sábado, 10 de fevereiro de 2018

Érico Veríssimo (Sinopse: As Aventuras de Tibicuera)

As Aventuras de Tibicuera, romance infanto-juvenil de Erico Verissimo traz, de maneira leve e agradável, a história do Brasil para as crianças. Assim como fez em “O Tempo e o Vento”, Erico Verissimo baseou-se no que de melhor existia em pesquisa histórica, arqueológica e antropológica em sua época. Publicado pela primeira vez em 1937, o romance não envelheceu e ainda hoje é um bom lazer e uma forma agradável de estudar.

As aventuras de Tibicuera, contadas por ele próprio. O próprio protagonista, Tibicuera, um índio tupinambá da Bahia, nascido anos antes da chegada dos portugueses ao litoral brasileiro, narra sua fabulosa viagem através do tempo, que começou numa taba tupinambá, antes de 1500, e terminou num arranha-céu de Copacabana em 1942. Assim Erico Verissimo apresenta sua versão da história nacional, publicada em 1937 com o objetivo de fazer frente ao nacionalismo ufanista do Estado Novo. Logo no início, o herói recebe dois presentes do pajé de sua tribo: o apelido Tibicuera, que significa "cemitério" em sua língua, e o segredo da eterna mocidade.

Participa de episódios marcantes da história do Brasil, O índio está no litoral da Bahia quando Cabral aporta, em 1500. Participa da luta contra os franceses e os holandeses no Rio de Janeiro e em Pernambuco, e da defesa do Quilombo dos Palmares. As expedições dos bandeirantes ao interior do continente, as missões catequizadoras dos jesuítas, a escravidão, a chegada da família Imperial, a proclamação da Independência, a Guerra do Paraguai, a proclamação da república e seus sucessivos governos são contados de maneira sedutora às crianças. Talvez seu principal atrativo seja a empatia que gera em seu público alvo, já que há uma identificação com seu protagonista, o qual os pequenos leitores acompanham desde o dia de seu nascimento. Erico Verissimo, conhecido por sua maestria no trado com as palavras, não descuidou de detalhes enriquecedores da cativante narrativa, que emocionam e deixam, ao final de cada capítulo, a vontade de continuar até o fim.

Trata-se de uma mistura de fato e ficção que ensina, além de divertir, ao possibilitar que a história se desenrole - conforme diz Tibicuera - como "um romance de aventuras que se passa na Terra e tem como personagem principal a Humanidade.


ATENÇÃO
O livro será postado a partir de amanhã, são 67 capítulos em 17 dias.












Fontes:
http://resumos.netsaber.com.br/resumo-4063/as-aventuras-de-tibuicuera
https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12049

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Paulo R. O. Caruso (Cordel ao ocarense Lavoisier)

Lavoisier Freire Martins
O brasileiro é doutor
quando quer vencer na vida
a trajetória aguerrida
de um cabra do interior
eu vou lhe contar, leitor
um goleiro colossal
de fama internacional
cujo dom sempre convence
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Em vinte e sete do mês
de março do já distante
setenta e quatro um vibrante
ocarense teve a vez
de nascer e bem o fez;
dum químico genial
veio o nome surreal -
digo-lhe antes de que pense
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Lavoisier Freire Martins
é sim o nome completo
da parede de concreto
que atuou mesmo em confins
do mundo como em jardins
passeia-se ao natural
banho de sol ao final
de uma tarde fluminense!
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Aos quatorze anos se viu
o goleiro começar
a carreira no Ceará
dois anos depois subiu
aos profissionais; surgiu
como reserva afinal
até chegar sem rival
a titular sem suspense
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Começou pelo Sumov
do Ceará sua carreira
como estrela brasileira,
mas, como o tempo se move
e à família então comove,
ao Tio Sam foi o tal
atleta já num sinal
do progresso de quem vence
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

No Sumov quase sete
anos o cabra ficou
e dez títulos ganhou -
dois no juvenil esquete
e oito adulto - se repete
a fase experimental
da juventude em real
desabrochar que convence
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Já no Tio Sam, do Rio,
cidade de Niterói,
vimos conquistar o herói
bicampeonato com brio
do estadual, mas o Tio
viu um gigante imortal
comprar o atleta afinal
- Vasco, um outro fluminense
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Mais sete taças ganhou
o goleiro rei dos reis
de um metro e sessenta e seis,
que seu nome costurou
na história de quem lutou
outrora por trato igual
a todos no mais real
esporte que você pense!
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

O auge chegou de fato
no bravo Carlos Barbosa -
fase mesmo esplendorosa
vinte e três troféus no ato
nove anos de contrato
foi campeão mundial
na Espanha, o lar do rival,
o que a qualquer um convence
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

E até a paulista INTELLI
ele defendeu honroso
com o seu dom majestoso,
dando as mãos e toda a pele
às despesas, e então sele
dois troféus na especial
galeria oficial
do clube, leitor cearense!
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Depois na Ulbra jogou,
onde venceu um torneio,
sendo que o reencontro veio,
e o goleiro enfim voltou
ao Carlos Barbosa e o gol
fechou novamente o tal
goleiro fundamental,
parando então sem suspense
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Jogou pela seleção,
ganhou dezenove taças
nas mais variadas praças,
não lhe sobrando razão
pra chiar da boa mão
que Deus lhe deu afinal
carreira sensacional
ao Brasil e ao cearense
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Mais dezenove homenagens
individuais levou
para casa e completou
sua sala, e traquinagens
quanto à altura - molecagens
nunca mais o mesmo ouviu,
pois à pátria ele serviu
com bravura não nonsense
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.

Por clubes ou seleção
tudo o cabra conquistou,
e com Vládia se casou
filhas nasceram então
dessa linda comunhão:
Larissa e Letícia - a tal
química sensacional
ao casal que em vida vence!
Lavoisier ocarense
nossa estrela do Futsal.
-------------------------------
2º lugar no IX Concurso Literário Poeta Zé Mitôca 2017 na categoria Cordel (tema: Lavoisier Ocarense, nossa estrela do Futsal) -

Fonte: O autor

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Nemésio Prata (Canto da Cotovia...)

De tanto ouvi-las cantar
nas matas do meu sertão
meu louvor eu quero dar
às cotovias... Irmão!

Todo dia, na janela
do meu quarto aparecia
com seu trinado "a capella"
uma bela cotovia.

Não tem som mais eloquente
de se ouvir que a cantoria,
bem cedinho, ao sol nascente,
da pequena cotovia!

Quando canta a cotovia,
anunciando a madrugada,
faz-lhe coro, em melodia,
na mata, a passarinhada!

O canto da cotovia
é de um encanto divino;
mistura dor e alegria...
e é isto que o faz supino!

Quem escuta a cotovia
cantar, nunca mais esquece
a pungente melodia
do seu trinado finesse!

