistura de raças do Brasil.

TRECHO DA OBRA: Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Infelizmente, o romance não teve um final feliz, Martim, sempre em guerra, acabou por esquecer Iracema e, ela, aos poucos, definhou nos braços da tristeza. Morreu de amor.

Fonte:
Texto enviado pela autora.

domingo, 27 de novembro de 2022

Filemon Martins (Paleta de Trovas) 18

 

Sílvia Svereda (Jardim de Trovas) - 1


Às vezes, nem é preciso,
ouvir nossa própria voz,
se o teu olhar e o sorriso,
falaram tudo por nós.
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Bela infância…a ingenuidade,
o tempo proporcionou.
Mas perdeu a validade,
quando esse tempo passou.
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Brilha a luz de uma quimera,
ao raiar de um novo dia,
nesta nova primavera,
que já em breve,  principia.
= = = = = = = = =

Consiste em viver e amar,
numa oferenda de amor.
Ser uma estrela a brilhar,
no universo, em seu negror.
= = = = = = = = =

Deus da vida, Te saúdo,
O Teu amor quero ter.
Graças dou Meu Deus, Meu Tudo,
graças pelo meu viver!
= = = = = = = = =

Devolve nossa eloquência,
um livro é boa semente
que tem como consequência,
abrir caminhos da mente.
= = = = = = = = =

Ele ensina aos filhos seus,
que a missão seja cumprida,
na fé e no amor de Deus,
a luta será vencida.
= = = = = = = = =

Eu ouvi: _É só um cão…
Tão grande foi meu espanto,
qual punhal no coração,
sangrando em forma de pranto.
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Ficar presa? Nunca mais,
obstáculos dominei.
Sem temores, sem meus ais,
pois no amor eu me encontrei.
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Já é hora da partida,
eu sinto a ausência de alguém…
Sem adeus, sem despedida,
somente um vulto … ninguém!
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Lágrimas de poeta são,
orvalhos nas madrugadas,
dentro da alma e coração,
em amor são transformadas.
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Na casinha do interior,
era só felicidade .
Nas férias, com meu amor…
Hoje, lembranças, saudade.
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Na lembrança, ainda presente,
maior emoção contida.
Foi quando um pingo de gente,
modificou minha vida.
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No nosso tempo que corre,
poesia é livramento,
pois nossa alma ela socorre,
traz paz a todo momento.
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No tempo, quero voltar,
mas não posso, é impossível.
Agora é só recordar,
um passado inesquecível!
= = = = = = = = =

O amor, assim, de repente,
em qualquer tempo aparece.
Qual a luz da chama ardente,
qual o poder de uma prece.
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Obstáculos… surgirão,
valerá a experiência.
Tenha determinação,
fé, coragem, persistência.
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O pôr do sol no infinito,
qual lindo troféu dourado,
tornando o céu tão bonito,
que sinto Deus ao meu lado.
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O sofrer da minha mente
não tem mágoa ou dissabor.
Vou seguindo sempre em frente,
pois meu lema é  o amor.
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Para o sol iluminar,
nossas janelas abrimos.
E bem cedo demonstrar,
toda a paz que nós sentimos.
= = = = = = = = =

Poeta, refletes na alma,
teu espelho interior,
transformando em paz e calma,
as intempéries do amor.
= = = = = = = = =

Quem ama não escolhe a hora,
há amor a todo momento .
No anoitecer ou na aurora,
o que importa é o sentimento .
= = = = = = = = =

Voar num tapete mágico,
viver o sonho mais lindo …
Um romance ou conto trágico,
o livro é sempre bem-vindo.

Aparecido Raimundo de Souza (Cara ou coroa)


HAROLDO ESTÁ DISCUTINDO com Mike por causa da mesma mulher. Ambos os amigos amam perdidamente a encantadora Verônica. Estão prestes a colocarem fim em uma amizade de anos, levados pelos instintos maléficos em não quererem ceder abrindo mão do que sentem por ela. A continuação da luta ferrenha pelo coração da moça mais bonita do bairro onde residem, provavelmente criará enorme embaraço e estremecimento afastando, inclusive, as cordialidades existentes entre as famílias dos acirrados contendores.  Mike, meio que fora de si, esbraveja:

— Desista, Haroldo. Pule fora enquanto é tempo. Verônica gosta é de mim...

Haroldo (insiste, com eloquente veemência):

— Negativo, Mike. Ela me ama.

Mike:

— Deixe de ser bobo, Haroldo. A Ve está de quatro, os pneus arreados, ou seja, a minha Ve está caidinha pelos meus encantos.

Haroldo:

— Convencido!

Mike:

— Sou mesmo.

Haroldo:

— Quer saber de uma novidade fresquinha, seu idiota Eu e Verônica vamos noivar em dezembro. Daqui a quatro meses. Estou por “descarga” de consciência revelando esse pormenor a você, meu ainda amigo em primeiríssima mão.

Os futuros pretendentes à mão de Verônica se medem da cabeça aos pés. Mike tenta disfarçar um rancor mortal:

— É mesmo Haroldo? Desejo felicidade aos pombinhos.

Após essas palavras, Mike cai em estrondosa gargalhada. Haroldo, sem dar trela, resolve seguir provocando. Cutuca o opositor:

— Do que está rindo, Mike? Aceite. Dói menos.

Mike:

— Estou achando graça da idiotice que acabou de dizer, Haroldo. Verônica, noiva de você? Conta outra!

Haroldo:

— Quer uma prova?

Mike:

— Sim!

Haroldo:

— Comprei as alianças semana passada. Tenho comigo a nota fiscal da joalheria. Veja você mesmo...

Mike (pega, à contragosto, a tal nota fiscal que o outro exibe).

— Isso não prova nada.

Haroldo:

— Ao contrário. Prova tudo.

Por um breve momento, ao ver a nota fiscal da aquisição da joia, Mike se sente tomado de verdadeira fúria interior. Parece que o chão vai sumir abaixo de seus sapatos. Precisa, contudo, ser forte o suficiente, ou o Haroldo acabará descobrindo a sua fraqueza e o derrotando. Se tal fato ocorrer, obviamente será seu fim. Haroldo continua decidido em não dar tréguas. Ataca.

Haroldo:

— Mike, entenda.  Não estamos a falar de outra menina, ou de uma criatura qualquer. Discutimos em face da mesma pessoinha que nos é grata e convive com a gente desde quando éramos dois bobocas de calças curtas urinando nos postes das ruas.

Mike:

— Estou tentando enfiar esse pormenor na sua cabeça desde que chegamos aqui.

Sem disfarçarem a indignação sentida se entreolham como se medissem forças. Ambos são altos e magros. Têm físicos iguais. Um possui cabelos claros, quase louros – com um rosto largo e delicados olhos azuis. O outro, exatamente o contrário. Moreno, simpático, belas feições gregas e uma boca cheia e sensual. Emparelham na idade. Haviam acabado de completar vinte e oito anos, sendo que Mike, dois meses mais velho.

