quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cleto de Assis (O Poder do X)


Ando tão preocupado com as palavras que notei algo interessante: as letras que as formam têm personalidades distintas. A começar pelos dois grupos de vogais e consoantes. As cinco primeiras — A, E, I, O, U — são as cortesãs. A letra A, primeira e única, no eterno papel de candidata ao trono. Em verdade, parece que a letra E disputa a liderança com a A. Pelo menos em quantidade, a E participa mais que todas as suas demais irmãs vogais na formação das palavras. No tempo da composição tipográfica, as caixas de madeira que continham os tipos de metal eram divididas em escaninhos de diversos tamanhos e a casa da letra E minúscula era a maior, bem próxima à vista e à mão do tipógrafo, por ser a mais usada. Reparem no teclado do computador e verão que a primeira vogal a aparecer é a E, já na segunda fila superior, abaixo dos números. E essa disposição foi herdada dos teclados das aposentadas máquinas de escrever. Tudo uma questão de prioridade de utilização.

E o exército de consoantes? Pois toda armada é formada assim: primeiro os generais e depois os soldados. Acima as vogais, que têm som próprio, e depois as consoantes que, como diz o próprio nome, somente soam com a parceria de uma vogal. Se não tiverem uma das cinco irmãs juntinha a si, são letras mudas, a que falta um pedacinho de som. Nossa língua portuguesa ganhou, com a última reforma ortográfica, três outras que se encontravam exiladas há muito – a K, a W e a Y. E deveria ter sido o contrário: com jeitinho e a bem da escrita fonética, teríamos decapitado a letra Q, bem fácil de ser substituída pela C; e a H que também se cuide, pois dá bem para passarmos sem ela. Bastaria adotarmos o simpático eñe espanhol e facilitar a vida de quem já, pela própria natureza, fala errado, dizendo colier e mulier, em vez da verão com H. Vejam como daria certo: “A mulier pegou a colier e acompañou seu marido na sobremesa”. Assim estaríamos criando, formalmente, o portunhol que dominará, dentro de algumas décadas, a América Latina.

Mas as consoantes também têm fortes personalidades. Eu, por exemplo, gosto da letra C, que por acaso inicia meu nome; uma questão de afinidade. Acho que ela é uma letra aberta, sempre pronta a um harmonioso abraço com a vogal que se lhe avizinhe. Há quem prefira a M, estável sobre duas pernas, ao contrário da P que avança seu tórax e se equilibra em apenas uma perninha. A letra R, ao não aguentar a posição circense, desceu rapidamente um esteio e fez com que o Pato se diferenciasse do Rato.

Tenho pena só de uma letra: a Z. A que fica por último, a zelar pela retaguarda do Alfabeto, com ar de zanga permanente, e que de vez em quando se zarelha na vida da S. Como sempre está no meio do azar, também lembra a zebra, a vitória não esperada. Talvez nem seja das mais inteligentes, pois não fala: zurra, à maneira das mulas. Ou, mesmo silenciosa, zumbe incomodamente. Aparentemente quieta, na maioria das vezes, zomba de todas as anteriores letrinhas. E quando se junta a outras suas iguais, onomatopaica, vira sono profundo. Além de azarar os nomes próprios que começam com ela – alguém já ouviu um Zulmar ser o primeiro na chamada escolar?

Examinei a N, uma M com complexo de inferioridade; a S, que conhecemos como cobrinha na escola primária, início de toda serpente e dos sapos. Quando está sozinha, dentro das palavras, em geral é ela que se zarelha, tomando o lugar da Z. A letra V é um pouco despersonalizada, é verdade. Muitas vezes pode ser cobardemente substituída pela B. No Espanhol, então, nem se fala nela. Pode até aparecer graficamente, com aquele ar de A invertido e sem cintura, mas sempre a pronunciam como uma B, coitada.

E a letra F? Uma P de boca aberta, consonante fricativa, lábiodental, surda. Tadinha… Abre a boca, mas apenas sussurra, faz ventinho entre os lábios. Impossível pronunciá-la com a boca cheia de farinha, sem produzir uma nuvem de pó de carboidratos. Já a G, gordinha como ela só, parece estar sempre no engole, engole, mão para dentro da boca. E a J, um cajado invertido, lembra joelhos dobrados a proferir jaculatórias. Ai, Jesus!

A letra Y, a nova irmã, veio para pouco acrescentar, apesar de seu jeitinho de dois dedos levantados em sinal de vitória. O NVOLP (para quem não está acostumado, este sanduíche de letras quer dizer Novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela ABL, ou Academia Brasileira de Letras) regsitra apenas 45 vocábulos do(a) Y, incluído(a) ele(a) próprio(a), até a 5ª edição, que vem com anexos. K e W aparecem mais, mas não chegam a encher uma página de cinco colunas, cada uma delas.

Mas já que estamos a conversar sobre a personalidade das letras, descobri outra coisa interessante. Já repararam que tratamos as letras à vezes como femininas e outras como masculinas? Dizemos o A e a A, o B e a B. Fui ao dicionário e vi que elas todas (ou eles todos?) são designadas por s.m., que não quer dizer sua majestade, mas substantivo masculino: “B. S.m. 1. A segunda letra do alfabeto etc.” Seria um caso de androginia gramatical?

Todas as divagações anteriores, que não têm o menor peso adicional na cultura de quem me lê, foram feitas para registrar a importância de uma letrinha sempre misteriosa, a senhora X. Notaram que essa indicação já nos remete a alguma pessoa desconhecida, que se esconde atrás de óculos escuros, sempre cabisbaixa e a percorrer rotas obscuras? É sempre o X do problema, a atormentar detetives. Cruz dos matemáticos, que sempre a utilizam como variável independente das equações ou a põem lá no fim, como a incógnita a ser descoberta. Ou não. A X – ou o X – é letra quase universal, que corta as demais julgadas desnecessárias, nome de todos os analfabetos que assinam em cruz, embora Descartes a tenha utilizada para designar sua primeira coordenada. Valia 10 para os romanos, mas nós a utilizamos sempre que queremos falar de uma quantidade indeterminada: falta X para completar. Os documentos secretos e importantes ficam sempre no Arquivo X. O dois risquinhos entrecruzados também facilitaram a vida dos desenhistas de anúncios de lanchonete, ao assumir as feições do queijo dos sanduíches (em inglês, é claro, que é para não perder a pose): X-salada, banana X etc.

Não é uma letrinha versátil e digna de admiração, talvez dotada de multipersonalidade? Em um exame vestibular, ela substitui quilômetros de textos formados por centenas de milhares de palavras e milhões de letras. Basta que a coloquemos dentro de um determinado quadradinho e pronto: traduz a resposta que queremos dar.

E tem mais uma coisa: ela é multiplicativa. É só colocá-la entre dois números e a magia se realiza. Ou, então, adversativa, a indicar lados opostos. Futebol não se realiza sem um X entre dois clubes.

E lembremo-nos, além de tudo, de sua elegância fonética: quando a Corte portuguesa se mudou para o Rio de Janeiro, os nativos trataram de adotar falares europeus, trocando os S finais das palavras por maviosos X, hábito que até hoje os cariocas conservam.

Por tantas razões, quero propor o X, rei das letras, como principal candidato à presidência da República, nas próximas eleições. Ele poderá multiplicar o PIB brasileiro e substituí-lo pelo PIX (produto interno xuave), além de axelerar o creximento xoxial (noxa, como me condixionei rápido a exa teoria ideolóxica!).