Caçador, tome cuidado
pra não matar cotovia,
pois pra Deus isto é pecado:
não diga que não sabia!

Fontes: 
O Autor
Imagem: Portal São Francisco

Contos e Lendas do Mundo (Os Três Machados)

Um camponês deixou cair o machado no rio, e cheio de angústia, pôs-se a chorar.

A Fada das Águas, ouvindo-o chorar, teve pena dele e levou-lhe um machado de ouro, e então perguntou-lhe:

- É este o teu machado?

- Não, não é esse - respondeu o camponês.

A Fada das Águas mostrou-lhe um de prata.

- Não, não é esse - respondeu ainda o camponês.

Então a Fada das Águas trouxe-lhe o que ele tinha perdido no rio.

- É esse - disse o camponês.

Para compensar a honradez com que ele, o camponês, tinha procedido, a Fada das Águas ofereceu-lhe os machados de ouro e de prata.

No regresso, o camponês contou a sua estranha aventura aos camaradas. E um deles teve a ideia de imita-lo. Foi à  beira do rio, deixou cair o machado e pôs-se a chorar. A Fada das Águas apresentou-lhe um machado de ouro e perguntou-lhe:

- É este o teu machado?

O camponês, muito contente, respondeu:

- Sim, sim é o meu.

A Fada das Águas, para castigar a mentira, não lhe deu o de ouro, nem o de aço, que ficou a enferrujar no fundo do rio.

Fonte:
Contos de Encantar

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Eça de Queiroz (Ao Acaso)

Ainda ontem eu pensava que nós outros os peninsulares nem sempre tínhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendências, sonolenta, chata, fria, burguesa, cheia de espantos e servilidades: e que este velho canto da Terra, cheio de árvores e de sol, tinha sido pátria forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, épica!

Ah!, foi há muito tempo.

Era naqueles tempos em que a Itália rodeava os papas severos; e olhavam para o céu as Virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia pela Europa uma transformação social. Na Alemanha, Lutero entrava em Worms, com um canto batalhador, em nome do espírito, da alma. O papado ia morrer. Era necessário que todo o Sul se aliasse na cruzada católica. Toda a revolta de Lutero foi tomada ao principio por um daqueles lentos suspiros alemães, que se perdiam no coro profano, luminoso, embalador e forte do Sul. Viu-se depois que era a voz imensa da alma do Norte, toda uma humanidade austera e vital, que se movia, que vinha falar, pensar, examinar, revelar, sob o peso das teocracias romanas, dos papados, dos imperadores, das tiranias, dos sacerdócios.

Todo o Sul católico estremeceu; aquela revolta vinha imprevista e rápida; um dia a imperceptível e vasta humanidade, quando fosse uma madrugada para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma deserta, e ao longe o catolicismo dissipando-se com um som hierático de salmos e um colorido vermelho de fogueiras.

Era necessário salvar o Sul.

A Itália tinha-se familiarizado com o cristianismo; tinha-se acostumado às santas macerações de Jesus, à transparência ascética das Virgens; os renunciamentos e os medos católicos já a não vergavam para o pó. Ela, cheia de sol e de sons e de forças, começava a olhar a Natureza, as grandes fecundidades. as vitalidades poderosas, as melodias moventes da carne. Os velhos deuses da Grécia tinham-se refugiado na alma italiana; ao princípio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela dor, encolhidos, soluçantes, miseráveis: depois lentamente foram aparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrósia e um som de idílio; e os seus corpos são como astros, ocuparam por fim toda a alma italiana com coreias, derramações de néctares, palpitações de luz, divinos resplandecimentos de vida.

A Itália tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do infinito; e os poucos que se curvavam sobre a Divina Comédia, não era para ver os castigos e os paraísos, mas para sentir as palpitações, que lá tinham ficado, da alma de Florença. A Itália seguia Petrarca: mas em Petrarca havia ainda uma religião e um misticismo – o amor: e a Laura dos Sonetos, como a Virgem mística, prendia nas humilhações religiosas todos os cavaleiros do Sul. A Itália então deixou Petrarca e rodeou Ariosto, o aventureiro, o jovial, o descrente, cavaleiro e escarnecedor.

Foi então que se ouviu aquela voz do Norte.

Todas as coortes católicas andavam dispersas, galhofeiras e namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta Pulei, guiadas por Lorenzo de Médicis e pelo cardeal Bembo, cantando às estrelas, adorando as Violantes, rindo de Fra Angelico, aclamando Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do
Sol, da música e das noite profanas.

Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Lutero. Todos os católicos correram instintivamente, rodearam os papas severos, Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os salmos e as missas de Marcelo, cheias dos renunciamentos ascéticos, e. foram seguindo o Tasso, que voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus. E o papado continuou caminhando, sereno e terrível, deixando as sombras das masmorras de Galileno e de Campanella, e mais longe o fumo das fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno. Tal era a luta do Norte e do Sul.

Ora durante essa luta das regiões e das pátrias, a Península, encolhida nas suas montanhas, cobertas de sol, violenta, sinistro cavaleiro de Deus, armava as caravelas e os galeões para as bandas desconhecidas das ilhas, dos continentes das Índias, dos cabos temerosos. Nós outros, os peninsulares, aparecíamos às outras nações como velhos lobos-do-mar, sempre em viagens, trigueiros, rijos como calabres, sãos como o Sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios de legendas e do cheiro das viagens, sobre os tombadilhos, e perdidos, ao longe, perdidos nas brumas terríveis.

De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiais e nuas sob a bênção dos padres: ali mesmo sobre a areia, ao rumor das maresias, escrevia a história trágica da sua viagem, e uma madrugada, tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a banda das Índias.

Era assim. Todos os anos, aquela multidão imensa de aventureiros embarcava nos galeões, entre os salmos e os coros, e eles iam silenciosos e flamejantes, por entre as sonoras ilimitações, os ventos aflitos e os tremores da água – para os nevoeiros inexplorados. Iam, em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as constelações augustas, entre as tempestades, os rochedos e as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos às temperaturas, rodeando um Cristo, cantando os salmos ao coro dos furacões, todos reluzentes de armaduras e de divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e de doçuras de apóstolos.

Iam como numa glória e em nome de Deus! E quando encontravam as hostilidades e os encrespamentos irados do elemento, as opressões infinitas dos ventos e das águas. erguiam as mãos como para uma excomunhão, e bradavam soberbos àqueles sopros e àquelas maresias os versículos do Evangelho Segundo S. João.

Era assim. Ora aqueles homens marinheiros e batalhadores eram historiadores e poetas. Escreviam os seus feitos. Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convés das caravelas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da Índia sob as imobilidades cruas da luz: escreviam cobertos das espumas, enegrecidos pelos fumos, trêmulos das iras das batalhas. Por isso enchiam as suas crônicas e os seus poemas de uma estranha prodigalidade de força e de vida. E os seus diários de bordo tinham muitas vezes a simplicidade épica de Homero.

