domingo, 1 de fevereiro de 2026

Geraldo Pereira (O Segundo Bandolim)


À tardinha e em sábado assim, de uma tropicalidade exagerada, sentado no alpendre de casa e sob o trinar derradeiro do sabiá, li O Segundo Bandolim, de Octávio Pernambucano da Costa. Um pequeno romance, no qual estão inscritas e escritas velhas histórias, transformadas em estórias. Algumas do século XIX, ouvidas dos antepassados e outras do tempo contemporâneo, por isso mesmo posta ali, no livro, a título de resgate pessoal das memórias. Personagens que foram reais, diz o autor, que preencheram cenários e que protagonizaram cenas da vida, menos Aurora, nascida do imaginário, simplesmente criada ao gosto do ficcionista. Essa, a mulher ideal, que aflora na hora da inspiração literária, forjada às custas de muitas outras, trazendo no todo uma integralidade construída em partes. Pela beleza que impressionou e pelas formas de corpo que mais se adequaram às sensuais exigências do escritor, pela inteligência e pela loquacidade, como pela sensibilidade, de almas femininas tocadas pelas virtudes do espírito e do sentimento. Figurante, pois, de enredos carregados de afetividade, de carinhosas palavras dantes verbalizadas e anos após novamente expressas sob o manto agora mais do que protetor da ficção. Só assim o prosador, poeta tantas vezes, faz ressurgir figurantes dos tempos, que as brumas do passado embalam com as nostálgicas loas das lembranças!

E com o texto de Pernambucano da Costa tive a satisfação de fazer uma longa viagem de volta nos anos, a lugares até que não imaginava retornar dessa forma, em pensamento. Fui rever o Quem-me-Quer, aquela longa mureta no centro da cidade, emoldurando as margens do rio das capivaras, de um lado e de outro, na qual sentavam muitos dos que me acompanharam na jornada da juventude. Lugares reservados às moiçolas casadoiras da banda de cá, nas proximidades do São Luiz. E mais outros, na banda de lá, para as mulheres de vida fácil, mas de cujas dificuldades tantas se sustentaram. E diz o nosso romancista, estreante na arte da ficção, que ali há: “... gente fazendo uma parada para esquecer a mágoa, gente expandindo felicidade, gente pedindo gente com os olhos”. E era isso mesmo! Quantas e quantas vezes vi com esses olhos de agora figuras absortas, olhando o largo vazio do firmamento, distante do mundo e das coisas, como as pessoas pensando na vida, no existir terreno, mastigando desditas e mitigando o padecer d’alma! Ou quantas vezes assisti o riso brotar das viçosas faces de meus contemporâneos, de moças e de rapazes vendendo alegria e distribuindo humores! Do mesmo jeito os amores, aqueles que floresceram e de todos os deuses mereceram as bênçãos e os que feneceram no pranto chorado, silente ou ruidoso, nas muretas de pedra!

Fui à rua Formosa – a Conde da Boa Vista de hoje –, à Imperatriz e à rua Nova, à rua do Sol e a muitas outras, todas do Recife daqueles antanhos, fiz o footing e outra vez me sentei no Quem-me-Quer, destino derradeiro dos encantos urbanos. Nos bairros de São José e Santo Antônio, na Boa Vista e no Espinheiro vi as cadeiras nas calçadas e o povo fiando conversa. Nas casas de grandes quintais, nos terreiros de outrora, estavam estendidas as roupas lavadas, a secarem ao sol e ao vento, despertando fantasias, como no livro, no imaginário dos meninos! Ouvi os pregões do Recife, cantados e decantados por Octávio Pernambucano da Costa. Temática, aliás, sobre a qual já me detive e para a qual obtive a maior de todas as repercussões! O escritor lembra do homem que trazia às costas verdadeiro armazém de utilidades: “papé pega-mosca, abridô de lata, espanadô, vassoura e abano, rapa-coco e grêia…”. Mais interessante ainda o amolador de tesouras, que, na verdade, a tudo amolava, tocando um realejo de tubos crescentes, a deslizar nos lábios, para um lado e para outro, sob a ação de um sopro nascido das inspirações do espírito. E foi no povoado de Duarte Coelho, na velha Olinda, onde Aurora encontrou-se com Álvaro, que eu me encantei também com a musa de meus dias e fiz daquilo ali, das calçadas altas e largas, os meus altares, deixando-me fluir o culto à magia da beleza e da inteligência.

Eu também li A Carne às escondidas, no quarto da empregada, com a cumplicidade de Virgínia, nascida nos Palmares, criada na palha da cana e amada na bagaceira. E conheci a petisqueira, na qual se guardavam as frutas das árvores do quintal e na qual estavam penduradas as xícaras, pelas asas. Desapareceu do ambiente doméstico por falta de espaço, substituída pelos armários da modernidade! E fui, então, acrescentando as minhas coisas, para misturar as saudades! Na sala, o velho Lavatório, em desuso já, mas trazendo de volta a minha avó paterna, a casa-grande do engenho, como a louça inglesa e os talheres de prata, com inscrições que diferenciaram a família antes da debacle do açúcar.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

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