Pelo menos ele é uma incógnita que poderá gerar uma solução positiva.

Curitiba, março de 2010

Fonte:
http://cdeassis.wordpress.com/cronicas/

A. A. de Assis (Novos Triversos)

1
O amor fez a luz,
e as águas e os céus e a terra.
Em obras, o homem.

2
Tão simples, meu santo:
“ame e faça o que quiser”.
O resto é discurso.

3
Poeta no parque.
Enquanto caminha ao sol
vai catando haicais.

4
Com tanto edifício,
é difícil ver estrelas.
Que pena, Bilac...

5
Vaga o vaga-lume.
Vaga luz num vago mundo
procurando vaga.

6
Cigarra dá curso
de canto no formigueiro.
E a fábula acaba.

7
De longe o cheirinho
a que Adão não resistiu.
Festa da maçã.

8
Rodada de mate.
Negrinho do Pastoreio
passa bem no meio.

9
Quero-quero-quero...
que queres tu tanto assim?
– Quero a quera-quera.

10
Mindim, seu-vizim,
pai-de-todos, fura-bolo...
Ao sobrante, o piolho.

11
Tão meninas elas,
as meninas dos teus olhos.
Pedem colo, ainda.

12
Nobre girassol.
Como podem, no mercado,
chamá-lo commodity?

13
Toda prosa a rosa.
Vitória-régia-mirim
numa poça d’água.

14
Mágica é a palavra.
Beija-flor é beija-flor,
colibri nem tanto.

15
Vovó faz a sesta
na cadeira de balanço.
Reprise de sonhos.

16
Repartem-se as nuvens
em finos fios de chuva.
Festança na roça.

17
Era um fino belga.
Fez sucesso ao transformar-se
num canário brega.

18
No ap da canária
pinta o 7 o pintassilgo.
Pinta um pintagol.

19
A abelhinha, não.
Bela e útil, não lhe assenta
ser chamada “inseto”.

20
Na Idade da Pedra
talvez já se comentasse:
– É uma pedra a idade.

21
Cada tique-taque
leva um tiquinho da gente.
Para o céu, espero.

22
Longindo-se vai,
suminte, o barquinho a vela.
Quem será com quem?

23
Ah, espelho meu.
Cada vez que em ti me vejo
vejo menos eu.

24
Receita do sapo:
quem quer um sono tranquilo
antes coma o grilo.

25
Gordo flamboaiã.
Só ele no vasto pasto
dando sombra aos bois.

26
Quantas vezes, ah,
eu vi o pião rodar.
E os anos também.

27
As celebridades?...
Dê-lhes tempo e logo-logo
serão gasparzinhos.

28
Do dente por dente
ao voto por dentadura.
A lei da mordida.

29
Flores na enxurrada.
Vão ter afinal bom háli-
to as bocas de lobo.

30
Santo mesmo é o peixe.
Sequer precisou da arca
para se salvar.

31
Caminhão de flores.
Da roça para a cidade,
perfumando as trilhas.

32
Tanto foi ao brejo,
que a vaca um lírio gerou.
O copo-de-leite.

33
Cubram-se as estrelas.
Tem gente capaz de ao vê-las
lhes roubar as pilhas.

34
O parto da história:
aquele em que Adão, dormindo,
fez-se Adão e Eva.

35
Desce o rio a serra.
Colhe as lágrimas da terra
pra fazer o mar.

36
A prece da tarde.
Em coro cantam as aves
as Ave-Marias.

37
Na praia desfilam
sungas, biquínis. De gala,
um par de pinguins.

38
Trinta e tantos graus.
Passarinho, na torneira,
rouba um pingo d’água.

39
Pazinha... colher...
ou vai ser na lambeção?
Sorvete em casquinha.

40
Nuns de vez em quando
sou porventura menino.
Melhores momentos.

41
Um pingo de luz
no topo do arranha-céu.
Brincando de estrela.

42
As rosas no cio.
Sedutoramente abertas
para o beija-flor.

43
Lua cheia míngua,
de repente volta nova.
Imortalidade.

44
Triste bem-te-vi
pareceu-me estar pedindo:
- Não me roube os hífens.

45
Siri pra sereia:
– Quando eu crescer, te prometo,
serei teu sereio.

46
Garrincha e Pelé.
Depois deles nunca mais
houve igual olé.

47
Ao velhinho, o dia.
Nem passado nem futuro
têm-lhe serventia.

48
Estrelas, milhões.
Ou serão anjos brincando
de bola de gude?

49
Entre o céu e a terra,
quanta vã filosofia...
E o pior: bem paga.

50
Pois é, meu poeta:
até as crateras da Lua
de longe são belas.

51
Corrija-se a tempo.
Mais de mater que magistra
necessita o mundo.

52
Tanto pisou nela,
que a calçada deu-lhe o troco.
Dedão destroncado.

53
Antissolidão.
A cada velhinho a tela
de um computador.

54
A pomba e a rolinha.
Uma é grande, outra é pequena,
mas de paz é a cena.

55
Cala-te, canário.
Se cantas além da conta,
contas teus segredos.

56
Pobre couve-flor.
Não sendo nem flor nem couve,
finge ser as duas.

57
Gambazinhos, hummm...
Para o nariz da mãe deles,
que catinga boa.

58
Doce portuñol.
Para los niños los nidos
... y los abuelos.

59
Pousa o passarinho
na imagem de São Francisco.
Os irmãos se entendem.

60
Branquinhas, branquinhas,
voam as garças em V.
Vitória da paz.

Fonte:
O Autor

Regina Célia Melo (Poesia Infantil)


GALINHO PEDRÊS

Meu galinho pedrês
Já aprendeu a lição.
Canta de cor e salteado
O madrigal de
Todas as manhãs!

TECELÃ DE SONHOS

Um sorriso aqui, alegria ali
Um ponto aqui, outro acolá

Tecelã de sonhos
Cativando amores
Cultivando flores
Costurando cores

Todas as flores
Num só jardim
Nona sinfonia
Colcha de harmonia

Flor de Maria,
Flor de José e de quem vier...

VALSINHA

Oh, abelhinha
Minha amiga,
Traz mel pro menininho...

Ele quer ficar barrigudinho,
Quer crescer, entender de tudo
Um tanto!

E um dia, num campo
Cheio de flores,
Ficar tonto de tanto dançar
Sua valsa ao som do bZ

CORUJA

Corujinha dos olhos grandes,
Empresta-me teu olhar...
Pra eu descobrir os segredos
Do céu vazio de lua,
Da noite cheia de noite...

CARACOL

Que caracol enrolado!
Fica horas e horas,
Dias e dias,
Meses e meses,
Anos e muitos anos...
Toda a vida se aprontando
Pra sair de casa...
E quando sai de casa
Não sai da casa!

CONVITE

Mal a lua se pôs na noite,
Piscou-me um olho.
Fez um sorriso de estrelas,
Calçou uma sapatilha de nuvens
E, num pas de deux de luar,
Convidou-me para dançar.

NUDEZ

Ipê amarelo
Vento despindo-o
Chão pintado

POÁ

Nas tardes sonolentas
De agosto, os mosquitinhos
Vão à forra...
Fazem piruetas indiscretas
Nos desavisados narizes.
Zoam uma cantilena
Sem fim...
E por onde passam pintam um
Desencontrado poá.