Mas eles também tinham amores, ciúmes, paternidades, paixões, lirismos interiores, e as saudades da pátria nasciam naquelas almas como grandes açucenas que se abrem dentro de um vaso e que o enchem. De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, enquanto os pilotos silenciosos seguem com os olhos as viagens imensas das estrelas, e todo o mar enorme se amolece como um seio cansado, eles contavam em voz baixa, com as cabeças juntas, as histórias de amores, os torneios, as aventuras, as serenatas e a vida da pátria.

No meio daquela vida trágica da aventura eles tinham a alma cheia de amores, de legendas, de saudades, cheia da pátria. E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farsas, comédias e elegias. E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do Sol e do mar tomavam a. forma popular.

Estavam longe da Europa, das plásticas da Itália, dos renascimentos gregos e romanos, das antigas formas rituais, das educações clássicas. Não conheciam isto. Mas lembravam-se sempre das cantigas da pátria, das endechas heroicas, dos romances populares, que eles tinham ouvido pelos campos, com que os velhos embalavam, que se cantam de noite às estrelas por Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos Godos e dos Árabes. Porque o povo na Península tinha uma poesia, sua exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, em que escarnecia os alcaides e celebrava os heróis.

Fazia daquela poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande leito misterioso onde adormecia as tristezas: era ali que procurava confortos, recompensas e as ideias da pátria. No Norte, a poesia popular foi a Invisível que levou pela mão os trovadores, filhos das glebas, até às lareiras dos senhores feudais: foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas do povo, místicos e sensuais, soltavam para as brancas castelãs que entreviam nos torneios,cobertas de pedrarias: ou passando de noite, brancas, às estrelas, pelos altos terraços; ou entre as árvores, ao entardecer, quando as ogivas cheias do sol oblíquo estão flamejantes como mitras.

E as castelãs abriam os braços para os poetas tristes, indolentes e cheios do Paraíso. Admirável influência da poesia, que produziu pelo amor um renascimento social!

Mas a poesia da Península era unicamente do povo: era a epopeia austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo dei Carpio, exterminador de bárbaros. Na Península o povo estava sob uma condição especial; tinha uma importância no estado forte, fecunda e soberba: a Península tinha passado os primeiros anos da sua constituição nas lutas terríveis do forte Maomé e do Cristo místico; ora o popular da Península não era um servo, era um cristão: consagrado pelos batismos, era uma força individual, que impelia e dissolvia o elemento mourisco, sensual e poderoso. Ora, foi sob a forma popular que aqueles batalhadores e poetas, que vão hoje tomando a vaga atitude da legenda, escreveram os seus poemas, as suas cantatas, as suas comédias e os seus sonetos. Então toda a literatura peninsular tem uma originalidade profunda, independente de formas e ritos: a arte, o drama, a poesia saem das tradições populares, do clima, do Sol, de todas as vitalidades meridionais; isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades esqueciam as suas tradições, a sua história, a sua velha alma, para se envolverem nas formas antigas. Era a Renascença. Então aparece o teatro espanhol original, cavalheiresco, enérgico, apaixonado, cheio de selvagens palpitações, de lances de religião: onde a cruz é uma personagem; onde falam lacaios, heróis, santos, ventos, galeões: todas as formas da vida confundidas; o riso, o choro, a ironia, a sátira, o madrigal: tal é a impressão geral.

Depois uma pintura mística e sensual: não é a espiritualização da alma, é antes a imortalização da carne: inspirada daquele misticismo espanhol, que sob a influência da Natureza, do clima, da política, da raça, parece mais cheio das trágicas iras de Jeová do que das doçuras de Jesus.

Depois uma música, como a do Dies Irae, obra dos terríveis dominicanos: um poema de morte; uma das maiores agonias da alma: música ascética e flamejante, onde a Natureza aparece, trágica e desgrenhada figura. Uma arte onde se torcem todas as chamas do Inferno e todas as pedrarias dos paraísos católicos, que parece uma luta trágica e cômica da vida e da morte: uma Igreja. cheia de renunciamentos místicos, mas onde o misticismos parece mais um desespero de não poder saciar-se dos bens do mundo do que uma aspiração a poder fartar a alma nas contemplações diversas: uma defesa do catolicismo trágica e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdócios: confusão dos imperadores com os santos e das coroas de metal com as coroas de luz: uma vida super abundante: ascetismos ferozes e onde o sentimento mais aparente e o rancor.

Ao mesmo tempo uma austeridade monástica em tempo de guerra: caravelas que partem, sem rumo, sob as indicações das estrelas: quase, por vezes, uma reconciliação aparente do maometanismo e do cristianismo: uma paixão avara pelo dinheiro; o elemento da intriga que quer entrar na política, vindo substituir o elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa vizinha: depois um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a América e as Índias como um paraíso de ouro, de metais e de soberanias. Tal é o aspecto mais geral da Espanha. nas vésperas da Renascença.

É dramática aquela vida.

Não admira por isso que a forma suprema da sua arte fosse o drama. Em Portugal não é este rigorosamente o fundo do gênio: há mais serenidade na força: o caráter português é mais parecido com o caráter italiano: os nossos sábios, os nossos viajantes, os nossos descobridores tinham mais a lucidez do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso Portugal não resistiu nada à influência italiana. O renascimento da Antiguidade. a serenidade plástica, a frieza clássica aclimatam-se na Espanha mas com dor e com luta: foi necessário que a Espanha já não acreditasse na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar pelos caminhos o magro D. Quixote.

Em Portugal não: o gênio antigo aclimatou-se: transformou-se mesmo: perdeu o elemento vital e fecundo e ficou-lhe o elemento retórico.

Ó Arcádia! Ó moços pastoris e burgueses! Ó clássicos!

Fonte:
Eça de Queiroz. Prosas bárbaras.

Elben M. Lenz César (Oração de Um Escritor a Serviço de Deus)

(Pastor da igreja Presbiteriana de Viçosa e editor da revista Ultimato)

Deus, dá-me um bom português, sem vícios de linguagem e com palavras apropriadas.

Dá-me um estilo bonito, envolvente e agradável.

Dá-me substância, conteúdo, recado, mensagem. Algo que gere fé e convicção, conforto e esperança, arrependimento e transformação, alegria em meio à tristeza e consternação em meio à euforia. Filtra o que eu tenho para escrever e o que eu quero escrever. Ensina-me a construir em vez de destruir. Que a minha pena em tempo algum afaste alguém de ti.

Dá-me uma exegese cuidadosa de tua Palavra. Que eu não me sirva dela de modo irresponsável e superficial, mas que ela se sirva de mim. Dá-me uma mentalidade bíblica. Que eu veja a história numa perspectiva bíblica. Que eu veja o presente numa perspectiva bíblica. Que eu enxergue o futuro numa perspectiva bíblica.

