sábado, 31 de janeiro de 2026

José Feldman ( O Porquê dos Livros)


O relógio de carrilhão da Biblioteca Infinita bateu treze vezes, um horário que só existe no plano das letras. Entre estantes que sumiam nas nuvens de poeira dourada, três figuras se materializaram ao redor de uma mesa de carvalho maciço.

José de Alencar, com sua barba fidalga e postura ereta de quem ainda acredita no Império, ajustou o monóculo. À sua frente, Clarice Lispector, envolta em uma aura de mistério e fumaça de um cigarro invisível, olhava para o nada como se decifrasse o DNA do silêncio. Ao lado dela, Monteiro Lobato, de sobrancelhas arqueadas e olhar inquieto, tamborilava os dedos na mesa, impaciente.

— A biblioteca é o pulmão da civilização — começou Alencar, com a voz empolada. — Sem o registro da alma de um povo, de suas raízes e de seu solo, o homem é apenas um náufrago sem bússola. Meus livros buscaram isso: dar ao Brasil uma certidão de nascimento, desde as selvas de O Guarani até os salões do Rio.

Lobato soltou uma risada curta, quase um latido.

— Certidão de nascimento, Alencar? Ora, o povo não quer saber de certidões, quer saber de progresso! O livro é uma ferramenta, um martelo para quebrar as correntes da ignorância. Se eu não tivesse colocado o Visconde de Sabugosa para explicar o mundo, ou a Emília para questionar até a gramática, o Brasil ainda estaria lendo manuais de etiqueta enquanto o petróleo jorra debaixo dos nossos pés!

Clarice, que até então parecia feita de pedra, moveu os olhos lentamente para Lobato. Sua voz veio baixa, vinda de um lugar profundo.

— O mundo não se explica com petróleo, Monteiro. Nem com martelos. O livro... o livro é um ferimento que a gente toca para saber que está vivo. Eu não escrevo para ensinar, nem para fundar nações. Eu escrevo porque o silêncio dói e eu preciso dar um nome a essa dor.

— Mas Clarice, minha cara — interveio Alencar, inclinando-se para frente. — A forma! A estética! O livro deve ser o espelho da nobreza. Em Iracema, eu dei à língua portuguesa o perfume das matas. O livro é importante porque eleva o espírito através da beleza.

— Beleza? — Lobato interrompeu, gesticulando para as prateleiras. — Beleza não enche barriga de criança, nem tira o país do atraso. O livro para o mundo tem que ser o despertar da imaginação crítica. Uma criança que lê sobre o Picapau Amarelo hoje é o cientista que descobre a cura de uma praga amanhã. O livro é fermento! Sem ele, a massa humana não cresce, fica um pão murcho.

Clarice soltou uma pequena nuvem de fumaça espiritual.

— Vocês falam do país, da ciência, da história. Mas o que importa o petróleo ou a nação se, quando você apaga a luz, você não sabe quem é aquela pessoa refletida no espelho? Meus livros são importantes porque são espelhos quebrados. Cada caco reflete uma angústia. O mundo só se salva se cada um se encontrar no labirinto de si mesmo. O livro é o fio de Ariadne que nos leva para dentro, não para fora.

— Mas para onde iremos se não tivermos uma identidade comum? — questionou Alencar, quase ofendido. — Se eu não tivesse escrito sobre o sertão e a corte, seríamos apenas uma cópia pálida da Europa. O livro cria a pátria!

— A pátria é uma invenção de quem tem medo da solidão — retrucou Clarice, com um sorriso enigmático. — A única pátria real é a língua. E a língua é traiçoeira. Ela falha quando a gente mais precisa. Escrever é o esforço de dizer o que não pode ser dito.

Lobato bateu na mesa, fazendo um tinteiro pular.

— Pois eu digo o que deve ser dito! E digo com clareza! O livro é o melhor amigo do homem, mas só se ele o fizer pensar. Se um livro não causar uma revoluçãozinha que seja na cabeça de quem lê, ele serve apenas para calçar pé de mesa. Meus livros são convites à insolência. O mundo precisa de mais Emílias e menos bacharéis!

Alencar suspirou, alisando a barba.

— Somos três cegos descrevendo o elefante. Eu vejo a majestade do animal, sua história e sua pele. Monteiro vê a força do bicho para puxar o arado do progresso. E você, Clarice... você vê o medo que o elefante sente da própria sombra.