Haroldo se diplomou em advocacia e Mike em medicina.

Haroldo:

— Verônica não foi feita para homens como você.

Mike:

— Nem para os de seu tipo – conclui com um sorriso forçado que em nada atenua a grosseria da frase.

Haroldo:

— Olha só quem fala. Logo você que sempre se mostrou contrário aos bons princípios do certo e errado!

Mike:

— Até Verônica aparecer na minha vida. Antes, realmente, não acreditava no amor. Quando a conheci, mudei a maneira de pensar, de ver e de encarar as coisas. O que você poderia oferecer à Verônica – ainda que mal pergunte – que não estivesse igualmente ao meu alcance?

Haroldo graceja uma resposta ininteligível que se perde no barulho que o garçom provoca ao despejar o restante da cerveja nos copos vazios ao tempo em que indaga se querem que traga outra rodada de tira–gosto. Haroldo e Mike sinalizam ao mesmo tempo para que o rapazola renove os salames fatiados e traga mais bebida. Despachado o garçom, a dupla volta à carga.

Mike:

— Me diga agora você, Haroldo, o que poderia oferecer à nossa graciosa Verônica, hoje juíza de direito da vara criminal dessa porcaria de cidade interiorana que não estaria igualmente ao meu alcance?

Haroldo:

— Fidelidade, Mike. Você, apesar de ser formado em medicina, não sabe o que significa essa palavrinha. Fidelidade. Conheço sua maneira de ser e de agir de idos carnavais. E por conhecer bem seu coração, jamais seria fiel a um relacionamento sério. Concluindo: você faria a nossa Verônica sofrer horrores.

Mike:

— E você, Haroldo? Desde quando foi fiel a quem passou pelas suas mãos? Teve um monte de namoradas... a última, lembra dela, a Marília? Você meteu o pé no traseiro da infeliz quando soube que estava grávida...

Haroldo:

— Por certo. Meti mesmo. Uma desmiolada. Vagaba das brabas.  Flertava com nosso amigo Pereira às escondidas. O filho, aliás, é dele. Mas está lembrado do tempo em que a sem-vergonha passeava ao meu lado, de braços dados e jurava, de pés juntos me amar? Quando a criança nasceu... todos que me criticavam foram unânimes em afirmar que a guria tinha a fuça do Pereira. E cá entre nós, tem mesmo.

Mike:

— Por certo. Quanto a isso... e a Ana?

Haroldo:

— A Ana foi um caso à parte. Namorei um ano. Em seguida, pintou a Érica. Um ano e meio. Não devo me esquecer de Heloísa. Moramos juntos seis meses. Por último, a Beatriz. Nosso romance perdurou por quase dois anos. Acaso, amigo Mike você chegou a esquentar lugar tanto tempo com um só rabo de saia?

Os olhos de Mike ficam o tempo todo grudados em Haroldo e não há como se desviar deles. No fundo, o amigo está certo. Tem consciência que precisa rebater. Provar o contrário ou seu rival ganhará terreno e fatalmente o golpeará duramente pelas costas. Seria a reencarnação do velho assassinato de Cesar pelo seu algoz, amigo Brutus.  

Mike:

— Não dei a mesma sorte que você, isso é notório. Porém, meus relacionamentos, modéstia à parte, foram também duradouros.

Haroldo:

— O que chamaria de duradouro? Um mês, dois, cinco?

Mike:

— As garotas com quem tentei construir uma história, ao longo desses anos buscavam unicamente aventuras. Você sabe disso melhor que eu. Todas, sem exceção, queriam arrancar dinheiro, ter boa posição social seguida de um sobrenome de peso para acrescentarem ao próprio patronímico.

Haroldo (fazendo ares de pouco caso):

— Bela desculpa. Todas andavam à cata de aventuras? Tá legal. Uma ou outra, até que concordaria com você. Mas observe um detalhezinho importante: você não ficou mais de três meses com nenhuma das que tive o prazer de ver passar pela sua vida. Nem a Camila, que parecia uma princesa... claro, não mais bonita e formosa que a Verônica. Porém, nesse quesito, nós dois concordamos: um filézinho...  

Mike:

— Haroldo, todo esse papo furado não nos levará a nada. Estamos perdendo tempo. Desgastando a velha amizade.

Haroldo:

— Bem sei que caminhamos para essa possibilidade. Quer uma solução?

Mike:

— Sou todo ouvidos...

Haroldo:

—Desista de Verônica, Mike. Abra mão dela e pronto. Chegamos a um consenso e fim de papo...

Mike:

— Nunca!

Haroldo:

— Raciocine. Deixe que eu cuide da nossa fofinha. Cada um segue seu destino e, assim, só assim, seremos felizes para sempre. Você com a sua medicina e eu com a minha banca de advocacia.

Mike:

— Tenho uma proposta simples, rápida e rasteira, coisa de irmão para irmão, Haroldo.

Haroldo:

— Em frente, Mike.

Mike:

— Vamos tirar a sorte no “cara ou coroa”.

Haroldo:

— Jamais! Verônica não é um jogo. Para mim, essa moça representa tudo.

Mike:

— Faço minhas as suas palavras, Haroldo. Todavia, um de nós deve sair de cena imediatamente. Sugiro, pois, a disputa da beldade na moedinha. Como disse e repito, simples e rápido. Quem perder levantará acampamento, puxará o carro... e sumirá do pedaço.

Mike, ato contínuo mete a mão no bolso e retira uma moedinha colocando-a sobre a mesa:

— Aqui está mano. O que vai querer?  Cara ou coroa?  Para o jogo ser limpo, deixarei que faça a escolha.

Haroldo se levanta e estende a mão ao amigo:

— Já se faz tarde. Quanto ao seu joguinho, estou fora...

Mike:

— Amarelou?

Haroldo:

— Não se trata de amarelar ou não amarelar. Entenda. Verônica não é um jogo para disputa, um brinquedo. Para mim, essa deusa pela qual estamos aqui jogando conversa fora, representa algo muito sério, algo que deve, realmente, ser levado à termo. Pelo menos eu encaro a situação dessa forma.

Mike:

— Certo, certo, para mim não é diferente...

Haroldo:

— Por que não vamos até o fórum, levamos o caso até o conhecimento dela, não expomos o problema e então deixamos que ela mesma tome a decisão? Seria o mais justo, não concorda comigo, doutor Mike?

Mike:

— Olha, cara, não sabia que você era tão medroso, tão sem espírito de aventura, a ponto de “dar para trás”.

Haroldo:

— Não sou medroso, nem estou “dando para trás”. Jamais tive medo de alguma coisa. Todavia, tenho caráter, hombridade, discernimento... pensando melhor, raciocinando, tenho uma segunda alternativa. Vamos lá em casa...

Mike:

— Pretende me matar?

Haroldo:

— Jamais sujaria as minhas mãos.

Mike:

— Então?

Haroldo:

— Darei um presente a você... um presente inesquecível. Em nome da nossa velha amizade. Vamos, me acompanhe. Deixa que eu pago a conta.