Afasta de mim as segundas intenções, os propósitos duvidosos, as alfinetadas desnecessárias, a crítica mordaz. Livra-me do desamor, do preconceito, do equívoco, da injustiça. Segura em tuas mãos as rédeas do meu pensamento, do meu raciocínio, da minha escrita. Não me deixes escrever o que não é para ser escrito, nem deixar de escrever o que é para ser escrito. Não me deixes colocar bobagens no papel.

Dá-me discernimento espiritual para eu não misturar as coisas nem deixar de distinguir o bem do mal, o doce do amargo, a luz das trevas e o trigo do joio. Dá-me coragem e equilíbrio no trato de temas controvertidos e apaixonantes, e capacidade para enfrentar o que é complexo.

Dá-me a sabedoria que vem do alto, aquela que procede de ti, aquela que existe desde o princípio, aquela que mora com a prudência, aquela que vale mais que o ouro puro e a prata escolhida, aquela que tornaste disponível por meio da oração. Preciso muito de olhos que vejam, de ouvidos que ouçam e de coração que  ame. Quero ser escravo e instrumento da Verdade.

Santifica as minhas motivações. Que elas não sejam mercantilistas nem estejam a serviço do meu ego. Torna-me possuído da ideia de mistério, de prestação de serviço, de doação.

Livra-me da necessidade exagerada de ser reconhecido e elogiado. Livra-me da auto-avaliação mentirosa. Afasta de mim a arrogância e a presunção. Ensina-me a lidar com o sucesso eventual, que não provém apenas do meu esforço e de meus dons, mas, sobretudo, da tua bênção, que estou sempre buscando.

Cerca-me de críticos honestos, nem bajuladores nem preconceituosos. Cerca-me de leitores abençoados. Cerca-me de oração.

Ó Deus, eu preciso de inteligência e criatividade para te servir como escritor. Concede-me essa capacidade. Dá-me textos edificantes e de fácil entendimento. Que eu seja um escritor de sucesso. Para te servir, para honrar e glorificar o teu nome. 

Amém.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Eça de Queiroz (A Filha do Carcereiro)

A pobre rapariga tinha seis anos: era filha do carcereiro. Era loura, com grandes olhos lúcidos. Desde a madrugada ia pelos pátios, pelas enxovias ( cárcere térreo ou subterrâneo, com pouca luz e insalubre), pelas gradarias, leve como uma seda e sã como um sol.

Levava braçadas de ervas aos presos e clematites (planta).

Na cadeia chamavam-lhe a Cotovia. Tinha pombas. Tinha um riso transparente e bom, e quando os miseráveis sujos e chorosos iam para os degredos – ela cantarolava entre eles, serena e gloriosa. Cresceu. A mãe era lavadeira e morreu no rio, entre os musgos e os canaviais. O pai teve um mal e ficou entrevado.

Vieram os Invernos. Ela lidava. Cuidava dos irmãos pequenos. Lavava ao sol… Costurava à lareira sonolenta. De madrugada ia atirar grãos e migalhas às pombas: depois vinha dar ao pai engelhado, triste, doloroso, as sopas e o caldo.

Um dia entrou na cadeia um bêbado, um covarde, um assassino, que tinha espancado o pai. Era um lindo rapaz, branco com um corpo delgado. A rapariga viu-o, e fugiu com ele de noite embrulhada num cobertor.

Todo o dia seguinte, as crianças não comeram. O pai gritou, chorou e arrastou-se até à lareira. Ninguém. As pombas voavam à tarde inquietas, fugitivas e medrosas. O pai ficou toda a noite ao pé da lareira a roer um bocado de pão duro. No outro dia ainda as crianças ficaram sem comer. Todas as pombas fugiram. O pai arrastou-se até o casebre; e esfomeado, batia de encontro à porta. Por fim vieram. Passados dias. Havia pela vizinhança um cheiro de podridão. As crianças tinham morrido; o pai tinha morrido. Tinha sido a fome, a míngua, a sede, o frio.

A que fugiu é hoje velha. Embebeda-se com aguardente: e quando na taberna as esfarrapadas e os miseráveis lhe falam nesta história, ela diz com voz rouca:
– Ai que noite aquela, filhas! Ele tinha um modo de dar beijos!

Fonte:
Eça de Queiroz. Prosas bárbaras.

Academia Brasileira de Letras (Conferências de Março)

 
 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Paulo Roberto de Oliveira Caruso (Buquê de Trovas)

1
A chave ao meu coração
só tu tens; não tenho medo.
Temos tão rica união
que eu nunca mudo o segredo!
2
As partidas de xadrez
têm decerto a sua essência.
Jogador tem sua vez;
é preciso paciência!
3
Certa vez ouvi um papo.
Um machista disse: “Eureca!
Homem não engole sapo...
Ele come perereca!”
4
Dando-se as mãos a cidade
com zeladora vigília
mostra solidariedade
virando grande família.
5
Deus construiu este mundo
com suor do seu trabalho.
Seu esforço foi profundo.
Assim nos nasceu o orvalho!
6
Fogueira em festa junina...
Eu me queimei um bocado!
Na quadrilha eu vi menina
e saí de lá casado!
7
Foto de bonita dama
atraiu Seu Juvenal.
Viu ser dum homem a trama
no tal mundo virtual!
8
Horas por dia eu passei
no tal mundo virtual,
até que um dia paguei
uma conta bem real!
9
João golpes praticou
no tal mundo virtual,
até que um dia encarou
um xilindró bem real!
10
Lendo sobre camisinha,
Joaquim logo gargalhou.
Em peça pequenininha
de agasalho ele pensou!
11
Menina virou rapaz
e rapaz virou menina...
Hoje muito isso se faz
não só em festa junina...
12
Meu coração suburbano
tu conheces muito bem!
Tem muito do amor humano
que preenche o teu também!
13
No ano de mil e quinhentos,
dia vinte e dois de abril,
Portugal, com ricos ventos,
arrecadou o Brasil.
14
Nosso amor é o sagrado.
O que revela união.
Ele sabe ser gerado
com paixão e compaixão.
15
O poeta Zé Mitôca
é mesmo "o cara" de Ocara!
Versos mil de sua boca
tornaram-se joia rara!
16
O político safado
faz o povo de capacho.
Da panela do coitado
raspa até o fim do tacho!
17
O silêncio é uma virtude,
disso todo mundo sabe.
Cala-te, não sendo rude,
quando falar não te cabe.
18
Para ser lugar perfeito
nossa querida cidade,
requer sempre um bom prefeito
praticando a honestidade.
19
Perguntou Seu Dorival
“o que é que a baiana tem?”
Não somente em carnaval,
rebola como ninguém!
20
Que dolorosa ironia:
a terra muito pisamos,
mas a morte chega um dia...
E sob a terra ficamos!
21
Quem diria? A sementinha
pela mamãe recebida
gera uma pessoazinha
regada a leite e querida!
22
Se mantemos o decoro,
o “eu” se doa pelo “nós”,
assim nasce o melhor coro,
parecendo uma só voz.
23
Se pregarmos a bondade,
o sagrado nós veremos:
em vez de fria cidade,
grande família teremos!