— Talvez — disse Clarice, levantando-se. — Mas o elefante só existe porque alguém, um dia, teve a coragem de sentar e escrever a palavra "elefante" no papel.

— Nisso concordamos — assentiu Lobato, subitamente calmo. — Um país se faz com homens e livros.

— E com o mistério que há entre as letras — concluiu Clarice.

As luzes da biblioteca piscaram. O carrilhão bateu a décima quarta hora. Os três escritores, em um último aceno de respeito literário, dissiparam-se entre as estantes, deixando para trás apenas o cheiro de papel antigo, café e uma leve brisa de mar de Copacabana. 

Na mesa, restava apenas uma página em branco, esperando que o próximo habitante do mundo decidisse, afinal, por que os livros importam.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.

Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”, “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas).
Em andamento: “Pérgola de textos”, “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas", "Almanaque Poético Brasileiro vol. 1".

Fonte: 
José Feldman. Pérgola de Textos. Biblioteca Sunshine, 2026.

Monsenhor Orivaldo Robles (Cuide de sua vida)


“Feliz foi Adão que não teve sogra”, diz jocosamente nosso povo. Claro que se trata de brincadeira sobre interpretação literal do texto bíblico. Nessa linha de leitura, haveria de ser um tédio viverem somente os dois num paraíso suficientemente espaçoso para abrigar uma multidão. Que novidade ia ter um para contar ao outro, no fim do dia? Pior que a deles, só a situação de Robinson Crusoé, na sua ilha, ao lado do selvagem Sexta-Feira, a quem se viu forçado a ensinar inglês para ter com quem conversar.

Por razão diferente, no entanto, ocorre-me que, apesar da solidão, Adão e Eva devem ter formado um casal feliz. Se houve aperreação com que não precisaram se preocupar foi com o falatório de pessoas, que parece terem nascido para bisbilhotar o que acontece aos que se encontram à sua volta. Não foram azucrinados, no jardim do Éden, pelos que investigam, até com lupa, o que se passa com quem teve a má sorte de viver ao alcance de sua língua.

A vida é repleta de ocupações e problemas tantos que, ainda com grande trabalho, cada um mal consegue dar conta dos próprios. Alguns gênios, entretanto, parecem dispor de capacidade e tempo para controlar também e, talvez sobretudo, a vida alheia. Com a posterior e irreprimível necessidade de divulgá-la. Trata-se, quase sempre, não de fatos importantes, mas de invencionices, fantasias ou fofocas repletas de maldade. Tudo proporcional à pequenez de alma do maledicente. Entretanto é difícil existir quem não lhes dê crédito. E, como o gosto de mexericar não se restringe a dois ou três, o comentário se expande em proporções impensadas. Quando lesivas à dignidade, arrastam a honra da vítima para o cesto de lixo. Nunca mais ela será vista com os olhos de antes. De pouco adiantam desmentidos. Sempre persistirá nem que seja uma sutil desconfiança.

Conta-se que São Felipe Neri (1515-1595), o alegre confessor de Roma, recebeu, certo dia, uma senhora que confessou ter falado mal da vizinha. Ele aconselhou-a bondosamente e recomendou que, como gesto penitencial, matasse uma galinha, a depenasse, soltasse as penas no alto de uma colina, e voltasse, depois, para vê-lo.

– “Pronto”, falou ela, de regresso, horas mais tarde, “cumpri a tarefa que o senhor me deu”.

  – “Ainda não”, disse ele. “Agora volte lá, recolha todas as penas e traga-as aqui”.

  – “Isso é impossível”, desesperou-se a pobre mulher. “O vento espalhou-as por toda a cidade”.

  – “Pois é justamente o que acontece com a boa fama da pessoa de quem falamos mal”, ensinou o santo. “Ainda que confidenciemos a um único amigo, daí a pouco, a cidade inteira estará sabendo. Então, não há mais como recuperar o bom nome que nosso comentário destruiu”.

  A mulher tanto apreciou a lição, que não se constrangeu em ela mesma divulgá-la para que mais pessoas tirassem proveito. Sabia a boa senhora não ser ela a única a fazer fofoca. A língua, adverte São Tiago (Tg 3,2-11), é uma arma terrível.