Haroldo grita o garçom...

Mike:

— Me esclareça uma dúvida: já que você não encara o fato de que “amarelou”, que nome daria à sua momentânea recusa em não querer continuar disputando comigo, agora, no vai ou racha, no tudo ou nada, e, sobretudo, em ainda me presentear com alguma coisa que até agora desconheço?

Haroldo:

— Vou adiantar revelando do que se trata. Darei a vocês dois as alianças que comprei comprovando a veracidade da nota fiscal que lhe exibi. Depois irei até o fórum e comunicarei pessoalmente à Verônica a minha decisão de deixar, de vez, a disputa. Quanto ao nome...

Nesse momento e só nesse momento, Mike se defronta com os olhos do amigo se arregalando com uma expressão de profunda tristeza e, ao mesmo tempo, de paz interior que ele não tem como penetrar inteiramente.

Haroldo:

— Para terminar nossa conversa, quer, de fato, saber que nome eu darei ao gesto que você rotulou de “amarelou”?

Mike:

— Sim!

Haroldo:

— Aquele pequenininho, escrito com quatro letras apenas. O nome pelo qual a gente abre mão de tudo em glória plena da felicidade do outro, seja esse outro a mulher amada, o amigo, o irmão... ainda que depois a gente sofra e se ferre para o resto da vida. No meu caso, por exemplo... sairei perdendo. Entretanto, o mundo ainda dará voltas...

Mike (encarando esmiuçadamente o amigo de modo frio e desafiante):

— Deixa de frescura Haroldo. Canta a pedra. Desembucha de uma vez. Que droga de nome é esse que dará para corroborar a sua desistência?

Haroldo, soletra, lentamente, saboreando cada letrinha pronunciada:

— A... M... O... R...    

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

sábado, 26 de novembro de 2022

Nélio Bessant (Caderno de Trovas) 7

 

Silmar Böhrer (Croniquinha) 67


O verbo é como o leite apojado.

Ordenha - inspiração; primeira gotinha - letra; uma espremida - mais letras; puxar a teta - sugar ideias; apertar firme - puxar palavras; leite quentinho - folha escrita; coar o leite - joeirar frases; tirar a nata - parágrafos especiais; ferver o leite - cortar palavras impuras;
peneirar o soro - tirar o sal do texto; queijo pronto - pensares definidos; baldes mais baldes - livro.

A vida é um apojo. Estamos nos amamentando constantemente em todas as instâncias, e esta busca e este abastecer são o sustento físico e mental para vivermos vida de viventes saudáveis, amparando a tão em voga chamada qualidade de vida.

Apojados sigamos.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Gislaine Canales (Glosas Diversas) XLIX


PALAVRAS AO VENTO


MOTE:
Como preces fugidias,
minhas palavras ao vento,
dobram esquinas vazias
nas curvas do firmamento...
Analice Feitoza de Lima
Bom Conselho/PE, 1938 – 2012, São Paulo/SP


GLOSA:
Como preces fugidias,
emana do coração,
em prantos, ou alegrias
sempre uma doce oração!

Vou jogando com carinho
minhas palavras ao vento,
e ecoam no meu caminho
de encontro ao meu pensamento!

Às vezes, saem tão frias,
cheias de desilusão,
dobram esquinas vazias
nas ruas sem emoção!

Vendo a tristeza a chegar,
novas palavras invento,
mas se perdem pelo ar
nas curvas do firmamento…
= = = = = = = = = = = = = = = = = =

PREITO AO SOL E À LUA…

MOTE:
Canta, poeta!...És bem-vinda
no teu preito ao sol e à lua,
pois toda poesia é linda,
se a voz de quem canta é a tua!
Edmar Japiassú Maia
Nova Friburgo/RJ


GLOSA:
Canta, poeta!...És bem-vinda

tua musa é benfazeja,
tua inspiração infinda,
faz que ela, mais bela seja!

Pintas luzes em teu verso,
no teu preito ao sol e à lua,
e colores o universo,
antes de ti – de alma nua!

É ternura que não finda,
que nasce em teu coração,
pois toda poesia é linda,
quando feita com emoção!

Nestes teus versos de amor,
a beleza se acentua
se eles têm o teu calor,
se a voz de quem canta é a tua!
= = = = = = = = = = = = = = = = = =

SEM TI…

MOTE:
Todos os dias que passam,
sem passares por aqui,
são dias que me desgraçam
por me privares de ti!
Fernando Pessoa
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935


GLOSA:
Todos os dias que passam,
somente passam, enfim,
e sem querer, me amordaçam,
fazem um trapo de mim!

Tudo ao redor, fica triste,
sem passares por aqui,
pois nem o Sol, mais, resiste
no horizonte e nem sorri!

As recordações me enlaçam
e aumentam meu saudosismo,
são dias que me desgraçam
que me jogam num abismo!

Não sinto mais alegria,
não escuto o colibri,
hoje, tudo me angustia,
por me privares de ti!
= = = = = = = = = = = = = = = = = =

O SOL E A LUA CHEIA

MOTE:
À tardinha adormecendo,
o alegre sol, volta e meia,
alonga os raios, querendo
abraçar a lua cheia...
Flavio Roberto Stefani
Porto Alegre/RS


GLOSA:
À tardinha adormecendo,
mas sem querer se esconder,
o Sol pálido, tremendo
não quer com o dia, morrer!

E vendo a noite chegar,
o alegre sol, volta e meia,
vai tentando colocar
no luar, a sua teia!

Com seu humor estupendo,
com seu calor e alegria
alonga os raios, querendo
transformá-los em poesia!

Misturando-se ao luar,
poeta – o seu sonho alteia,
pois quer, por fim, abraçar,
abraçar a lua cheia…
= = = = = = = = = = = = = = = = = =

A ESPERANÇA NÃO ME DISSE…

MOTE:
De ilusões eu fui vivendo...
e a esperança, disfarçada,
via meus sonhos morrendo,
mas nunca me disse nada!
Maria Lúcia Daloce
Bandeirantes/PR


GLOSA:
De ilusões eu fui vivendo...
mas neste triste caminho,
fui sofrendo, fui sofrendo
pela falta de carinho!

Eu sou feliz, me dizia,
e a esperança, disfarçada,
sabia tudo, sabia,
mas continuava calada!

O que estava acontecendo
não era mais um segredo:
via meus sonhos morrendo,
sumirem, como em degredo!

Foi mesquinha essa esperança,
pois vendo a sorte ceifada,
guardou consigo a mudança,
mas nunca me disse nada!

Fonte:
Gislaine Canales. Glosas Virtuais de Trovas XXVI. In Carlos Leite Ribeiro (produtor) Biblioteca Virtual Cá Estamos Nós. http://www.portalcen.org. Junho de 2005.