24
Teus olhos da cor da terra
são meu solo, são meu chão.
É neles dois que se encerra
minha antiga solidão!
25
Toda saudade, de fato,
traz o início dum sofrer.
Sabemos que ela num ato
vem do fim de um conviver.
26
Um enfermeiro embriagado
susto deu-me a injeção.
Meu braço foi preparado
com bafo, sem algodão.
27
Um soneto ia eu tentar,
mas a preguiça chegou.
Antes de os olhos pregar,
esta trova me sobrou.

Paulo R. O. Caruso (1975)



   Paulo Roberto de Oliveira Caruso nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1975. Servidor público no estado do Rio de Janeiro, administrador, advogado (especialista em direito do trabalho e processo do trabalho) e estudante de Letras, sendo todos os três cursos na Universidade Federal Fluminense. Revisor de livros. Palestrante sobre o mal-do-século e outros temas.
     Sonetista; trovador; haikaísta (ao estilo oriental, ou seja, sempre com rimas); indrisista; acrosticista; aldravianista; glosador; lirista; poeta de versos livres; prosador poético; cordelista; contista; cronista e redator.
     É o atual Presidente da Academia Brasileira de Trova (2016 a 2019) e membro de outras academias de letras e artes no Brasil e no Exterior, como:
- Presidente da Academia Brasileira de Trova;
- Vice-Presidente da Academia Evangélica de Ciências, Artes e Letras Do Brasil;
- Vice-Presidente da Academia Estratégica Militar de Letras do Brasil;
- Secretário de Diplomacia e Comunicação Da Academia De Letras Do Brasil;
- Embaixador da Academia de Letras do Brasil – Seccional Minas Gerais no Rio De Janeiro;

Acadêmico Correspondente de:
Academia de Letras y Artes de Valparaiso (Chile), Academia de Letras e Artes de Cabo Frio (RJ), Academia de Belas Artes, Ciências e Letras de Niterói (RJ), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras e Artes de Fortaleza (CE), Academia de Letras de Goiás (GO), Academia  de Ciências, Letras e Artes de Vitória (ES), International Writers Association (Ohio-EUA), Academia de Letras do Brasil (seccional Suíça), Núcleo de Letras y Artes de Buenos Aires (Buenos Aires, ARG), Núcleo Académico de Lisboa (Lisboa-PORT), Academia de Letras do Brasil (seccional Araraquara-SP), Academia de Letras do Brasil (seccional Salvador-BA).

Honrarias:
- Doutor Honoris Causa pela Academia de Letras do Brasil/Seccional Minas Gerais;
- Catedrático de Honra em Direito da Academia de Letras do Brasil;
- Grão Colar da Academia de Letras Do Brasil/Seccional Minas Gerais;
- Mérito Literário do Centro de Expressões Culturais Museu Militar Conde de Linhares;
– Mérito Cultural da APALA – Academia Pan-Americana de Letras e Artes)

- Autor de 27 títulos de livretos artesanais;
- Participante de 69 antologias impressas e de 92 antologias virtuais alheias, além de concursos literários;
- Organizador de 44 concursos literários, 2 antologias impressas e 10 antologias virtuais;
– Recebeu 146 prêmios literários (troféus, medalhas, certificados, orelhas e apresentações de livros);
- Membro de júris literários de academias e júris literários de concursos próprios.
     Possui o site www.reinodosconcursos.com.br , com dezenas de concursos literários e seus resultados, entrevistas com diversos literatos.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Lucia Constantino (Um Sonho de Paz Somente)


Um sonho de paz somente,
além de toda ilusão.
Que o Mestre do Amor estivesse presente
para nos ratificar como irmãos.

Um sonho de paz somente,
que o pão não dormisse sobre a pedra
que a seiva não fosse o sangue
dos inocentes sobre a terra.

Um sonho de paz somente,
com asas de condor
que lá das grandes alturas
ascendesse o olhar do amor.

Um sonho que não tem ninho.
Um sonho que não tem mãos.
Apenas um sonho do eu divino,
no sono da imensidão.

Prof. Garcia (Reflexão em Trovas)

A solidão - dobra quando,
no fim da tarde, eu medito,
ao ver o Sol se apagando
na solidão do infinito!

Beijaste a flor ressequida
e a rosa mudou de cor;
teu beijo de amor, querida,
mudou a vida da flor!

De uma roseira, tão pobre,
que lindo gesto o da flor:
Perfuma a casa do nobre,
enche a do pobre de amor!

Em minhas preces pequenas,
faço um pedido, e afinal...
Quero apenas Pai, apenas,
ser feliz neste Natal!

Enquanto a noite se aninha,
a saudade me seduz
e a tarde, bela e sozinha,
enche os meus versos de luz!

Escravo, do teu assédio,
refém de tua ternura,
sofro, por não ter remédio,
para um mal que não tem cura!

Esse orgulho que te ronda,
que entulha o teu peito aflito;
impede que o amor responda
aos apelos do teu grito!

Hoje, eu despertei cantando,
molhando os pés no mormaço
das nuvens soltas brincando
tecendo rendas no espaço!

Lembranças, são pergaminhos,
onde o tempo, por maldade,
vai rabiscando os caminhos
dos perfis da mocidade!

Mãe! um temor me assedia,
nesta idade que me alcança:
É o de esquecer, que algum dia,
em teus braços fui criança!

Não temo o tempo que avança!
Envelhecer, na verdade...
É voltar a ser criança
no fim da terceira idade!

O cego percebe o filho,
pelo cheiro do suor!...
Por trás, desse olhar, sem brilho,
brilha um olhar, muito maior!

O poeta encontra meios,
de às vezes, mesmo sozinho...
Ser feliz, sem ter receios
da solidão do seu ninho!

Por descartar teus conselhos,
mas por teu beijo roubado...
Beijo os teus lábios vermelhos
no guardanapo encharcado!

Por mais que outro alguém te ofenda,
mantém firme a compostura,
que a mão, do tempo, remenda
a cicatriz da amargura!

Quando a tarde me entristece,
roubando a luz da razão,
pinta no ocaso uma prece
com versos de solidão!

Rondando o circo do sonho,
num suspiro derradeiro,
velho, o palhaço tristonho,
diz adeus ao picadeiro!

Semeia filho, a semente
do amor, que te dei um dia!...
Que um neto meu, certamente,
há de colher alegria!