SINFONIA

Atenção, senhores ouvintes:
A orquestra vai começar!

Fimmm, fuim, fuim...
Interminavelmente...

É assim:
Primeiro a sinfonia,
Pra aliviar, com certeza,
O ataque fatal!
PLAFT!!!

ENTRADA PROIBIDA

Barata chata,
Feiosa e entrona,
Ninguém aqui te convidou!

Chinelo, vassoura e detefon!
EXPRESSAMENTE PROIBIDA
ENTRADA DE BARATAS!

Troncha e tonta,
Vá abusar noutra freguesia!!
ARGH!!!
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Nascida em Januária e criada em Montes Claros - cidades mineiras- Regina Célia Melo mudou-se para Brasília em 1976, após concluir o magistério. Ingressou na Secretaria de Estado de Educação, em 1977, como professora de crianças. Graduou-se em Letras, Direito (UniCEUB), Artes Plásticas( UnB), especializou-se em Literatura Brasileira e, também, em Educação Especial, sua principal área de atuação, à qual se dedica há mais de vinte anos. Sua grande alegria é ver crianças apaixonadas por livros.

Livros publicados: Uma Joaninha Diferente, Uma Traça sem Graça, Sapato Trocado Sorriso Dobrado, Poemas e Cores.

Fonte:
Antonio MIranda

Artur de Azevedo (A Polêmica)


O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrara de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.

Felizmente era solteiro, e o dono da "pensão" onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.

Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.

Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no Colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontravam na rua.

O negociante ouviu-o, e disse-lhe:

- Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que te vou pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...

- Estou às tuas ordens.

- Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no Jornal do Comércio, um artigo contra o Saraiva.

- Que Saraiva?

- O da rua Direita.

- O João Fernandes Saraiva?

- Esse mesmo.

- E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?

- Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.

A essa palavra "cobres", o Romualdo teve um estremeção de alegria; mas caiu em si:

- Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...

- Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artigo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com luva de pelica. Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade. Escreves o artigo?

- Mas...

- Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.

- Tenho escrúpulos...

- Deixa lá os teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda a atenção.

E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar, um contra o outro, dois amigos que não conhecessem o que a vida tem de áspero e difícil O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.

O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil-réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura de lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.

- Muito bem! - exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.

- Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente a questão!

E, depois de um passeio â burra, meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:

- Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. - A época é difícil, mas há de se arranjar.

O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil-réis! Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!

Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da "pensão" que lhe emprestasse o Jornal do Comércio, e viu a sua prosa "Eu e o sr. João Fernandes Saraiva" assinada pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espírito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.

À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra "urgente".

Ele abriu-a e leu:

"Romualdo. - Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do - João Fernandes Saraiva."

Este bilhete inquietou o ex-jornalista.

Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe... Mas para que me chamará ele?

O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!

- Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.

O menino foi-se.

O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.

Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:

- Obrigado por teres vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!

E levou-o para um compartimento reservado.

- Leste o jornal do Comércio de hoje?

- Não - mentiu prontamente o Romualdo. - Raramente leio o Jornal do Comércio.

- Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!

O Romualdo fingiu que leu.

- Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! - bradou o Saraiva. - Aquilo é uma besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!

- O artigo não está mau... Tem até estilo...

- Preciso responder!

- Eu, no teu caso, não respondia...

- Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio Jornal ao Comércio e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.

- Eu?...

- Tu, sim! Eu podia escrever mas... que queres?... Estou fora de mim!...

- Bem sabes - gaguejou o Romualdo - que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...

- Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!

No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.

Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:

- Por amor de Deus não te recuses a este obséquio tão natural num homem que vive da pena! Tu estás desempregado, precisas ganhar alguma coisa...

O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.

Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: - Bravo! Não podia sair melhor! - e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil-réis e entregou-a ao prosador.

- Oh! Isto é muito, Saraiva!

- Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pague bem!

- Obrigado, mas olha: recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no jornal pode haver alguém que conheça a minha letra.

- Copiá-lo-ei eu mesmo.

- Adeus.

- Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!

- Está dito.

No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o jornal do Comércio na mão.

- O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!

E batendo com as costas da mão no jornal:

- Isto não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas ainda assim, quem escreveu por ele está longe deter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...

E o Romualdo escreveu...

Durante um mês teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.

Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve! Escreve! Eu quero ser o último!

Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.

E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu harmonizá-los.

O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.

Fonte:
www.biblio.com.br

Alberto de Oliveira (Livro de Poemas)


A VINGANÇA DA PORTA

Era um hábito antigo que ele tinha:
Entrar dando com a porta nos batentes.
— Que te fez essa porta? a mulher vinha
E interrogava. Ele cerrando os dentes:

— Nada! traze o jantar! — Mas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha, a cabecinha
Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Urna vez, ao tornar à casa, quando
Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
Entra mais devagar... — Pára, hesitando...

Nisto nos gonzos range a velha porta,
Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala,
A mulher como doida e a filha morta.

TAÇA DE CORAL

Lícias, pastor — enquanto o sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia.
Em sede abrasa, qual de amor por Febe,
— Sede também, sede maior, desmaia.

Mas aplacar-lhe vem piedosa Naia
A sede d'água: entre vinhedo e sebe
Corre uma linfa, e ele no seu de faia
De ao pé do Alfeu tarro escultado bebe.

Bebe, e a golpe e mais golpe: — "Quer ventura
(Suspira e diz) que eu mate uma ânsia louca,
E outra fique a penar, zagala ingrata!

Outra que mais me aflige e me tortura,
E não em vaso assim, mas de uma boca
Na taça de coral é que se mata"

ULTIMA DEUSA

Foram-se os deuses, foram-se, eu verdade;
Mas das deusas alguma existe, alguma
Que tem teu ar, a tua majestade,
Teu porte e aspecto, que és tu mesma, em suma.

Ao ver-te com esse andar de divindade,
Como cercada de invisível bruma,
A gente à crença antiga se acostuma
E do Olimpo se lembra com saudade.

De lá trouxeste o olhar sereno e garço,
O alvo colo onde, em quedas de ouro tinto,
Rútilo rola o teu cabelo esparto...

Pisas alheia terra... Essa tristeza
Que possuis é de estátua que ora extinto
Sente o culto da forma e da beleza.

LUVA ABANDONADA

Uma só vez calçar-vos me foi dado,
Dedos claros! A escura sorte minha,
O meu destino, como um vento irado,
Levou-vos longe e me deixou sozinha!

Sobre este cofre, desta cama ao lado,
Murcho, como uma flor, triste e mesquinha,
Bebendo ávida o cheiro delicado
Que aquela mão de dedos claros tinha.

Cálix que a alma de um lírio teve um dia
Em si guardada, antes que ao chão pendesse,
Breve me hei de esfazer em poeira, em nada...

Oh! em que chaga viva tocaria
Quem nesta vida compreender pudesse
A saudade da luva abandonada!

CHORO DE VAGAS

Não é de águas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor - ouço um clamor humano;
Em seu lamento - todos os lamentos.

São de náufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou tábua, ou pano,
Vejo-os varridos de tufões violentos;

Vejo-os na escuridão da noite, aflitos,
Bracejando ou já mortos e de bruços,
Largados das marés, em ermas plagas...

Ah! que são deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

AFRODITE I

Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,

O mar, - turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.