Carlos Leite Ribeiro (Marchas Populares de Lisboa) Bairro de Campolide


Outrora, o bairro foi local de vinhedos e de escaramuças. Um campo de lides à beira de Lisboa. Com o correr de tempo, as lembranças foram-se diluindo, até ficarem apenas os monumentos, como o majestoso "Aqueduto da Águas Livres” “Campos de lides” ou “Campolit”, significa terra de cultivo ou espaço de desavenças com os invasores.

Campolide já foi uma freguesia bem maior do que é hoje. Abrangia as zonas de Campo de Ourique, Estrela, Lapa, São Bento e Santos, chegando mesmo até Alcântara. Toda esta área era habitada por construtores modestos.

A Calçada dos Mestres presta homenagem aos que ergueram o túnel monumental que aproxima o Rossio de Campolide, ou o aqueduto que D. João V mandou criar para abastecer Lisboa de água. A urbanização foi posterior à Primeira Guerra Mundial. Antes, o espaço estava reservado a quintas, pomares, olivais e vinhedos.

Segundo testemunhos escritos do período afonsino, já nessa altura, o vinho de Campolide deliciava as pessoas da cidade. Escrituras de 1340 comprovam que uma parte das vinhas de Campolide pertencia a D. Fernando l. Esta cultura chega ao século XVI. Mas não era só vinho que ia para Lisboa. A fruta e o azeite também eram produzidos naquelas terras. Campolide é reflexo de um plano de urbanização que deu lugar a construções de pequenos proprietários, nos terrenos do Conde do Paço do Lumiar. Para além do Aqueduto das Águas Livres (*) e do Túnel do Rossio (que liga o comboio entre o Rossio e Campolide), o bairro sustenta outras vias de acesso à cidade como o Viaduto Duarte Pacheco, administrador da povoação nas décadas de 30 a 40. Duarte Pacheco também dá nome a uma das ruas de Lisboa.

(*) AQUEDUTO DAS ÁGUAS LIVRES: Quando, em 1748, a água correu pela primeira vez no Aqueduto, Lisboa festejou o acontecimento. Fontanários e chafarizes depressa se tornaram centros de abastecimento, de convívio e, não raro, de violentas discussões. Era um verdadeiro rachar de bilhas e de cabeças! Enquanto a água corria fresca, “fervia” pancada em redor das bicas. Hoje, duzentos e cinquenta e dois anos depois, fontanários e chafarizes estão bem mais calmos ...

Dos monumentos e edifícios, destacam-se, igualmente, a Ermida de Nosso Senhor das Almas, o Palacete Roque Gameiro, o Relógio de Sol da Rua de Campolide e o Batalhão de Caçadores 5. Recentemente, Campolide foi enriquecido pelo Palácio da Justiça. A antiga terra de lides é hoje um modesto, mas audaz mirante de onde se avista Lisboa. Ao longo dos tempos, a freguesia sofreu várias transformações físicas subsequentes à construção de novos bairros.

O caminho pedonal (restrito a pedestres) do Alto da Serafina até Campolide, passando por cima dos Arcos de Alcântara, era o caminho que os saloios (aldeões) de Belas e de Queluz percorriam quando se dirigiam à capital. Chegados ao Arco Grande, estamos a 65 metros acima do solo e pisando pedras que, no século XIX, foram testemunhas silenciosas dos assaltos de Diogo Alves...

Ninguém melhor do que a rainha D. Carlota Joaquina, soube aproveitar o ambiente refrescante do Aqueduto das Águas Livres em Campolide. Quando os calores de verão apertavam, a rainha dirigia-se até à Mãe d’Água Nova e por ali passava horas que, de refrescantes, na verdadeira acepção da palavra, pouco tinham... Ao que diziam as más línguas da época, a rainha ia refrescar-se não propriamente dos calores de Verão mas de “calores” de outra natureza ... Só assim se compreende, dizem ainda as más línguas, que os filhos de Carlota Joaquina fossem uma bela “estampa” (quer ela quer o marido, D. João Vl, fossem feíssímos). Pudera! Com a rainha a mudar de cocheiro (sempre escolhidos a dedo) de dois em dois anos... Se D. João Vl deixava muito a desejar no que toca a saciar as sedes da rainha, o mesmo não acontecia com o seu antecessor, D. João V. O monarca não só saciava a sede da esposa como de outras damas. Até em matéria de amores era magnânimo! Quando lhe chamaram a atenção para as suas aventuras amorosas, que não eram do particular agrado do prior da corte, o monarca encarregou o cozinheiro de servir somente um prato de galinha ao eclesiástico. Farto de só comer galinha às refeições, o prior questionou o monarca sobre tão estranha ementa. Sutil, D. João V, o rei magnânimo, ter-lhe-ia dito: “Nem sempre galinha nem sempre rainha ...”. Se as pedras daquela Mãe d’ Água falassem...

O Sport Lisboa e Campolide teria sido fundado em 1925, numa taberna do bairro. Até 1939, ainda sem sede própria, a coletividade preocupou-se, principalmente, em desenvolver atividades no campo desportivo e recreativo. Organizadora da Marcha, o SLC tem outras práticas culturais e desportivas, como o futebol de salão, a ginástica, o teatro e espetáculos musicais, etc.
 

MARCHA DE CAMPOLIDE
(Presente e Futuro)

Segue em frente Campolide
É o que hoje te peço.
No teu qu’rer é que reside
Toda a força do progresso ...

Muita coisa já tens feito
Muito mais tens p’ra dar,
O amor só é perfeito
Se se pode partilhar
(Refrão)

Não fiques parado
Sem nada fazer,
Trabalho é suado
Parar é morrer ...

No fim do milênio
Estuda e progride,
Aguça o teu gênio
Por ti, Campolide !
(Bis)

Bem ousada tens a gare
Imponente e futurista,
Mas é sempre no ousar
Que o futuro se conquista ...

Se não fosse a ousadia
Que é gênio, um tributo,
Não terias a alegria
De ter’s hoje o Aqueduto !...

Emprega-te a fundo
Trabalha sem peias,
Conquista o teu mundo
Sem falsas ideias ...

Do mau ambiente
Transpõe esse muro
De pé, marcha em frente !
Conquista o FUTURO ! …

(Final)

No fim do milênio
Estuda e progride,
Aguça o teu gênio
Por ti, Campolide !...

Do mau ambiente
Transpõe esse muro,
De pé, marcha em frente!
Conquista o Futuro !

 
Fonte:
Este trabalho teve apoio de EBAHL – Equipamento dos Bairros Históricos de Lisboa F.P.
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_c/Carlos_Leite_Ribeiro-anexos/TP/marchas_populares/marchas_populares.htm

Jaqueline Machado (Pessoa feliz, mundo contente)


O mundo hoje não é um lugar de paz. Todavia, a turbulência existente nele, não é por causa do mundo em si, mas por causa da humanidade que, não se sabe o porquê, vive em constante rebeldia.

O homem já nasce rico, com as belezas e farturas da terra a seus pés, ainda assim, independentemente da idade que possui, nunca deixa de ser um adolescente rebelde.

Os conflitos mundiais, existem desde sempre, mas de período em período, a situação se agrava.