Se o remorso, se agasalha,
num coração descontente...
Sem gume, é velha navalha
cortando o peito da gente!

Somos pobres passarinhos,
que a vida, em seus rituais,
dá-nos os mesmos caminhos
com destinos desiguais!

Tempo!... Ó tu, que me devoras,
não sejas ingrato assim!...
Se és tu, meu pastor das horas,
prendas as horas por mim!

Um sabiá, na janela,
toda tarde canta um hino,
regendo a canção mais bela
das tardes do meu destino!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Gérson César Souza (Trovas Siderais)


Quando a nuvem de um perigo
tapa o Sol de minha estrada
sempre surge um grande amigo
para ser luz na jornada!!!

Deus, que semeia o Sagrado,
para manter nossa crença,
criou um céu estrelado,
sinal de Sua presença!

Piscando na imensidão,
me sinto feliz ao vê-las:
Mesmo tendo os pés no chão,
minha alma respira estrelas!!!

Quem crê num mundo perfeito,
quem não desiste, por nada,
traz um Sol dentro do peito
a iluminar sua estrada!

A idade chegou, e a gente
descobriu que um grande amor
pode virar Sol poente,
mas jamais perde o calor!!!

Sentindo esta ausência tua
toda noite me parece
solidão de um céu sem Lua
que cada estrela entristece...

Como o amor não tem barreiras
as estrelas, tão amadas,
são as minhas companheiras
para o frio das madrugadas.

Astronauta da saudade
viajo pelos espaços,
mas não venço a gravidade
que me prende nos teus braços...

Nossos olhos se encontrando
e as estrelas, ao piscar,
só cintilam suspirando
de inveja do teu olhar.

No final da noite fria
quando, aos poucos, amanhece,
no teu beijo de “bom dia”
encontro o Sol que me aquece.

Somos estrelas perdidas
que o destino fez amantes,
mas colocou nossas vidas,
em constelações distantes...

Ao ver a noite estrelada
contemplo o Universo, mudo,
e entendo que não sou nada,
mas tendo o céu, tenho tudo!

Este Universo, imponente,
de estrelas e escuridão,
pode não caber na gente
mas vive em meu coração.

A Humanidade semeia
guerras e embates perversos
sem notar que é um grão de areia
num mar de mil universos.

Ao ver a estrela cadente
pedi, no mesmo segundo,
que a paz nascesse da gente
e transformasse esse mundo!

Fonte:
SOUZA, Gerson Cesar. Dond Diversos. Porto Alegre/RS: Texto Certo, 2012.

Nilto Maciel (A Reunião)

Os homens se acomodaram ao redor da grande mesa. Falavam baixo, cochichavam, mãos postas sobre a tábua ou os papéis. Que notícia traria o Presidente? Teria alguma relação com a morte do vereador de Sapoapé? Não, Sapoapé não – Cipoaté. Ou com o nascimento do cabrito com duas cabeças? Possivelmente não. Aquilo interessava muito mais aos biólogos do que aos políticos. Um ou outro alisava garrafinhas com água e copos. A luz das lâmpadas no teto não provocava sombras. Súbito a grande porta se abriu e por ela entrou o Presidente, boca cheia de sorrisos e bons-dias. Os ministros se levantaram de uma vez, como se tomados de repentino susto. Estrépito de cadeiras arrastadas no chão. O coro de vozes roucas retribuiu a saudação. A autoridade maior se sentou e, com um aceno, autorizou o sentar-se de seus auxiliares. Olhos fitos no rosto do comandante, os homens nem sequer piscavam, paralisados, imóveis, inertes. O que diria o chefão? Sapoapé, Cipoaté, cabrito, vereador? Olhar vidrado, ele engolia palavras, sem mastigar. Um ou outro ministro cruzava as mãos suadas. Nenhuma sombra se mexia sobre a mesa, nas paredes, no chão. E nada de o mandachuva abrir a boca. Ao longe, garçons cochilavam, surdos e mudos. A ponta do sapato de um cupincha encontrou a ponta do sapato de outro cupincha à sua frente. Arregalaram os olhos. Qual o significado daquilo? Estaria ficando louco? Retirasse o pé dali, imediatamente. Deixasse de gracinhas. Alguém ousou levar as mãos a um copo. Reprimenda geral, com os olhos. Não fizesse aquilo. Deixasse a autoridade se servir primeiro. O silêncio fazia ouvirem-se os mais remotos e insignificantes ruídos: na boca de um, nos lábios de outro, a respiração de fulano. Olhares se cruzavam de ponta a ponta. O do vizinho à esquerda do chefe fulminava o sétimo à direita dele. O terceiro à direita piscou discretamente para o quinto da coluna frontal ao frontispício central. Por que o homem não falava nada? Teria perdido a fala? Estaria dormindo? Seria sonâmbulo? Teria enlouquecido? E se o interpelassem? Quem o faria? Não, ninguém ousaria interromper o sono do Presidente.

A mim cabia somente filmar a reunião. E também nada dizer ou perguntar.

Fonte:
Nilto Maciel. A Leste da Morte.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Joann Sfar (O Gato do Rabino)

Passada na Argélia dos anos 1920, O Gato do Rabino é uma animação franco-austríaca dirigida por Joann Sfar e Antoine Delesvaux, baseada em três volumes da série de Sfar que levam o mesmo nome do filme.

Tudo começa com a história do gato do rabino, que após engolir o papagaio da família, aprende a falar e manifesta seu desejo de se aprofundar na religião judaica. Apaixonado por Zlabya, a bela filha do rabino, o felino de língua afiada insiste e briga com a sinagoga por seu bar-mitzva (cerimônia de passagem à vida adulta, que os garotos judeus têm aos 13 anos). Mas suas intenções são verdadeiramente amorosas.

Além disso, o felino está apaixonado por Zlabya, filha de seu dono, mas desde que adquiriu a fala não tem permissão para passar seus dias junto dela, como fazia antes de se tornar um gato falante. É que o rabino teme que o animal, agora que se põe a verbalizar, possa conduzir sua filha a caminhos nada virtuosos.

Como nunca houve outro gato a ter um Bar-Mitzvah, o rabino decide consultar um outro rabino para saber o que fazer, mas este se opõe à ideia. Então se inicia uma ardilosa e bem-humorada discussão na qual o gato argumenta que, como animal falante, deve ser regido pelas mesmas leis divinas que os homens.

O desafio do bichano, dono de um humor mordaz, será convencer seu mestre e o rabino de seu mestre de que as leis de Deus para os homens devem ser as mesmas para um animal falante.

Esperto e irônico, o gato vai pouco a pouco, contestando com argumentos filosóficos muitas das tradições judaicas até a irritação de seu amo chegar ao limite, o que não abala a amizade dos dois personagens, muito ligados um ao outro.