 A moderna mídia colocou o mundo inteiro na minha mão. Que penitência daria São Felipe Néri para a fofoca eletrônica?
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 31.01.2012
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3471951

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Asas da Poesia 148


Poema de
MÁRCIA WAYNA KAMBEBA
Castanhal/PA

ACREDITAR EM SI

Nem toda palavra
que tentam nos impor é verdade.
Algumas são ditas apenas
para testar se vamos desistir ou seguir.

Se disserem:
“você não consegue”,
“isso é impossível”,
“está longe do seu alcance”,
ainda assim, não deixemos de tentar.

Tentar, mesmo com medo,
é coragem.
É ousadia.
É desejo profundo de viver,
progredir e ser feliz.

Seguir em frente é a melhor opção:
arriscar, insistir e persistir.
O final é gratificante
quando vencemos o medo, a insegurança
e a dúvida
daqueles que achavam ser impossível.
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Poema de
MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS
Huambo/Angola

O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
0 garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.

Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte.
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Soneto de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
(José Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC (1914 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Dedicatória

Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta coisa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Solitários Passos

Pra mim, és agasalho das Alturas,
Que chegou à metade do caminho.
Contigo, jamais estarei sozinho,
Pois somos cúmplices nas horas duras. 

Teus olhos reergueram minha autoestima;
A mando dEle, na raia tu entraste.
De minha vida, tu foste o guindaste;
De Deus, para eu dar a volta por cima. 

Hoje; estar só, não passa de lembrança,
Solitários passos foram de vez.
No mar bravio, o tempo se refez;
Finda a tempestade, veio a bonança. 

Foste o bálsamo pra minha ferida,
Que surgira em meus passos solitários.
Trouxeste os ingredientes necessários
Ao amor, em retomada de vida. 

És mais um anjo do que uma mulher.
E teu aconchego, igual nunca vi.
Dos reclusos passos antes de ti,
Não tenho saudade, um pingo sequer…
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Trova Popular

Sonhei contigo esta noite,
mas oh! Que sonho atrevido!
Sonhei que estava abraçado
à  forma  do  teu  vestido!
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Bentinho e Capitú

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura,
em cujos lábios demorou meu beijo,
se ontem foste a razão do meu desejo,
hoje és causa da dor que em mim perdura!

Eu fui o teu Bentinho de alma impura
que fez de ti, em juízo malfazejo,
a fonte da vergonha e do meu pejo,
a causa, enfim, da minha desventura!

Foi preciso que ao roxo da mortalha
na tua mudez me desses a entender
por quanta vez a nossa mente falha!

E hoje distante, esse teu meigo ser
parece das alturas me dizer:
¨perde-se a vida, ganha-se a batalha¨!
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Poema de
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

O azulão e os tico-ticos

Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorjeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Quero…

Constato ao alvorecer,
também ao clarão da lua:
mesmo depois de morrer
quero ser somente tua!

Quero sentir de novo as tuas mãos
a tatear meu corpo, docemente…
Quero apagar meus pensamentos vãos
para entregar-me a ti, confiantemente.

Quero pisar sem medo em quaisquer chãos,
seguir feliz na estrada à minha frente.
Quero a renúncia pronta dos meus nãos,
dar-te o meu sim, sonoro e ardentemente!

Porque quem ama sempre retrocede,
porém as consequências nunca mede,
quando a paixão reinflama o coração...

Por isso eu quero tudo o que quiseres,
ser a  mais tua dentre outras mulheres:
— aquela que te amou... sem restrição!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Prelúdio 4

Hoje eu soube apreciar com emoção
O feliz casal que despertou sorrindo...
A MANHÃ e o SOL!
Ambos com um misto de beleza e esplendor
Num canto primaveril de amor infindo…

Senti-me também assim,
Como eles, feliz e esplendoroso
todo cheio e orgulhoso
Com o coração a cantar em mim!...

É porque hoje... hoje irei vê-la
Com o seu sorriso de criança
Falando-me de carinho e paixão
E de nós dois...

Sem mais receios, ou embaraços...

Hoje, serei o SOL e ela, a MANHÃ,
Feliz e envolta
Bem solta
Em meus braços!...
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Soneto de
RITA MOUTINHO
Rio de Janeiro/RJ

Soneto da ausência seleta

A saudade, hoje, é alvo da pungência
e certa flecha bêbada vagueia
na aura da chama anil da inconsciência,
porque a verdade de hoje escamoteia

realidade avessa, de carência,
que não quero entender porque a meia
estadia na vida, por sua ausência,
faz-me vítima, abate-me e fundeia.