O ser humano pode escolher viver nos moldes da paz, do amor e da alegria, no entanto, o momento atual vem demonstrando contrariedade a toda e qualquer ordem pacifista.

A polaridade se instalou. Tem gente pra todo lado criando inimizade para defender homens que pouco estão se importando com seus apoiadores: estão preocupados, sim, em defender na ponta da língua, a cartilha de “O PRÍNCIPE, escrita por Maquiavel. Se você não sabe do que estou falando, busque saber, já!

Em meio a tantas verdades sem consistências e as artimanhas, as pessoas se perderam, as redes sociais se tornaram depósito de lixo. Estão repletas de posts com teores de cobranças, críticas, sermões, humor sombrio, deboche, agressividades e, de fundo, porta-retratos da vida perfeita. A coerência parece ter entrado em surto, pois os sintomas da infelicidade são claros.

A toxicidade é imensa... E temo por piores resultados, extraídos de todo esse veneno, ora velado, ora exposto de cara limpa para aqueles que querem e não querem encarar a feiura dos fatos.

Redes sociais são ótimas, mas para fazer amizades, divulgar trabalhos e espalhar luz, sentimentos tristes também, pois a vida não é perfeita, mas tudo dentro da intenção de dividir, não de prejudicar.

Ao pensar que nada disso se faz necessário, fico a me perguntar: por que em vez da luz, se escolhe a treva? No lugar do amor, se optou pelo ódio?

Não seria bem mais simples e belo, viver pacificamente, sob a égide do verdadeiro amor fraterno?

No momento se fala muito em Cristo, mas poucos praticam os preceitos do Cristo santificado. - Ele pediu: “Amai uns aos outros como eu vos amei”. No entanto, o que se vê é um tentando destruir o outro a todo instante.

Espero que Ele, o Cristo, que a tudo isso acompanha, não se canse dessa raça desgarrada, chamada humanidade.

Penso que é chegada a hora de se aparar as arestas e fazer as pazes com a vida e com as pessoas. Como? Buscando se conhecer, se autorrealizar, buscando ser feliz. Porque quem é feliz, não compete, não julga, não destrói.

Pessoa feliz, mundo contente.

Fonte:
Texto enviado pela autora

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Adega de Versos 95: Dorothy Jansson Moretti

 

George Abrão (Comadre, me devolva as calcinhas!)


No século passado, nos anos cinquenta/sessenta, nada era como agora, quando um lançamento de roupas e calçados são simultâneos em todos os rincões do país. Naquela época, o que era lançado em São Paulo ou Rio de Janeiro demorava muito tempo para chegar a Jaguariaíva. Quem trazia as novidades dos grandes centros eram os barraqueiros da Festa de Agosto que vinham uma vez por ano ou os mascates, vendedores ambulantes, geralmente árabes, que as donas de casa chamavam de compadre e que vinham periodicamente.

A sua maneira de vender era muito simples: não havia cheque pré-datado, nem nota promissória. Simplesmente o “compadre” vendia, anotava em uma caderneta e em todas as vindas fazia a cobrança e vendia mais. Era como dizem: “no fio do bigode”, muito embora as mulheres da época, como as de agora, não os possuíssem.

Certa vez um mascate chegou pela primeira vez em uma residência da cidade e ofereceu os seus produtos. A dona da casa gostou muito das roupas íntimas que o mascate trouxera (calcinhas e sutiãs). Como o seu marido não estava para pagar ela disse que compraria da próxima vez, pois estava sem dinheiro no momento. O “compadre”, como não gostava de perder negócio, disse-lhe:

- Mas isso não é problema “comadre”. Salim anota na caderneta e quando voltar a senhora paga. Salim faz esse com todas as freguesas.

Como ele estava de boa vontade, ela comprou algumas calcinhas e alguns sutiãs os quais pagaria na outra viagem do mascate. Só que se passou algum tempo e o “compadre” não voltou, pois havia tido alguns problemas familiares e só dali a alguns meses pode retornar a Jaguariaíva.

Nesse ínterim, a devedora mudou de casa e como não tinha como se comunicar com o seu credor, nada pode fazer a respeito. Logo a casa foi ocupada por outra família e o marido era um sujeito dado a violento.

O mascate, após visitar diversas clientes, dirigiu-se à casa da sua mais nova compradora para receber o que ela lhe devia e talvez efetuar uma nova boa venda. Lá chegando, bateu palmas no portão e uma senhora o atendeu da porta:

- Boa tarde, comadre, Salim veio mostrar as mercadorias para a senhora e receber o dinheiro das calcinhas e sutiãs que a senhora comprou.

A mulher, surpresa com aquela cobrança inusitada, respondeu-lhe:

- Mas senhor, eu nada comprei e nada lhe devo. O senhor deve estar batendo na porta errada.

Então Salim, sempre bem educado, mas que não admitia perder, disse:

- Como? Eu vendi para a senhora sim! Seu marido não estava e eu fiz-lhe fiado. A senhora tem que pagar ou devolver a mercadoria.

E ela:

- Mas não tenho nada a devolver-lhe senhor!

Então Salim perdeu as estribeiras e começou a falar alto:

- Ou a senhora paga ou eu quero as calcinhas e os sutiãs!

Nisso o marido valentão ia chegando e perguntou o que estava ocorrendo.

Então Salim, que estava possesso, disse:

- Salim quer as calcinhas e os sutiãs que a sua mulher não quer pagar. Quer e agora!

Não deu outra, o marido partiu para cima do mascate, deu-lhe uns bons sopapos e ainda jogou suas malas no meio da rua.

E o pobre mascate juntou os seus pertences e saiu em desabalada carreira sem entender o que havia acontecido!

Fonte:
George Roberto Washington Abrão. Causos hilários e picantes de Jaguariaíva. Maringá, 2016. Ebook enviado pelo autor.

Afrânio Peixoto (Trovas Populares Brasileiras) – 3

Atenção: Na época da publicação deste livro (1919), ainda não havia a normalização da trova para rimar o 1. com o 3. Verso, sendo obrigatório apenas o 2. Com o 4. São trovas populares coletadas por Afrânio Peixoto.