O francês de origem judaica Joann Sfar coloca falas poéticas e astutas na boca do gato, que de maneira um tanto filosófica discute o judaísmo e contesta muitos de seus preceitos.

Texto inteligente e com humor irônico, e sem jamais menosprezar a cultura judaica (aliás, é bem o contrário), o gato e seu dono, o rabino, têm seus laços lindamente fortalecidos a partir dessas conversas e questionamentos.

Com a troca de ideias e esclarecimentos, e uma observação mais apurada, o gato acaba por perceber o erro de julgar alguém antecipadamente, e começa a entender o exercício da tolerância.

Fontes:

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Jaqueline Machado (Direto no Coração)

Senhor! Quem dera, que todos parassem um dia apenas, para ouvir a poesia dos poetas...”

Quem dera que todos parassem um instante, para admirar o sorriso dos poetas.

O sorriso da poesia encanta.

Desperta alegria, esperança e a bondade já tão esquecida em dias atuais.

Quem dera que todos parassem um segundo para observar os gestos dos poetas.

As atitudes desprendidas, em busca de uma vida mais original, nos faz lembrar o desprendimento dos primeiros sonhos da infância.

E isso é bom. É bonito demais!

Quem dera que todos parassem para ler e se inspirar com a poesia de Mário Quintana, Drummond de Andrade, Vinícius de Morais...

Homens e mulheres percorreriam as cidades espalhando flores, distribuiriam amores, palavras de caridade. E nada pediriam em troca.

Quem ama, é viciado em amar, é viciado em doar...

E sabe que, quando nos entregamos de corpo e alma à vida, vivemos mais, muito mais...

Fonte:
Calêndula Literária - edição 474 - Dezembro de 2017. Boletim Informativo da União Brasileira dos Trovadores, Seção de Porto Alegre

Malba Tahan (A Mulher e o Castiçal)

Só a mulher pode abençoar o lar.
As mulheres piedosas salvam o mundo.
(Do Talmude)
   
A sombra fugaz de um vulto feminino esgueirou-se ao longe, no fundo da rua sombria.

Os mais desencontrados pensamentos, nascidos da inquietação de seu coração, embaralhava-se, naquele momento, no cérebro de Daniel Leib. Sentia-se envolvido numa atmosfera de tristeza, que ele não sabia explicar. Como se lhe afigurava angustiosa aquela insatisfação eterna e acabrunhante! Encontraria, afinal, em seu pai, sempre prudente e sensato, o amparo moral de que tanto precisava?

O velho Renato Leib ergueu-se vagaroso, aproximou-se do filho e, tocando-lhe o ombro com a mão larga e trêmula, disse-lhe, bondoso:

— Daniel, ouve cá. É preciso que confies em mim. Devo dizer-te a verdade com franqueza e lealdade que convém a um homem de bem, quando fala ao filho. As queixas e recriminações que acabaste de formular e as palavras de negra revolta que proferiste são, a meu ver, uma grande e dolorosa injustiça. Revoltas-te contra o Destino, julgas aniquilada a tua vida, e, no entanto, o Destino tem sido, para contigo, pródigo em benefícios de toda espécie. A partir da época de teu acertado casamento...

— Acertado casamento? — repetiu Daniel, sublinhando, irônico, as palavras paternas. — Esse casamento que todos enfeitam com as lantejoulas dos elogios fáceis, não passou, afinal, de um erro deplorável de minha vida.

O judicioso Renato esboçou um sorriso de tolerância e bondade.

— Toquei precisamente no ponto vital, visto que dele julgas irradiarem todas as desditas e contrariedades de tua vida: o teu casamento! Não te sentes feliz com tua esposa: mais de cem vezes tenho já entrevisto em tuas palavras queixas e censuras que visam diretamente àquela que escolheste para mãe de teus filhos.

— “Falta-me quem me compreenda” — dizes. — “Tenho junto de mim alguém de uma intolerável vulgaridade”. E, levado pela eterna insatisfação dos teus desejos, envolves a tua boa Lenida num véu de defeitos e fraquezas, tornando-a a menos desejável de todas as esposas. Como explicar essa atitude de tua parte em relação a uma mulher que já obteve em tempo não muito distante, as preferências de teu amor? Sei, ou melhor, adivinho tudo, meu caro Daniel. Insistes, naturalmente, em fazer paralelos entre Lenida e as outras mulheres, e esses paralelos em que as duas partes são vistas desigualmente, levam-te a ver sempre com olhos desfavoráveis a tua esposa. Com as fantasias de tua imaginação impetuosa, enfeitas as esposas ou amantes de teus amigos, com predicados raros e encantos admiráveis, ao passo que de tua paciente companheira só sabes realçar os defeitos, esquecido, por completo, de suas boas qualidades. Lembra-te de que não tive ingerência em teu casamento. Afligi-me, não poucas vezes, com a ideia de que poderias, arrebatado por insofrida paixão, fazer uma escolha infeliz, e trazer para o recesso do teu lar, sob o escudo de teu nome, uma criatura pouco digna de teus afetos. Um erro dessa natureza é, bem sei, fonte perene de cruciantes arrependimentos e desgostos. Com o perpassar dos anos, entretanto, procurei observar, dia a dia, a tua esposa, para ver se eram justas ou não as tuas queixas. Mais de uma vez tive ímpetos de abrir os teus olhos (como agora o estou fazendo) e revelar-te a verdade que desconheces. Se o não fiz há mais tempo, foi unicamente por acreditar que seria mais nobre que ao teu coração a verdade chegasse guiada pelo teu bom-senso de marido e de pai. Lenida é carinhosa e simples; esforçada e econômica; ativa e zelosa. Muito longe está, talvez, de ser brilhante como uma artista ou de possuir talento excepcional; mas é sensata e agradável no conversar, discreta nas atitudes e modesta nas maneiras. Jamais se queixa da pobreza em que vive, nem inveja os belos colares e vestidos que algumas amigas ostentam. Nada exige; nada reclama. Se alguma vez pareceu faltar-te foi porque não a procuraste como devias. Julgavas, por vezes, que ela estivesse muitas léguas longe de ti, quando, na realidade, e em pensamento, tinhas-a a teu lado. Mãe extremosa, jamais se descuidou um só momento dos filhos, para os quais tem sido de uma dedicação incomparável. Será linda? Nada quero afirmar a tal respeito, mas pelo que tenho ouvido de bocas insuspeitas, Lenida seria capaz de fazer boa presença entre as moças mais requisitadas da cidade. Só tu, meu filho, és cego, inteiramente cego, para apreciar as belas qualidades que adornam tua esposa.

— Mas, meu pai...

