NA VITRINE gigantesca da loja, o relógio dourado que marca indefinidamente as horas, parece prometer status, elegância e até uma vida mais organizada. Por conta disto, brilha sob a luz artificial, como se tivesse o dom de iluminar o futuro de quem passar ali e comprar um igual.
Mas basta virar a esquina para ver o mesmo modelo em promoção, pendurado numa banca improvisada, ao lado de um amontoado de óculos escuros que juram ser “originais”. “Nem tudo o que reluz é ouro”. Às vezes esse ouro é apenas um latão polido com a fria cara de um marketing construído a poder de falcatruas, as mais cabeludas.
Na pracinha da matriz em frente à paróquia de São Cabuloso, os doze bancos de madeira brilham como se fossem convites ao descanso. O sol bate forte, refletindo nas superfícies envernizadas, e os moradores se aproximam curiosos e admirando para conferirem o “novo cartão-postal da cidade”.
As crianças correm e pulam, os idosos comentam sem dar muito crédito e até os pombos parecem mais animados com o cenário reluzente. Porém, sempre há um porém. Basta sentar para perceber que o verniz esconde farpas mal lixadas, estilhaços que se infiltram discretamente nas roupas e na pele.
O brilho, na verdade, é só fachada: por baixo, a madeira se faz áspera, desconfortável, quase hostil. O que parece aconchego, na verdade, não vai além de uma armadilha para ingleses verem ou manés desconectados da realidade quem se deixa seduzir pela falsa aparência. E não acontece assim só na praça.
Fora dela também. A coisa fluí de modo mais chamativo. Não precisa se sentar para perceber a farsa. É só direcionar o olhar para o carro importado que desliza pela avenida que esconde dívidas sufocantes. O sorriso impecável da moça na porta da ótica, talvez não seja só a maquiagem para uma rotina escondendo o seu rosto cansado.
A vitrine reluzente da loja de roupas finas promete status, entretanto, por baixo dos panos, entrega um punhado de prestações intermináveis. A vida nossa de cada dia, com a sua ironia habitual, insiste sempre em nos lembrar que a joia verdadeira não precisa de holofotes.
Ela se revela no gesto mais simples, se condensa na palavra sincera, se firma no silêncio que acolhe. O resto, o que sobra, por mais que brilhe com uma luz com aparência de vir de longe, ou além da imaginação, tudo, em resumo, não passa de latão polido. Nem tudo o que reluz pode ser considerado ouro.
Nem tudo que é ouro, mostra a sua verdadeira face oculta. Às vezes é só um verniz mal passado, uma tinta sem a magia espetacular da durabilidade, esperando o primeiro toque sutil para revelar a aspereza da mentira escondida. Em dias de hoje, vivemos cercados de brilhos artificiais. São pessoas vazias e desprovidas daquela luminosidade que vem da alma.
Contudo, se esticarmos ao redor um olhar mais atento, mais profundo, mais contemplativo, aquele olhar de fera enjaulada, que a gente consegue enxergar além da aparência e, então, percebermos que o brilho que ofusca, que cega, que seduz, muitas vezes, é só uma pincelada de verniz sobre a superfície de uma pobre madeira gasta.
O mundo moderno aprendeu a maquiar as suas contradições. O prédio no começo da avenida, que toca as nuvens, com seus sessenta andares, todo espelhado que se posta bonito e charmoso no início do centro da cidade, certamente agasalha atrás de suas paredes, jornadas exaustivas e salários que mal sustentavam os operários que deram um duro danado para que hoje ele se faça imponente.
A motocicleta que desfila na avenida principal, de igual forma, pode ser fruto de dívidas sufocantes. O “influenciador”, essa nova modalidade de praga criada pela modernidade, que exibe uma vida perfeita, talvez lute contra o vazio imenso quando a câmera que ele carrega, se apaga. A nossa sociedade confunde aparência com essência.
E nós, espectadores enganados, ávidos por coisas novas, incendiados pela ganância, aceitamos o espetáculo sem questionar. Afinal, cá entre nós, é mais fácil acreditar no brilho dissimulado, enganoso, adulterado, postiço e fraudulento que encarar de peito aberto as incertezas das sombras.
Mil vezes mais confortável admirar o ouro falso, a joia de latão, que reconhecer que a verdadeira riqueza não se mede em curtidas, cifras ou etiquetas. O ouro verdadeiro repetindo, não reluz: ele se referenda em gestos discretos, se mostra na honestidade que não precisa de palco, se engrandece na simplicidade que não pede aplausos.
O resto, uau, as sobras, é apenas um reflexo enganoso. É uma luz que apesar de mostrar que encanta, é cega, é ainda, promessa vã que não se cumpre. Nem tudo o que reluz pode ser considerado ouro. Talvez o maior desafio seja aprendermos a enxergar além do brilho para não confundirmos o espetáculo que a vida realmente nos mostra em toda a sua formosura.
Vivemos em uma época em que a cintilação esplendorosa é fabricada em série. As telas dos celulares se tornaram palcos permanentes, onde cada gesto é editado, cada palavra é filtrada e cada sorriso é calibrado para parecer perfeito. O espetáculo é constante: políticos que prometem mundos e fundos em discursos ensaiados, marcas que vendem felicidade em embalagens coloridas, e mais “influenciadores” que transformam a rotina em “caos fantasia”.
Tudo reluz. Mas será ouro? Palavras bonitas, slogans inspiradores, campanhas recheadas de imagens cuidadosamente produzidas. No entanto, por trás da nitescência (esplendor) das promessas, muitas vezes se escondem interesses obscuros, acordos silenciosos e uma realidade que não cabe nos cartazes.
O ouro verdadeiro, o compromisso com o bem comum, raramente aparece nas vitrines. A mídia também aprendeu a reluzir. Manchetes chamativas, escândalos em letras garrafais, notícias embaladas como produtos de consumo rápido e rasteiro.
O fulgor da informação instantânea seduz, mas quantas vezes nos damos conta de que o conteúdo é raso, enviesado ou manipulado? De novo, o jargão: “Nem tudo o que reluz é ouro”. E o consumo, esse espetáculo diário, talvez seja o maior palco por onde a ilusão se faz de carne e osso.
A casa palácio, o celular da última geração, a roupa da marca famosa: símbolos que alimentam status, mas que muitas vezes escondem dívidas, exploração de mão de obra e uma busca incessante por reconhecimento. O ouro verdadeiro a dignidade, a simplicidade, o valor humano não precisa de etiquetas.
A vida contemporânea nos desafia a enxergar além do brilho. A distinguir o ouro da purpurina, a essência da aparência. Devemos ter em mente que o que reluz pode nos encantar, mas também pode nos cegar. Talvez o maior ato de resistência seja aprender a olhar para além da superfície, a espiar reconhecendo que o verdadeiro valor raramente se encontra onde a luz é mais forte.
“Nem tudo o que reluz é ouro”. Acreditem. É a mais pura verdade. Às vezes é apenas um reflexo passageiro de uma sociedade oca, depauperada, melindrada que prefere o espetáculo lindo e maravilhoso à verdade pobre, simplória e humilde, mas que no fundo, bem lá no âmago, engrandece sobejamente o que a nossa alma tem de mais sublime.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras. Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas. Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.
Fonte: Texto enviado pelo autor.

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