A Bahia é terra boa,
como outra mais não há.
Eu gosto dela de longe,
eu aqui e ela lá...
= = = = = = = = =

Adeus, Curitiba triste,
alegre Campos Gerais…
Eu sou aquele que disse
que a S. Paulo não vou mais.
= = = = = = = = =

As idades neste mundo
têm os quinhões desiguais:
O moço pode, não sabe,
velho quer, não pode mais.
= = = = = = = = =

As línguas soltas do mundo
não as deixam descansadas:
atrás das viúvas correm
mesmo as pedras das calçadas.
= = = = = = = = =

De Minas Gerais — o ouro,
de Montevidéu — a prata,
de Portugal — a rainha,
do Rio Grande — a mulata.
= = = = = = = = =

Dois noivos e dois casados
lado a lado passeavam...
Parecia que os dois pares
um ao outro se invejavam.
= = = = = = = = =

Eu de cima, ela de baixo,
que namoro mal logrado!
Ela com dor na garganta,
eu de pescoço espichado.
= = = = = = = = =

Eu não quero tomar mate
quando os ricos 'stão tomando,
quando chega para os pobres
os pauzinhos 'stão nadando...
= = = = = = = = =

Eu vi a morte pescando
de caniço e samburá.
Quando a morte pesca peixe
que fome não há por lá!
= = = = = = = = =

Eu vou dar a despedida
como deu o quero-quero:
Depois da festa acabada,
pernas para que te quero?
= = = = = = = = =

Fui soldado, sentei praça,
Sentei-me numa guarita;
Sou chefe, sou comandante
De toda «china» bonita.
= = = = = = = = =

Meu amor, canastra velha,
samburá, cesto sem fundo.
Eu bem quero, mas não posso
tapar a boca do mundo.
= = = = = = = = =

Para que portas trancadas
desfeita, zanga e rigor?
Não vê que têm mais poder,
a mocidade e o amor?
= = = = = = = = =

Pintor que pintou a Ana,
também pintou Leonor:
Se Ana saiu formosa,
que culpa tem o pintor?
= = = = = = = = =

Principiei a amar de pé,
ao depois fui agachado,
fui mais tarde de gatinhas,
afinal, fui apanhado.
= = = = = = = = =

Quando eu vim de minha terra
muita menina chorou,
só a ladra, de uma velha,
muita praga me rogou.
= = = = = = = = =

Quem quiser ter vida longa,
fuja sempre que puder…
de médico, boticário,
melão, pepino e mulher!
= = = = = = = = =

Quem quiser tomar amores,
há de ser co'a cozinheira,
que ela tem os beiços grossos
de lamber a frigideira.
= = = = = = = = =

Quem vier a Pernambuco
traga contas pra rezar.
Pernambuco é purgatório
onde as almas vem penar.
= = = = = = = = =

Quer o rico, quer o pobre,
todos tem seu amorzinho:
O rico com seu dinheiro,
o pobre com seu carinho.
= = = = = = = = =

Seja menos confiado,
sua cara de pamonha!
Bem que diz lá o ditado,
quem ama não tem vergonha.
= = = = = = = = =

Você me chamou de feio,
sou feio, mas sou dengoso,
também o tempero é feio,
mas faz o prato gostoso.
= = = = = = = = =

Você quando tem presunto
não convida pra jantar,
mas quando tem seu defunto
me chama pra carregar.
= = = = = = = = =

Vou-me embora desta terra,
mineiro está-me chamando.
Mineiro tem um costume,
chama a gente, vai andando,

Fonte:
Afrânio Peixoto (seleção). Trovas populares brasileiras. RJ: Francisco Alves, 1919.

Lucy Hay (Como Escrever uma História de Mistério) – 3, final


ESCREVENDO A HISTÓRIA


1. Use os cinco sentidos para descrever o cenário.

Uma das melhores maneiras de criar um ambiente ou atmosfera é focando nos cinco sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar. As descrições de detalhes sensoriais também podem criar bastidores para a personagem. Por exemplo, em vez de dizer ao leitor que o protagonista comeu cereal no café da manhã, você fazer com que ele sinta o gosto dos restos de cereal na boca ou o cheiro do cereal que derramou sobre as mãos.

Pense no que a personagem principal pode ver em um determinado cenário. Por exemplo, se ela morar em uma casa bem parecida com a sua em uma cidade pequena, você pode descrever o quarto dela ou a caminhada até a escola. Se você estiver usando um cenário histórico específico, como a Califórnia dos anos 1970, pode descrever o protagonista em uma esquina qualquer olhando para a arquitetura única ou para os carros que passam.

Considere o que a personagem principal pode ouvir em um determinado cenário. Seu detetive poderá escutar o cantar dos pássaros e os irrigadores sobre os gramados no caminho para a escola ou o ronco dos carros e a quebra das ondas na praia.

Descreva os odores que o protagonista pode sentir em certos locais. Ele pode acordar com o cheiro do café sendo feito na cozinha pelos pais ou ser atingido pelo cheiro da cidade: lixo em decomposição e odor corporal.

Descreva o que sua personagem pode sentir. Pode ser uma brisa leve, uma dor aguda, um choque repentino ou um arrepio pela espinha abaixo. Concentre-se em como o corpo dela pode reagir a um sentimento.

Pense no que o protagonista pode provar. Ele poderá ainda sentir o sabor do cereal que comeu no café ou da bebida da noite anterior.

2. Comece a ação imediatamente.

Pule os longos parágrafos de descrição de cenário ou da personagem, especialmente nas primeiras páginas. É importante prender o leitor começando no meio da ação, enquanto seu protagonista se move e pensa.

Seja conciso com a linguagem e a descrição. A maioria dos leitores continua lendo um bom mistério porque se envolve com a personagem principal e quer ver o sucesso dela. Seja breve, porém específico ao descrever o protagonista e a perspectiva que ele tem do mundo.

Por exemplo, "O Sono Eterno" de Chandler começa situando o leitor em um cenário e dando a ele uma noção da perspectiva de Marlowe sobre o mundo: "Eram cerca de onze horas da manhã, em meados de outubro, o sol não brilhava, e uma massa de chuva pesada se aproximava, vindo das montanhas. Eu estava usando meu terno azul-claro acinzentado com camisa azul-escura, gravata, lenço dobrado no bolso, sapatos pretos, meias de lã pretas com bordados azuis. Estava limpo, impecável, barbeado e sóbrio, e não estava ligando se alguém percebia. Eu era tudo o que um detetive particular de boa aparência deve ser. Eu estava batendo à porta de quatro milhões de dólares."

Com esse começo, a história se inicia em ação, com hora, data e cenário específicos. Ela então apresenta a descrição física da personagem principal e de seu cargo. A seção termina com a motivação do protagonista: quatro milhões de dólares. Em três linhas, Chandler cobriu muitos pormenores essenciais da personagem, do cenário e da história.

3. Mostre, não conte.

Se você disser: "O detetive era descolado", o leitor terá de acreditar na sua palavra. Mas se você mostrar como o detetive era descolado descrevendo a roupa que ele usa e a maneira como ele entra em um cômodo, o leitor poderá ver o quanto isso é verdade. O impacto de mostrar ao leitor certos detalhes é muito mais poderoso do que apenas dizer a ele o que pensar.

Pense em como você reagiria em uma situação se estivesse com raiva ou medo e faça a personagem reagir de maneiras que comuniquem os sentimentos dela sem dizer quais são eles. Por exemplo, em vez de: "Stephanie estava com raiva", você poderia escrever: "Stephanie bateu com o copo d'água na mesa tão forte que seu prato se agitou. Ela o encarou e começou a rasgar o fino guardanapo branco em pedaços com os dedos."