As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;

O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.

AFRODITE II

Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, - nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.

Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, - sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.

Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;

Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.
-----

Fonte:
Portal Sao Francisco

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ialmar Pio Schneider (Baú de Trovas IX)


Anoitece lentamente
quando medito sozinho
e me quedo descontente
distante do teu carinho.

A noite desceu aos poucos
e no céu surgiu a lua
para os boêmios e loucos
que vagam a esmo na rua.

Às vezes me contradigo
sem querer, naturalmente,
pois corro sempre o perigo
de te amar inutilmente.

Como tarda anoitecer
nestes dias de verão,
quanto é difícil viver
mergulhado em solidão.

Eis que chega a primavera,
trazendo-me novo alento,
vivo o “suspense” da espera
de te encontrar num momento…

Escrevo trovas sentidas
num desabafo de dor:
são as ilusões perdidas
de certo frustrado amor.

Eu fui te ver certo dia
e apenas me confundiste;
ia cheio de alegria
e voltei magoado e triste.

Faço de conta que penso
e me concentro demais;
todavia me convenço
que não me encontro jamais...

Faço versos para alguém
que surgiu em minha vida
e agora com seu desdém
me deixou a alma ferida.

Fora bom que tu partisses
para nunca mais voltar;
assim talvez conseguisses
que eu pudesse te olvidar...

Iremos os dois sozinhos
em meio da multidão,
por diferentes caminhos
que jamais se encontrarão.

Já não canto por desgosto
e nem por felicidade,
mas, à tardinha, ao sol-posto,
eu me quedo na saudade...

Meu amor foi o mais louco,
pois nasceu de uma esperança,
que não vingou nem um pouco
e transformou-se em lembrança.

Meu coração se consterna
olhando a noite estrelada;
no mundo quem me governa
são as carícias da amada.

Minhas mágoas já são tantas
que não posso descrevê-las;
é como se pelas tantas
fosse contar as estrelas...

Nada te digo nem quero
que alguma coisa me digas;
se às vezes me desespero
eu me desfaço em cantigas...

Não estás junto comigo
nestes momentos adversos;
no entanto, pra meu castigo,
vives inteira em meus versos !

Não me iludem teus olhares
e nem tampouco teus risos:
são expansões singulares
ou desejos indecisos ?!

Não te desprezo, nem quero
o teu desprezo, igualmente;
se o amor não é sincero
procuro esquecer, somente...

Não vais chorar, certamente,
ao saberes que te quero
e creias, porém, somente
que tudo... tudo é sincero.

O calor convida ao mar
aonde o meu desejo vai,
preciso te procurar
quando a tarde aos poucos cai.

O que me causa tristeza
não é saber que não me amas,
é tão-somente a certeza
que sofres e não reclamas !

O tempo que tudo apaga
só deixa recordação,
que nem uma viva chaga
sangrando no coração.

Por mais que tente esquecê-la,
não consigo meu intento,
sempre será qual estrela,
brilhando no firmamento.

Proclamas que és minha amiga...
ou foges da realidade ?!
Não te importas que eu te diga
desejar mais que amizade ?!

Segue teu rumo que eu sigo
o meu destino também,
se não pude andar contigo
vou procurar outro alguém...

Sempre existe na existência
pra nos fazer infeliz,
um amor sem convivência
que a gente esperou e quis.

Se pudesses compreender
a paixão que me enlouquece,
nunca mais o teu viver
uma só mágoa tivesse...

Do Saber:

Sócrates assim dizia:
“Eu só sei que nada sei.”
E com tal filosofia
eu também responderei.

Tudo não passou de um sonho
tão rápido e fugidio;
um pensamento enfadonho
que de nada me serviu.

Fonte:
O Autor

Cristovão Tezza (Palestra: Tecnologia - Leitura no Cotidiano)


Nesta quinta-feira, dia 23/09 - 20h, teremos o escritor Cristóvão Tezza falando sobre Tecnologia - Leitura no Cotidiano .

O escritor Daniel Pizza por problemas pessoais cancelou participação.

Para se inscrever encaminhar nome e telefone de contato neste endereço de e-mail. LaideSousa@sescpr.com.br

Abraços.

Laíde Cecilia de Sousa
Assistente de Atividades
SESC- Maringá
(44) 3262-3232
Ramal - 2755
http://www.sescpr.com.br

Sarau Comemorativo do 8º Aniversário da Casa do Poeta de Canoas




A Casa do Poeta de Canoas
convida para a atividade comemorativa ao seu 8º aniversário.

SARAU COMEMORATIVO AO 8º ANIVERSÁRIO
-
Sexta-feira - 24/9/2010 - 19h

Conjunto Comercial Canoas
Rua 15 de Janeiro, 481 - Centro / Canoas

Maria Santos Rigo
Presidente da Casa do Poeta de Canoas

Cadastre-se no site e receba por email as notícia e novidades da Casa do Poeta de Canoas. Fone: (51) 3476.4431 / 9669.4615

www.casadospoetas.com.br poetas@casadospoetas.com.br

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Olga Agulhon (Feita de Luz)

Expulsa da cidade, acusada de atrapalhar o sono dos justos, roubando-lhes a negritude da noite, onde todos os gatos são pardos, abrigou-se no campo, num pequeno sítio ao pé da serra, longe de vilarejos e longe de gente de todos os tipos.
Deixou, no antigo apartamento, quase toda a mobilia, as roupas de seda, os saltos altos, as lembranças inúteis.

Com o pequeno filho sempre junto ao peito, carregou consigo apenas o necessário, as roupas de algodão, uma botina, algumas recordações agradáveis, não muitas; e seus livros, todos, sem esquecer nenhum título.

No meio do caminho, deu carona a um tipo estranho, grande, negro, mudo, que, por assim ser, não pôde dizer como era chamado.

Chegando àqueles campos, que seriam seu refúgio, respirou o ar puro da natureza que os acolhia sem pudores ou preconceitos. Cumpriria naquele lugar o seu destino. Desceu para abrir a porteira, carregando o filho, junto ao peito, como sempre o mantinha. Mais tarde, ao fecha-la, deixaria definitivamente para trás todo o seu passado de busca e escuridão.

Ao descarregar as malas, dispensou imenso cuidado a uma delas, por conter seu último par de asas.

O negro carregava os livros que não sabia decifrar.

Na casinha branca, de varanda, aguardou o motorista do caminhãozinho que havia transportado a pequena mudança. Antes de ir, após receber seu pagamento, não se conteve e perguntou à mulher sobre os livros, tantos eram.

Ela respondeu que eram o seu alimento; e ele foi-se embora sem entender, mas sem disposição para mais questionamentos.

Há louco pra tudo, mesmo...Livros, para que tantos livros nesse fim de mundo, ficou pensando o motorista, que de leitura nada sabia.

Sem ter para onde ir, ou quem por ele esperasse, o negro ficou por lá, mudo arando o campo, tentando descobrir os segredos da terra e da mulher.

Ela também cultivava o solo, descobria os seus desejos, fecundava suas entranhas.

Cuidava do filho com esmero e amor.

Mantinha a casa limpa e arrumada.

Criava pequenos animais, fazia o pão.

De dia era assim. Parecia uma mulher comum, porém dotada de especial brilhantismo, inteligente, dessas heroínas que existem em todo o mundo e que conseguem assumir tantas funções, porque aprenderam a mágica e se duplicam; ou até mesmo se transformam em muitas, sem que os homens se deem conta da magia realizada.

