sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O. Henry (Efêmeros Visitantes da Arcádia)


Há um hotel na Broadway que ainda não foi descoberto pelos promotores de excursões de veraneio. É fundo, e amplo, e fresco. Seus quartos têm painéis de carvalho escuro e temperatura agradável. Brisas domésticas e folhagens verde-escuras dão-lhes as delícias, sem os inconvenientes dos Adirondacks. Subindo suas largas escadas ou ascendendo sonhadoramente em seus elevadores etéreos, guiados por cabineiros com botões de bronze nos dólmãs, sente-se uma alegria serena que os alpinistas jamais experimentaram. Na cozinha, há um mestre-cuca que sabe preparar uma truta de riacho melhor do que as servidas nas Montanhas Brancas, peixes e mariscos capazes de causar inveja aos melhores hotéis praianos, ou caça do Maine diante da qual até mesmo o coração oficial de um guarda-caça se renderia.

Alguns afortunados descobriram esse oásis no deserto julino de Manhattan. Durante esse mês, os poucos hóspedes do hotel podem ser vistos confortavelmente dispersos aqui e ali na meia-luz do fresco e alto salão de jantar, a se examinarem uns aos outros, congratulando-se consigo mesmos silenciosamente, através da branca vastidão das mesas desocupadas.

Garçons de sobra, movendo-se solícitos como que pneumaticamente, circulam sem bulha, atentos a qualquer necessidade dos hóspedes mesmo antes de ela se fazer sentir. A temperatura é a de um perpétuo abril. Os afrescos do teto, a imitarem um céu estival, exibem nuvens delicadas que não desaparecem como, infelizmente, as da Natureza.

O tumulto distante e agradável da Broadway transforma-se, na imaginação dos felizes hóspedes, no murmúrio de uma queda d’água enchendo os bosques com seu som repousante. Os hóspedes ouvem com ansiedade qualquer passo estranho, receosos de que seu retiro seja descoberto e invadido pelos incansáveis veranistas que, em busca de prazeres, estão sempre violando a natureza, mesmo em seus mais recônditos refúgios.

Assim, o pequeno grupo de conoisseurs esconde-se ciumentamente durante a estação quente, no caravançarai (estalagem gratuita para pousada das caravanas nos desertos) despovoado, aproveitando integralmente as delícias de montanhas e praia que engenho e arte lograram reunir e servir-lhes.

Nesse julho, chegou ao hotel uma .senhora que entregou na portaria, para registro, um cartão com os dizeres: ”Mme Héloise D'ArQ' Beaumont".  

Madame Beaumont era uma hóspede muito do agrado do Hotel Lótus. Tinha o ar refinado da elite, temperado e suavizado por uma graça natural que escravizava os empregados do hotel. Os meninos de recado disputavam a honra de atender-lhe ao chamado; os empregados, não fosse por uma questão de propriedade, ter-lhe-iam transferido a posse do hotel e de seu conteúdo; os demais hóspedes a consideravam como o toque final de exclusivismo e beleza femininos indispensável a tornar o ambiente perfeito.

Essa hóspede excepcional raramente deixava o hotel. Seus hábitos casavam-se perfeitamente com os costumes dos exigentes proprietários do Hotel Lótus. Para bem aproveitar aquela hospedagem deleitosa, era necessário considerar a cidade como se estivesse situada a léguas de distância. À noite, uma ligeira visita aos clubes da vizinhança era tolerável; mas durante o dia tórrido, era de rigor que os hóspedes se deixassem ficar nas vastidões umbrosas do Lótus, como uma truta permanece imóvel no límpido santuário de seu lago favorito.

Embora sozinha no Hotel Lótus, Madame Beaumont mantinha a classe de uma rainha cuja solidão é apenas de posição. Tomava o desjejum às dez — ser delicado, fresco e despreocupado a reluzir suavemente na penumbra, qual um jasmim ao crepúsculo. No jantar, porém, a glória de Madame atingia o pináculo. Trajava ela um vestido tão lindo e imaterial como a névoa de uma catarata oculta num desvão de montanha. A descrição desse vestido fica além da imaginação do escriba. Nas rendas que lhe guarneciam a frente, viam-se invariavelmente pálidas rosas vermelhas. O maitre encarava esse vestido com respeito e ia receber sua dona à porta do salão. Quem o visse lembraria Paris, e talvez condessas misteriosas, e sem dúvida Versalhes, e aventureiros, e Mrs. Fiske, e rouge-et-noir (vermelho e preto).

Corriam no hotel boatos de origem desconhecida, de que Madame era uma cosmopolita que puxava com suas delicadas e alvas mãozinhas certos cordéis entre as nações em favor da Rússia. Sendo uma cidadã do mundo, cujos melhores caminhos conhecia, não era de admirar que houvesse logo descoberto, nas refinadas salas do Hotel Lótus, o melhor local da América para uma estada repousante durante o calor do verão.