O que queria ver é o que vês,
o que queria ser é o que és,
o que queria ter é o que tens.

Mas nunca para isso haverá vez:
somos aos nossos, não a nós, fiéis
e seleta é a sensata insensatez.
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Poema de
ARMANDO BETTINARDI
Maringá/PR

Caminhando

Por que o sol,
a praça,
o burburinho da cidade
estão aqui?

Por que: a luz
o dia aberto diante de mim,
o convite à vida,
se eu estou sozinho?

Sem você, o momento
passa como o vento,
sem consumação,
naturalmente, inutilmente.

Não entendo momento,
só momento, sem ação,
sem movimento,
sem nós dois
que juntos somos vida.

Só aceito momento,
que não seja fugaz nem
efêmero;
- que seja total completamente.

Então, seremos nós
eu e você,
caminhando juntos,
de mãos dadas
rasgando a luz da tarde;
rumo ao crepúsculo.

Agora, o dia ainda está todo
aberto diante de nós;
e, é um convite à vida.

Vamos pois, inebriados
beber a vida, gota a gota
até o fim, enquanto,
juntos caminhamos.
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Décima de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 – 2020

Meu sertão sou teu pedaço
Berço de gente feliz
Que dança ao som de Luiz
no escurinho do terraço.
Tem sol quente tem mormaço,
Tem ave de arribação,
Xaxado xote e baião
Tem um Santo Padim Ciço.
Quem nunca viu tudo isso 
Não sabe o que é sertão. 
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Hino de 
Feira de Santana/BA

Salve ó terra formosa e bendita
Paraíso com o nome de Feira
Toda cheia de graça infinita
És do norte a princesa altaneira

Bem nascida entre verdes colinas
Sob o encanto de um céu azulado
Ao estranho tu sempre dominas
Com o poder do teu clima sagrado

Sorridente como uma criança
Descuidosa da sua beleza
Do futuro és a linda esperança
Terra moça de sã natureza

Poetisa do branco luar
Pelas noites vazias de agosto
Fiandeira que vive a fiar
A toalha de luz de sol posto

De Santana és a filha querida
Noite e dia por ela velada
E o teu povo tão cheio de vida
Só trabalha por ver-te elevada
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Dobradinha Poética de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Sonhos

Vejo uma luz no horizonte,
a paz no mundo a brilhar.
Pode ser sonho distante...
Um dia ele irá vingar...

Sempre quis pintar um mundo encantado,
com tintas da aquarela de meus sonhos,
Pintar na tela um céu todo estrelado,
e lá no fundo, corações risonhos.

Sempre quis espargir versos no mundo,
perfumá-lo com aura de esperança,
plantando sementes em chão fecundo,
qual o amor num coração de criança.

A vida é um caminho de idas e vindas,
momentos de alegria e de tristeza,
no anseio de encontrar paisagens lindas,

anda-se encruzilhadas da incerteza,
fazendo o destino em ruas infindas,
com toda a força de nossa grandeza.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O marido, a mulher e o ladrão

Um marido extremoso,
Que adorava a mulher
Sendo, embora, feliz — julgava-se inditoso.
Dos olhos dela nunca um só fugaz volver,
Um modo gracioso,
Uma frase de amiga, um lânguido sorrir,
Mil expressões gentis, rápidas, mas sinceras,
Lisonjeando o descrido,
Conseguiram jamais de leve persuadir
Que era amado deveras.
Enfim... era um marido!

Se amor neste himeneu,
Como bênção divina,
Mudado lhe tivesse a tão estéril sina...
Mas... tal não sucedeu!
Batida pela sorte,
Sem mais um desafogo,
Nem mimos para o triste e mísero consorte,
Esta esquiva mulher
Ouvia-lhe uma noite o lamentar de fogo,
Sem um suspiro só de todo compreender,
Quando surge um ladrão,
E interrompe o queixume acerbo e dolorido.

Ela sente do susto a fria contorção...
Procura amparo e cai... nos braços do marido!.

«Amigo, exclama então
O jubiloso amante,
Ao pérfido ladrão:
Foram-se os meus pesares!
Sem ti, eu não teria um tão gostoso instante!
Ventura tão intensa!
Toma, leva, arrecada aquilo que encontrares,
Leva a casa também... É justa a recompensa!»