De noite era outra. Abandonava os trapos de algodão, vestia-se de luz. Bebia o extrato dos imortais e inalava seus perfumes. Nutria-se de poemas.

Espargindo um líquido denso, que brotava ritmado, dava de mamar ao filho e fazia-o dormir ouvindo doces palavras.

O negro, mudo, assistia a tudo como se sonho fosse e, sem acreditar que pudesse existir mulher assim, feita de palavra e luz, em todas as noites era tomado por uma agradável sensação e adormecia, sentindo um cheiro muito bom e sonhando o mesmo sonho.

Depois de adormecidos, o menino e o negro, a mulher ainda permanecia acordada, devorando incontáveis páginas.

Quando se sentia extasiada, vestia seu par de asas e sobrevoava as cidades, como verdadeira heroína alada, exorcizando as dores e a ignorância do mundo, espargindo sobre os homens um pouco de si, noite após noite.

Nada mais tendo a doar e estando leve como uma pluma, não mais batias as asas, flutuava. E, nesses instantes, olhava o mundo por cima dele; e chorava. Chorava porque via o quanto os homens ainda precisavam de poemas, de magia, de sonhos. Ainda havia muito o que salvar...

Então voltava, recolhia as asas e deitava-se para repousar um pouco e recomeçar outro dia, sugando da terra e dos livros novas energias.

Em suaves momentos, observava os primeiros passos do filho. Preparava-o para ser o seu sucessor. Mesmo sabendo que, por ser homem, o filho teria mais dificuldades, desejava passar-lhe toda a sua heróica sensibilidade, toda a sua mágica e toda a sua luz. Tinha esperanças.

Assim se passaram os anos.

Depois de toda uma vida feita de luz, a mulher entregou a asa ao filho e adormeceu para sempre, amparada pelo bom amigo negro e inculto, que se despediu falando com os olhos.

Foi tranquila, conhecendo o futuro que dera ao filho.

De longe, ainda pôde ver quando ele pôs a velha asa na mala, disse até logo ao negro, e saiu para percorrer o mundo: e ser poeta.

Fontes:
AGULHON, Olga. Germens da terra. Maringá, PR: Midiograf, 2004. p.97-104.

Clarisse Bandeira de Mello (O Colecionador de Tulipas)

Ramo de tulipas, em tinta oleo sobre tela,
de R. O. Peixoto.
1o. Concurso Verso e Prosa da Flórida
1º Lugar - Prosa
Clarisse Bandeira de Mello - Weston - FL - USA
-------------------

Naquele dia, como sempre, acordou muito cedo. Arrumou as tulipas em engradados, ajudou a acomodá-las carinhosamente no caminhão, assinou a guia do transportador e andou em direção à casa. Sem olhar para trás. Determinado a não olhar para trás. Abriu a porta da casa pensando que ‘se elas fossem gente, não esconderiam uma ou duas lágrimas’.

Sentou na varanda e começou a fazer planos para mais um dia. Desde que chegara, há doze anos, agarrara-se à rotina, como se ela o ajudasse a sobreviver. Trabalhava muito, até de madrugada - a atividade constante amortecia as lembranças; os poucos conhecidos, brasileiros como ele, também não tinham tempo para nada. O sentido da vida passara a ter a dimensão de um dia... um dia de cada vez.

Com o frio da manhã, o céu azul parecia ainda mais claro. No Brasil, o céu era de tonalidade mais viva, contrastando com a vegetação verde profundo. Acabou fechando os olhos. Na sua solidão habituara-se a sonhar acordado. Imagens do passado surgiam em seqüência, recorrentes, impregnadas de nostalgia. A saudade que dá nó na garganta há muito o abandonara.

Lembrou-se do dia em que resolveu partir. Tomou a decisão sentado na Rua da Praia, sem emprego, sem esperança, olhando o reflexo do sol apontando para o horizonte. Quem sabe para um lugar onde pudesse viver em paz...

Pôs na mala só o que faria falta. Roupas, tirou do armário as mais conservadas, escolheu dois livros que gostava de reler e o retrato da mãe. Tinha certeza de que com o passar do tempo a tristeza chegaria sem pedir licença, intrusa que não percebia sua inconveniência. Olhou em volta, querendo guardar na memória todos os detalhes do quarto. Tinha certeza de que nunca mais dormiria ali.

Ao entrar no avião, o medo do desconhecido o dominou. ‘Todos me olham como se soubessem meu segredo’, pensou. Acomodou-se ao lado de uma americana e sentiu-se um idiota por não saber responder em inglês. Pegou no sono após dois cálices de vinho e ao acordar avistou, lá embaixo, a cidade que mais parecia um tabuleiro de xadrez. As ruas perfeitamente traçadas, as casas construídas com simetria, todos os telhados da mesma cor. ‘Será que conseguirei viver num país desconhecido?’ O medo voltara...

Levantou-se e foi à cozinha fazer café. Ainda usava aquele coador de tecido, velho, marrom de tanto usar, sempre com um pouco de borra no fundo. O aroma bem brasileiro invadiu a casa. Pela janela, observou o empregado podando as folhas secas das tulipas.
Pousou a xícara, as imagens surgiam para além do vidro. As noites em casa de estranhos, seu corpo oferecido como cobaia de laboratório em troca de alguns dólares, as mãos ensangüentadas com o peso dos tijolos, os esconderijos para não ser deportado. Só começou a se sentir mais à vontade quando foi trabalhar como frentista num posto de gasolina. Dia feliz foi aquele em que uma senhora brasileira pediu-lhe para trocar o pneu do carro. Conversa vai, conversa vem, lá estava ele contando um pouco de seu passado. Os olhos dela quase saíram das órbitas quando ele revelou que tinha doutorado na Sorbonne. Em um minuto, já o observava como espécime raro. Sacudiu a cabeça, andou pra lá e pra cá: ‘Amanhã trago minha filha para conhecê-lo!’. Deu-lhe uma gorjeta generosa e foi-se embora com cara de espanto, os olhos ainda arregalados.

Olhando-a partir, pensou: ‘sou dono do meu passado e isso ninguém, mas ninguém mesmo, pode roubar’.

Naquela manhã, gelada, de vento pampeiro, como diziam em sua terra, avistou o carro de longe. Ao aproximar-se, tinha certeza de que sua vida nunca mais seria a mesma. Laura estava ali, ao lado da mãe, para conhecer ‘o rapaz que tinha doutorado na França’. Cumprimentou-a meio tímido, passando a mão na testa procurando evitar a neve que há dias não parava de cair. Laura segurava um vaso no colo. Dentro, uma tulipa vermelha, viçosa, cor de sangue, sedenta de carinho e alimento. Será que se apaixonara primeiro por Laura ou pela tulipa? Naquele momento descobriu que para ele as duas sempre seriam inseparáveis.

Laura invadiu abruptamente, sem cerimônia, sua vida solitária. Lembrava-se do dia em que foi morar com ele. Subiu as escadas com uma mala pequena, ar misterioso, e pediu a ele que tirasse do carro sete vasos pequenos, sua coleção de tulipas. Apossou-se de metade do armário, um cantinho na varanda, uma estante na sala. Entrou na cozinha e se sentiu dona da casa. A música de Caetano se misturava ao cheiro de comida brasileira, que invadia o apartamento depois de tantos anos. Laura despertou-lhe a memória, reprimida pelo sofrimento. Seu corpo respondia ao som da música, ao sabor da moqueca, ao cheiro do coentro, à cor do pudim de coco. Naquela noite amou Laura perdidamente.