Madame Beaumont já estava há três dias no hotel, quando ali apareceu um rapaz que se registrou como hóspede. Falando por ordem das suas qualidades; vestia-se discretamente na moda; seus traços eram regulares e simpáticos; sua expressão, a de um homem do mundo sereno e refinado. Informou ao empregado da portaria que iria ali demorar-se dois ou três dias, indagou de datas de saída de vapores para a Europa, e mergulhou na inatividade abençoada do inigualável hotel, com o ar satisfeito de um viajante em sua estalagem predileta.

O rapaz — sem pôr em dúvida a autenticidade do registro — era Harold Farrington. Integrou-se no teor de vida exclusivista e calmo do Lótus, com tanto tato e quietude, que não perturbou em nada os que, como ele, ali procuravam descanso. Farrington tomava refeições no Lótus e, alimentando-se da flor homônima, deixava-se embalar pela paz abençoada, a exemplo dos outros afortunados hóspedes. Num só dia, conquistou sua mesa, seu garçom, e o temor de que caçadores esbaforidos, que, em busca de repouso, esquentavam a Broadway, invadissem e destruíssem aquele céu tão próximo, mas tão oculto.

Depois do jantar, no dia seguinte ao da chegada de Harold Farrington, Madame Beaumont, ao levantar-se, deixou cair seu lenço. Mr. Farrington o apanhou e devolveu à dona, sem a efusão de quem procura fazer relações. 

Talvez existisse uma maçonaria mística entre os exigentes hóspedes do Lótus. Quem sabe a felicidade comum de terem descoberto, na própria Broadway, o protótipo dos hotéis de veraneio os aproximasse uns dos outros. Madame e Farrington trocaram palavras delicadas e corteses, numa tentativa de quebrar a formalidade do encontro. E, como se estivessem na atmosfera adequada de um verdadeiro hotel de veraneio, travaram relações que floresceram e frutificaram imediatamente, qual a planta mística do mago. Por alguns momentos permaneceram no balcão em que terminava o corredor, entretidos com as amenidades de uma conversação. 

— A gente se cansa dos velhos hotéis – disse Mme Beaumont com um leve e doce sorriso. — De que adianta correr para a montanha ou para a praia com o fito de fugir ao barulho e à poeira, quando as próprias pessoas que os produzem nos acompanham até lá?

— Mesmo no oceano os filisteus nos perseguem - observou Farrington, tristemente. — Os navios mais exclusivos já não passam de simples barcas. Que os céus nos ajudem quando os veranistas descobrirem que o Lótus está mais distante da Broadway do que as Mil Ilhas ou o Mackinac.

— Espero que pelo menos ainda por uma semana esteja o nosso segredo bem guardado – retorquiu Madame com um suspiro e um sorriso. 

— Não sei para onde iria se eles invadissem o querido Lótus. Só conheço um lugar igualmente delicioso no verão: o castelo do Conde Polinski, nas Montanhas Urais. 

— Ouvi dizer que Baden-Baden e Cannes estão quase desertos nesta estação — continuou Farrington. — Ano a ano, os velhos lugares vão decaindo. Talvez muita gente, como nós, procure os recantos tranquilos que a maioria despreza.

— Concedi a mim mesma mais três dias deste delicioso repouso — disse Madame Beaumont. — O Cedric zarpa segunda-feira.

Os olhos de Harold Farrington se entristeceram. 

— Também preciso partir segunda — informou —, mas não vou para o exterior.

Madame Beaumont deu de ombros, num gesto indiferente.

— Não se pode ficar aqui escondida para sempre, embora o lugar seja encantador. Há mais de um mês que o castelo está em preparativos para receber-me. Que aborrecimento essas recepções a que somos obrigados! Contudo, jamais esquecerei esta semana no Hotel Lótus.

— Nem eu — declarou Farrington em voz baixa e jamais perdoarei ao Cedric.

Na noite de domingo, três dias depois, os dois sentavam-se a uma pequena mesa no mesmo balcão. Um garçom discreto trouxe sorvetes e copinhos de bebida aromatizada.

Madame Beaumont trazia o mesmo vestido maravilhoso que usava todas as noites ao jantar. Parecia pensativa. Perto de sua mão, na mesa, estava um estojo de toalete. Depois de tomar o sorvete, abriu o estojo e dele retirou uma nota de um dólar.