— Não me interrompas, Daniel — continuou o ancião. — Falei-te com a franqueza de um amigo sincero e com a lealdade de um pai dedicadíssimo. Ser-me-ia fácil provar-te (sem lograr, talvez, convencer-te) que não és digno, talvez, da esposa que tens. Estou certo, entretanto, de que só poderás compreender perfeitamente o sentido de minhas palavras, se te dispuseres a ouvir, com paciência, uma lenda, ou melhor, uma simples história, quase infantil. É a história de um castiçal. Queres ouvi-la?

— Conta-a, meu pai.
* * *
   
— Era uma vez (por que não começar assim?), era uma vez, repito, um pobre jardineiro, humilde e muito pobre, que se chamava Tagil.

Ao regressar, um dia, de uma excursão à floresta, avistou Tagil um viajante desconhecido que se achava em perigo ao ser assaltado por dois ladrões, em estrada deserta. Tagil, alma nobre e ânimo valente, sem medir as consequências de seu destemor, atirou-se, em socorro do viajante e conseguiu, graças a sua força e coragem, pôr em fuga os dois bandidos.

O desconhecido (que era, aliás, um rico mercador), ao chegar à cidade, disse ao corajoso Tagil:

— Meu amigo, não fosse o seu providencial auxílio, e eu seria, com certeza, assassinado pelos facínoras que me atacaram na estrada. Devo-lhe, pois, a vida. E, como lembrança de minha infinita gratidão, quero dar-lhe um presente.

E o mercador entregou ao jardineiro uma pequena caixa amarela de couro lavrado.

Tagil, nem bem chegado a casa, abriu sofregamente, cheio de curiosidade, a misteriosa caixa para conhecer as preciosidades que ela deveria conter.

Com grande espanto encontrou, apenas, um castiçal de forma estranha e de metal escuro e pesado.

— Ora, um castiçal! — exclamou ele, profundamente decepcionado com aquela triste descoberta. Um castiçal! Ora vejam! Arrisco a vida, luto contra salteadores de estrada e, ao cabo de tudo, ganho esta droga! Que vou fazer com isto? Em que poderá um simples castiçal melhorar ou remediar a minha vida? Seria preferível que o mercador me tivesse presenteado com um punhado de patacões de prata!

E, certo de ter sido logrado em suas esperanças, vencido pela desilusão que lhe trouxera o presente sem valor, Tagil atirou com o castiçal para um canto e deixou-o para ali esquecido, abandonado como coisa inútil e desprezível.

— Ora, um castiçal!

E Tagil quando nele punha os olhos, vinha-lhe à lembrança, com tristeza, o logro que sofrerá ao receber a caixa amarela do rico mercador.

— Ora, um castiçal!

O certo é que o mísero castiçal rolava, como se fora uma inutilidade, de um lado para outro em casa de Tagil. Tendo, certa vez, caído pela janela abaixo esteve muitos dias ao relento, perdido no terreiro imundo. De outra feita, serviu de calço a um móvel partido e, por último, até de martelo manejado pelas mãos fortes e calosas do seu dono.

Um dia, afinal, Tagil, oprimido pelas dificuldades da vida, deixou a casa em que morava e foi residir numa cidade próxima, onde esperava achar trabalho. Levou consigo quase todos os objetos que possuía; deixou apenas, sobre uma mesa tosca e suja, como coisa imprestável, o pesado castiçal com que o presenteara o rico mercador a quem salvara da sanha mortífera de dois execrados de Allah!

Ora, aconteceu que a casa deixada por Tagil foi ocupada, dias depois, por um músico de profissão.

Leonardo (assim se chamava ele) era homem pobre e trabalhador; ao encontrar o castiçal abandonado, teve a impressão de que se tratava de uma peça curiosa e digna de atenção. Cuidando, desde logo, de livrá-lo do pó que o cobria e das manchas que o enfeavam, notou que apresentava na superfície da base certas linhas e figuras dispostas de modo muito singular.

Deslumbrado com a inesperada descoberta, Leonardo entrou a examinar com toda a meticulosidade o desprezado utensílio e teve ensejo de verificar que se tratava de uma verdadeira maravilha. A figura da base era, sem dúvida, execução paciente de um artista genial. Via-se gravado no metal, com traços admiráveis, quase imperceptíveis, a figura de uma soberba galera que deslizava impávida num mar imenso, beijada brandamente pela escumilha das ondas irrequietas; inclinando-se um pouco o castiçal já a cena era inteiramente diversa. Distinguia-se uma bailarina com seus véus, a dançar no meio de um lindo jardim. Desviando-se o olhar um pouco mais para a direita, notava-se que a bailarina desaparecia ocupando-lhe o lugar uma imponente mesquita com suas almenaras (1) apontadas para o céu; procurando-se, com cuidado, uma disposição conveniente, graças a um fluxo de um fluxo de luz, via-se, ainda, um corcel negro a galopar sobre uma montanha de nuvens. Tudo isso o genial gravador fizera, com o buril, na superfície polida do castiçal.

Sem perda de tempo, Leonardo levou o maravilhoso objeto a diversas pessoas, e todas tiveram oportunidade de admirar a extraordinária perfeição do originalíssimo trabalho. E Leonardo, ao desfazer-se do precioso castiçal ganhou uma fortuna incalculável.

Como é singular o destino das coisas!

O que nas mãos de Tagil era uma peça inútil e sem valor, tornara-se uma verdadeira preciosidade aos olhos inteligentes de Leonardo. Este, mais hábil, soube, com finura, ver as maravilhas que o outro jamais conseguira vislumbrar.

Quantos homens não há, por este mundo, a quem cercam tesouros inapreciáveis, mas cujos olhos, desorientados por sentimentos maus, não chegam, sequer, a perceber o brilho ofuscante das pedrarias que o rodeiam?

Tens, meu filho, em tua casa, um precioso castiçal que o Destino depositou em tuas mãos. Cuida dele com carinho e cuidado. Não queiras ser o ridículo Tagil da lenda, que não soube avaliar as grandezas do tesouro que possuía.
* * *
   
Terminada a narrativa, Daniel Leib ergueu-se, afinal.

As últimas palavras de seu pai vibraram no ar e ecoavam-lhe impertinentes aos ouvidos.

— Não queiras ser o ridículo Tagil da lenda...

A tarde caía lentamente. As primeiras sombras acomodavam-se já pelos recantos que a luz ia, pouco a pouco, abandonando. Lembrou-se Daniel, daquele momento, de que sua esposa Lenida, sempre bondosa, estaria, com certeza, resignada, à sua espera.

Estranho remorso, de que ele não podia desvencilhar-se, oprimia-lhe fortemente o coração.

Teve ímpetos de correr a casa, abraçar a mulher, abraçá-la muito, beijá-la como já não o fazia há muito tempo.

— Vai, meu filho, vai.
__________________________
Nota:
(1) Almenaras — torres de que são providas as mesquitas. Das almenaras ou “minaretes”, o muezim chama os fiéis à prece.


Fonte: Malba Tahan. Minha Vida Querida.