O empregado tirou-o do devaneio. Precisavam comprar mais vasos para plantar os bulbos no outono. O seu ‘business’ - era assim que chamava o negócio - começara por idéia de Laura. Foi se envolvendo aos poucos, aprendendo, cultivando as flores e após algum tempo já forneciam para floristas do bairro. Passava noites estudando, experimentando, pesquisando. O negócio crescera; em poucos anos, já estaria exportando tulipas... Com exceção das mais preciosas, brancas com manchas vermelhas, sua paixão. Compartilhava seu entusiasmo com Laura, que o presenteava com um sorriso enigmático. Ela contemplava as flores com ternura e olhar meio distante.

Ainda tinha presente na lembrança o dia em que entrou no quarto e viu-a deitada. Notara que ultimamente ela já não cozinhava como antes, o entusiasmo pela vida ia fenecendo pouco a pouco. ‘Saudade do Brasil’, explicava. Um dia surpreendeu-a arrumando a mala. ‘Quero voltar, sentir o cheiro da mata, olhar as ondas batendo na pedra do Arpoador, o pôr do sol no final do Leblon’.

Laura partiu como as tulipas partiam. Com lágrimas disfarçadas em gotas de orvalho.

Um dia voltaria. E ele, herói anônimo em terra estrangeira, mais uma vez não olharia para trás.

Fonte:

1º Concurso Verso e Prosa da Flórida


Com o objetivo de estimular talentos brasileiros, principalmente os residentes no exterior no exercício das letras, mantendo viva nossas raízes e o idioma pátrio, foi plantada uma sementinha frágil: a idéia de se criar um concurso literário onde estes valores pudessem ser reconhecidos e, porque não assim dizer, conhecer a face do imigrante brasileiro em países estrangeiros, através da arte literária, pelas mãos dos próprios imigrantes.

A semente foi lançada, ventos favoráveis espalharam esta sementinha e ela desabrochou. Foi regada pela sensibilidade de centenas de brasileiros que enxergaram a oportunidade de ''relatar'' suas experiências através do verso e da prosa. Plantada em solo fértil, regada com o talento dos participantes, tendo como adubo um tema ainda não explorado; a semente cresceu e produziu excelentes frutos.

Ao todo recebemos o surpreendente número de 122 textos. A imensa participação de candidatos extrapolou fronteira e sucumbiu a expectativa. Brasileiros residentes no Japão, Holanda, Nova Zelândia, Alemanha, Espanha, França, Portugal, Estados Unidos e Brasil, tomaram conhecimento do concurso através da força da Internet e das divulgações do concurso em artigos publicados em diversos jornais, editados no idioma Português e destinados à colônia brasileira nos EUA. Além de ter sido publicado no idioma inglês, no Miami Herald, um dos periódicos mais importantes de Miami, mostrando a nossa força crescente junto à mídia americana.

Destes 122 frutos literários, tivemos a árdua tarefa de podar os que não se enquadravam no tema, de cortar os que ultrapassaram os limites de palavras e/ou versos impostos pelas regras. Restaram 35 textos magníficos, alguns não puderam ser considerados por serem longos demais, a maioria obras dignas de publicação em livros.

Nosso objetivo principal era conceder, apenas, um primeiro lugar para cada categoria. Mas como esta sementinha gerou uma árvore carregada de bons frutos, não nos contentamos em escolher apenas um verso e uma prosa.

Decidimos conceder 1º, 2º, 3º, 4º e 5º lugar e ainda uma ''menção honrosa'' para cada categoria!
O corpo de jurados foi composto por brasileiros que residem fora do Brasil. Escritores, poetas, jornalistas, que vivem no seu cotidiano a experiência de ser imigrante e que puderam assimilar os textos que mais se enquadravam no contexto estipulado pelo nosso idealismo.

Procuramos escolher textos originais, inusitados, criativos, letras que transmitissem este saudosismo pela pátria-mãe e, ao mesmo tempo, descrevessem o fascínio pela pátria-adotiva.

Só nos resta agradecer a participação dos candidatos. Todos mereceriam ser condecorados como guerreiros, recebendo, por isso, um troféu. Viver em terras estrangeiras não é uma tarefa fácil. Os candidatos, a maioria residindo fora do Brasil, mostraram que não se desligaram do Brasil. Escreveram relatando as dificuldades, as saudades, a carência, o fascínio pela nova Pátria mas, demonstraram que possuem orgulho de serem brasileiros, mesmo distantes... e que o elo com o Brasil se faz presente. Pois, ainda mantêm a língua portuguesa ativa provando através dos textos redigidos em Português.

Nosso especial agradecimento a RickMark Publishing de Londres, Inglaterra, pelo apoio e divulgação. A Academia Virtual Brasileira de Letras que nos ofereceu um livro virtual com os textos vencedores. A União Brasileira de Escritores de Nova Iorque. A Rebra - Rede Brasileira de Escritoras. Ao programa televisivo Back Stage Brazil de Miami. Aos jornais Brazilian Paper da Florida, Brazilian Times de Massachussetts, Achei/USA da Florida, Brazilian Press de Nova Iorque e ao Miami Herald pela divulgação do concurso.

Agradecemos também aos diversos grupos de literatura virtual, aos web-sites UnitBrazil.com e Planetanews.com, aos diversos boletins e poetas internautas que divulgaram e apoiaram o concurso.
Nosso especial agradecimento aos jurados que tiveram a árdua tarefa de escolher os que mais se destacaram.

* Livros - aos dois primeiros lugares de cada categoria
* Recortes de jornais e diploma - a todos os vencedores
* Os textos vencedores, em ambas categorias, já estão disponíveis no website www.angelabretas.com.br , conforme divulgado.

* Eis trinta textos finalistas, categoria verso, por ordem de recebimento:

- Terra de só um... - Leonardo Kiyoshi Ooka - São Paulo/Brasil
- Jaula - Lúcia Cláudia Leão - Boca Raton./Florida/USA
- Esperança - Alexandru Solomon - São Paulo/Brasil
- Brava Gente - Ines lemos - Maisach/ Alemanha
- Brava Gente Brasileira, Em Terras Estrangeiras - Dora Oliveira -Ipatinga - MG/Brasil
- Perfíl de Amsterdam - Geni de Lima van Veen - Katwijk - Holanda
- Partida - Marina Matte - Porto Alegre/RS - Brasil
- Brava Gente Brasileira em terras estrangeiras - Ydeo Oga - Koopo Haru - Japão
- Constância de Konstanz - André Carneiro - Curitiba - Brasil
- Longe... Muito Longe! - Marina Moreno Bernal - Murcia - Espanha
- Brava Gente - Marly A. M. Muranaka - Centro Americana -SP
- Cidade estrangeira - Leila M Silva - Atlanta - Georgia /USA
- Lembranças da América - Simone A. Viecelli - Brusque/SC -Brasil
- Trago em meu olhar - Sergio Godoy - Amsterdam - Holland
- ( Brava gente Brasileira em terras Estrangeiras) - Celito Medeiros - Brasil
- Fendas em tempo e espaço - Junia Sales Pereira - Minas Gerais- Brasil
- Minha Pequena Grande São Paulo - Yara Maura - Florida/USA
- "Brava Gente Brasileira em Terras Estrangeiras" - Nilton Bustamante - São Paulo, Brasil
- Onde Estou? - Marta Almeida - Athens, GA /USA
- Paris em mim - Kátia Drummond - Salvador- Bahia
- Brasileira - Claudia Villela de Andrade - Itatiaia - RJ/ Brasil
- Pequena história - Kika Perez - São Paulo, Brasil
- Gente Brasileira - Maria José Fraqueza - Fuzeta - Portugal
- Aldeia Pitoresca - Átilla de Miranda - Campinas-SP
- Brava Terra, Brava Gente. Há saudade que me dá! - Denilson Bessi - SP - Brasil
- Nossa raça! - Marici Bross - São Paulo/Brasil
- Brava Gente Brasileira em terras Estrangeiras - Adalgiso Domingues Dias- Rio de Janeiro/RJ
- Poemail - Betina Ule - New York - NY - USA
- Adeus Bela - Terezinha Viecelli - Brusque - SC
- Brava Gente Brasileira em terras Estrangeiras - Vera Reis - Newark/New Jersey/USA