— Mr. Farrington — disse, com o sorriso que conquistara o Hotel todo quero lhe confessar algo. Tenho de partir antes do café da manhã porque devo voltar ao meu emprego. Trabalho no balcão de artigos de malharia, na Super Loja Casey. Minhas férias terminam amanhã às oito horas. Esta nota é o último dinheiro que terei em mãos até receber meu salário semanal de oito dólares no próximo sábado. O senhor é mesmo um cavalheiro e mostrou-se bondoso comigo; por isso, quis-lhe contar esta história antes de me despedir.

"Há um ano estou economizando parte do que ganho especialmente para estas férias. Sempre desejei passar uma semana como uma grande dama, ainda que fosse a única em toda a minha vida. Queria levantar-me quando me apetecesse, em vez de ter de pular da cama às sete horas todos os dias. Queria viver em grande estilo e ser atendida ao tocar a campainha, assim como os ricos. Agora já fiz o que queria: foi a temporada mais feliz que jamais esperei ter na vida. Volto ao trabalho e ao meu pequeno apartamento, satisfeita por outro ano. Queria contar-lhe tudo, Mr. Farrington, porque... pensei que gostasse um pouquinho de mim... eu... eu gostei do senhor. Lastimo tê-lo enganado até agora, mas tudo para mim era como num conto de fadas. Eis por que lhe falei da Europa e de coisas que li sobre outros países, e fi-lo crer que eu fosse uma grande dama.

"Este vestido... é o único que tenho em condições. Comprei-o a prestações. Custou-me setenta e cinco dólares em 0'Dowd & Levinsky e foi feito sob medida. Paguei 10 dólares de entrada e continuarei a pagar um dólar por semana até liquidar o débito. É tudo quanto tenho a dizer, Mr. Farrington. Meu nome é Mamie Siviter e. não Madame Beaumont. Agradeço-lhe todas as atenções. Com este dólar, pagarei amanhã a prestação do vestido. Vou agora para o meu quarto.”

Harold Farrington escutou com expressão impassível o relato da mais linda hóspede do Lótus. Quando ela terminou, o rapaz retirou do bolso do colete um caderninho semelhante a um livro de cheques. Com um toco de lápis escreveu qualquer coisa numa das folhas em branco, que arrancou e entregou à companheira, tomando-lhe a nota de um dólar.

— Também preciso ir trabalhar amanhã de manhã — confessou — e é melhor começar agora. Eis o recibo da prestação. Sou cobrador de 0'Dowd & Levinsky há três anos. Curioso, não, os dois termos tido a mesma ideia sobre as férias? Sempre desejei hospedar-me num hotel de categoria e para isso fui guardando parte dos meus vinte dólares semanais. Diga-me uma coisa, Mamie, que tal uma volta de bote em Coney Island, sábado à noite?

O rosto da pseudo Madame Héloise D'Arcy Beaumont abriu-se num sorriso.

— Irei sem falta, Mr. Farrington, Aos sábados, a loja fecha ao meio-dia. Aposto que gostaremos de Coney, mesmo depois de termos passado uma semana entre os granfas.

Abaixo do balcão, a cidade apinhada rumorejava na noite de julho. Dentro do Hotel Lótus imperavam sombras frescas e temperadas; um garçom solícito estava junto às janelas baixas, pronto a acorrer ao chamada de Madame ou de seu acompanhante.

À porta do elevador, Farrington despediu-se e Madame Beaumont fez a sua última subida. Antes, porém, de chegarem ao silencioso ascensor, disse o rapaz;

— Esqueça-se de Harold Farrington, sim? Meu nome é Mc Manus, James Mc Manus. Algumas pessoas me chamam Jimmy.

— Boa noite, Jimmy — disse Madame.
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O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, nasceu em 11 de setembro de 1862, em Greensboro, Carolina do Norte/EUA. Ele teve uma infância marcada por várias mudanças, já que seu pai era um médico e sua mãe morreu quando ele era jovem. Em sua juventude, trabalhou em diversas funções, incluindo como balconista e farmacêutico. Em 1896, após ser acusado de desvio de fundos em seu trabalho como caixa em um banco, ele se mudou para a América do Sul, onde começou a escrever. Ao retornar aos Estados Unidos, ele adotou o pseudônimo O. Henry e começou a publicar contos em revistas, ganhando fama por suas narrativas envolventes e reviravoltas surpreendentes. O. Henry teve uma vida pessoal tumultuada, marcada por problemas financeiros e saúde. Ele faleceu em 5 de junho de 1910, em Nova York, mas deixou um legado duradouro na literatura com suas histórias que capturam a essência da vida urbana e a natureza humana. O. Henry é lembrado por seu estilo ágil e por suas histórias que frequentemente apresentam finais inesperados, tornando-o um dos mestres do conto curto na literatura americana.

Fonte: O. Henry. Caminhos do Destino. Contos. Publicado originalmente em 1909. 
Disponível em Domínio Público. 

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