Mostrar, em vez de contar, também funciona bem para a descrição de cenário. Por exemplo, em "O Sono Eterno", em vez de dizer ao leitor que os Sternwoods eram ricos, Chandler descreve os detalhes luxuosos da propriedade: "Havia portas envidraçadas no fundo do salão, e para além delas se via uma larga extensão de grama cor de esmeralda que ia até uma garagem branca, diante da qual um chofer magro, jovem, em uniforme reluzente, estava polindo um Packard marrom conversível. Depois da garagem viam-se árvores decorativas tão bem tosadas quanto cachorrinhos poodle. Mais adiante, uma enorme estufa com teto em redoma. Então mais árvores e, depois de tudo, a linha sólida, desigual e agradável dos contrafortes das montanhas."

4. Surpreenda o leitor sem confundi-lo.

Ao criar um mistério, é importante que a resolução não pareça abrupta ou barata. Tente sempre jogar limpo e surpreender, em vez de confundir o leitor. As pistas apresentadas na história devem levar à solução de maneira lógica e clara apesar das pistas falsas. O leitor vai gostar do final se você o fizer pensar: "Era tão óbvio, eu deveria ter percebido!".

5. Revise o primeiro rascunho.

Depois de criar um primeiro esboço do seu mistério, passe pelas páginas e procure por aspectos essenciais, incluindo:

– O enredo: garanta que sua história se atenha ao esboço e tenha começo, meio e fim claros. Você também deve confirmar as mudanças sofridas pelo protagonista até o fim da narrativa.

Personagens: todas, incluindo a principal, são únicas e distintas? Elas falam e agem da mesma forma ou são diferentes umas das outras? Parecem originais e cativantes?

Ritmo: trata-se da velocidade com que a ação se move na história. Um bom ritmo parecerá invisível para o leitor. Se a história estiver se movendo muito rápido, deixe as cenas mais longas para explorar as emoções das personagens. Caso a narrativa pareça travada ou confusa, encurte as cenas para incluir apenas informações essenciais. Uma boa regra geral é sempre terminar uma cena mais cedo do que você gostaria. Assim, a tensão não cairá de um momento para o outro, e o ritmo da história será mantido.

Hans Christian Andersen (O Velho do Sono) Parte 2, final


QUINTA-FEIRA

   - Sabes o que trago aqui na mão? - perguntou o Velho-do-Sono. Não tenhas medo: é um ratinho.

Abriu a mão, e lá estava mesmo um camundongo pequenino, e muito lindo.

Vem convidar-te para a boda de dois ratinhos, que se casam hoje. Moram debaixo do assoalho da despensa da tua mamãe: para eles  é casa de muito luxo!

- Mas como vou entrar pelo buraquinho que é a porta deles?

- Deixa isso ao meu cuidado! - replicou o Velho-do-Sono - Vais ficar pequenininho.

E tocou-o com sua varinha de condão; o menino foi minguando, minguando, até que ficou do tamanho de seus dedos.

- Agora vai pedir ao soldado de chumbo que te empreste o uniforme. Creio que há de te servir, e a farda fica muito bem em uma festa de cerimônia.

- É mesmo - disse Hialmar.

E num abrir e fechar de olhos estava fardado.

- Quer ter a bondade de se sentar no dedal de sua mãe? – disse o ratinho. - Terei a honra de arrastá-lo.

- É muita amabilidade sua. - disse o menino. - Mas por que vai ter esse trabalho?

E lá se foram, para o noivado dos ratos.

Seguiram primeiro por um corredor, debaixo do assoalho, e tão baixinho que mal dava para andarem por ali com o dedal, era todo iluminado com mecha.

- Não é agradável o perfume que se sente aqui? - perguntou camundongo. - Todo o corredor foi esfregado com toucinho. Não há aroma mais delicado!

Entraram no salão da boda. À direita estava todas as senhoras ratinhas; falavam animadamente, e pareciam muito alegres. À esquerda ficavam os cavalheiros, e todos cofiavam os bigodes com a patinhas. No centro do salão estavam os noivos, sentados em uma casca oca de queijo, beijavam-se a cada instante, diante de todos. Ora, eram noivos, e iam casar dali a pouco.


A cada momento chegavam convidados; tantos que já não cabiam na sala, e como o par de noivos se postara bem no meio da porta de entrada, ninguém mais podia entrar nem sair. Toda a sala, bem como o corredor, estava untada de toucinho: era com isso unicamente que obsequiavam os convidados, Mas à hora da sobremesa passou de mão em mão um grão de ervilha, em que um ratinho, parente dos noivos, gravara a dentadas as iniciais do par. Não foi uma ideia original?

Todos os ratos estavam de acordo em que foi uma festa de noivado magnífica, e que nela reinara a maior harmonia e cordialidade.

Ao voltar à casa, reconhecia Hialmar que estivera em uma sociedade muito distinta; mas nem por isso se sentia menos amesquinhado, por ter ficado tão pequenino; e ainda por cima, vestira o uniforme de seus soldadinhos de chumbo!
                   
SEXTA-FEIRA

- Parecia mentira. - dizia o Velho-Sono - Parece mentira que haja tanta gente velha que suspire ainda por mim, e me queira ver a seu lado! Principalmente os que praticaram alguma maldade. E estão sempre a me dizer: " Velhinho querido, não podemos pregar olho a noite inteira, atormentados por nossas más ações! Elas se sentam na beira da cama, como duendes medonhos, e nos escaldam com água fervendo. Se tu ao menos viesses enxotá-las, poderíamos dormir um bom sono!" Suspiram então, do fundo da alma, e depois dizem: " Nós te pagaremos bem... Boa-noite, Velho-do-Sono! O dinheiro está na janela!" Ah! Mas eu não venho por dinheiro, não!

E hoje, que vamos fazer? - perguntou Hialmar;

- Não sei se gostaria de assistir a outro casamento...É muito diferente daquele de ontem. A boneca de tua irmã, aquela que parece um homem, e se chama Germano, vai casar com a outra, a Beatriz. Além disso é o dia do aniversário da noiva, e hão de receber muitos presentes.

- Sim, sim! Já sei. - disse Hialmar - Quando as bonecas querem vestidos novos, minha irmã diz que é o dia do aniversário, ou do casamento delas. Acho que já se casaram cem vezes, pelo menos!

- Sim. Mas hoje é o casamento número cento e um. E quando chega a essa conta, elas não podem casar mais. Por isso o casamento de hoje será uma festa esplêndida! Olha, olha só para aquilo!

Hialmar olhou para a mesa onde estava a casinha das bonecas. As janelas apareciam iluminadas, e à porta soldados de chumbo apresentavam armas. Os noivos estavam sentados no chão, apoiados à perna da mesa. Pareciam muito preocupados - e para isso, certamente, não faltariam motivos! Nesse meio tempo o Velho-do-Sono enfiara o vestido preto da avó, e casou-os. Terminada a cerimônia, todos os móveis se puseram a cantar esta canção, escrita pelo Lápis:

Leva, brisa gentil, nossos adeuses
À casinha dos noivos, tão amena,
Com seu teto de pele de cabrito.
Direitos ele são como a açucena
Esticada na haste. E que bonito
O belo par, lá na casinha amena...
Leva, brisa gentil, nossos adeuses!"
 