Não se perdem ladrões por homens delicados,
E a crer ninguém se inclina
Que eles sejam um pouco honestos ou vexados:
Este, pois, atirou-se impávido à rapina!

Deste conto se infere
Que o medo é das paixões a que mais largo fere;
Pois quando audaz assoma,
Como vence a aversão,
Algumas vezes doma
O amor que avassalou de todo um coração.

Tu bem viste, leitor,
Somente para ter
Nos braços a mulher...
Um marido o que fez! Foi vítima do amor!

Eu gosto deste amor altivo e temerário
Que brilha e não se estiola,
Que cresce e não se apouca!
O conto me agradou de um modo extraordinário:
Ele bem diz numa alma indômita, espanhola,
Mais sublime que louca!
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Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Tirar o cavalo da chuva”


Neste início de inverno, quando as chuvas passam a cair com frequência diária na Amazônia durante todo o primeiro semestre, em especial a invariável chuva da tarde da capital paraense, aí está um tema apropriado para abordagem, embora a modernidade de há muito nos propicie os automóveis, a motos e os transportes coletivos como meio de locomoção pessoal, para folga dos animais de tração, não raro muito maltratados pelos próprios donos. 

Porém, em tempos pra lá de recuados, principalmente no interior o meio de transporte mais utilizado era o cavalo e as carroças puxadas pelas parelhas, estas, inclusive, incumbidas da venda do leite para o café da manhã até mesmo nas cidades de maior porte, antes da turma miúda se mandar para a escola. 

Desde tempos imemoriais, ainda na antiguidade Eurasiana (região que outrora abrangia a Ucrânia, parte da Rússia e o Cazaquistão), se tem notícia do uso do cavalo para a movimentação de charretes, carroças, arados, grades, e cultivadores, tanto no plantio como na colheita, afora pomposas carruagens imperiais, estas, inicialmente na região da Mesopotâmia, espalhando-se depois por todas as cintilantes monarquias europeias, consagrando o uso do cavalo para o transporte, para a arte da guerra (a arma de Cavalaria decorre dessa longínqua época) e de modo indispensável na agricultura não mecanizada, para o amanho (cultivo) da terra e mobilidade das pessoas e da produção.

No Brasil, sem qualquer vínculo com esta ou aquela região geográfica, as viagens a cavalo duravam dias e as paradas na casa de conhecidos ou amigos, para descanso e alimentação, eram vistas com absoluta naturalidade. Pedir ao dono da casa “um agasalho” para pernoitar não era extravagante ou inusitado, pleito escorado quase sempre na relação de confiança da gente simples do campo, conhecida pela sua tradicional hospitalidade, fazendo com que a família não só permitisse a pousada, como também lhe fosse oferecida água e alimento, para a recuperação do corpo e a mitigação do cansaço.

O modo de chegar cavalgando a determinado sítio para postular tais favores, tinha o condão de deixar evidente, de plano, a intenção do visitante. Se a montaria fosse amarrada à frente da residência, significava uma estada breve, apenas para mitigar a sede e seguir em frente. Entretanto, se o cavaleiro o fazia num dos barracões da parte posterior da morada, era óbvio que a intenção era o peão demorar mais, coisa de muitas horas ou até de dia inteiro.

Na primeira situação, um cumprimento cortês, um gole d’água, uma conversa rápida e boa viagem... Na segunda, além da água, uma prosa mais elaborada despertava o subjacente interesse do anfitrião pela narrativa do visitante, que acabava ficando. Mas a expressão surgiu justamente na hipótese mais improvável, quando o viajante demonstrando pressa, decidia se mandar, prosseguir na jornada, sendo surpreendido pelo dono da casa ao lhe dizer: “Pode tirar o cavalo da chuva, fique mais um pouco”. Estava assim o estranho autorizado a levar sua montaria para um local mais abrigado, pois a conversa seca e breve ia demorar bastante, por alguma empatia surgida entre eles.

Com o passar do tempo, o sentido da expressão foi mudando, ampliou-se e atualmente significa que alguém deve desistir de um propósito qualquer, que se mostra ou se tornou impossível para quem acalenta determinada pretensão, às vezes pronunciada de forma irônica, no diminutivo como fazem em Portugal, para melhor ironizar quem alimenta esperança de êxito em algo inalcançável: “Pode ir tirando o cavalinho da chuva”...