* Os vencedores são:

1º Lugar: Poemail - Betina Ule - New York - NY/USA
2º Lugar: Brava Gente Brasileira em terras estrangeiras - Ydeo Oga - Koopo Haru/Japão
3º Lugar: Brava Gente - Ines lemos - Maisach / Alemanha
4º Lugar: Constância de Konstanz - André Carneiro - Curitiba/Brasil
5º Lugar: Brava Gente Brasileira em Terras Estrangeiras -Dora Oliveira - Ipatinga- MG/Brasil
Menção Honrosa: "Trago em Meu Olhar'' - Sergio Godoy - Amsterdam - Holanda


* Eis 25 textos finalistas, na categoria prosa, por ordem de recebimento:

- "Brava gente brasileira em terras estrangeiras" - Cláudia F. Pacce/Hamilton - New Zeland
- Brava Gente Brasileira em Terras Estrangeiras -Christina Hernandes/SP/Brasil
- Pileque a Italiana - Raimundo Nonato A. Silveira - Fortaleza- CE/Brasil
- O colecionador de tulipas - Clarisse Bandeira de Mello - Weston/ Florida - USA
- Caminhos em Colônia -Renato Essenfelder - São Paulo - SP
- Domingo - Sandras Schamas - Miami - Florida/USA
- Brava Gente Brasileira em Terras Estrangeiras - Ligia Piola - São Paulo - SP
- Passageira - Lúcia Cláudia Leão - Boca Raton - Florida/USA
- "Brava Gente Brasileira" - Sonia Maia - Everett- MA
- Reciclagem - Geni de Lima van Veen - Katwijk - Holanda
- Cadernos da Bélgica: Soraia e as coisas do coração- Leila M. Silva - Atlanta - Georgia -USA
- Brava gente brasileira - Diva Borges Bastos - São Paulo - SP - Brasil
- "Experiencias de Vida'' - Maryse Schouella, - São Paulo, Brasil
- Um dia mais brilhante - Maria White - Orlando - Florida/USA
- Lusitana e Brasileira - Maria de Lourdes Leite - Lisboa - Portugal
- Lições de um mago indiano - Palmira Virgínia Bahia Heine - Salvador/Ba.
- O eterno forasteiro - : Maria José Lindgren Alves/Rio de Janeiro-RJ- Brasil
- Brava Gente Brasileira em terras estrangeiras - Chaja Freida Finkelsztain- RJ - Brasil
- Nas asas da PanAm - Cristina Ferreira-Pinto - Austin/Texas/USA
- "Brava Gente Brasileira em terras estrangeiras" - Francisco Evandro de Oliveira - RJ/Brasil
- A carta - Ismael Fábregas - Aventura - Fl - USA
- O porvir - Tereza Porto - Fortaleza - CE - Brasil
- Um Brasileiro em Paris - Amadeu Thomé - São Lourenço - MG-Brasil
- Minha vida de dekassegui - Sarah de Oliveia Passarella - Campinas/SP/Brasil
- O Natal e o porvir no país dos vitimados - Oswaldo F. Martins - Salvador - Bahia/Brasil

* Os vencedores são:

1º Lugar: O colecionador de tulipas - Clarisse Bandeira de Mello/Weston -FL USA
2º Lugar: Caminhos em Colônia - Renato Essenfelder - São Paulo - SP
3º Lugar: Passageira - Lúcia Cláudia Leão - Boca Raton- Florida/USA
4º Lugar: Lusitana e Brasileira - Maria de Lourdes Leite - Lisboa - Portugal
5º Lugar: Domingo - Sandra Schamas - Miami - FL/USA
Menção Honrosa: A carta - Ismael Fábregas - Aventura - FL - USA

Atenciosamente,

Angela Bretas
Idealizadora/Coordenadora
http://www.angelabretas.com.br

Poesia no Onibus II


O projeto visa a divulgação dos poetas de Canoas, possibilitando a visibilidade dos trabalhos junto a população através da exposição de suas obras nos veículos de transporte coletivo da empresa Sogal. Os trabalhos selecionados foram impressos em cartazes no formato A4 que estão colocados no interior dos ônibus da empre sa. Além da Sogal o projeto contou com o apoio da SMTSP - Secretaria Municipal de Transportes e Serviços Públicos.
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Andressa S. Lindermann
MENININHA

Um dia vi
uma menininha
chorando na calçada
em plena madrugada.

Coitadinha
daquela menininha!

Ela me pedia para comer
um pão
antes do amanhecer.
=====================
Andressa S. Lindermann nasceu em 15/4/1995, em Porto Alegre, RS, e reside em Canoas. Estudante na E.M.E.F. João Palma da Silva, onde entrou em contato com a literatura e ensaiou seus primeiros versos nas atividades escolares, aos nove anos, com a professora Nelsi Inês Urnau.
––––––––––––––
Áurea Beatriz Martins
RETRATO FALADO

O corpo cansado
já fraqueja.

Os olhos – grandes lentes de aço
agonizam na estrada.

Pés e mãos atados – pela
arrogância humana.
=====================
Áurea Beatriz Martins é natural de Porto Alegre, RS, reside em Canoas. É funcionária pública estadual. Participou da II Coletânea da Casa do Poeta de Canoas (2005).
––––––––––––––-
Daniela Santos Viana da Cunha
MAURÍCIO

Maurício,
menino moreno,
mansidão de minha alma
mistifica mansamente
o Amor em mim.
Amorosamente murmuro
mensagens de amor por ti.
Minhas manhãs ao teu lado:
macias e mornas.
Amado, mais dias anseio
amar, mostrar-te o mar,
contigo navegar,
o mundo ver, em tuas mãos.
Amém...
==========================
Daniela Santos Viana da Cunha nasceu em 5/6/1971, em Porto Alegre, RS, e reside em Canoas. Professora, bacharel em Direito pela Ulbra e pós-graduada em Direito Público Municipal, pela Pucrs. Participou da I, II e III Coletânea da Casa do Poeta de Canoas, em 2003, 2005 e 2007.
––––––––––––––-
Elvina Glória B. Resende
COMPULSÃO

A compulsão
amadurou-me a alma
e dispensou os verbos
que geravam poemas
incompletos.