Começou então a apresentação dos convidados. E os noivos recusaram delicadamente os comestíveis, pois bastava o amor recíproco para alimentá-los.

- E agora - perguntou o noivo - o que será melhor; ir para o campo, ou fazer uma viagem ao estrangeiro?

Para resolver esta questão foram consultadas a andorinha, que tinha viajado muito e uma galinha velha, que já descascara cinco ninhadas. E a andorinha falou daqueles cachos enormes de uvas suculenta, onde o ar é lépido e perfumado, e as montanhas se tingem de cores nunca vistas em nossa terra.

- Mas lá não há couves verdes, como as nossas! - disse a galinha. - Passei um verão no campo, com toda a minha ninhada. Havia lá um buraco cheio de areia, onde a gente podia esgravatar á vontade. Além disso tínhamos licença de entrar na horta, cheia de couves verdes. E como eram verdinhas! Não creio que haja nada mais lindo no mundo!

- Mas ora! Um pé de couve é exatamente igual a outro pé de couve. - disse a andorinha. - Quem vê um vê todos. Além disso, aqui o tempo é tão úmido!

- Ora! É só a gente se habituar a isso - disse a galinha.

- Mas faz tanto frio... e cai neve!

- Pois se isso é o melhor que há para a couves! De mais a mais, aqui também pode fazer calor, de vez em quando: não tivemos, há quatro anos, um verão que durou quatro semanas? Era tanto o calor, que a gente nem podia respirar. E aqui não temos animais venenosos que vivem nos países estrangeiros, e estamos livres de ladrões. Só mesmo um ente desnaturado não acharia o nosso país mais belo que todas as outras regiões do mundo! E semelhante criatura não merece viver aqui!

E a galinha começou a chorar. E repetia:

- Eu também tenho viajado, tenho viajado, sim: viajei mais de doze milhas dentro de uma cesta. Não há prazer nenhum em viajar, não!

- A galinha tem razão. - disse Beatriz. - Não acho graça em andar abaixo e acima, viajando por montes e vales! Não: nós iremos ali àquele monte de areia ao pé do portão, e daremos um passeio pela horta, a ver as couves.

E estava resolvida a questão.

SÁBADO

Logo que Hialmar se viu na cama, na noite seguinte, foi perguntando ao Velho-do-Sono:

- Não me contas uma história hoje?

- Não tenho tempo - disse o Velho - abrindo a sombrinha, aquela toda pintada, Olha estes chineses!

A sombrinha era uma paisagem chinesa, cheia de árvores azuis  e pontes muito altas, por onde passeavam chinesinhos, movendo a cabeça para os lados.

- Amanhã, cedo, o mundo inteiro tem de estar todo em ordem. – disse ele. - É dia de festa, é domingo. Vou ao campanário, a ver se o gnomos, estão areando os sinos. Devem cantar amanhã um repique alegre. Depois irei ao campo, a ver se os ventos estão varrendo bem o pó das ervas e das folhas. O mais difícil é fazer descer as estrelas, para dar-lhes brilho. Junto-as todas no avental, mas primeiro é preciso numerá-las, assim como os furos em que estão cravadas, lá no céu, para que fique depois cada uma no seu lugar, senão ficariam frouxas, e começariam a cair... e era uma chuva de estrelas cadentes.

- Escuta, Velho-do-Sono - disse então um antigo retrato, pendurado perto da cama de Hialmar - Não sabes que sou o tataravô do Hialmar? Agradeço-te muito as histórias que vens contar ao menino; mas não deves estar metendo caraminholas na cabeça dele... As estrelas não saem do seu lugar para serem polidas, não: elas são mundos, como a nossa Terra!

- Obrigada, velho tataravô! - disse o Velho-do-Sono. - Muito obrigado! És muito velho na verdade, mas eu ainda sou mais velho do que tu! Sou mais velho pagão; os gregos e romanos chamavam-me o Deus dos Sonhos. Tenho sempre visitado casas de famílias muito importante, e casas de pobre; e ainda faço a mesma coisa. E sei muito bem como me haver com os grandes e com as crianças. Agora é a tua vez: conta uma história, conta o que te parecer!

E o Velho-do-Sono foi embora, com suas sombrinhas.

- Ora esta! - dizia o retrato da parede. - Então a gente não pode expor a sua opinião?

Nisto Hialmar despertou.

DOMINGO


- Boa-noite! - disse o Velho-do-Sono.

Hialmar, mais que depressa, levantou-se na cama e virou o retrato do tataravô de cara para a parede, para que não interrompesse a história, como o fizera na véspera.

- Conta-me agora a história das cinco ervilhas verdes, que viviam dentro da vagem, e a do galo que namorava a galinha, e a da agulha de cerzir, que era tão fina que se julgava uma agulha de bordar.

- Até as coisas boas podem ser demais. - disse o Velho. - Antes quero hoje mostrar meu irmão. Ele nunca visita a ninguém mais de uma vez; e quando visita uma pessoa leva-a na garupa. E vai contando histórias: uma delas é de beleza inexprimível, tão linda como ninguém pode imaginar; a outra é medonha, espantosa...nem é bom descrever.

E o Velho-do-Sono ergueu o pequeno Hialmar até a janela, dizendo-lhe:

- Lá está  meu irmão, o outro Velho-do-Sono, seu nome é Morte! Estás vendo que não é tão feio como se vê nos livros de estampas, onde parece uma caveira. Não: ele tem uma roupagem toda bordada de prata - um belo e alegre uniforme! Vê o manto de veludo negro que lhe caí dos ombros, e se estende pela garupa do cavalo! Olha como galopa!

E Hialmar viu o outro Velho-do-Sono galopando, levando consigo gente velha e gente moça; punha uns na frente, outro atrás - mas depois de perguntar a cada um que espécie de notas trazia.

- Boas! - respondiam todos.

- Deixa-me vê-las! - retrucava ele.

E todos eram obrigados a lhe mostrar as notas. Os que tinham "muito boa", "ótima, iam na frente, e ouviam a história linda; mas os que tinham apenas a palavra "regular", ou "má", escrita no certificado, deviam ficar na garupa do cavalo, e ouviam a história horrível. Tremiam, e choravam, tentavam saltar do cavalo abaixo, mas não o conseguiam, pois pareciam amarrados firmemente, como se houvessem criado raízes ali.

- A Morte é um Velho-do-Sono muito bonito - Disse Hialmar - Eu não tenho medo dela.

- Nem precisas ter! - afirmou o Velho-do-Sono. -  É só tratares de ter uma boa nota para lhe mostrar.

   - Ora aí está uma história muito instrutiva! - disse o retrato do velho tataravô. Então sempre serve para alguma coisa a gente dar a sua opinião...

E soltou um grande suspiro de contentamento.

E esta história do velho-do-Sono. Quem sabe se ele não virá em pessoa, esta noite, contar-te alguma outra?