Certas expressões sintetizam situações que gastariam mais tempo para serem explicadas ou descritas, revelando o que se deseja exprimir numa única frase. Neste aspecto, “tirar o cavalo da chuva” chega a ser emblemático. Hoje, quando alguém a usa, sugere que o sujeito não deve esperar que determinado acontecimento se materialize, que alguém deve desistir de algo, perder as esperanças, pois o objetivo perseguido não se concretizará:
– Vai viajar para São Paulo, amigo? 
– Sim, amanhã!
– Pois pode tirar o cavalo da chuva, que o teu voo foi cancelado... 

Na nossa música popular, a conhecida expressão inspirou a dupla sertaneja Leôncio e Leonel a uma composição com o nome de “Pode Tirar seu Cavalo da Chuva”, estilo sofrência, cujo texto poético aqui parcialmente reproduzido, só confirma o sentido com que atualmente é empregada: 

Meu coração não é carro de praça
Que pega e deixa quando lhe convém
Você saiu a passear com outro
Eu não liguei para mais ninguém

Já fui seu bobo, já fui seu palhaço
Hoje de trouxa você não me faz
Pode tirar o seu cavalo da chuva
Que a seu lado eu não volto mais

O professor Dionísio Silva, da Universidade Federal de São Carlos (SP), entende que tal expressão nasceu no Brasil na região dos pampas, mercê do costume do gaúcho de recolher seu cavalo no galpão ao primeiro sinal de chuva, quando ia ao armazém fazer compras. Assertiva que no mínimo conflita com o costume português ("tirar o cavalinho da chuva") considerando que quase tudo o que herdamos, em termos linguísticos, veio de lá com Cabral...
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Grinalda Indígena * 2 *



José Feldman (Floresta/PR)

HERÓIS DA TERRA

Em cada fibra que compõe o Brasil,
pulsa a batida do vosso tambor.
Longe do mito do povo servil,
ergue-se a força de um povo senhor.

Se a mata canta, é por vossa voz,
zelo que guarda o que o lucro consome.
Pois sem a terra, o que resta de nós?
Apenas o vazio e a sombra da fome.

Vossa presença é o norte fiel,
cura que nasce da raiz profunda.
Escrevem o mundo sem usar papel,
em uma sabedoria que o tempo inunda.

Sem o indígena, a pátria se esvai,
torna-se pó sob o asfalto sem vida.
Onde o espírito do ancião não cai,
a esperança se mantém erguida.

Corpo e alma de um solo sagrado,
pilar que sustenta o que ainda é real.
O Brasil verdadeiro está ao vosso lado,
sendo o princípio e o fim de seu ritual.

Eduardo Martínez (Quem não comunica se trumbica)


Vitor, renomado engenheiro civil de Brasília, era do tipo que gostava de trabalhar no aconchego do seu amplo escritório, cadeiras acolchoadas, diplomas pregados pelas paredes, que também eram ornadas por réplicas quase perfeitas de quadros famosos, ar condicionado sempre ligado no máximo. Raramente acompanhava a execução das obras, pois era alérgico a cimento, bem como a todos os cheiros desses lugares. 

Lá estava o Vítor, com uma enorme xícara de café gourmet sobre a mesa, quando o telefone tocou. Ele até tentou não atender, mas, diante de tal insistência, não resistiu. Era o Zé, o mestre de obras com quem trabalhava desde sempre. Ele não poderia ir ao canteiro de obras, pois havia testado positivo para Covid-19. "Que droga!", pensou Vitor. 

Não teve outro jeito e, então, o engenheiro teve que abandonar o seu delicioso café e se dirigiu até a obra. Assim que chegou, notou que dois pedreiros discutiam sobre como encaixar uma enorme viga de madeira. Por alguns instantes, Vitor, quase atônito com aquilo tudo, apenas observou, até que não aguentou e disse:

– Essa viga vai na diagonal.

– O quê? - perguntou um dos pedreiros.

– Sim, na diagonal.

– Dia o quê? - continuou sem entender.

– De trevesso! - disse o segundo pedreiro.

– Ah, tá! De trevesso!

Fonte:
Blog do Menino Dudu. 29.05.2022