E deflorou a imagem
da mulher latente
que se fez presente.
=====================
Elvina Glória Breda Resende nasceu em Guaporé, RS, e reside em Canoas há 28 anos. Formada em Direito pela Universidade Ritter dos Reis. Professora, cronista, poeta e advogada, foi colaboradora do Correio de Povo publicando poesias, e do jornal de Encruzilhada do Sul, RS, publicando crônicas. Atuou no setor editorial da Livraria do Globo. Autora do livro "Compulsão Poética, 1971. Participou da II Coletânea da Casa do Poeta (2005).
––––––––––––––-
Geni Velasques Adorne
PEDRAS

Quantas pedras no caminho
encontramos em nosso viver.
Que elas sirvam de degraus
para o nosso crescer.

Quantas pedras no caminho
ainda vamos encontrar.
Que elas sirvam de base
para um recomeçar.

Quantas pedras no caminho
quererão nos impedir.
Com fé e coragem
não podemos desistir.
===================
Geni Velasques Adorne nasceu em19/5/1948, em Uruguaiana, RS, e reside em Canoas. Graduada em Letras. Professora de ensino Fundamental. Participou da I, II e III Coletânea da Casa do Poeta de Canoas - Poesia, Crônica e Conto, em 2003, 2005 e 2007.
––––––––––––––-
Ir. Henrique Justo
TU PENSAS

Tu pensas que eu não amo, que em meu peito
Do amor a estrela amiga não fulgura,
Que nele reina eterna noite escura,
De um coração cansado cárcere estreito...

Pensas que as vibrações do amor rejeito,
Que eu padeço de Tântalo a tortura,
Que abafo o coração que, em vão, murmura
E soluça que amar é seu preceito....

Se do meu coração a sinfonia
Maravilhosa ouviras num segundo,
Tua opinião de certo mudaria.

Sim, no meu coração feliz, jucundo,
Que músicas divinas irradia,
Cabes tu, cabem todos, cabe o mundo!
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Irmão Henrique Justo (José Arvedo Flach) nasceu em 1922, em Montenegro, RS. Doutor em Pedagogia e Psicologia com cursos de aperfeiçoamento na Europa e EUA. Publicou centenas de artigos e 24 opúsculos em 89 edições. Foi vice-diretor da Faculdade de Educação e diretor da Faculdade de Psicologia da Pucrs. Atua no Unilasalle.
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Isar Maria Silveira
DELÍRIO

Ah! Essa ânsia
de afetos
de olhares
de beijo
Ah! Esse desejo
de toques
de abraços
de pele
Ah! Essa vontade
de tua boca
de teu corpo
....de fazer-me de louca!
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Isar Maria da Fontoura Silveira nasceu em 9/10/1956, em Santana do Livramento, RS. Cientista política. Publicou “Confidências” (poemas). Cronista do jornal Correio de Notícias, de Canoas. Em 2007, participou da antologia Contos Canoenses, da Associação Canoense de Escritores, selecionada por professores de Letras do Unilasalle. Participou das 3 Coletâneas da Casa do Poeta de Canoas (2003/2005/2007).
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Ivone Baptista
VOU TE AMAR

Se você me quiser bem
eu serei seu bem querer.
Se gostar um pouco mais
vou amar você até morrer.

E se disser que me tem amor...
Meu Deus! Como vai ser?

Onde encontrar, no calor
de meu peito abrasador,
maneira de agradecer
se você me quiser bem?
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Ivone Baptista nasceu 29/1/1936, em Porto Alegre, RS, e reside em Canoas. Técnica de enfermagem especializada em obstetrícia. Atuou como inspetora do corpo discente em escolas públicas estaduais. Participou da II Coletânea da Casa do Poeta de Canoas e da Coletânea Alvale, de Novo Hamburgo, RS.
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Jairo Luiz de Souza
BOM-DIA, QUINTANA

Bom-dia!
Meu nome é Mário
De Andrade?
Não!
Mário Pé-de-Pilão,
Mário vagabundo,
De Lili descobre o mundo!
Sou aquele velhinho
Lembra:
Eles passarão,
Eu passarinho.
Que bacana,
Sobrenome Quintana!
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Jairo Luiz de Souza natural de Sapucaia do Sul, reside em Canoas há vários anos. Foi presidente da Associação Canoense de Escritores (ACE). Cursa Letras no Unilasalle, cujo concurso literário/gênero infantil venceu com o livro "O Baú da Vovó Dorvina". Em 2003, lançou seu primeiro livro, "Eu... um rosto-Poesias e Letras", na Fundação Cultural de Canoas. Em 2004, publicou "Era uma vez... com rima ensinando português". Em 2005, lançou a obra "Matemática, quem diria... virou Poesia". Está ultimando a escrita do livro "Alma nua" que terá capa do artista plástico Giovani Jung.
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Joaquim Moncks
MANIFESTO FUTURISTA

Deus se manifesta pela Poesia.
É o Altíssimo que comanda o poético.
O alter ego convida o mundo ao Amor,
chegança tardia para o derradeiro.
O homem é apenas matéria bruta,
o superior diluído na forma, nos atos.
Porque o coletivo é de Deus.
Ele falta, por vezes, mas não tarda.
Nos viventes, nada é permanente:
inexiste o contínuo, a uniformidade.
Vale o vento nas bandeiras, falso brilho.
O que é desejado de coração
também pode vir a ser.
Hosanas, amigos do Belo!

- Do livro, inédito, BULA DE REMÉDIO, 2004 / 2006.
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Joaquim Moncks nasceu em 29/9/1946, em Pelotas, RS, e reside em Porto Alegre. Advogado, escritor e analista literário. Publicou seis livros. Coordenador Executivo da Poebras Nacional. Integra a Academia Internacional Maçônica de Letras, SP, e o grupo que publica a Revista Caosótica/RS. Possui método próprio de oficinação de poesia para escritores-alunos.
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José Ribeiro Fontes
VIOLA DE SONHO

Minha viola de sonho, cada corda é um amor,
cada traço é uma tristeza, cada música é uma dor.

Eu trago a minha viola afinada ao coração.
É por isso que ela sempre canta e chora sem razão.

Num fino fio de esperança pendurei minha viola.
Ele rompeu, foi ao chão, e hoje nada me consola.

Toquei minha viola perto da tua janela.
Ela chorou, tu sorriste. Sem querer, chorei com ela.

Vou parar minha viola, nunca mais torno a tocar
que é pra não te ver sorrindo enquanto eu canto, a chorar

Minha viola de sonho, cada canto é um amor.
Cada traço é uma tristeza, cada música é uma dor.
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José Ribeiro Fontes nasceu em Canoas, em 1936. Teatrólogo, jornalista e radialista. Tem mais de 500 peças radiofônicas escritas e cerca de 30 peças teatrais. Seus textos, artigos, crônicas e poemas, tem sido publicados em jornais da cidade e da região nos últimos 45 anos. Participo de antologias da Fundação Cultural de Canoas e da II Coletânea da Casa do Poeta (2003).
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Affonso Romano de Sant’Ana; Ana Clades T. da Silva; Ana Lúcia Costa Batista; Ancila Dani Martins; Benoni Couto; Bia Clos; Canabarro Tróis Filho; Carmen Kennis; Diane Josair Straus Paz; Eva de Souza Rodriguez e Fernando Lima.

Fonte: